Antônio Carlos ResendeLocução Esportiva

Mas o que realmente marcou a carreira de Antônio Carlos Resende foram as narrações de partidas de futebol. Ele até criou uma técnica que se assemelha às notas musicais para narrar um jogo. No Rio Grande do Sul, os locutores faziam a narração diagonal, que eram dois locutores, cada um de um lado. Quando a bola passava do meio do campo, o outro locutor já pegava a transmissão. Eles imitavam Jorge Curi, que era um grande locutor do Rio de Janeiro, além de Antônio Cordeiro, Ari Barroso, e o Antônio Maria. Desta forma, Resende queria um estilo próprio de narrar. Até que um dia ele andava falhando sua voz e resolveu ter aulas com o professor chileno Henriques, que fazia escala musical. “E aí me deu o estalo. Se existe essa escala musical, eu posso transmitir com escala musical que seria uma novidade. Então eu começava a transmissão em voz grave, o dó, e ia subindo à medida que a partida ia se desenvolvendo e ia ganhando certa emoção. Esse é o estilo “dó ré mi”, afirma ele. À medida que o jogo ia crescendo em emoção a voz também subia até o agudo, tinha que ter treino para garantir o agudo lá em cima.

Com esse estilo, Resende narrou vários jogos importantes durante toda a sua carreira. Mas um dos jogos mais emocionantes que ele se recorda foi na Copa do Mundo de 1962, na partida Brasil e Espanha, em Viña del Mar. Se o Brasil perdesse para a Espanha seria despachado e todo mundo voltaria para o Brasil. O radialista relata: “Aquele jogo foi emocionante. A Espanha saiu ganhando de 1 a 0. Garrincha fez uma grande jogada, empatando, e Zagallo fez 2 a 1. Continuou-se a Copa do Mundo e acabamos sendo campeões”. A respeito dessa Copa, Resende conta uma história interessante. Segundo ele, Lauro Quadros era um dos repórteres da Rádio Guaíba e o Flávio Alcaraz Gomes era o organizador de todas as jornadas de som. Mas o Flávio ficou tão emocionado quando o Brasil ganhou a final da Tchecoslováquia por 3 a 1, que pegou o microfone do Lauro Quadros e começou a entrevista: ‘aqui está Amarildo, grande jogador, decisivo jogador da Copa do Mundo. Parabéns, Amarildo! Ganhamos a Copa do Mundo!’ Aí o Amarildo, chorando respondeu: ‘eu não sou o Amarildo, eu sou o Zagallo’ “.

Já em termos de Grenal, Resende vê como o mais importante da sua carreira uma partida que não contava para a classificação geral para o campeonato, pois o Internacional já era campeão. “Eu não me lembro exatamente a época, foi pelos anos 50. O Internacional estava ganhando de dois a zero, nos Eucaliptos. Foi expulso o jogador Altemir do Grêmio. E o Grêmio com dez homens empatou, fez o primeiro gol e ganhou a partida no final. Sob o ponto de vista de emoção foi uma partida realmente emocionante. Foi um Grenal espetacular mesmo”, relembra.

Narrando tantas partidas, Resende, obviamente, fez amizade com alguns jogadores, principalmente do Grêmio e do Internacional. Ele se dava com os jogadores pelo fato de que nas viagens que fazia para o interior a fim de radiar as partidas, ele e os esportistas acabavam ficando no mesmo hotel, almoçando e jantando na mesma mesa e, assim, conversando. “Eu me dava muito bem com o Airton Ferreira da Silva, me dava muito bem com o Ortunho, me dava com o Ênio Rodrigues, com o Gessi, Milton,famoso jogador que veio de Uruguaiana e jogou no Grêmio. Me dava com o Vieira.. Me dava com os jogadores do Internacional, com o Larry, com o Bodinho, com o Jerônimo e com o principal centromédio, o Salvador, sobre quem hoje ninguém se manifesta.”, enfatiza.

Ainda falando de futebol, Resende observa alguns fatos sobre a locução esportiva gaúcha. Para ele, por exemplo, o jornalista Mendes Ribeiro, com pouca voz, mas bastante esperteza e fantasia, foi o locutor esportivo mais ouvido e popular do seu tempo. “Não tinha voz muito clara, tinha pouca voz, mas era muito rápido, muito inteligente muito esperto”. Depois vieram os seguidores dele, como o Pedro Pereira, Luís Carlos Prates e Pedro Ernesto. Mas, na sua opinião, o último locutor esportivo que dava para ouvir nos recentes anos era o Armindo Antonio Ranzolin. Esse profissional, na visão de Resende, tinha o principal fundamento: a voz.

Resende também lembra do melhor locutor gaúcho de todos os tempos na sua opinião, que era Rui Figueira. “Quando era menino ouvia o Rui na rádio Farroupilha no Repórter Esso. No tempo da guerra, ele trazia a guerra pra dentro de casa, aquelas coisas terríveis, “bombardeio dos aviões”, gritando, falando com a voz clara, penetrante.”, recorda.

Já falando de comentarista gaúcho, o destaque de Resende vai para Ruy Carlos Ostermann. Resende enfatiza que o comentarista no início servia apenas para o locutor descansar no intervalo. Mas, para ele, quem entre todos conferiu dignidade, que deu status ao comentário esportivo foi Ruy Carlos Ostermann. “Ele chegou em Porto alegre com um breve sotaque alemão, de colono. Alguns tiques que ele assimilou de um brilhante professor de filosofia”, recorda. E enfatiza: “eu acho que ele não vai se recordar, mas eu disse para ele: ‘Bom, Ruy, pára com esse teu sotaque de São Leopoldo, e articula mais claro. Diz Internacional no lugar da rapidez “internacional”, acaba se ouvindo “interal”. Dicção. E vá em frente’, porque o Ruy foi um dos maiores improvisadores do rádio brasileiro.”

Apesar de ser gremista, Resende afirma que quando entrava numa cabine para irradiar futebol. era um locutor totalmente imparcial, a ponto de dizerem que ele era colorado.

Além disso, ele critica a mania dos locutores gaúchos torcerem para o Grêmio ou para o Internacional nos jogos contra os times de fora. Para ele, isso é uma faca de dois gumes, pois pode estar alegrando a torcida do Internacional que seca o Grêmio ou vice-versa. Tem que haver imparcialidade.

Para finalizar, na opinião de Resende, as características fundamentais para um bom locutor de partida de futebol são: voz, precisão, rapidez, não perder jogada, não atrasar jogada, bola de pé em pé, jogo de metro a metro, localização do jogador e das jogadas, entusiasmo, fusão de sentimentos e imparcialidade.