Paixão CôrtesApresentação

João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes é uma figura inesquecível em vários sentidos, incluindo o sentido da audição: as pausas, as ênfases, as exclamações, as suspensões, os “Bá” alongados, a entoação para acompanhar a referência a uma antiga canção. Isso são apenas algumas das características que marcam esse personagem que se confunde com a história do Rio Grande do Sul.

Um pouco assim, inapreensível, é o valor e o alcance da obra de nosso entrevistado com  heranças ligadas à agricultura e pecuária. Nascido a 12 de julho de 1927, em Santana do Livramento, de pai agrônomo e mãe dotada de boas qualidades musicais, Paixão Côrtes parece ter sintetizado essas duas marcas – formou-se em Agronomia, e é artista também, não do canto, mas da dança – e ao mesmo tempo parece haver ultrapassado os limites do que se poderia esperar de alguém com sua história. Por quê? Porque ele é um dos sujeitos diretamente responsáveis pelo nascimento da atual voga gauchesca.

O renascimento do tradicionalismo gaúcho confunde-se com a figura de João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes. Em uma época em que as tradições rio-grandenses eram ignoradas, ele foi atrás das raízes de seu povo e, junto com Barbosa Lessa, cruzou a Argentina, o Uruguai, Paraguai e Peru. Como pesquisador, sua preocupação centrou-se em promover e desenvolver a cultura popular dentro da história do Rio Grande do Sul.
O distanciamento da vida do campo, fez Paixão notar a necessidade de fixar certos valores que havia aprendido de ancestralidade. Em 1947, com Glauco Saraiva, Barbosa Lessa, e Orlando Degrazia, grupo de estudantes secundaristas do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, deu origem ao Movimento Tradicionalista Gaúcho, que hoje congrega mais de 1.500 entidades. Na época, como relata, só se ouvia, nos galpões, a gaita, os versos de improviso e especialmente o Boi Barroso. Já Prenda Minha, era ouvida em um ambiente mais urbano. Neste mesmo ano, os rapazes saíram às ruas pilchados para escoltar os restos mortais do herói Farroupilha David Canabarro. Assim, surgiram as Rondas Crioulas, que mais tarde, originaram a Semana Farroupilha, em 11 de dezembro de 1964. Paixão também fundou o primeiro Centro de Tradições Gaúchas, chamado de 35, em 24 de abril de 1948.

Foi na sua terra natal que participou do seu primeiro programa radiofônico gauchesco, na Rádio Cultura (emissora limitada ao perímetro urbano), com Orlando Simas, Teresa Almeida e Enio Simões, em 20 de setembro de 1948. Ali, a sua história com rádio estava apenas começando. Porém, foi em 1953, na rádio Farroupilha, que surgiu uma grande oportunidade. Recebeu convite  para apresentar-se ao vivo no programa de J. Antônio D’Ávila junto com o grupo do Centro de Tradições Gaúchas 35.  Após, acabou sendo convidado pelo comunicador para ser a voz em estúdio, do programa Festa no Galpão, que ficou no ar até 1957.

Uma curiosidade contada pelo filho do tradicionalista, Carlos Paixão Côrtes, está o de outubro de 1948, quando ele entrevista a Srª Belmira Garcia Labarthe, a qual conheceu, em 1870, José Hernandez, autor do poema Martin Fierro, quando de sua hospedagem em Livramento. Inclusive, Paixão Côrtes possui, em seu acervo, livro autografado pela própria Srª. Labarthe. Este fato tem uma importância pessoal, pois Paixão nasceu justamente na casa que ficou registrada como local de estada de José Hernandez.

Em primeiro de maio de 1955, ainda na rádio Farroupilha, Augusto Vampré diretor da emissora, convidou-o a apresentar um programa de auditório de caráter puramente regional. Paixão chamou o amigo Darci Fagundes, com quem formou uma dupla. Juntos lançaram o programa Grande Rodeio Coringa, que foi ao ar até 1957 e reformulou toda a história da fonografia riograndense, na comunicação dos temas regionais, abrindo caminho para músicos, cantores e compositores populares.

