Ayrtom dos AnjosEntrevista (veja na íntegra)

A- O meu nome é Ayrton dos Anjos, eu nasci em 1941, na cidade Porto Alegre aqui no hospital São Francisco, quase no fim da rua da praia, sou um dos mais gaúchos, porque a turma do interior diz que para ser gaúcho autêntico tem que nascer no interior, eu acho o seguinte quem nasce na capital é muito mais gaúcho, por está no centro, na capital. Entrei no meio musical e no rádio, porque antes de trabalhar com música, eu trabalhei em rádio, porque eu sou do tempo da reunião dançante, e a reunião dançante era aquela história as gurias levavam os sanduíches e os cara levavam a Coca-cola, o máximo que acontecia era uma cubalibre pra dá uma animada no pessoal.E nós fazíamos essas reuniões e visitávamos rádios pra anunciar que a turma estava se reunindo, ou no colégio São Pedro, ou as gurias em tal colégio, três de maio, aquelas coisas assim de colégio, e às vezes fazia reuniões em casa. E nós visitávamos os programas, então tinha um programa que parava a cidade, das 18 às 19 horas, que era “O seu disc jockey favorito”, que era o Paulo Diniz, antes um pouco do Paulo Diniz, tinha um programa na manhã que era um pouco diferenciado desse estilo do Paulo Diniz, que já era um cara que apresentava mais MPB, uma coisa mais clássica pelo estilo que o Paulo Diniz foi. Tinha o Glênio Reis que fazia na Difusora as rádio da manhã, em 58, mais ou menos, 57, esses dias conversando com o Glênio, eu digo: “Glênio que data era aquele programa?”, ele também não se lembrava, eu acho que era 57, e o Glênio que viajava, porque também não tinha televisão, e o Glênio tinha +- o estilo do Chacrinha , que era dele, que aquilo ali era uma coisa particular, era um estilo de pessoa, e o Glênio apresentava os programas todas as manhãs na rádio Difusora. E eu ficava empolgado pela animação, pela alegria do Glênio, pela comunicação que o Glênio tinha, e pelo que o Glênio trazia de lançamentos, eletava muito atual, porque o G. foi sempre um cara que viajou, e o Glênio sempre tinha novidade, então de manhã era o Glênio reis que tomava conta do rádio no RS, Porto Alegre principalmente, que era a rádio Difusora. E o fim da tarde tinha o Paulo Diniz, com estilo completamente diferente. Foram muito importante na minha vida, o Glênio foi meu padrinho de casamento, e nós ficamos parentes praticamente, a gente começava naquela época a se encontrar tanto, e eles eram meus ídolos e eu procurava me aproximar até que eu entrei em gravadora. Mas daí nesse meio tempo também entrou um outro radialista que tinha um espaço muito forte, que era na rádio Guaíba, que era o “Discorama” , que era o Osmar Meleti, e era gerente ou diretor da rádio Guaíba e fazia um programa que é o que ele adora, então a introdução do Programa era o barquinho, ele era muito ligado na Bossa Nova. Então eu comecei a me empolgar, e disse assim: “bom, por que eu não tenho um programa pra mim só divulgar reunião dançante?”, eu precoce, eu tinha 18 anos, eu acho, e eu queria imitar o Paulo Diniz e o Glênio Reis, eu queria imitar os dois, por que?, antes desse envolvimento de rádio, de eu querer fazer esse tipo de coisa. Eu tinha que ir com minha vó, eu tinha que ir, a minha vó não perdia o programa do Maurício Sobrinho, no edifício União no décimo andar. E a minha mãe chegou e disse: “tu leva a tua vó!” , e eu disse: “bah não tô afim de sentar lá, ficar naquele programa de auditório, pô aquele cara fica ali”, tinha orquestra, tinha cantores, tinha um tal de Chamaco que dançava Rumba, e eu digo: “nossa!”, nessa época eu acho que tinha uns 12 anos, por aí, mas eu tinha que levar minha vó. E eu comecei a me deslumbrar pelo Maurício Sobrinho, o jeito do cara, carisma, aquela coisa que tu diz: “esse cara é meu ídolo”. Então tudo que ele fazia no auditório, eu quando tinha brincadeiras em casa, eu pegava toda minha turma e fazia como se tivesse fazendo o programa do Maurício e eu era o Maurício. Até que rolou um dia, que eu tô ali sentado e tal, “e vem agora Elis Regina!”, aí eu fiquei de cabelo em pé, amor à primeira vista, mas não foi pela figura, foi quando ela parou e cantou a primeira música, existe paixão de garganta, de voz, entendeu?!, eu fui muito apaixonado por vozes, tive até que fazer um tratamento por isso. Porque a minha vó que era uma pessoa que adorava o programa de rádio do Maurício, ela não perdia uma novela. E a novela era uma coisa fascinante, porque tu em casa sentado, imaginando um romance, imaginando um love, um beijo, um carinho, mas aquela voz que tu tava ouvindo, tu criava na tua mente como é que ela era – ela tem olho azul, cabelo comprido, ela tem o narizinho fino, e tal -, e tu via aquela pessoa – ela é linda, ela é gostosa – entendeu?e tu viajava. Chegou um ponto que eu me apaixonei por uma voz, eu não me lembro, parece que era Aida Terezinha, loucamente apaixonado, porque a voz dela era deslumbrante. E na época tinha os homens, que hoje tem ainda – o Cândido Norberto foi voz de galã – Ernani Beves, esses caras eram vozes assim sabe, e tinha essas coisas, as pessoas se apaixonavam pelas vozes. Eu, a minha mãe me pegou e me levou no estúdio da rádio, quando eles estavam gravando uma novela, pra mim ver a minha paixão. E a paixão que eu imaginava, não era nada daquela figura, era uma pessoa completamente diferente, que foi uma decepção pra mim, eu digo: “não pode! Sair aquela voz dessa pessoa”. E aí eu fiz o programa de rádio.

