Luciane FrancoEntrevista na íntegra

Escute a entrevista do Vozes do Rádio

Nome completo, data e local de nascimento

Meu nome é Luciane Franco, eu nasci em Porto Alegre em 19 de fevereiro de 1967, não se assustem.

Eu queria que você contasse um pouco do começo da tua história, das tuas origens, lembranças do começo da vida:

Na verdade, assim, eu tenho lembranças da minha primeira infância muito pouco, mas eu cresci ouvindo rádio. Ouvia rádio muito e gostava principalmente do Ruy Carlos Ostermann, na Rádio Gaúcha. Então cresci ouvindo rádio com meu pai. Sou aqui de Porto Alegre, mas meu pai era militar e a gente se mudou para Santa Maria quando eu tinha seis anos de idade e fiquei lá até os nove anos de idade. Estudei em um colégio de freiras, reliogoso e tal, depois nós voltamos para Porto Alegre e fui morar em Belém Novo, uma área rural de Porto Alegre, bucólica, aquela coisa gostosa, e fiquei lá durante um ano. Depois voltamos para cá, para a cidade, e foi no colégio público, depois que saí do primeiro grau eu fiz o segundo grau em um colégio público, no Costa e Silva ali no bairro Medianeira, que eu comecei a pensar em fazer comunicação. Foi ali trabalhando com escola técnica mesmo que eu fui pensar em fazer comunicação. Ali surgiu aquela ideia, aquela vocação, os primeiros raios de ideias, mas nada assim, no jornalismo, eu pensava em publicidade, que era uma área que me atraía muito, criar, criação. Mas, mais ou menos a partir dos 14 anos quando eu entrei no Grêmio Estudantil do Costa e Silva senti uma vontade de ser jornalista. Poxa, a política me atrai, aquela coisa de lutar por algum tipo de ideal, por divulgar algum tipo de notícia, divulgar um tipo de ideologia ou de um pensamento.

Só que fui fazer vestibular aqui na PUC aos 16 anos, eu acabei o segundo grau e fiz para publicidade, não fiz para jornalismo. Não passei, e até foi ótimo eu não ter passado porque acabei então mudando o rumo da minha vida. Minha vida mudou completamente. Logo em seguida, quando eu tinha acabado o segundo grau, eu conheci meu primeiro marido. Aos 17 anos, a gente começou a namorar, ele era carioca e aí me levou para o Rio. Então aos 18 anos fui morar no Rio. E aos 21 é que eu fui entrar na faculdadade. Eu até me sustentava, trabalhava em uma financeira lá no Rio e comecei a fazer faculdade paralelamente. O jornalismo, desde pequena, sempre foi o meu ideal.

E nessa primeira experiência, entrando na Universidade, como que você foi se encaminhando para o rádio?

Não tinha assim este encaminhamento. Acho que é uma coisa assim que tu vai entrando na carreira de acordo com as possibilidades que te apresentam mesmo. Não foi uma coisa que o rádio entrou. Eu me dei muito bem durante a faculdade na cadeira de telejornalismo, só que a câmera ainda era para mim um ser estranho, eu tinha muito medo da câmera. Então acho que o jornalismo impresso me atraía. Tanto que quando eu me formei em julho de 91 pela faculdade Hélio Alonso, no Rio de Janeiro, uma faculdade particular, pequena, tinha dois cursos na verdade, jornalismo e turismo, hoje em dia ela já é uma universidade, mas naquela época só tinhas estes dois cursos. Mas então, lá em julho de 91 ao invés de aproveitar aquele mercado todo do Rio, efervescente, onde as coisas aconteciam, em que eu até poderia ter tido uma carreira maior – difícil avaliar agora como teria sido isso – mas, diferente, eu saí e fui para São Paulo, porque o meu ex-marido também foi trabalhar lá. Em São Paulo foi muito difícil, recém-formada, eu não tinha nenhum emprego, então fazia uma assesoria de imprensa informal para a Confederação Brasileira de Canoagem, porque esse meu ex-marido era canoísta. A gente acabava juntando o útil ao agradável, e ia fazendo as coisas meio assim por amor à camiseta mesmo. A assessoria de imprensa dá uma canja, uma experiência impressionante para quem está começando. Então sempre digo para as pessoas “olha não deixa de passar pelos dois lados”, porque a única forma de tu dizer “eu sou jornalista” é tu conhecer todos os lados dentro da tua profissão. Na assesoria de imprensa tu é administrador, gerente, joga nas onze posições, então foi bom porque eu passei por uma assessoria de imprensa, mas não consegui lugar em um veículo impresso. Quando eu voltei para Porto Alegre, depois de seis anos e meio morando fora, é que consegui um lugar aqui. É uma história bem interessante até, que eu vou contar para vocês. Eu voltei no final de 92 para Porto Alegre e não conhecia ninguém, não tinha colegas de famecos nem de fabico, não sabia nem quem eram os deputados, tinha lido quem era o prefeito, ou coisa parecida, era o Collares, na época, o governador, enfim, não conhecia ninguém, nem nada. Era difícil, cheguei na porta da Rádio Bandeirantes e fui levar um curriculozinho e tal, entreguei lá na rádio, ninguém me recebeu, só no RH. No Correio do Povo tive a sorte de pegar o chefe de reportagem saindo de lá, e me disseram ‘ah, aquele ali é o chefe de reportagem’. Pra que né!  Era o Carlos Guimarães o chefe de reportagem. Fiquei uns sete meses insistindo. Ia lá toda semana e insistia: “Guimarães, por favor, deixa eu fazer um teste”. Até que um dia ele me ligou dizendo ‘tu quer aquele teste ainda?’, eu ‘nossa, claro é tudo que eu mais quero’. Eu tava como produtora na Bandeirantes, que eu já tinha conseguido um cargo freelancer lá, e ele me deu a oportunidade de fazer um teste no Correio do Povo. Aí cheguei lá e ele me disse: ‘Tá vendo aquele ponto de táxi ali do outro lado da rua?’ Tu vai ali, entrevista sobre alguma coisa relacionada à política da cidade e depois faz a matéria’. Fui lá, entrevistei os caras, fiz a matéria e ele demorou umas duas semanas para me dar a resposta. Quando ele me deu a resposta, ele falou: Tu foi aprovada, tirou sete’. E aí começou toda minha luta, porque eu tava como produtora freelancer na Bandeirantes, foi um período de uns seis meses que eu fiz aquela produção. Foi a primeira experiência que eu tive em rádio foi na Bandeirantes, mas não tive aquela experiência do rádio, não era completa, porque foi muito rápido, não tive uma experiência que eu pudesse considerar muito proveitosa. Não era uma produção muito completa.

