Mário LimaEntrevista completa

Mediador – Por favor,  teu nome completo  data e local de nascimento.

Mário – Mário Antônio Lima. Eu nasci no Arroio do Tigre, cidade que fica próximo a Sobradinho. A cidade é tão pequena que tem que dar uma referência, não é? Fica próxima a Sobradinho. A minha referência de infância é Cruz Alta, porque eu saí de Arroio do Tigre com dois anos de idade. Nasci em 14 de maio de 1951. Faz algum tempo já.

P – Vamos começar então perguntando sobre o teu histórico. Como é que foi a trajetória até chegar no rádio e também sobre a carreira de jogador de futebol?

Mário – É, assim, a minha história no rádio, ela começa através do futebol. Eu joguei futebol profissional dos 16 aos 23 anos e aí fui chamado para jogar num time do Paraná, na cidade de União da Vitória, uma cidade na fronteira com Santa Catarina. União da Vitória de um lado dos trilhos da via férrea e do outro lado, Porto União. E eu fui chamado para jogar no Iguaçu, era um time que estava sendo montado na época para competir com os grandes da capital, como Coritiba, Atlético Colorado e o Água Verde, que ainda existia. Eles contrataram uma série de jogadores de diversas partes do país e eu fui um deles, só que eu entrei em campo porque me lesionei antes de estrear. Fiquei dando entrevista três, quatro meses. Como eu tinha um currículo escolar relativamente mais adiantado que os demais jogadores da época. Eles eram que eram quase todos semianalfabetos e hoje uma grande parte deles ainda o é, lamentavelmente. A gente pode ver essa diferença dos jogadores do vôlei para os do basquete. É uma diferença cultural muito grande. E eu dava belíssimas entrevistas e acabei sendo convidado para participar de uma transmissão de jogos estudantis que havia lá na cidade, face as minhas entrevistas. Aí fui participar e, não sei como, eu acabei virando o narrador da equipe. Como eu conhecia basquete, conhecia vôlei, conhecia os esportes coletivos, ao invés de comentar eu comecei a narrar. Isso foi em 1974. Eu achei que dava pra seguir naquela carreira e dali eu comecei no rádio. No futebol, eu comecei em Carazinho no Veterano Futebol Clube, depois virou Clube Atlético de Carazinho. Aí joguei em São Luis de Ijuí, que foi meu último clube, joguei no Santo Ângelo, joguei em Recife e joguei no Interior do Paraná.

P – Qual era a posição?

Mário – Eu era quarto zagueiro, depois subi para o meio de campo e… virei radialista.

P – Todo o jornalista esportivo se diz um jogador frustrado, que não conseguia jogar dentro de campo com muita habilidade. Tem alguma coisa de verdade nisso?

Mário – Olha, eu não conheço nenhum jornalista, dos meus colegas de rádio… não conheço nenhum que jogue alguma coisa. Tem algumas exceções como o Alexandre Praetzel, que está lá na rádio Bandeirantes de São Paulo. É muito bom jogador de futebol. Eu acho até que ele foi júnior em alguns clubes aqui em Porto Alegre.

P – Ninguém joga, mas tem gente que conta história, é uma barbaridade, né?

Mário – É o…, ele é da Bandeirantes, o repórter ali…o Ribeiro Neto, que também foi júnior  do Grêmio.

P – Ele conta que era zagueiro também.

Mário – É. Tem o locutor do correspondente da Rádio Gaúcha, do Correspondente Ipiranga, o Rafael Colling. Era muito bom jogador, até um tempo atrás. O Nando Grossfoi um bom jogador de futebol de salão. Não são muitos não, mas, na verdade, eu acho que a maioria gostaria de ter jogado.

P – Mario, tu achas que o fato de tu teres jogado profissionalmente se reverteu em vantagem para tua nova profissão? De que forma?

Mário – Muitas vantagens. Até pelo fato da posição em que eu jogava e continuei jogando até os 45 anos de idade na várzea, na pelada de fim de semana. Como eu jogava de quarto zagueiro, eu tinha uma visão ampla do jogo e eu era o cara que comandava o impedimento, as coberturas, e isso me ajudou muito na narração esportiva. Eu não falo nem em termos de comentário, porque eu não gosto muito de comentar. Eu acho que o narrador narra, o comentarista comenta, o repórter faz perguntas e dá depoimentos, e o torcedor torce. Então, é uma coisa assim que eu tenho no rádio que me ajuda na hora do impedimento, me ajuda na hora da falta, na hora do lançamento. Eu tenho a noção exata de onde o cara vai lançar a bola, quem pode antecipar o desenho do campo de futebol. E, por isso também, eu sou um cara frontalmente contra, até hoje, da transmissão do futebol pelo tubo. Porque eu acho que é um jogo completamente diferente do outro. O jogo da televisão é um, o do estádio é outro. Nós temos aqui na mesa um narrador de televisão, que tem que narrar exatamente o que vai para o tubo e é um pouquinho diferente do rádio isso, né? Então, o que o cara corta lá no caminhão de transmissões… é em cima daquilo que tu falas. Aquela visão ampla que você pode dar para o ouvinte de rádio, eu estou falando especificamente de rádio, é porque você tem que fazer o ouvinte imaginar o jogo pela tua narração. Então, não basta tu estares em cima da bola, acompanhando o lance, uma voz bonita, ter a dicção perfeita, ter um palavreado legal, se tu não fizeres que o cara que está ouvindo imagine o jogo. Ele tem que ver o jogo. Ele tem que fechar os olhos e eu tenho que dizer: “olha, a bola pode ser jogada na lateral esquerda, pode inverter a jogada para o lado direito. Tem a opção, tem que dar o desenho. Por isso que eu não gosto do tubo. Então, o fato de eu ter jogado muito, embora sem ter feito sucesso no futebol, me ajudou e muito em termos de ver o jogo, para narrar o jogo.

P – Mário, só para não perder o fio da meada, nessa transição de jogador de futebol para narrador esportivo, tu sentiste, naquele momento, que talvez a carreira de jogador não fosse dar certo e que tu gostavas de narrar e que poderia dar certo nesse caminho? Foi essa a decisão?