Pergunta: tu começas produzindo o programa de rádio?

A – Aí eu fui no diretor da rádio, que era a rádio Metrópole, da época, que era de uma família daqui, os Sperb. E eu cheguei lá e disse: “olha eu venho sempre aqui divulga e tal, quanto é que custa meia hora, de nós fazermos um programa nós, a minha turma? – custa tanto – ta e se eu conseguir patrocinador? – tu pode vim aqui e fazer o que tu quiser, o espaço é de vocês, vocês podem anunciar os bailes, toca os disco, tudo…”. E eu gostava muito de comprar disco, e tudo que eu comprava pra me exibi, nem eu conhecia, e eu dizia que conhecia. O dia que eu levei, na reunião dançante, o primeiro disco do Ray Connif que foi lançado no Brasil – pô eu era o rei da turma. Aí eu fiz esse programa de rádio.

Pergunta: qual era o nome do programa?

A – Bah, não me lembro, acho que não tinha nome, tinha nome “ ligado em reunião dançante”, aí eu me propus – porque tanto o Glênio quanto o Paulo, ninguém ia atrás de artista pra buscar pra entrevistar – e eu digo: “ todo mundo que vier à Porto Alegre, eu vou trazer pro meu programa”. Contando ninguém acredita, mas eu levei o Vick Damone, que era casado com a Pier Angel, e o pianista que tava com ele, era o pianista do Frank Sinatra, e eu mandando, pela rádio metrópole, um abraço pro Frank Sinatra. Eu levava os impossível, os que marcaram assim foi, quando eu levei o “carequinha”, que era um cabeludão, e naquela época bem novo, a rua pára – olha o carequinha! Quando eu levei o Ivon Cury, artista da época que fazia o cinema nacional, existia o cinema nacional que era praticamente todo musical. Aí que comecei na rádio. E eu não me contive, porque eu ia buscar disco nas gravadoras, e os caras me olhavam e não me davam nenhum, e ainda achavam que eu era picareta. Aí, eu estou no programa e não tem disco, aí um cara que até hoje trabalha com rádio Pampa, e é meu amigo, Guaracy, me diz:” eu vou te dar uns discos aqui da rádio por fora”.