E aí então, eu consegui, depois, estando no Correio do Povo, consegui uma vaga na Guaíba. Era possível. Hoje em dia parece que não deixam mais trabalhar nos dois assim, ao mesmo tempo, mas eu consegui. Então trabalhava no Correio do Povo de manhã, na editoria de Geral, e, à tarde, na Guaíba. Lá, comecei na produção, na Guaíba. Era a produção do Amir Domingues, que fazia o programa Agora, um programa extremamente conceituado. E aí, toda aquela minha paixão por política foi aflorando justamente no programa. Porque era um programa que, tipo assim, atualmente, a gente pode comparar com o programa Atualidade. O Amir entrevistava grandes personalidades e eu fazia a produção de manhã. A produção de colocar no ar, né? Quem fazia a pré-produção, à tarde, era a Eliana Camejo, então nós éramos uma dupla imbatível, porque a gente tinha uma agenda… Nossas agendas, cada uma, eram guardadas a sete chaves. Era nome de ministro, nome de deputados, assim, sabe, de fontes muito… Presidente do STF… Telefones assim de casa, de… Na época não tinha celular né, então a gente tinha telefone até da tia, sabe, de alguém. Então era muito interessante, sabe? Foi um período muito bom. E, além do Amir, eu também trabalhava com o Walter Galvani, que era dois programas pra cada produtora. E então eu fazia produção do Amir e do Walter Galvani. E eu fiquei fazendo produção, olha, de 94, que eu entrei na Guaíba, até… Acho que foi uns oito ou noves meses de produção intensa. Muito, muito interessante aquela produção. E aí pintou uma vaga na reportagem e o Portela, que era chefe de reportagem, chefe coordenador do jornalismo, perguntou se eu me interessava, né? E eu assim: claro, claro que me interessa, né? Fazia reportagem no Correio do Povo, vamos fazer reportagem também na rádio. E aí quando tu começa na reportagem, não para mais. É uma cachaça. A reportagem é uma delícia. Então me apaixonei. E, eu tava falando com o Silvano, que a gente batia máquina. Eu entrei lá na Guaíba e a gente tinha lauda. Era lauda. Carbono. Papel-carbono. Lauda carbonada. Batia máquina. E, olha, demorou bastante pra entrar…. Pros computadores entrarem lá… Acho que um ano depois só… Lá por 95, quando começamos a ter um equipamento mais moderno, vamos dizer. Então, era interessante. Bater matéria rápido naquelas máquinas de escrever antigas, nossa. Bom, pelo menos quando faltava luz a gente não tinha problema, né? Não tinha “ah, saiu do ar o sistema”. Não tem essa. Mas não era fácil porque… Amassava papel, jogava fora, né? E tinha que ser na corrida porque rádio é isso, é instantâneo, né? Mas eu não parei de falar até agora.

Essa é a ideia.

E, conta pra gente, assim, como foi trabalhar com impresso.

Olha, jornalismo impresso é muito interessante. O Correio do Povo é peculiar, né? Porque ele tem um formato tablóide e ele é como se fosse um rádio impresso, sabe? As matérias são curtas, objetivas. Então tu acaba escrevendo, quase a mesma coisa, talvez com um detalhamento um pouquinho maior, óbvio.

Alguma vírgula, alguma coisa….