Mário Lima – Não. Eu sabia desde o começo, quando eu comecei a jogar por acaso, eu gostava de jogar futebol quando menino e jogava bem, aí apareceu a oportunidade de jogar. Eu fui guindado da arquibancada, vendo um treino de um time lá de Carazinho. Eu estava morando em Carazinho, com meus pais, na época. E aí faltou um cara para treinar. Naquele tempo, futebol era mesmo assim. Não tinha juvenil. Aí os caras treinavam, tinha 20 jogadores no plantel para treinar para compor o elenco e isso aconteceu comigo. Mas eu sabia desde ali que eu não iria seguir na carreira. Eu gostava de jogar futebol por gostar. Mas o que eu queria fazer era trabalhar em rádio, desde pequeno. Então assim, eu ouvia rádio desde moleque. Então os grandes narradores do Brasil, Oduvaldo CosiJoseval Peixoto, Fiori Giglioti, Alceu Bueno de Camargo, Valdir Amaral. Os daqui do Rio Grande do Sul, Antônio Carlos Resende, por exemplo. Para mim foi um dos maiores que eu já ouvi narrar. Pedro PereiraGeraldo José de Almeida também eram ótimos naradores. Então, eu ouvi esses caras todos e eu era um apaixonado por rádio. Aí eu ouvia os programas lá no interior, Cruz Alta, Carazinho, aquela região que eu morava. Eu ouvia o Glênio Reis num programa chamado GR Show na Rádio Gaúcha, que era um negócio maravilhoso. Eu era ouvinte de rádio, então eu tinha um sonho. Eu gostaria de fazer o que esses caras faziam. Aí, lá na frente, acabou acontecendo de eu entrar no rádio e o primeiro jogo que eu transmiti foi um jogo de basket ball e usar termos do cara que veio trabalhar comigo depois, anos depois, o saudoso e maravilhoso Sérgio Moraes, porque eu ouvia o cara na Rádio Globo, do Rio, transmitindo basquete. Ele era um extraordinário locutor de basquete. Quando aconteceu em União da Vitória o convite para eu narrar o jogo, já que o narrador faltou nos jogos da primavera. Concordei. Aí me lembrei do cara da Globo, Sérgio Moraes, então, eu usei ‘cabeça do garrafão’, que ele usava, ‘zona morta’, aí eu conhecia a regra do basquete, ‘na bandeja’, o arremesso de três pontos, entende… ‘o toco’, tudo que ele usava, eu usei. E depois tive o prazer de vir trabalhar com o cara na rádio Bandeirantes, aqui em Porto Alegre.

P – Agora, Mário, é engraçado o teu depoimento, já começaste…

Mário – Então, digo assim, não houve transição nenhuma. O futebol, eu sabia que não era pra mim, sabe?

P – Tu começaste logo na função de narrador. Normalmente o que a gente enxerga é o jornalista começar como repórter, fazer um piloto e, depois,  direto na narração. Certa vez ouvi de um chefe que a narração é a única função do radio que tem que se ter um dom, que não adianta treinar. Concorda com essa afirmação?

Mário – Perfeitamente. Porque eu narrava antes de ser narrador. Eu narrava treinamento no sábado pela manhã, ficava sentado ali, durante o rachão narrando o jogo. E quando menino eu jogava botão sozinho, aquele negócio de moleque. Naquela época você não tinha computador, não tinha nada, então imaginava um jogo de futebol e narrava. E realmente é um dom: narrar futebol não se aprende. Os narradores que eu conheço já entraram no rádio narrando, praticamente. É difícil um repórter virar narrador. Tem repórteres aí que estão narrando, mas não é como o Pedro Ernesto, oHaroldo de Souza, o Orestes de Andrade. Os caras já começam no radio narrando.

P – E a tua trajetória lá, depois do União da Vitória, como é que foi?

Mário – Bom, aí terminou aquela semana dos jogos estudantis, e eu até hoje sou grato a um cara chamado Airton Maltau, que era o narrador da rádio, era o chefe de esportes, e o Gilberto Abraão, que era o chefe dele. E eles, quando eu terminei de narrar aquele primeiro jogo de basquete, me aconselharam a  narrar futebol.  Eu não pensei em narrar futebol, mas em trabalhar em rádio. Ai eu achei que podia, abandonei aquela historia de futebol, peguei minha chuteira, botei dentro da valise e fui pra Curitiba. E aí eu consegui emprego sem salário, na rádio Cruzeiro do Sul. Aí eu comecei a narrar na radio AM 1320, e comecei a narrar lá os jogos preliminares. Por exemplo, o Coritiba jogava contra o Água Verde, daí tinha a preliminar do juvenil do Curitiba contra o juvenil do Colorado. Fiquei seis meses narrando de graça lá. Depois saí, porque tive que arrumar umas moedas. De graça não dá. Então recebi um convite para trabalhar em Lages, na rádio Difusora, como narrador esportivo e repórter de policia, que eles precisavam. Alias, repórter de policia é outra coisa interessante, para o pessoal da PUC e para o pessoal que está fazendo rádio. É um negócio que sempre está faltando na rádio, que ninguém quer, então está sempre faltando. Então virei repórter policial. Eu imitava um cara da Bandeirantes chamado Tico-Tico, falava só na gíria, ninguém entendia o que eu dizia. Era a gíria da policia e a gíria da malandragem. Retornei a Curitiba para trabalhar na rádio Universo, um ano depois, assim de terceiro narrador da rádio. Dei uma girada pelo interior do RS, trabalhei em Caxias do Sul, Novo Hamburgo. E Em 1979 recebi um convite para trabalhar na rádio Ribamar, de São Luis do Maranhão. Aí começou a minha aventura. Fui pra rádio Ribamar, no Maranhão, trabalhei durante um ano na rádio da família Sarney, aliás, como tudo lá. Então fui convidado pela rádio Sociedade da Bahia, em 1980. Aí já partindo para um esquema, que apesar do pouco tempo de carreira, já estava numa rádio que é referencia no Nordeste, uma das maiores do país. Lá fiz minha primeira Copa do Mundo, em 1982. Depois me transferi para a rádio Verdes Mares, de Fortaleza, tive uma passagem pelo Rio de Janeiro, retornei para Salvador pela rádio Clube, e em 1985 recebi um convite para trabalhar na rádio Difusora, aqui em Porto Alegre, atual Bandeirantes. Era um projeto terceirizado, junto com o Pedro ErnestoJoão Garcia,  o saudoso Daltro Menezes (ex-treinador do Inter), João Nassif. Era uma equipe enorme. Paulinho Piresque está lá até hoje… Nando GrossSérgio BoazDênis  Olinto… vou acabar me esquecendo de gente. Enfim, nós ficamos até 1990 na rádio. Ela mudou de nome e eu fiz a primeira transmissão com o nome Bandeirantes. Em 1970 o departamento de esportes fechou e até hoje ninguém sabe a razão. A rádio operava naquela época em azul, tinha um faturamento enorme com futebol e era segundo lugar de audiência. A Guaíba estava numa fase ruim, então haviaa jogos que ela era segunda m audiência, outros que era terceira. A rádio Guaíba é extraordinária, sempre foi, mas naquela época estava em uma fase de mudanças, uma pequena grande crise. Daí fechou a rádio e fui trabalhar na TV Educativa, e nesse meio tempo passei a fazer free lancer na rádio Eldorado, em Criciúma. Eu chefiava o departamento de esportes da TV Educativa e fazia os jogos do Criciúma. E foi uma passagem fantástica na minha trajetória, porque eu reputo a minha passagem por Criciúma como a mais importante da minha carreira, pois se confundia as conquistas do Criciúma com as transmissões esportivas da rádio.