Aí eu tô ouvindo a conversa deles no cafezinho, “sabe quem que morreu?”, entre eles, né?!, “o fulano morreu, tchê”, e o cara era representante de gravadora. E eu pergunto quem que morreu, o fulano que era representante da Mocambo, eu digo: “vou pegar essa representação pra mim”. Aí descobri todo caminho da história, pedi pra minha mãe uma grana, porque eu não tinha dinheiro na época, e me mandei pra São Paulo. Cheguei lá na Mocambo, e disse: “fiquei sabendo semana passada, que morreu seu fulano, e eu tenho programa de rádio, e posso vender,….”. Os cara me olharam, os Rosenblit, e não acreditaram, mas resolveram me dar uma chance. E me deram a representação, aí eu já tinha programa de rádio e era representante da Mocambo. E eu tô de representante, “bom agora chegou a hora de vender e divulgar”, então eu chegava nas rádios, e dava dez discos – tudo ruim – bah eu vou vender. Aí tinha uma panela, que era o Disco Clube. Todos nós, representantes, éramos pobres, não tínhamos escritório, então o cara tinha na Borges de Medeiros uma lajinha, aonde ele botava as caixinhas de LP, aquelas caixinhas compridinhas que tem, aí ele botava o nome de cada um, e botava tal gravadora e nome do respectivo representante. Cada um recebia toda correspondência ali, e o cara era carinhoso, e botava umas balinha e tal. Aí eu cheguei na loja dele, era o seu Souto: “Seu Souto, eu sou representante da Mocambo no Rio Gran” e ele: “já tô sabendo e daí?”, “não, eu queria lhe conhecer, o senhor é presidente do Disco Clube, e mostra aqui o disco que eu trouxe”, e ele diz: “já conheço todas essas porcaria”. Eu sei que eu incomodei tanto o cara, que um dos discos que eu tinha de mostruário, ele por pouca coisa que eu falei, ele disse: “eu já te disse que esse eu não quero!”, e quebrou o disco no balcão da loja, eu vou me mandar daqui senão eu vou apanhar. Aí eu comecei a passar todo o dia na loja do Souto, e um dia tinha uns caras tomando cafezinho e eu vejo a conversa deles assim: “ o jogo sábado é lá no campo do Erechim, e nós temos que ir com tudo, porque aqueles cara são bom demais, e nós estamos sem goleiro”, eu ali parado digo:”Pó deixa eu me mete aí, os meus discos não prestam,mas de goleiro eu manjo”, isso em 59, porque se não fosse eu jogar eu não estaria nos discos, então por isso que tô contando, e eu acabei jogando, e fui a sensação. Aí vira página, no outro dia segunda-feira, eu fui lá na lojinha do presidente do Disco clube, e o cara chegou: “pó, parabéns, seguinte não esquece de trazer teu catálogo, e um detalhe, me da certo o teu nome que vou botar uma caixinha pra ti ali”. Bah, ganhei o cara. Daí começou a se espalhar:”pó nós temos que ajudar esse guri, porque senão ele vai perder esse emprego, e nós vamos perder o goleiro, o cara é boa gente”.

Nisso eu já tô com a Elis na cabeça, primeira coisa que eu faço vindo de São Paulo da gravadora, num domingo de noite vou lá na vila do IAPI. Bati, inventei de botar terno e gravata, e ela abre a porta, e ela pensou que fosse o Milton do grêmio, porque ela era gremista fanática. E aí consegui entra dentro da casa, e falei: “eu queria falar sobre gravação”, e convidei ela pra gravar na Mocambo. E ela tava gravando na continental, que o Maurício Sobrinho tinha feito com ela dois discos pra Continental, e ela tava muito mal, porque a Continental queria que ela fosse uma concorrente da Celi Campelo, e a Elis não aceitou isso. E ela nunca esteve satisfeita em lugar nenhum, é uma coisa de figura humana da pessoa. Mas nesse meio tempo, que eu tô na Mocambo, eu comecei a me destacar na divulgação, porque eu ia nas rádios, e os cara nem ia. Eu comecei a me destacar na divulgação, e na venda começou a pintar, que os caras começaram a me comprar, mas era pra me ajudar. Aí o Glênio começou a tocar os meus discos, o Paulo Diniz tocava no fim das tardes, tinha uma senhora italiana que tocava música italiana e eu tinha disco italiano, e ela tocava. E isso o Bartolomeu, que ta vivo até hoje, um dia me encontra no ônibus, e disse assim:”não que ser meu divulgador?tu começa como divulgador e depois eu te dou o Interior pra ti vender”. Aí era a Columbia Broadcast System, hoje CBS, salário dobrado, uma série de vantagens, eu aceitei, e entrei pra CBS. Como eu já tinha falado com a Elis, dentro da Mocambo, dentro das conversas eu disse:”olha tem a cantora aqui a Elis, que eu tava falando com ela, que nós temos uma idéia de fazer um disco de MPB, mas com os caras daqui, com os compositores daqui”. Aí um cara de lá responde – que é o Evandro, o presidente, que lançou a Jovem Guarda, o Roberto Carlos, foi o que lançou todo mundo- “marca que eu vou à Porto Alegre”, e veio, e contratou a Elis. Muito do que eu tô falando, eu tô pulando, porque a coisa não foi tão rápida assim.