É. E tem, claro, tu vai colocar no lugar das sonoras transcrito o que o teu entrevistado, a tua fonte, falou. Mas ele tem essa peculiaridade de ser um jornal muito objetivo. Então não notei grandes diferenças do texto do jornal para rádio. Claro, salvo esses detalhes que são técnicos. Tem que botar sonora, tem que botar transcrição. Mas toda matéria de jornal, ela também serve pra rádio desde que adaptada. E o Correio do Povo… Trabalhar em um jornal é muito bom também. Porque tu tem aquela documentação da tua matéria, do que tu fizeste, entende? Olha, foi lá, fez a cobertura toda… No dia seguinte, tá lá e vai estar sempre ali. Até então, até nos termos a internet, termos o jornalismo web, o jornal impresso, ele era o único meio de nós termos um documentário, além das revistas impressas, né? Como se fosse uma prova daquilo que tu fez né?

Vai ficar pra sempre ali.

É. Tanto que era utilizado e sempre vai ser como prova inclusive de processos judiciais, né, porque ele é uma documentação. Prova do que tá lá. Então a gente tinha o nome assinado no Correio do Povo. Fazia certas matérias com o nome ali, assinadinho, repórter fulana de tal, enviada especial, isso aí também é uma coisa que te engrandece muito. Quando a gente consegue uma capa. A minha primeira capa assim… Nossa. Meu nome na capa! Que loucura isso aqui. Fantástico.

Uma sensação muito boa.

É. A gente acaba se conduzindo. Eu não sei se é uma coisa… É uma coisa natural. Eu me conduzi para a política. Eu era setorista da Assembléia Legislativa e do Palácio Piratini. Pela manhã trabalhava no Correio do Povo e a minha chefe de reportagem, Rosane, era muito durona. Eram em média três matérias por manhã. A gente saía com aquelas pautinhas e tinha que trazer de qualquer maneira. Eu aprendi muito com isso. Em todos os veículos que eu passei aprendi demais, o que fazer e o que não fazer. O importante é tu ter a experiência e pode dizer: “Eu aprendi”. A não escrever assim, a não perguntar tal coisa, ter a postura certa em determinadas situações. O jornalismo impresso é uma experiência que todo mundo deveria ter. Quando tu escreve para jornal, tu vai escrever para outro veículo também. Com todas as suas diferenças, como o jornalismo de web, o jornalismo de rádio e etc; mas tu vai conseguir escrever para todos os outros veículos. Esta é uma experiência que não deve ser deixada de lado.

Luciane, em 1999 você assumiu a coordenação de comunicação do DAER (Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem)?

O Daer foi uma coisa interessante, porque eu tava no Correio do Povo e na Guaíba até metade de 98, quando eu saí devido a uma divergência que ocorreu lá e fiquei pensando: “O que vou fazer?’ Vou trabalhar em assessoria de imprensa. Até larguei currículo em outros veículos, mas surgiu a Denise Mantovani, que era a jornalista que coordenava a campanha do Olívio Dutra. Eu levei o currículo para ela, que me falou “vamos trabalhar junto.” A gente acordou isto em dezembro e em janeiro me chamaram e ela me disse: “Olha você tem duas opções”. Me deu dois órgãos e eu escolhi o Daer, mas não sabia que o Daer ira ser a melhor escola da minha vida. Sem dúvida foi minha melhor experiência. Todo mundo sabe que o governo Olívio foi muito polêmico. Não pelo governo, mas como a imprensa tratou o governo. Isto é evidente. Desde o primeiro dia que eu cheguei lá no Daer, nós éramos apenas seis CC’s em um departamento de dois mil e seiscentos funcionários públicos. Era um departamento enorme. Então a gente sofreu muito preconceito dentro, do tipo: “são os invasores e querem mandar”. Eu nunca tinha sido servidora público, estava sempre do outro lado. Cobria o serviço público, mas nunca tinha estado nele. E, quando entrei no Daer, apanhava dos veículos, porque todas as matérias que a gente enviava um release ou montava uma coletiva, eram interpretadas de outra forma. Foi onde eu aprendi o jornalismo do outro lado. Como é estar em uma assessoria de imprensa, escrever “X” e ler “Y” no dia seguinte. Depois de alguns meses a gente começou a acostumar, trabalhar até a uma da manhã, sábado e domingo, gente ligando de todo o Rio Grande do Sul, para o telefone funcional. Tinha que ter o telefone ligado vinte e quatro horas, porque o Daer é um departamento que cuida de estradas, pardais, rodoviárias, pedágios, construção de estradas, duplicação e tudo mais. É um centro de tudo. Você tem um milhão de coisas para fazer e quatrocentos e noventa e sete municípios que têm algum interesse nas rodovias. Então é a rádio local de ligando te cobrando matéria ou entrevista, e foi assim uma grande experiência do Daer para mim. Ele me deu noção de o que é um Governo, como é que ele funciona, onde nem tudo é possível quando se quer fazer. Tem limitações burocráticas, de orçamento, políticas. Também tive a noção de como é que funciona uma assessoria de imprensa grande. Eu era coordenadora de duas estagiárias apenas. E nós respondíamos para um departamento de três mil pessoas subordinados a Secretaria dos Transportes, na época do Beto Albuquerque. Tinha uma outra assessoria de imprensa, e nos trabalhávamos juntas. Além de prazeroso que foi trabalhar com pessoas competentes, colegas e secretários, trabalhei com o Ederaldo Caron que era o Diretor-Geral do Daer, que depois trabalhou no DNIT do Governo Lula. Eram pessoas muito competentes e foi muito bom trabalhar lá. Fiquei lá do primeiro mês até o ultimo dia do Governo Olívio. A gente costuma dizer que a gente apanhou, mas foi muito bom.