P – No Youtube a gente acha vídeos, a torcida faz referência, associa os grandes títulos com as narrações do Mário Lima.

Mário –  Porque o Criciúma é um clube do interior de Santa Catarina que acabou conquistando uma Copa do Brasil e que foi pra uma Libertadores da América podendo ser campeão. Não foi por um detalhe. Caiu diante do São Paulo, naquela fase que os brasileiros tinham que cruzar antes da semifinal, e caiu por um detalhe. Perdeu o primeiro jogo em são Paulo por um a zero e empatou o segundo em um a um, quando poderia ter vencido. Entao foi uma passagem muito legal, com uma audiência incrível, não pelo Mário Lima, mas porque a equipe era boa, a rádio era forte. Não adianta ser um grande narrador, um baita comunicador, se o prefixo não te ajuda, se o todo não te ajuda. Aí retornei para Porto Alegre em 1995, quando a Bandeirantes reabriu o seu departamento de esportes num mega projeto. Entao deixei a TV Educativa e apostamos naquele projeto. Em principio o Pedro Ernesto era para ser um dos narradores, mas acabou preferindo ficar na rádio Gaúcha, então os narradores contratados foram Marco Antonio Pereira e eu. E aí João Garcia, Claudio Cabral, Nando Gross, Paulo Pires, Leonardo Meneghetti, que hoje é superintende da rádio,Mauricio SaraivaPaulo Mesquita, Pelotinha, Dênis Olinto, Jorge Estrada, foi uma super equipe. Um projeto grandioso, com altos salários, mas que durou exatamente seis meses. E foi uma frustração muito grande, pois a rádio estava começando a se criar e do dia para a noite o departamento de esportes foi fechado. Aí nos reunimos, conversamos com o Bira Valdez que era superintendente na época, e conversamos para tentar formar a primeira cooperativa de radialistas do RS. Negociamos o nosso fundo de garantia, pois tínhamos seis meses para sacar, e botamos numa vala comum, para tocar os dois primeiros meses do esporte da rádio. E assim foi durante um bom tempo. A cooperativa acabou não se criando, não sei, até hoje, porque motivo. A gerencia da Band na época também não deu muita força para se criar essa cooperativa, mas o fato é que esse projeto está até hoje na Bandeirantes. E eu, em 1999, não concordei mais com o sistema que tinha se criado, pois a gente trabalhava, trabalhava e não via retorno. E quando começou a aparecer retorno, a direção de então da Bandeirantes resolveu pegar de novo o departamento. Saí e me transferi de novo para Criciuma e de novo aconteceu o que tinha acontecido em 1991. Só que levei comigo o João Nassif, o Roberto Costa e o Pelotinha. E formamos uma equipe. E o time estava mal, muito mal. No primeiro jogo do campeonato brasileiro apareceu o treinador Edson Gaucho que falou que vinha para ser campeão. Aí os jogadores que eles tinham contratado para formar o time, do dia para a noite eles contrataram um monte de jogadores bons, que dava para confiar neles.  Entao fiz uma reunião com o pessoal da rádio, dizendo: “olha, o Criciúma estréia agora contra o Jundiaí, vamos dizer que é o primeiro degrau, o primeiro jogo do acesso do Criciúma? Daí começamos, os caras até tem um cd que foi gravado com isso. O primeiro gol que narrei foi dizendo que era o gol que começaria a levar o Criciúma a ser campeão da série B. Aí passaram uns jogos e o pessoal da cidade foi dizendo que esses caras são malucos, mas o Criciúma acabou ganhando o titulo de ponta a ponta, foi um negocio fantástico. Aí fiquei lá até o ano passado (2010), ainda estou morando em Criciúma, momentaneamente moro lá e aqui, aí surgiu o convite da rádio Guaíba e eu achei que era a hora de retornar a Porto Alegre, porque ainda tenho uns anos de narração, não é? Se tudo correr bem, em cinco ou seis anos quero continuar narrando ainda e depois dar o bastão para outros. Mas eu gostaria de concluir a minha trajetória em Porto Alegre, já que não consegui começar aqui.

P – Quando um jogador de futebol passa por muitos clubes se fala que ele é um andarilho da bola, né? Tu te consideras, no caso, um andarilho do microfone?