Em 1958, Paixão Côrtes foi convidado por Maurício Sirotsky e Frederico Arnaldo Balvé para apresentar “Festança na Querência”, na rádio Gaúcha, programa de auditório, com uma hora de duração. Paixão dividia com Dimas Costa a animação do programa que era veiculado aos domingos. Festança na Querência foi ao ar de 1958 a 1967.

Por outro lado, em 1968, Paixão estava na Europa levando o folclore do Rio Grande do Sul. Na ocasião encontrou Flávio Alcaraz Gomes, então diretor da rádio Guaíba. Ele convidou o tradicionalista para apresentar um programa de na emissora. Paixão passou, então, a apresentar dois programas na Guaíba; Querência, programa diário de lançamentos musicais, com dez minutos de duração e, Domingo com Paixão Côrtes, programa temático, com meia hora de duração.

De acordo com Paixão, a rádio Guaíba, com seu perfil de programação e audiência qualificados, foi importantíssima para a transformação de “grossura em cultura”. Nesta época, a indústria fonográfica, já desenvolvida pela repercussão dos programas regionais no rádio, apresentava uma grande diversidade de artistas ligados à cultura do Rio Grande, o que facilitava a seleção musical dos programas de Paixão, que veio, também, a gravar, como intérprete, oito LPs (Long Plays). Paixão Côrtes recebeu dois importantes prêmios fonográficos: Melhor Realização Folclórica Nacional (1962) e Melhor Cantor Masculino (1964).

 

 

  Há 40 anos, meados da década de 50, existiam apenas cinco músicas gauchescas catalogadas. Essa pobreza de sons moveu Paixão Côrtes a promover novos grupos musicais. Em seus programas foram lançados Os Gaudérios, o conjunto vocal Farroupilha e outros. O comunicador viajava com frequência para pesquisar e identificar novos valores, liderando um processo de desenvolvimento da cultura regional. Isto foi essencial para a ampliação da cobertura e expansão dos centros de tradições. No final de 1999 contava-se, aproximadamente, 4200 Centros de Tradições Gaúchas espalhados pelo mundo.

Assim, em tempos nos quais não havia grande valorização da cultura típica rio-grandense, ele se preocupou em viajar pelo seu estado para recolher parte de suas tradições, tais como letras de música e danças. Tudo isso é mantido por ele em sua própria casa.

Paixão Côrtes permaneceu na Rádio Guaíba até 1995. É convidado com frequência para falar sobre assuntos ligados à cultura regional. O pesquisador possui um acervo de milhares de slides, centenas de fitas gravadas, filmes super 8 e vídeos sobre os costumes rio-grandenses. Todo esse material foi reconhecido e aprovado em vários Congressos Tradicionalistas. Suas investigações estenderam-se, também, a documentos e peças originais nos Museus do Louvre e Les Invalides, em Paris, no Museu do Trajo Português, em Lisboa, nos Museus Militar e do Padro, em Madrid, no Victória e Albert, em Londres e no Museu Militar da Escócia.

Por sua importância dentro da história gaúcha, a figura de Paixão Côrtes ficou eternizada em bronze na estátua do Laçador, reproduzida pelo escultor pelotense Antônio Caringi, instalada, em 1954, na rótula de entrada de Porto Alegre em frente ao Aeroporto Salgado Filho. Hoje A ‘nova morada’ do Laçador está situada a 600 metros do antigo local, no oficial Largo do Bombeiro, popularizado erroneamente por Largo do Bombeador. Compreende espaço de 4 mil m² na Avenida dos Estados, em frente ao Terminal 2 do Aeroporto Internacional Salgado Filho, no sentido Porto Alegre-BR 116. Pelos seus mais de 50 anos de dedicação aos estudos sobre a cultura rio-grandense-do-sul, que lhe renderam mais de 30 obras sobre ovinocultura e folclore, recebeu a Ordem de Mérito Cultural.

Prestes a completar 90 anos, Paixão Côrtes segue mantendo o amor pelo Rio Grande em sua terra natal. Apesar da entonação dos “Bá” que soltava não ser mais a mesma, fala com muito orgulho das façanhas que realizou. A cultura gaúcha agradece.

Paixão Côrtes canta

*Atualizado por Matheus Caporal em maio de 2016 com ajuda de Carlos Paixão Côrtes (filho do tradicionalista)