E por que o retorno ao rádio?

Porque eu saí do DAER. E o pessoal fala em esquerda e direita. A política tem dois lados. Eu aprendi recentemente, numa aula magna do professor Fabio Comparato, que não tem centro. A política tem ou esquerda, ou direita. Então, a gente também tem lado. Eu não sei se vocês alunos ouviram nas aulas de ética que o jornalismo tem que ser imparcial. Não existe jornalista imparcial. Eu não posso ser imparcial se eu gosto ou não gosto de água, se eu gosto ou não de Coca-Cola, cerveja. Tudo tem um gosto. Então, a gente não pode ser imparcial, a gente tem que saber dar a opinião própria na hora certa ou não dar tua opinião. Eu não vou ser imparcial. Eu posso aqui não influenciar ninguém a gostar de água, ou de cerveja. Mas eu posso muito bem ter o meu gosto e falar só de cerveja.

Mas tu não achas que o mercado procura jornalistas imparciais, hoje em dia?

Não. O mercado procura o jornalista que está adequado com a linguagem do mercado. Não exatamente imparcial. Ele não está olhando o teu lado, mas se tu mostra um lado no mercado, ele vai acabar te identificando. Então isso era o que eu queria dizer pra ti: eu saí do DAER com uma identificação. Eu trabalhei em um governo de esquerda. Mas por incrível que pareça; isso pode até parecer estranho, um mês e meio depois, eu conversando com o André Machado, um colega da Rádio Gaucha, ele disse “olha, vamos fazer um freelancer no Carnaval?”, eu disse “vamos.” Eu cobria Carnaval pelo Correio do Povo, a Guaíba não dava o Carnaval, era mais o Correio do Povo, e tinha bastante experiência de ir para a avenida e fazer matérias. Daí, comecei a fazer freelancer na Gaúcha pela cobertura do Carnaval. E me diziam “tu foi para a Gaúcha, para a RBS, depois de trabalhar no governo Olívio (Dutra)?” Eu sou profissional, vou pra onde tiver lugar. Eu não preciso dar o meu lado político nas matérias que eu faço. Até porque não tem nada a ver, não diz respeito ao meu lado político. Eu penso que o jornalismo é a procura da verdade, não é da minha verdade, é da verdade do fato. Então, vou retratar o fato, vou relatar o que está ali, independente de eu ter um lado ou não. Depois que eu comecei o freelance na Gaúcha, que foi de 2003 até 2007, até julho ou agosto de 2007. Eu passei por várias situações lá em que não foi preciso dizer que eu era esquerda, as pessoas me identificavam. “Ela trabalhou no governo Olívio.” Até, às vezes, brincavam, coisas assim. Tudo bem, não tem problema nenhum. Mas isso não quer dizer que eu vá levar essa minha experiência, a minha ideologia e a minha crença política para a matéria. Pelo contrário.

Tu não creditas talvez uma  certa hipocrisia do jornalismo em acreditar que a imparcialidade que é pregada seja por uma descrença de que o ouvinte, ou o tele-espectador, ou que a pessoa que vai consumir essa notícia te exija isso?

É complicado responder a isso. É complicado julgar e dizer que é hipocrisia. Eu vou te dizer que é uma contradição. Acho que isso é uma contradição. A gente tem essa busca pela verdade, mas ao mesmo tempo não estamos sendo muito honestos com o leitor, o ouvinte, ou o tele-espectador, quando a gente não mostra para ele todos os lados. Porque nós temos uma hegemonia aqui no Brasil de veículos e essa hegemonia muitas vezes cria fatos. Muitas vezes, o fato que não sai na imprensa, não existiu, não aconteceu. Apesar de, muitas vezes, ele ser extremamente importante, ele tem repercussão na vida das pessoas, um impacto incrível na vida das pessoas, mas se determinados veículos não deram, ele não existiu. Então é muito difícil dizer que é hipocrisia, mas isso também tem a ver com técnica de marketing, tem a ver com interesses econômicos, de vendagem, de veiculação. A gente não pode ser ingênuo de achar que vai sair sempre a verdade ali. Muitas vezes pode ser que o teu texto seja editado, seja cortado, tua matéria pode não entrar no ar. Por “n” motivos, muitas vezes não explícitos, até por critérios técnicos, como o tempo, a matéria é grande, a sonora falhou, mas existem detalhes e circunstâncias econômicas também. Interesses que não são só ideológicos. Não posso dizer que é uma hipocrisia, mais uma contradição.