Mário – Eu me considero um cigano do rádio. Eu morei em sete Estados e com muito prazer consigo voltar a todos eles. Jamais fui demitido de alguma emissora de rádio. Sempre pedi demissão e sempre pedi demissão num astral assim bem legal. Tipo assim: “olha não tô, não tô feliz aqui, não tá, não tá legal, não é nada pessoal”. À exceção da Bandeirantes que realmente de onde eu saí atritado.  Não com a Bandeirantes, mas com duas ou três pessoas que eram da direção na época. Porque eu achei que eu… eu merecia uma consideração maior na época e, realmente eu saí atritado e o nosso caso foi parar em uma outra instância. E foi a única também. Mas sempre pedi demissão. Mas eu sempre gostei desse rótulo. Sempre gostei. O problema é quando tu és andarilho e não consegue voltar por onde tu passaste, é sinal que alguma coisa você fez de errado. Mas eu sou um andarilho sim cara. Se eu tivesse um pouquinho mais de fôlego ia continuar assim.

P – Bem Mário, e o fato de tu circulares por muitas cidades e muitos Estados é principalmente pela vontade de se aventurar mesmo ou porque o mercado gaúcho é muito limitado?

Mário Lima – Cara, o mercado gaúcho sempre foi muito fechado, em função de ter poucas emissoras de rádio fazendo aquilo que a gente faz. Hoje, por exemplo, têm três rádios, só. Pra dois clubes que disputam todos os anos as principais competições do futebol brasileiro e mundial. Então, isso é muito pouco cara. Isso restringe o mercado. Quando a Pampa veio àquela época, foi uma, sabe foi um alento pra todos nós do ramo. E o mercado, realmente, é fechado aqui. Mas ele não é fechado porque, porque se criam igrejinhas, se criam feudos dentro das rádios. Algumas até têm isso. Tem alguns caras aí que se fecham, se enclausuram e não entra ninguém. É que realmente falta espaço. E, olha daqui de Porto Alegre saem profissionais para todo o Brasil. Da melhor qualidade. Tanto no jornalismo esportivo, como no jornalismo político, rádio e televisão, mídia impressa. A nossa preparação aqui no Rio Grande do Sul é muito forte, é muito boa. Eu não, eu não frequentei bancos universitários, eu não fiz faculdade. A minha faculdade foi a do mundo. Mas eu me considero um autodidata, porque eu sempre respeitei a questão das lições teóricas e da notícia como ela tem que ser feita. Da ética, dessas coisas todas que tu aprendes primeiro na faculdade, primeiro na escola. Então, eu tentei aprender fora. E, tentei ler muito com isso. Mas, daqui saem profissionais, tanto é que os três maiores comentaristas desse país saíram do Rio Grande do Sul: João SaldanhaRui PortoLuís Mendes, Alexandre GarciaCelso Freitas, que é aqui de Criciúma, aqui de Santa Catarina, Patrícia Poeta, que trabalhou conosco na Bandeirantes e tantos outros, eu nem vou citar aqui. Saem pela formação que há aqui no Rio Grande do Sul. Das faculdades e dos bancos escolares e da imprensa daqui que sempre foi muito participativa, ela nunca se omitiu dos problemas da cidade, comunidade, da sociedade e da política do Estado. Então, a nossa imprensa aqui é muito forte. Agora, gostaria que houvesse mais emissoras aqui. E, é por isso, talvez, que a gente saia. Não foi o meu caso porque eu comecei lá fora.

P – E como é que foi constituir família, mudando de tantas cidades de um lado pro outro?Ele falou que é mandado pela mulher há mais de 30 anos.Mário, como é que funciona isso?

Mário – É continua. Aliás, para descontrair um pouquinho, quando a presidente foi eleita aí né, querida presidente né, convivemos juntos aqui no governo Collares. Aí um cara me perguntou: Bah! Brasil… Vou te dizer um negócio, agora mandado por uma mulher. Digo: Pra mim não é novidade nenhuma. Eu sou mandado há trinta e poucos anos pela minha. Eu me casei em 1975 e aí já vieram dois filhos logo em seguida, aMari Ju, que é jornalista, hoje, é editora do Diário Catarinense de Santa Catarina e o Anderson que foi jogador de futebol, seguiu um pouco os meus passos.   E, eles viajaram comigo esse tempo todo, aí. A Jussara, a minha esposa, ela foi parceira nesse aspecto viu. Vamos, vamos. Ah! O que é que tem  Mário? Ah! Eu não sei o que que tem lá. Eu recebi um convite para ir lá, vamos ver o que é que tem né? Tanto é que quando nós chegamos no Maranhão, nós chegamos duas e meia da manhã, eu fui antes né, eu fui transmitir dois, três jogos lá e , aí voltei para fazer um jogo em São Paulo do Sampaio Corrêa, e aí peguei o pessoal em Curitiba e chegamos duas e meia da manhã e o Diretor da rádio estava nos aguardando no aeroporto,  aeroporto do Tirirical. Eu tinha, eu tinha escolhido a casa lá e ele nos levou, vizinho do Sarney, lá na praia do Calhau. Felizmente nunca faltou nada na minha casa. Eu dei sorte né. Aí nos levou pra casa lá. Uma casa maravilhosa. E a esposa dele junto. As historias do rádio são fantásticas. Ela disse: “Olha eu deixei a geladeira cheia de água hem! Mineral”. Aí eu abri a geladeira. Perguntei por que tanta água? Ela disse: “Não, porque aqui faz um mês, aqui nesse condomínio, que não tem água.  Tá, e banho? A gente se vira né cara. Tem uma pipa que vem de vez em quando.   Aí no outro dia fomos ao supermercado. Peguei o táxi, fomos no supermercado. No lado de fora do supermercado era uma feira livre de carne. A carne não estava dentro do supermercado. E, os urubus, ali, em volta. Aí a minha mulher, a Jussara disse: – “ Mas o que                que é isso aqui?”   Eu disse: “Isso é o Maranhão”. Aí enchemos um carrinho. Foi motivo de curiosidade sabe. Porque as pessoas de la não estavam acostumadas a comprar tanta coisa. Nós, com a nossa mania sulista aqui de consumo, né?. Tem que comprar bastante coisa pra ter na geladeira. Mas ela entendeu isso aí legal e foi, na verdade, quando eles começaram em época de escola mesmo, foi quando eu resolvi retornar pra cá. Aí surgiu esse convite aqui da rádio Difusora, na época. Aí, aqui, eles estudaram no, primeiro no Apeles Porto Alegre, depois a Maju estudou no Julinho e, aí eles fizeram os cursos todos que tinham que ser feitos aqui. São três depois tem o mais novo que agora tem 27 anos.  Esse não veio pro nosso lado, esse resolveu ser músico e artista e empresário do ramo de transporte e o Anderson que largou o futebol há dois anos atrás, ele é treinador, agora, do divisão de base do Guarani de Venâncio Aires. Mas foi bem legal, mas se não houvesse uma compreensão por parte da minha esposa, ou o casamento teria ido pro espaço ou as aventuras teriam terminado cedo.