Pergunta: Mas em que ano mais ou menos?

Acho que foi 61, 62, eu tenho uma foto que é quando a gente foi pro Rio, que foi quando a gente conheceu o Rio, eu tava junto com a Elis, que nós estamos no Pão de Açúcar. Uma das condições que eu sempre dizia, que ela tinha assina contrato e ir embora. Porque os dois discos que ela fez pra Continental, ela continuou aqui.

Pergunta: Quando ela foi embora a relação perdurou?

Perdurou, porque a gente começou a freqüentar o Beco das Garrafas. E a Elis tinha uma coisa, ela chega, dar meia hora, já tem dono o espaço, é dela. E quando ela foi embora, esse relacionamento durou, acho que dois meses. Tu pode ver esse disco que eu falo, Elis Regina só o nome, tu vê que tem sete músicas de compositores daqui, e o resto não. Aí chegou o Astor e disse:”olha, o Evandro quer que grave Virgem de Macarenha em primeiro lugar, primeira faixa”. E foi gravar tudo no Rio, mas já brigando. Aí quando saiu o disco, ela já começou a queimar a gravadora:”gravadora horrorosa, os caras me obrigaram a gravar essas músicas terror”. Mas nesse meio tempo, eu tinha uma turma muito forte aqui no sul e Santa Catarina, que era o Luis Henrique. Eu fiz um show que era Gente Moça, GM, que eu trazia os melhores de Santa Catarina, aqui no Cote Show, que era ali na Salgado, e eles nos levavam lá. Aí eu levei um monte de gente daqui, e a Elis junto. E nessa noite que a gente fez o nosso show lá, no teatro Carlos Gomes, namorava a irmã do Luis Henrique, o diretor artístico da Polygram, Armando Pitgrane, sobrinho do presidente. E o Armando tá lá, chega pra mim e diz:”vi tua cantora ensaiando, e eu ouvi o disco da Elis na loja, está tudo errado, tu quer vê ela arrasar, pede pra ela cantar hoje de noite Chão de Estrelas, porque o repertório que ela tava tocando não tinha nada a ver com Chão de Estrelas. Aí eu cheguei pra Elis e falei que o Armando Pitgrane, da Polygran, tinha falado que o nosso repertório era uma porcaria – agora ele quer que tu cante Chão de Estrelas- e aí ela me perguntou: agora tu quer com choro ou sem choro, e eu digo: com muito choro, mas choro em todo teatro. Olha a artista que ela era, ela perguntou pra mim com choro ou sem choro, e eu disse pra fazer até o porteiro do teatro chorar. Aí rolou o show, mas aquele show que tu vai levando com a barriga, porque cantando Virgem de Macarenha, cantando música do Mutinho, do Joãozinho, nada assim que tu vi, eles tão vivo e vão brigar comigo, mas não tinha condições. Aí chego na hora de Chão de Estrelas, e isso que tinha uma banda do Luis Henrique, músicos assim, porque tem muito músico bom em Florianópolis, e se tu vai em qualquer boteco, todo cara que ta em boteco é melhor ainda. Aí vai pro Chão de Estrelas, chegou na metade da música embargava a voz da Elis, e é agora agora, e vai passar pro público, e começou a passar, e quando começou eu comecei a chorar, eu digo: “ah, veio!”, pô até eu chorei, a mulher destruiu. Terminou a espetáculo o Armando nos abraçou e disse assim: ”tô te roubando a tua cantora”, e eu digo:”tu não tá roubando, é ela que tá se dando”. Porque ela não ia ficar mais, porque ela foi pra rádio, e chamou o cara que levou ela, que descobriu ela e que deu todas condições pra ela, que o ele era um cara muito burro. O Evandro, quem é que vai gostar de ser chamado de burro sendo presidente de um companhia, como era, e era o cara que começou a Jovem Guarda. E aí logo em seguida a Elis, começamos a freqüentar o beco, e eu não podia ir tão seguido, aquela história toda.