Conta pra gente quais foram as coberturas que mais te marcaram na tua carreira jornalística?

Cobertura como repórter, as maiores foram as políticas. Mas tiveram coberturas muito interessantes. Eu estava na Guaíba e essa foi a cobertura mais incrível que eu tive, eu era repórter de geral, mas também de rural, e tudo o que era matéria de rural eles davam pra mim, destinavam a mim a pauta de tarde. Eu cuidava muito da área de reforma agrária. Eu me dava bem com os líderes do MST, alguns líderes do MST que até hoje não falam com repórteres da RBS. O Movimento tem essa coisa de não falar com a RBS. Não interessa se tu é esquerda, ou direita, se gosta, ou não gosta do Movimento, se simpatiza, ou não, eles não falam contigo. Mas eu era da Guaíba na época, então eu fui cobrir uma invasão de terras em Camaquã. Eu fui para o Correio do Povo e aproveitando que estava na Guaíba fiz a cobertura também. Existia essa possibilidade de trabalhar em rádio e jornal, já que a gente trabalhava nos dois. Então, os dois chefes de reportagem acordaram e eu fui. Chegando lá, eu fui recebida pelos líderes, mas era uma situação tensa. A polícia tinha a intenção de desocupar a área. Eu não me lembro se eram agricultores de arroz ou de soja em Camaquã, mas eles estavam protegendo as terras deles do outro lado do rio, um lago na verdade. Não me lembro se era a Lagoa dos Patos. E fui entrevistar um líder desses do MST, e estava num final de tarde, eu estava gravando com um gravador e de repente começamos a ouvir uns estampidos. Estavam atirando em nós. Então foi muito interessante. Eu gravei as pessoas perguntando se era tiro, eu me joguei no chão e comecei a narrar, “olha, eles estão atirando em nós”. Tenho a gravação até hoje. Essa foi uma cobertura muito legal, porque depois tu sai tremendo.

Nessas coberturas mais perigosas se ia equipado com coletes a prova de balas?

Não, não. Olha, eu tenho um anjo protetor, um santo protetor daqueles.

É muita oração mesmo?

Muita oração. O máximo que tu tem são uns colegas mais experientes que te dão umas dicas e tal.

Uma das melhores coberturas foi quando eu era freela da Gaúcha, na volta do menino Iruã, em 2004. Ele tinha sido sequestrado pelo pai e foi levado contra a vontade da mãe. Depois de muita negociação, voltou. Quando ele chegou ao aeroporto, nós armamos um esquema. A Gaúcha armou uma super cobertura. O Zé Aldo Pinheiro ficava comandando toda a programação, que era de noite. Eram vários repórteres em vários pontos. Nós saímos do aeroporto a 160 km/h atrás da viatura da polícia federal até Canoas. Aí tu fica segurando no cinto de segurança e rezando para chegar inteiro no lugar da cobertura. Foi uma das primeiras vezes que eu fiz ao vivo e tinha um microfone sem fio. Eu muito inexperiente pensei “O que eu faço?”.

Pelo fone de ouvido ouvia a Nelcira Nascimento dando um boletim ao vivo do local, mas de outro ponto da rua. Quando a operadora falou que eu era a próxima, entrei dizendo que o microfone não estava ligado e que eu só ouvia a Nelcira falar “blablabla”. Depois ela foi me cobrar por ter falado isso no ar. Pô, que furo.

Mas a gente aprende, fazendo. Por isso, a gente tem que aprender na prática. Depois, fui fazer coberturas muito boas, que levam a gente a pensar na vida. Isso é o que eu acho que o jornalismo tem de melhor.

Na cobertura do dia a dia, não são só coisas boas. Vemos mortes, tragédias e isso faz com que a gente tenha outra dimensão da vida. Olhar para a vida e ver como ela tem valor e como tem coisas por trás que a gente não imagina.

Fui cobrir rebelião em presídio, tendo que dar notícia para a própria mulher do presidiário, dizendo que ele estava morto. É complicado de lidar com esse lado humano do jornalismo.

Fui fazer cobertura política, onde tu tens que olhar na cara de um político e perguntar se ele usou dinheiro público e receber um não olhando nos teus olhos, mas tu sabe que sim. Então é difícil, mas tudo é experiência.

Fiz várias coberturas políticas de eleição. Elas te dão uma velocidade. A cobertura ao vivo no rádio te dá agilidade. Tanto é que os repórteres de esporte são aqueles que mais têm sucesso na rádio, mesmo porque eles têm aquele traquejo do ao vivo. A cobertura ao vivo te dá segurança no rádio. Não tem essa de falar besteira. Enquanto tu estas com o microfone ligado, vai narrando e o que vê na frente. Depois acabei sendo apresentadora de rádio.

Quando tu foste apresentadora?