P –  Como e quando surgiu o apelido “o amigo da galera”?

Mario – “O amigo da galera” foi em Curitiba, na rádio Capital, um pouquinho antes de eu ir para o Maranhão. Eu participei daquele processo da rádio Capital, que era da Rede Capital de Comunicações, que foi uma grande idéia. Aí entre 1978 e 84 durou a Rede Capital, que acho que foi o grande impulso da minha carreira como profissional de rádio. Essa era uma rádio bem profissional mesmo.  Eu até então tinha trabalhado num negócio assim meio “em cima da perna”. Tinha um cara de São Paulo,  o Helio Ribeiro, que foi o diretor dessa rádio e ele criou nessa oportunidade a primeira rádio “linkada”, era Porto Alegre, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte,  as rádios falavam simultaneamente o dia inteiro, via Embratel. Então a notícia dada em Porto Alegre repercutia em São Paulo e vice-versa. E na rádio Capital nós fomos fazer a cobertura do carnaval  de Curitiba. Como eu era envolvido com escola de samba, e até hoje sou,  nós fomos fazer a cobertura e o rei momo era meu amigo. Morava no mesmo bairro que eu em Curitiba. Aí os caras começaram a me chamar de “amigo do rei”. E aí ficou, “amigo do rei” pra lá e pra cá e daí eu descobri que o “amigo do rei” na verdade era o Anderson, um repórter da Rede Tupi que era amigo do Roberto Carlos. E como eu nunca gostei de copiar ninguém, eu achei que eu não podia mais usar o slogan, esse chavão, porque tem um cara lá no rio que é amigo do rei… Daí os caras disseram pra mim: tu tens que usar “amigo da galera”, tu é amigo de todo mundo. Foi o Jurandir Carioca, um repórter, que criou o slogan para mim, em 1979, antes de eu ir para o Maranhão.

P – E desde lá é um apelido que tu gostas, então?

Mário – Gosto.  Muito. É bem legal porque faz bem o meu tipo, sabe? Eu freqüento todas as classes… Eu não gosto de falar classes sociais, mas elas existem, elas estão aí, a sociedade é assim não é? Eu um dia vou num ambiente classe A, no outro vou num classe C, pra mim é tudo igual sabe, eu me dou com as pessoas. Eu não tenho aquela coisa de alguns radialistas, alguns atores, alguns cantores, que lutam a vida inteira pra fazer sucesso, pra serem reconhecidos na rua, e quando fazem sucesso arranjam um monte de seguranças, não querem dar entrevistas, não querem participar do dia-a-dia. Pra mim o maior prazer é quando alguém me para na rua. Eu converso com todas as pessoas com o maior prazer e procuro interagir com as pessoas, andar nos lugares aonde vai todo mundo. Se eu narro futebol para os torcedores do Grêmio e do Inter, do Cruzeiro, do São José, do Novo Hamburgo, porque que eu tenho que me afastar dos caras. Eu não tenho que ter medo dos caras, basta eu trabalhar de acordo com aquilo que eles querem ouvir, ou seja, a minha função, a função do narrador, é fazer do futebol uma festa dentro dum relato fiel. Eu não estou lá pra criticar o centro-avante do Inter, o goleiro do Grêmio, eu estou lá para narrar o jogo.  Se o cara está jogando mal, não joga nada, se o treinador é ruim, isso não é função minha, é do comentarista.  Então ele que pague esse ônus, ele que evite a torcida, eu quero estar no meio da galera.

P – Os teus bordões vieram dessa interação com o público?

Mário – Quase todos. De “Roda de samba” vem do samba né, eu sou envolvido com samba desde moleque. Moça Branca vem bola branca, e ai um cara num bar um dia fala vai começar o jogo ali, vai rolar a “moça branca”. Num bar isso aí. O “eu vi tudo”, esse surgiu de uma forma diferente. Depois até posso contar a história desse bordão que é talvez o mais marcante da minha carreira. O “Nasceu” surgiu num botequim, só que não é criação minha, é uma criação do Mario Freitas, lá da Bahia. Só que o Mário Freitas não quis usar, daí o Sílvio Mendes resolveu usar. Daí quando eu vim embora pro sul, o Sìlvio queria usar um outro bordão meu, que é “as maravilhas mil”, porque lá diziam? “a Bahia tem mil maravilhas, e a rádio Sociedade é uma delas”  aí o Sílvio queria usar, daí eu disse que ia usar o “Nasceu”, daí ele disse que eu podia usar. Eu gosto de dar o crédito, e o crédito é do Mario Freitas que não quis usar.  O “eu vi tudo sim senhor” surgiu numa abertura do campeonato brasileiro , num jogo Flamengo x Palmeiras, no Maracanã, numa noite de sábado.  Era uma noite muito chuvosa e o Flamengo fazia uma partida maravilhosa e o Palmeiras só se defendia. Num determinado momento do jogo, lá pelos 30 do segundo tempo, o Flamengo fez uma blitz de uns 2 minutos e meio, era bola na trave e voltava, o goleiro tirava, até que num lance final o Leandro foi na linha de fundo, cruzou pra trás, o Zico dominou, jogou pra área, o Nunes chutou no joelho do goleiro, voltou pro Nunes de novo e ele fez o gol. Na minha concepção, no meu vídeo tape aqui, eu tinha narrado tudo aquilo.  Aquela blitz eu tinha narrado com fidelidade. Quando eu terminei de narrar o gol aí eu rodava uma musicazinha, que até hoje eu uso na minha transmissão, na época rodava o hino do clube, daí entrei dizendo: “eu vi tudo, sim senhor. Claro que vi, meu senhor: Foi Nunes”. Terminado o jogo eu volto pra Bahia, aí na quarta-feira já tinha jogo do Bahia, só  que eu não falei, o “eu vi tudo” eu não falei.  Na quinta-feira eu cheguei na rádio e o diretor da rádio me falou: vem cá Mario, por que tu não falou aquele negócio que tu falou sábado lá no jogo do Palmeiras? Daí eu disse: Que negócio cara? O que tu falou no gol, eu vi não sei o quê…  Daí eu disse? Eu não me lembro. Eu sei que eu falei um negócio lá mas eu não me lembro do conteúdo todo, da frase toda. Aí nós fomos lá pro estúdio ouvir a fita e eu achei legal pra caramba, cara. Daí eu passei a usar e realmente é o bordão que mais marcou até hoje, desde 1981.