Porque teve uma coisa engraçada dentro da minha vida, que aí embola as coisas tudo, essa aqui eu me lembrei agora. Quando eu virei representante, eu passei de divulgador que eu disse que eu ia passar, e o cara disse: “chegou a tua hora, tu vai ser o vendedor que tu quer”, porque eu sempre gostei de vender.E todo disco que eu vendia eu contava a história, eu dançava quando colocava a música, botava pro cara da loja. Eu ia pro Interior e dançava, e dançava Ray Connif, eu fazia as loucuras. Aí eu viajava pro interior, só que pra ti viajar pro Interior, que foi isso que culminou com a minha desistência, de Santa Maria a Alegrete, por exemplo, sabe quanto tempo demorava, de oito a nove horas. E a gente carregava pastas, porque ainda tinha que levar a capa do LP, um ano que eu estava fazendo isso os meus braços já estavam ficando desparelhos. Aí eu tô no ônibus ali sentado, aí eu vejo eu tô com uma coisinha quente no meu pescoço, eu olho uma senhora de pé com uma criança enjoando no meu pescoço. Aí eu parei na rodoviária, aí minha vida mudou, porque aquilo ali foi um choque. Eu poucas vezes falei isso, acho que é a primeira vez que eu estou falando. Eu parei na rodoviária, e eu não podia pegar táxi pra ir na loja, que era o Moojen. Aí tu andava da rodoviária até a loja do cara, pra ti vender os discos, aquelas duas pastas, tu andava 7km, 35 graus em Alegrete. Aí chegava na porta da loja do cara, o Moojen não estava, o comprador do cara. Uma loja comprida, enorme, parecia um hospital, e o cara lá no fundo sentado, com um ventilador, e um copo de água, e deitado pra trás com os pés em cima da coisa. Eu larguei as duas pastas na porta, e eu pensei:”vou descansar um pouquinho”, e o cara não deixou eu largar as pastas, e gritou lá de dentro:”não entra que eu não estou comprando”. Aí eu virei o Hulk, virei verde, azul. Porque o seguinte, eu viajei oito horas, pra ir visitar o cara, cheio de discos novos.

Pergunta – quando é que tu acha que começou a se flexibilizar aqui dentro do Rio Grande do Sul com festivais como rock grande do sul, não é? Essa abertura?

A – eu fui o primeiro e entrar nessa de festival de rock, foi aquele que foi da RBS, o rock…circuito do Rock, ali metade daqueles caras gravaram depois gaudério.

Pergunta – esse foi o do Borguete que a gente tava falando, não?

A – não, não, o Borguete não chegou a entrar naquele. O Caco, um monte de cara que tocava rock disse: pô eu vou entrar em festival nativista porque ajuda de custo, na época era muito boa, agora já caiu, pros caras era uma maneira de viver, entendeu?

Brito – o Ayrton, voltando um pouquinho a máquina lá, não sei até se tu já falaste isso, mas eu fico curioso com isso porque faço parte da história do rádio, é…….. os disc jóqueis…o primeiro teria sido Glênio Wave? Ou antes disso havia alguém?

Ayrton – eu acho que foi o Glênio. Eu já falei do Glênio. Ele comandava a rádio difusora das 9 até o meio dia, num estilo completamente diferente do Paulo Diniz que fazia das 18…

Brito – em que época isso mais ou menos?