Na Gaúcha, o André Machado teve a belíssima ideia de que todos os reportes deveriam ter oportunidade de serem apresentadores. Estavam querendo formar novos comunicadores. Eu participei da primeira turma do curso Formação de Comunicadores da Rádio Gaúcha. Foi feita uma seleção, eu fui a única mulher que passou na prova. Foi eu, Daniel EscolaJosimar Farina e o Bonatto. O Bonatto não sei onde está agora, mas os outros dois continuam na Gaúcha.

A gente fez aulas de fonoaudiologia, ciências politicas, onde personalidades nos explicavam como funcionava o Poder Judiciário, Poder Legislativo, Ministério Público. Foi bem legal, porque a partir dali eu fui preparada para ancorar programas, sem nenhum tipo de conotação política.

Ninguém nunca me disse dentro da RBS para agir assim ou assado. Muito pelo contrario, eu tinha muita liberdade para me expressar.

Foi me dada a oportunidade de apresentar um programa diário na Rádio CBN, que faz parte do sistema Globo de rádio e que, em Porto Alegre, só tinha, na minha época, um programa diário e ao vivo, que era o CBN Porto Alegre, das 9h30 da manhã ao meio dia. Duas horas e meia falando.

Nós tínhamos uma produção que era feita basicamente por estagiários. Muitas vezes chegavam estagiários que não sabiam a diferença de um deputado para um vereador. Tínhamos que ter toda paciência, mas era muito interessante, pois tinham quatro ou cinco entrevistas por manhã e a gente tinha que fazer por telefone. Foi uma experiência maravilhosa.

Na metade de 2007 eu saí da Gaúcha e da CBN. Uma leva de pessoas saiu por mudança de perfil. Tinha 40 anos na época e eles queriam um pessoal mais jovem, que tivesse uma formação mais dirigida. Aquilo foi importante, porque eu passei para outro ciclo da minha vida. A nossa profissão é feita de ciclos. A minha vida foi feita de quatro em quatro anos. Coincidentemente, a politica também é feita de quatro em quatros anos, mas não foi paralelo ou concomitante a nenhum governo.

Depois de ter trabalhado quatro anos na Gaúcha, saí para fazer assessoria de imprensa de dois sindicatos, que foi uma experiência também muito boa. Trabalhei no Sindicato dos Aposentados e Pensionistas do Estado. No acidente da TAM, quando morreram as Velhinhas Tricoteiras, que lutavam pelo pagamento dos precatórios, e junto com elas a assessora de imprensa. Eu pensei na época em oferecer minha assessoria depois de um tempo, mas não precisou, pois eles me acharam através de algumas colegas. Três meses depois eu estava lá. É um sindicato enorme, com quase 10 mil associados. A gente fazia jornal e toda a parte de acompanhamento com entrevistas coletivas, media training – que é uma coisa muito interessante.

O outro era o AFOSEF, Sindicato dos Técnicos do Tesouro e também dos Servidores Públicos. Muito bom, com grande qualidade e um trabalho muito combativo. Então, voltei à política.

Tive que sair em maio 2010 por uma grande alegria, quando o João Ferrer, atual coordenador da bancada do PT na Assembleia Legislativa, perguntou para a Denise Ritter se tinha alguém para indicar para o rádio durante a campanha do Tarso Genro. Eu sempre quis trabalhar em campanha politica, mas nunca pensei em ser contratada oficialmente por uma produtora. Quando me chamaram para o cargo de coordenadora de rádio da campanha do Tarso Genro, claro que aceitei uma honra dessas na hora.

Então foi a primeira vez que eu fiquei do lado de trás do rádio, nos bastidores. Então coordenei a parte toda de produção, de veiculação, edição…

Mas tu prefere a produção, o lado de trás dos rádios, ou tu prefere a reportagem mesmo?

Olha, é uma coisa bem difícil. Eu adoro produção e adoro reportagem. Acho que quando a gente faz rádio web, que eu faço agora lá no palácio Piratini, a gente faz um pouco de tudo: a gente produz e reporta mesmo, sabe? Então é completo. Eu gosto dessa coisa da produção. Sempre gostei de produção porque te dá uma adrenalina, tem um pique, um timing assim muito diferente de jornal. A produção de rádio, ela é corrida. No radio diário, tu tem que tá com o momento certo, tem que tá com tudo lá em cima pra não dá um furo na programação da rádio. Não deixar um branco durante a programação da rádio… É uma rádio de dial. Agora uma rádio web, como é atualmente eu trabalho, ela te exige um novo tipo de linguagem, que mistura o rádio, o jornal, que mistura aquela coisa da modernidade. Não pode ser extenso demais nem muito objetivo pra não perder detalhes da matéria, mas ao mesmo tempo tu tem que fazer um pouco de tudo: produção… É legal, eu gosto disso, não tem como optar. Tanto que quando me convidaram pra trabalhar na rádio web do Palácio Piratini, a gente sabia que não ia ter uma chefia, exatamente. Uma coisa assim, olha o fulano vai ser isso, vai ser chefe, o outro vai ser produtor. Não, nós vamos jogar na zone isso também, isso vai ser muito legal.

