João Batista MarçalApresentação

João Batista Marçal nasceu no município de Quaraí, interior do Rio Grande do Sul, em 4 de novembro de 1941. A trajetória deste quaraiense revela uma atuação intensa como radialista, sindicalista e pesquisador da história da imprensa operária no Rio Grande do Sul. O primeiro contato de Marçal com o rádio se deu ainda em Quaraí. Nessa época, “já se sentia uma homem de esquerda”. No início dos anos 50, atuava como líder estudantil secundarista e utilizava o espaço cedido em uma emissora local para defender as idéias dos estudantes. “Era apaixonado pelo anarquismo”, confessa, explicando, que “é a última etapa da revolução”. Até os posicionamentos esquerdistas ficarem mais fortes, era visto pela elite econômica do município como um menino prodígio, com, então 17 anos. No entanto, as pessoas que o idolatravam mudaram de opinião quando ele passou a criticar a “mentalidade atrasada” dos estancieiros da região.WP_20160511_003

Tudo ocorreu muito rápido. Quando organizou e participou da primeira greve geral dos trabalhadores do município e também da greve estudantil, as coisas mudaram. Ele e os estudantes tomaram a escola por uma semana, após a diretora que incentivava a liberdade e discussão de ideias e pensamentos, ter sido retirada do cargo pela burguesia de Quaraí. Marçal lembra que nessa época a classe trabalhadora, estudantil e camponesa lutavam juntas por melhorias na educação e  nas condições de trabalho. Nesse período, começa a luta pelo abono salarial. Ele também organizou protestos com a união estudantil, pois só podia entrar na escola com uniforme. “Como comprar uniformes, se não dinheiro para comer os estudantes tinham”, questiona. Para ajudar, Marçal fez campanhas populares nas rádio,  rifas e organizou bailes. Esses episódios contribuíram ainda mais para que ele se tornasse uma figura indesejada na cidade. As portas foram se fechando para o comunicador que não conseguia emprego, nem era aceito em nenhuma escola. Ele chegou a ser excomungado pelo padre durante o sermão da missa dominical.

Com fama de rebelde, Marçal não conseguiu mais encontrar emprego em Quaraí. Assim, decidiu tentar se estabelecer em Porto Alegre. Os primeiros meses fizeram Marçal confrontar-se com uma dura realidade: na capital, o “menino prodígio de Quarai” era apenas mais uma pessoa sem qualificação profissional na “cidade grande”. As dificuldades levaram Marçal a se tornar um metalúrgico no início dos anos 60. O retorno ao jornalismo foi possível através do sindicato. Por algum tempo, João Batista Marçal escreveu textos para o jornal da categoria. Em seguida, ele seria contratado pelo jornal Zero Hora. Foi nesse periódico que deu inicio à cobertura de fatos policiais, marca de sua carreira como jornalista popular, onde atuou por 40 anos. O acidente de um trem no município de Candiota reaproximou o comunicador do rádio.

A Rádio Gaúcha não tinha enviado nenhum repórter para acompanhar o caso do descarrilamento do trem. Sem alternativa, a solução foi pedir que Marçal relatasse ao vivo os principais acontecimentos do episódio. Marçal cumpriu o que lhe foi pedido. A direção da emissora gostou tanto do resultado que o contratou como repórter da Rádio Gaúcha. Além da atividade de radialista, Marçal passou a ter forte atuação no sindicato dos radialistas. Esta segunda atividade contribuiu para que o comunicador perdesse diversos empregos por defender claramente suas idéias no ar.

WP_20160511_002Marçal trabalhou em mais de 10 rádios da capital. Na Caiçara, ele atuou em seis oportunidades. Consolidou-se como radialista popular de grande prestígio. No entanto, a popularidade no auge da ditadura militar não o livrou de ser preso 27 vezes, enquadrado na lei de segurança nacional 4 vezes. Mas ele não permaneceu muito tempo preso o que o faz ser grato ao seu advogado e amigo Nereu Lima. Porém o radialista chegou a ser torturado em algumas oportunidades e esse período trouxe marcas tanto politicas – devido às prisões e por ter se tornado “sujo” por muito tempo, devido às acusações – e na vida pessoal do radialista, que perdeu dois casamentos. As torturas também deixaram marcas físicas no comunicador que perdeu parte dos movimentos do braço esquerdo.O radialista chegou a ser torturado em algumas oportunidades. Hoje, Marçal pesquisa a história da imprensa operária no Rio Grande do Sul. Apesar de estar afastado dos veículos de comunicação, o radialista declara ser um apaixonado pelo rádio popular. Um homem rebelde: é assim que Marçal diz que gostaria que as novas gerações lembrassem dele.

Em sua carreira como historiador, Marçal se sente feliz por inaugurar o que ele chama de “uma escola”. Ele foi pioneiro ao retratar na década de 80 as lutas operárias do Rio Grande do Sul. Ao todo, tem 20 livros e seis dedicados inteiramente à questão social. É dono orgulhoso de uma Hemeroteca onde reúne todas as coleções de jornais de esquerda do Rio Grande do Sul no século XX, e alguns de um pouco antes desse período.

Hoje Marçal está aposentado, recebe duas aposentadorias: uma como trabalhador pelo INSS e outra por razões políticas devido à participação na luta contra a ditadura militar. Ele usa esse período de descanso, para se dedicar ao trabalho intelectual como historiador, atuando em novas obras e dando palestras sob o titulo de ” historiador do movimento operário”. Ele considera essa fase uma “busca doentia pela preservação da memória”. Para Marçal,  esse é uma missão política, historiográfica, intelectual, filosófica mas também ideológica. É seu desejo proporcionar um visão ampla da história, deixando de retratar somente a visão burguesa, mas também o lado da classe trabalhadora que teve um importante papel para nosso estado.

Apesar de não ter um emprego fixo em nenhuma rádio, o comunicador declara que o “parto do microfone é algo muito doloroso”. Por isso, ele mantém um contato com a rádio, através de uma participação aos domingos,  na Rádio Gaúcha, no programa Galpão do Nativismo, de Dorotéo Fagundes. Novamente, Marçal usa o microfone como instrumento para dar voz à sua ideologia. “Embora possa parecer estranho, pois a Rádio Gaúcha é considerada uma defensora da visão da direita”, observa, “vejo, nesta participação, uma oportunidade de alcançar os ouvintes e mostrar a visão de esquerda, dando ao público os dois lados do mesmo tema”.