Ayrton – hã? 57. E diferente do Osmar Melleti

Brito – mas o Osmar é posterior, ah… o Osmar entrou na Guaíba

Ayrton – o Osmar entro na Guaíba fazendo Discorama. Que era um estilo bossa, entendeu? Ele gostava muito. E o Paulo Diniz fazia geral e era uma coisa que parava a cidade. Tipo da coisa assim, ó: tinha que ver o Paulo, porque também era um informativo das seis da tarde às sete, era um informativo para saber onde é que tavam as gatinhas. “ah, nos vamos estar na reunião tal, amanhã vai Ter a festinha tal,…OBA!”. era um tipo de jornal de rádio, no caso assim, informativo de festa, não podia perder. E outra coisa, começou a dar que as gurias tudo iam dar entrevista e os barbado já começavam a ficar ali na Coronel Vicente para ver a saída do programa. Quer dizer, era uma coisa maravilhosa e tocavam sem compromisso de gravadora, que vai ganha ou vai deixar de ganhar, entendeu? Tocava no amor mesmo e foi isso, quer dizer…histórias, se eu ficar aqui falando, vou ficar 42 anos. Faz 44 que estou faze3ndo essas coisas.

Dimitri – e Ayrton, teve esse show, 4 vezes Brasil, né? Que teve a presença de Hermeto Pascoal, MPB4, toda uma turma de lá, quer dizer, porque assim, entre os músicos existe um grande respeito com o Hermeto Pascoal que fez uma homenagem ao Borguete, dizendo que é um musico sensacional e…tu acha que essa rixa que tem é entre gravadoras e produtoras e ….]

Ayrton – mas é que acho que não existe essa história de gravadora e produtora, porque nosso mercado foi muito interessante para as gravadoras, entendeu? De 5 que eu participei, elas gravaram um monte de gente aqui e tiveram bons resultados, tanto que depois veio a Isaec, veio outras e nos tivemos mercado tanto que até hoje tá funcionando isso aqui. Eu acho que não existe essa…eles perderam o interesse pelo Rio Grande do Sul porque com 5 gravadoras ou 6 gravadoras aqui, e o preço que é vendido pelos produtos que nós temos, aqui no sul, não pode…é…os deles são mais altos. Então tu chega pruma gravadora que diz: “eu quero 100 mil discos”, vamos negociar porque 100 mil discos….pruma gravadora multi o preço não pode ir porque tem a auditoria, tem a promoção, então….eu te juro que não é isso. Não tem nada de gravadora contra todo mundo já procurou artistas aqui, tanto é que quando eu levei o Bebeto, o Heleno se apaixonou e disse: “nós vamos lançar o maior cantor do Brasil”. O maior artista do Brasil vai ser nosso, que foi o disco da warner.

Brito – o presente é uma situação que pode ser mudada, por isso não interessa muito pro nosso programa. O passado que é imutável é que é bom deixar registrado. É uma oportunidade única já que o Ayrton conhece tudo sobre isso. Tu podias contar também sobre o inicio do rock aqui né? As bandas que iniciaram o rock aqui no Rio Grande do Sul, tu te envolveu com isso?

Ayrton – eu me envolvi, no início com o bicho da seda. Que era um grupo da vila do IAPI. O bicho da seda foi muito importante com músicos maravilhosos, entendeu? Mas não tinha disciplina.

Brito – eles teriam sido a primeira banda?