E, Luciane, com toda a tua trajetória, qual que você acredita que foi o maior desafio da profissão de jornalista até hoje?

Eu acho que o desafio foi entrar no serviço público. Porque eu sempre cobri o serviço público pelos veículos e a gente tem uma noção muitas vezes equivocada de que é possível isso ou que não é possível aquilo ou que todo mundo é corrupto ou que todo mundo não quer trabalhar. E não é assim. Eu tive gratas surpresas no DAER quando eu trabalhei lá. Vi muita gente esforçada, muita gente trabalhando pro bem-estar da população. Muita gente com interesses realmente nobres, sinceros de trabalhador no serviço público e com boa-vontade. E também encontrei pessoas que não tinham boa-vontade. Então conheci um outro lado. Acho que um dos desafios pra mim foi trabalhar como gestora na parte do serviço público. Fazendo uma gestão e podendo ter, sob minha responsabilidade, todo um conhecimento, a divulgação dum trabalho importante pra população como é uma estrada, como é um acesso à rodoviária ou uma praça de pedágios, né? E assunto, assim, polêmicos. E tratar com os colegas e saber respeitar o colega que tá me ligando, que tá me pedindo uma pauta. “Eu quero uma entrevista, eu preciso uma entrevista sobre tal coisa, eu quero uma informação sobre tal coisa”. Não deixar ele esperando. Então, cada situação é uma experiência diferente. Essa do serviço público eu te digo assim ó: foi a que complementou a minha vida profissional porque eu pude usar a experiência que eu tive no veículo com a experiência de assessoria de imprensa e dizer: bom então eu sei que esse meu colega tá precisando dessa informação pra ontem. Por que? Porque ele tá com o chefe de reportagem ali, porque tem um horário de fechamento tal, porque vai entrar no ar e tal coisa. Ou ele ficar ligado nos veículos, enfim na rádio que tá ligada ali com uma entrevista com o teu chefe e tu tá passando a informação correta. Ou que a rádio não tá com a informação correta e tu correr atrás, ligar, no ar, “olha, o Lasier não tá com a informação correta. Dá pra tu passar aqui? Aqui é a assessoria de imprensa. Tô dando uma informação assim. Tecnicamente é isso e isso e isso”. E tu dizer, olha né, impacialidade. Tu vai tentar passar pra eles lá? Sim. Vai tentar passar pra eles a informação. Mas é que, como te falei no início, ninguém é imparcial. Nós temos um lado. Então, eu tava num governo de esquerda, foi uma experiência muito boa por causa disso também né: porque a gente vê o outro lado. O maior desafio foi esse: estar num governo de esquerda e tentar trabalhar no serviço público.

Vou deixar tu tomar uma aguinha pra calibrar.

Ah, ótimo.

(risos)

Eu queria saber, Luciane, como tu freqüentou tanto o jornalismo por um veículo privado quanto pelo meio público, eu queria que tu explicasse se existe alguma diferença, como é que é transitar por esses mundos, se são mundos diferentes ou talvez muito mais semelhantes…