P –  Tu falaste no início que o torcedor tem que torcer, o repórter que reportar, o narrador que narrar e o comentarista  tem que comentar. Queria que tu falasse um pouquinho dessas funções, se possível se limitando aqui ao sul. Tem muito narrador aí, principalmente os mais antigos, fazendo comentário, não é? Qual a tua opinião sobre isso e por que tu não és a favor que o narrador comente?

Mário – Eu acho que o narrador é o âncora, não que ele seja um alienado, eu até comento alguma coisa, mas no sentido de fazer uma escada para o comentarista. Eu gosto muito quando o narrador faz pergunta pro comentarista. “ O que está acontecendo que esse cara está caindo só para um lado do campo aí?” Mas é escada. Agora, “esse cara tá caindo pro lado esquerdo do campo e deveria estar no lado direito”, acho que está errada a tática do “você não acha, Edgar?”  Porque o cara perguntou e já respondeu.  Isso deixa uma saia justa para o comentarista, porque o âncora, o mestre de cerimônias, ele ta ali pra apresentar o jogo, pra relatar o jogo, e eu acho que o cara não deve entrar na seara do outro. E isso vale para os repórteres, porque nós temos repórteres de uma geração nova de repórteres aqui e nós estamos enfrentando um  outro problema na rádio do Rio Grande do Sul: O excesso de programas  no rádio. A carga horária é muito intensa  e aí o repórter acaba fazendo tese ao invés de fazer notícia, porque ele não tem como trazer notícia o dia inteiro porque não tem notícia.  Aí ele acaba criando uma tese, que não é a função dele.

P – Aí, eu queria até te interromper porque interpretei como uma crítica ao espaço excessivo que se dá ao torcedor para falar. Não é mais ou menos isso?

Mário – Não eu acho que o torcedor, cara, ele pode ligar para a rádio, ele pode entrar nas ferramentas que nos temos agora aí, e elas são muitas agora, e dar a sua opinião. O que eu não gosto é quando se fica contumaz . Esse mesmo ouvinte todo dia manda no mesmo horário uma mensagem pra rádio querendo uma tese, porque ele não tem compromisso, cara. Ele é torcedor. Então ele pode chamar o presidente de ladrão, ele pode chamar o diretor de venal, ele pode chamar o jogador de vendido, ele pode fazer qualquer coisa. Então isso aí tu tem que filtrar, né. Agora aquela opinião do torcedor , sabe, dizendo ó  vamô lá grêmio, vamô lá inter, não sei o que hoje. Eu acho que isso tá válido. Mas eu quero ir um pouquinho mais longe com isso aí, entende. E quando eu digo o torcedor torce é o torcedor que está sendo convidado costumeiramente pelos programas de televisão e de rádio. Então se cria um programa de rádio e de televisão e abastece esse programa com pessoas que vêm, que são torcedores, que são conselheiros dos clubes de futebol e que eu acho que tem ir na rádio, não tem problema nenhum, mas tem que ir esporadicamente. Aqui se criou uma cultura agora de os caras estarem todos os domingos, todos os sábados nas rádios, fazendo debate. E o compromisso deles é diferente do comentarista. Ele pode dizer qualquer coisa, o comentarista não. O comentarista ele até onde vai o direito dele comentar é até onde vai a ética, né cara. E o cara que é torcedor  e que ele não é profissional , e que ele não vivi daquilo dali, ele diz qualquer coisa e o que é pior, e o que é pior, este tipo de convidado para as emissoras de rádio e de televisão ele está complicando nosso mercado. Nós estamos com as faculdades cheias aí de formandos aí, de gente saindo e bem preparados para entrar no mercado e as vezes não consegue entrar porque a tv tal, a rádio tal aí funciona com convidados. Eu acho que o sindicato tinha que olhar isso aí. Outra coisa, se criou a figura do comentarista de arbitragem eaí ele tem que ser, não é o  caso nosso lá na Guaíba que agora tem lá, dois caras lá, dois repórteres bons pra caramba, que fizeram o curso de arbitragem…

P – O Bagé e o Verlang?

Mário – É, e eles fazem essa função. Então aí o cara tá apitando, o cara não apita mais, o cara vira imediatamente comentarista de arbitragem. E o que é pior, comenta pela televisão. Quando o juiz tem que apitar lá no campo , né, nos dois segundos ali que ele tem decidir. Aí o comentarista de arbitragem que apitou a copa do mundo, que apitou não sei o que,  que, aí eu vou esperar o replay. Pô qualé a graça disso daí, né? Então é sempre coisa aí, cara. Então eu quero estender isso aí. E juiz apita jogo, né? E se quiser comentar, que comente o jogo no campo, né.

P – Mas e a participação do ouvinte na jornada é o que te agrada? Dá um espaço, vamos ouvir a galera por exemplo?