Ayrton – olha eu acho que foi o bicho da seda que gravou em 60 e alguma coisa

Brito – o Almôndegas…

Ayrton – não, não. O Almôndegas foi depois. Já fazendo outro estilo né? Tinha um rock forte em SC mas também todo copiado daqui. Eu não me lembro mais de bandas daqui…bicho da seda…quem mais?…até conjunto de baile gravava naquela época. Norberto, Flamboiand…gravavam. e as gravadoras vinham aqui e contratavam. Porque tinha, eu me lembro que o disco foi lançado no Brasil, o da Marisa, a RG veio para cá com Marisa, os caras subiram na Borges com a Andradas, em cima da sinaleira, atiravam discos, quer dizer, eu vejo que sempre olharam para nós aqui. No passado entendeu? Agora não. Mas no passado como um grande mercado. Tanto que posso dizer que fui um privilegiado por este motivo. Todo mundo me queria, porque qualquer disco que eu lançava vendia 10 mil, 15, 20 mil. Pô eu fiz uma Califórnia da canção que vendeu 60 mil discos na Universal. 60 mil discos, existia uma concorrência no Brasil entre os representantes. Eu era produtor da Poligram, na época o diretor artístico meu era o Roberto Menescal. Então o representante daqui, no caso, ganhava um carro por ano, ou uma casa, quer dizer um prêmio valioso, entre todos eles, quem vendesse mais no ano. A partir de que entrei na Poligram, o cara da Bahia que ganhava sempre, nunca mais ganhou. Porque enquanto e não vendia nenhum, ele não vendia nenhum, nenhuma califórnia, ele mandava escrito um monte de coisas, sacanagens no disco. Que era para nós pegar o disco. Nós mandava devolver e o Roberto Santos vendia 60 mil, 50 mil, quer dizer, numa diferença de Brasil, entendeu. Então o Roberto Santos ganhava os prêmios todos, pelo que nós tínhamos aqui. Depois eu inventei de lançar o César Passarinho, que até hoje falam do guri. O cara lá não vendia nenhum então isso se espalhava no mercado. O Paraná é muito forte porque todo mundo que tá lá é gaúcho quase. É incrível

Brito – no interior né?

Ayrton – é mas na cidade tem muito, em Curitiba. Então…perguntem vocês, porque para cada coisa eu tenho uma história.

Heron – então nos conta um pouco da história do Borguete. Como é que começou isso aí?