Não, eles são bem diferentes. A diferença entre o público e o privado é gritante, não é só por causa da qualidade dos equipamentos que tu encontra dentro dum veículo de comunicação, mas também porque o serviço público é cheio de limitações. Então tu pode chegar muita vezes com uma série de objetivos e metas, vontades e idéias e esbarra muitas vezes. E claro, tem que ser assim em muitas situações. Porque o dinheiro é público. E se der errado ali, deu errado e vai ser cobrado em termos de uma lei aí ou de um processo em cima de ti. Então muitas vezes tu chega com idéias e não consegue colocar elas em prática porque tem a tal da burocracia, do impedimento político, outros interesses… Já no meio privado, é diferente porque tu não te incomoda com essa parte de gestão. Não tá preso à parte de gestão. Na verdade tu não tem nem a ingerência de determinar certas coisas, tu vai lá e faz. Eu trabalhei sempre como repórter nas empresas privadas. Ou como apresentadora. Nunca tive a oportunidade de ser gerente de jornalismo. Talvez eu pudesse ter pensado o veículo de outra forma. Mas trabalhei sempre como repórter. E me lembro de situações quando eu tive ideias de querer mudar o veículo ou dar uma ideia pra melhorar certa coisa, e esbarrar no interesse da empresa. “Olha, a empresa não quer isso agora. Pra empresa não é interessante nesse momento esse tipo de ideia. Ah, não isso aí acho que não quero, não vamos trabalhar assim.” No setor privado, é mais objetivo. No setor público não, tu tem, por causa disso que falei, do interesse político, da burocracia, até dos interesses econômicos ali no meio, é mais difícil de levar adiante certas ideias. Mas acho que o serviço público se melhora. A cada governo que entra, e acho que essa alternância é muito positiva na política, são novos colegas, com novas ideias. Então algumas coisas vão mudando e vão se aperfeiçoando. A diferença tá exatamente nisso aí. Dez anos depois, eu voltei pro serviço público. Do governo Olívio, lá em 2002, para agora, governo Tarso. São totalmente diferentes os cenários. Político… Dessa vez, a gente não tá apanhando. Porque eu acho que o Rio Grande do Sul também, ele aprendeu a fazer jornalismo um pouco mais de verdade. Ele foi aos poucos vendo que aquele tipo de jornalismo, aquele sim era jornalismo parcial contra certo governo, não teve resultados positivos pra ninguém. O estado perdeu com isso. Porque na época, se nós tivéssemos o mesmo apoio que nós temos hoje, talvez, financeiramente, o estado estivesse melhor. Economicamente, no desenvolvimento… Mas, enfim, agora, dez anos depois, eu volto ao serviço público e encontro um cenário completamente diferente. De mais qualidade. Vejo que as pessoas que tão trabalhando lá também encaram com mais profissionalismo. Existe essa transferência de profissionais do setor privado e do setor público. Muita gente que trabalhou em veículo tá hoje em serviço público e vice-versa. Existe um rodízio muito grande. Nossa profissão é muito assim. Numa hora tá em certo lugar, numa outra tá outro. De repente um cara que é teu chefe já é teu subordinado no outro. Existe uma rotatividade muito grande. E isso é uma coisa muito positiva também, porque vai agregando, vai levando melhorias, enfim, pra tua profissão e pra quem vem depois também, quem trabalha junto. Hoje nós trabalhamos dentro da Secretaria de Comunicação do governo Tarso Genro com muita qualidade. Nós temos um estúdio profissional de rádio, temos um estúdio profissional de TV, operadores de áudio, temos técnicos de áudio, temos estagiários, repórteres profissionais, editores profissionais, computadores de última geração, então a gente tem qualidade. Consegue fazer um jornalismo web muito bom, de alta qualidade, aproveitável por todos os veículos interior.

Então hoje em dia tu diria que a qualidade do serviço público e do serviço privado estão semelhantes?

É, hoje em dia acho que a situação tá bem mais parecida nos dois a nível de qualidade. Eu não conheço todos os veículos privados de Porto Alegre pra te dizer, ou do Rio Grande do Sul. Mas sei que a qualidade do serviço técnico tá muito parecida, muito semelhante. Com essa rotatividade toda da nossa profissão, os profissionais que saem do meio privado já saem com uma técnica…

E a qualidade da informação do serviço público e do serviço privado, tu acha que é a mesma?

Não, eu acho que não. Acho que a qualidade tem uma diferença. Não é nem bem a qualidade, mas acho que é o tipo, o formato. Porque eu não posso dar, digamos,  uma matéria só com um lado no serviço privado. Eu vou sempre ter que ver os dois lados. Jornalismo básico: ouvir os dois lados. O problema é quando a gente tem no serviço público uma intenção de dar um lado só. Matérias informativas de um lado só.

Bom, então parece que encerrou o nosso tempo. Ah, não, nos deram mais uma. Bom, pra encerrar, então, eu queria que tu falasse um pouco, com toda a tua experiência, como que tu diria que é a arquitetura do jornalismo? Como tu qualifica a nossa profissão, o que tu podia deixar de mensagem pra nós, por exemplo, que estamos nos encaminhando pro mercado?

Primeiro: não existe imparcialidade. Isso é uma coisa que é uma ilusão. Sejam parciais, mas honestos. E a busca da verdade tem que ser o principal motivo do jornalismo. Seja ela onde ela estiver. Como vocês vão tratar dessa linguagem, ou dessa verdade, isso depende da experiência de cada um e da ética de cada um, mas que ela existe e é uma só é o fato. Isso aí é inegável. E eu acho que uma das outras coisas que gostaria de dizer pra vocês é assim ó: não sejam ingênuos de pensar que jornalismo, ele é romântico. Ele não é romântico. Ele é uma profissão dura. Uma profissão séria. Uma profissão que exige suor, exige sangue da gente, exige sábado e domingo, muitas vezes tu deixa a família de lado, muitas vezes tu esquece de ti mesmo. Trabalha doze, quinze horas pra ganhar pouco. Mas existe uma compensação pra quem acredita que pode também mudar um pouco esse dia-a-dia do mundo, existe uma compensação que é tu estar contribuindo pra dar uma certa iluminação, vamos dizer assim, nas coisas, quando tu mostra o que que tá acontecendo. Eu acho que nada melhor prum repórter, prum jornalista, de ter o resultado dum trabalho. Eu me lembro de uma matéria que fiz num asilo, muito pobre o asilo, lá perto de Viamão, e essa matéria me rendeu frutos. Foi muito singela a matéria, mas os frutos que ela me rendeu foram cartões recebidos dos idosos me agradecendo porque aquela matéria mudou alguma coisa. Então, quando a tua matéria muda uma realidade, eu acho que tu tá no caminho certo.

Entrevista gravada nos estúdios FAMECOS, em 20 de março de 2012.