Mário – Eu acho válido, esse é sentimento do torcedor no campo e esse aí não é o mesmo sempre, né. Esse aí tá lá o Luciano Périco, tá lá o outro da Guaíba, normalmente tem sido o Igor Povoa, eu acho que a Bandeirantes agora tirou o repórter de torcida, mas fazia também né. Eu acho que isso aí é válido porque é o sentimento do cara que tá ali no campo vendo o jogo e não é o convidado que vai pro estúdio todo o dia, né. E não é o chato que entra todos os  dias pela, né. E tu sabe que aqui em Porto Alegre quem começou essa brincadeira fomos nós lá na Bandeirantes, cara, com o negócio do interativo lá, que os caras mandavam por fax, que não tinham essas ferramentas aí de agora. Eaí chegou um dia eu tava comentando com o Garcia: Garcia, tu notou que são sempre  os mesmos? Os cara virando comentarista da rádio. Aí logo em seguida a Pampa veio  com um projeto de rádio que era muito bonito por sinal. Só que passou a fazer só com ouvintes. Era o dia inteiro. Aí um dia eu tô ouvindo a rádio Pampa e aí o cara. Vamos agora com o nosso ouvinte lá do Teresópolis, o fulano de tal. Aí o cara: Bem , ô Castro, hoje o meu comentário é o seguinte… Eu disse, pô! O cara virou comentarista, cara. Risos.

P – Daqui a pouco pinta patrocínio pro comentário.

Mário – Em nome do…

P – Tu falou que teve passagem pela TV educativa, NE. O Mário Lima teve alguma oportunidade  de ser um narrador de futebol em TV, nunca pensou nisso? Enfim todo o narrador de TV, praticamente 99% começou no rádio.

Mário – Sim, eu narrei na lá na TV Itapuã , em Salvador, na época que eu tava na Bahia, alguns jogos.  E aqui na TVE eu tive o prazer de narrar alguns jogos e eu gostei, sabe. Eu gostei, eu narrei aqui inclusive a decisão do campeonato gaúcho, o grêmio foi campeão lá em Pelotas contra o Pelotas, com um golo do Denner,  saudoso Denner. Se decidiu uma rodada antes do campeonato.

P Naquele primeiro ano do Felipão, ainda era  Cassiá naquela época, depois que o Felipão…

Mário – Eu acho que era o Cassiá.

P Cassiá foi demitido e depois…

P Ganhou o campeonato e foi demitido.

Mário – Isso, aí narrei uma liga nacional de basquete,  que é uma paixão que eu tenho por jogar basquete, eu adoro basquete. E o corinthians foi campeão, o Corinthians  de Santa Cruz do Sul. E narrei uma liga nacional com um time de Novo Hamburgo, era acho que ginástica Frangosul na época, era ginástica Frangosul , e que foi campeão também.

P Vôlei masculino.

Mário – De vôlei. Uma das muitas equipes do Jorginho Schmidt lá, que é um grande profissional. Eu gostei, cara, mas a diferença é muito grande, né. A televisão você não pode falar demais nem de menos, tem que ter um time e no rádio você começa a falar e vai, né. E na televisão tem o jogo do monitor, né cara, que no começo é difícil do cara se habituar. O cara tá acostumado  a olhar o jogo do campo. Você não pode falar o que não tá no monitor, né, você tem que falar o que os cara tão vendo. Mas eu acho bem legal, cara, eu, não sei talvez aí, pro final da carreira aí, eu… mas eu acho que ainda vou narrar cinco ou seis anos aí e vou..como diz Antônio Augusto:  vou pra Salinas. No meu caso eu vou pra Tapes, né cara. Risos.

P Mário e essa questão do tubo, hein?  A economia aí, essa parte das direções. Tu és a favor de narrar só no campo?

Mário – Eu sou a favor de narrar exclusivamente no campo, que é no campo que acontece o jogo. No tubo é uma falta de respeito com o ouvinte da rádio, com o patrocinador e com o narrador que vai narrar o jogo. Porque ele é outro jogo. Ele é o jogo do monitor. E o narrador de rádio ele tem que preencher, e eu isso falei no começo da entrevista, o narrador de rádio ele tem que preencher todos os espaços, porque quem tá ouvindo, tem que imaginar que tá vendo. E é uma injustiça o que se faz com o narrador que tá no tubo. Aí você faz um jogo, por exemplo,  o jogo de domingo, esse jogo do Grêmio aqui, que tinha 40 mil pessoas no estádio. O narrador narra o jogo e narra com a vibração, com a sensação epidérmica de tudo que ta acontecendo ali. Eaí depois  o outro colega dele vai narrar o outro jogo do inter, aí no tubo a diferença brutal.

P – Lá em Goiânia…

Mário – É eu acho que, olha, eu acho que os narradores não deveriam  aceitar isso daí, mas ai é questão de quem pode, de quem obedece, enfim, fazer o quê?

P – Tu começaste logo na função de narrador, não é, normalmente o que a gente enxerga é o jornalista começar como repórter, fazer um piloto e direto na narração. Certa vez ouvi de um chefe que a narração é a única função do radio que tem que se ter um dom, que não adianta treinar. Concorda com essa afirmação?

Mário – Perfeitamente. Porque eu narrava antes de ser narrador. Eu narrava treinamento no sábado pela manha, ficava sentado ali, durante o rachão narrando o jogo. E quando menino eu jogava botão sozinho, aqueles negócios de moleque, naquela época você não tinha computador, não tinha nada, então imaginava um jogo de futebol e narrava. E realmente é um dom: narrar futebol não se aprende. Pode você, tecnicamente, narrar um jogo, mas é dom. Os narradores que eu conheço já entraram no rádio narrando, praticamente. É difícil um repórter virar narrador. Tem repórteres aí que estão narrando, mas não é como o Pedro Ernesto, o Haroldo, o Orestes, o Gilberto, os caras já começam no radio narrando.

P– E a tua trajetória lá depois do união da vitória, como é que foi?

Mário – Bom, aí terminou aquela semana dos jogos estudantis, e eu até hoje sou grato a um cara chamado Airton Maltau, que era o narrador da rádio, era o chefe de esportes, e o Gilberto Abraão, que era o chefe dele. E eles, quando eu terminei de narrar aquele primeiro jogo de basquete, falaram pra eu ir narrar futebol.  Eu não pensei em narrar futebol, mas em trabalhar em rádio. Ai eu achei que podia, abandonei aquela historia de futebol, peguei minha chuteira, botei dentro da valise e fui pra Curitiba. E aí eu consegui emprego sem salário, na rádio Cruzeiro do Sul…

P – Pelo amor…

Mário – É, aí eu comecei a narrar na radio AM 1320, e comecei a narrar lá os jogos preliminares. Por exemplo, o Coritiba jogava contra o Água Verde, daí tinha a preliminar do juvenil do Curitiba contra o juvenil do Colorado. Daí eu fiquei seis meses narrando de graça lá. Depois saí, porque tive que arrumar uma moeda, né, de graça não dá. Então recebi um convite para trabalhar em Lages, na rádio Difusora, como narrador esportivo e repórter de policia, que eles precisavam. Alias, repórter de policia é outra coisa interessante, pro pessoal da PUC e pro pessoal que está fazendo rádio. É um negócio que sempre está faltando na rádio, que ninguém quer, então está sempre faltando. Então virei  repórter policial, aí eu imitava um cara da Bandeirantes chamado Tico-Tico, falava só na gíria, ninguém entendia nada que eu dizia. Era a gíria da policia e a gíria da malandragem. Retornei a Curitiba para trabalhar na rádio Universo, um ano depois, assim de terceiro narrador da rádio. Dei uma girada pelo interior do RS, trabalhei em Caxias do Sul, Novo Hamburgo. E Em 1979 recebi um convite para trabalhar na rádio Ribamar, de São Luis do Maranhão. Aí começou a minha aventura. Fui pra rádio Ribamar, no Maranhão, trabalhei durante um ano na rádio da família Sarney, aliás, como tudo lá. Então fui convidado pela rádio Sociedade, da Bahia, em 1980. Aí já partindo para um esquema, que apesar do pouco tempo de carreira, já estava numa rádio que é referencia no Nordeste, uma das maiores do país. Lá fiz minha primeira Copa do Mundo, em 1982. Depois me transferi para a rádio Verdes Mares, de Fortaleza, tive uma passagem pelo Rio de Janeiro, retornei para Salvador pela rádio Clube, e em 1985 recebi um convite para trabalhar na rádio Difusora, aqui em Porto Alegre, atual Bandeirantes. Era um projeto terceirizado, junto com o Pedro Ernesto, João Garcia,  saudoso Daltron Menezes, João Nassif , era uma equipe enorme. Paulinho Pires que está lá até hoje… Nando Gross, Sérgio Boaz, Dênis  Olinto… vou acabar me esquecendo de gente. Enfim, nós ficamos até 1990 na rádio. Ela mudou de nome e eu fiz a primeira transmissão com o nome Bandeirantes. Em 1960 [sic] o departamento de esportes fechou e até hoje ninguém sabe por que, né. A rádio operava naquela época em azul, tinha um faturamento enorme com futebol e era segundo lugar de audiência. A Guaíba estava numa fase ruim, então tinha jogos que ela era segunda, outros que era terceira. A rádio Guaíba é extraordinária, sempre foi, mas naquela época estava em uma fase de mudanças, uma pequena grande crise. Daí fechou a rádio e fui trabalhar na TV Educativa, e nesse meio tempo passei a fazer free lancer na rádio Eldorado, em Criciúma. Eu chefiava o departamento de esportes da TV Educativa e fazia os jogos do Criciúma. E foi uma passagem fantástica na minha trajetória, porque eu reputo a minha passagem por Criciúma como a mais importante da minha carreira, pois se confundia as conquistas do Criciúma com as transmissões esportivas da rádio.

P – No Youtube a gente acha vídeos, a torcida faz referência, associa os grandes títulos com as narrações do Mário Lima.

Mário – Porque o Criciúma é um clube do interior de Santa Catarina que acabou conquistando uma Copa do Brasil, que foi pra uma Libertadores da América podendo ser campeão, não foi por um detalhe. Caiu diante do São Paulo, naquela fase que os brasileiros tinham que cruzar antes da semifinal, e caiu por um detalhe. Perdeu o primeiro jogo em são Paulo por um a zero e empatou o segundo em um a um, quando poderia ter vencido. Entao foi uma passagem muito legal, com uma audiência incrível, não pelo Mário Lima, mas porque a equipe era boa, a rádio era forte. Não adianta ser um baita narrador, um baita comunicador, se o prefixo não te ajuda, se o todo não te ajuda. Aí retornei para Porto Alegre em 1995, quando a Bandeirantes reabriu o seu departamento de esportes num mega projeto. Entao deixei a TV Educativa e apostamos naquele projeto. Um projeto grandioso, com altos salários, mas que durou exatamente seis meses. Aí nos reunimos, conversamos com o Bira Valdez, que era superintendente na época, e conversamos para tentar formar a primeira cooperativa de radialistas do RS. A gerencia da Band na época também não deu muita força para se criar essa cooperativa, mas o fato é que esse projeto está até hoje na Bandeirantes. Daí saí e me transferi de novo para Criciuma e de novo aconteceu o que tinha acontecido em 1991. Só que daí levei comigo o João Nassif, o Roberto Costa e o Pelotinha. E formamos uma equipe. E o time estava mal, muito mal, e no primeiro jogo do campeonato brasileiro apareceu o treinador Edson Gaucho que falou que vinha para ser campeão. Aí os jogadores que eles tinham contratado para formar o time, do dia para a noite eles contrataram um monte de jogadores bons, que dava para confiar neles.  Entao fiz uma reunião com o pessoal da rádio, dizendo: “olha, o Criciúma estréia agora contra o Jundiaí, vamos dizer que é o primeiro degrau, o primeiro jogo do acesso do Criciúma?” Tem um cd que foi gravado com isso. Então o primeiro gol que narrei foi dizendo que era o gol que começaria a levar o Criciúma a ser campeão da série B. Aí passaram uns jogos e o pessoal da cidade foi dizendo que esses caras são malucos, mas o Criciúma acabou ganhando o titulo de ponta a ponta, foi um negocio fantástico. Ainda estou morando em Criciúma, momentaneamente moro lá e aqui.Surgiu o convite da rádio Guaíba e eu achei que era a hora de retornar a Porto Alegre, porque ainda tenho uns anos de narração, não é? Se tudo correr bem, em cinco ou seis anos quero continuar narrando ainda e depois dar o bastão para outros. Mas eu gostaria de concluir a minha trajetória em Porto Alegre, já que não consegui começar aqui.

Entrevista gravada em 1º de novembro de 2011 nos estúdios de rádio da Famecos/PUCRS