Ayrton – o Borguete foi o seguinte: eu era amigo do Borguetão. E eu veraneava na mesma praia que o Borguete, mas ele tinha casa, na frente da casa de meu amigo. Aí a gente tava na casa do meu amigo e tal, daí o Borguetão chego para mim e disse: “tô com meu guri, dei uma gaitinha para ele. Vem come uma carne aqui com a gente depois.” Tá depois que acaba aqui vou ali contigo, atravessar a rua e tomar uma cerveja contigo ali. Aí digo, pô, pai é pai né!? Aí atravessei e fui lá ver o Borguete tocar, e hehehehe coisa mais bonitinha, vem aqui gurizinho mais bonitinho. Daí fico nisso né, pai é pai, nem me interessei por nada. Aí vira e mexe, (tosse) passou uns dois, três anos e um dia eu entro no estúdio e tá o Borguete gravando, tocando com a banda que eu usava, que era uns menino, tinha o Oscarzinho que era uma banda que gravava um disco por dia. E fazia muito disco e tal e eu disse bá! Daí fico tudo pronto, o Borguetão pago, porque não tinha como tu pegar um gaiteiro guri, porque na época, bom eram os velhos. Então tem baile que os cara pegam e beijam as mãos dos gaiteiros. Vai começa a acontecer agora com os Serranos que eu dizia, meu deus do céu. Ele tocava uma música, o Reide Bertuce e passava nas mesas e os caras: “Ô seu Reide” e quase beijavam a mão dele. Um gaiteiro. Aí o tio Bilia, outro deus, aí tu pinta com um guri com dois metros de altura parecia a guria aquela da novela, o Borguete era parecido com aquela, qual o nome dela? Um cabelão, um cara bonito desses, gaiteiro tinha que ser feio que nem bandido. Daí aparece o guri tocando uma gaita de botão e dando-lhe pau. Pô, vamos negociar. Aí eu peguei e disse, para mim interessa. Daí fui contra a gravadora, todo mundo e nada, nada, daí peguei um avião e fui lá até SP e disse: pô eu tenho esse guri, me comprometo, 5 mil. Ligo pro Darcio e digo: Darcio, tu vende 5 mil? “se não vende nós compramos”. Tá fechado. Aí o cara disse não. E noutro dia de manhã disse: porra, tu não pode fazer isso comigo, não posso chega lá e dizer pro guri que não vou compra ele. Aqui ó: “vou te dar essa oportunidade”, o cara ainda acho que tava fazendo um grande favor, né. E aí eu disse tudo bem. Nós falamos que ía vender 5 mil e ele vendeu 175 mil, aí eu brinco, puxa desculpa Chapiro, nunca mais eu vou me enganar assim tchê. 170 mil. Aí eu dei a grande jogada, porque aconteceu aqui. E eu disse, agora vou dar o grande disco pro B Borguete. Eu vou produzir o disco. Aí convidei o Hermeto Pascoal e o Sivuca. Peguei e disse fazer o seguinte: nacionalmente, daí o Hermeto Pascoal, liguei para minha ex-mulher que morava no Rio dei dinheiro, compro a passagem e boto ele no avião e o Hermeto vinha no outro dia, nisso falaram pro diretor da gravadora o Oliveira. “o Patinete vai gravar o Borguetinho que é o segundo disco com o Hermeto e o Sivuca”. Aí ele me ligou e disse: “só vou te dizer uma coisa, se tu fizer isso que tão me contando, tu tá na rua. Porque tu vai pega nossa mina de ouro esse grande guri que vai ser sucesso e vai junta com essas duas velhas que não vende nem mil discos e não sei o que.” Aí eu disse: o Oliveira, me bota meio na rua, porque o Sivuca já está aqui. E ele já tava aqui. Aí: “porque não dá e tu tá muito loco e não sei o que”…daí tá…vira a página. Aí nos encontramos no estúdio, depois o Sivuca brincou comigo né “vamos fazer uma música, o nome da música é parceria” e daí improvisaram e gravaram. Daí foram para a noite. Muitos anos depois encontrei o Sivuca e recebi direitos autorais da Som Livre. Que eu era da Som Livre, tava lá no departamento e olha o Sivuca aí subindo e eu: bá, mas que que vou dizer pra esse cara agora? Porque tu não sabe se ele tá enxergando ou não né? Se ele se finge. Que tem dia que ele enxerga. Tem o Geraldo que trabalha na Ezeck, lembra do Geraldo Shurik que disse, bá que baita loira e eu…não tu tá brincando comigo. É que tem uns dias que dá uma neblina nele que…aí ele diz: “eu que te enganei, porque não dei nada para ele. Não paguei nada pra ele. Só a passagem e o hotel, né?” tu pensou que tava me enganando, tudo que tu falava tu pensava, este cara acha que tá me enganando, gravando com o Borguete coisa e tal, mas…eu ouvi o primeiro disco dele e eu tava louco para me oferecer pra tocar com ele. E agora pensa se ele é um burro, porque se vem o outro maluco nós ía mata.. tu imagina. Sivuca, Hermeto…aí o outro quis mudar…o outro quis fazer. Também me proibiram. O Borguete tava na rua, rodeado de criança. E eu disse, é criança o negócio do Borguete: criança. Eu tenho a mulher, vamos trazer essa tal de Xuxa, que é daqui e tá começando nessa TV que era a Manchete. E os caras: “parece que tu enlouquece”. Quer dizer, o Borguete poderia Ter sido o cara que….estourou logo em seguida. Porque aonde ele andava, eu tinha uma foto, o Borguete todo de branco com umas crianças coisa mais linda, e eu digo: tá aqui o caminho. Infantil. Então estas são as coisas que passaram na minha vida que eu…eu…

Brito – tu lidasse com Teixeirinha?

Ayrton – lidei. Mas não fui muito porque o Teixeirinha que era uma pessoa maravilhosa tinha um ciúmes. Brinco muito, com respeito, mas a gente tá contando, é uma história, de que ele gravava com um gaiteiro cego de tanto ciúmes que ele tinha da Amélia. Ele tinha comigo um ciúmes, porque a Amélia sempre foi….agora é uma religiosa, duma religião que ela tá ajudando os irmãos e tal…ela era uma pessoa muito alegre, jovem e alegre que gostava de conversar, de falar. Então quando agente se encontrava ria muito de muita coisa. E ele ficava pocesso, quer dizer, eu não tinha muito diálogo e tal, depois, no fim da vida dele, sim.

Brito – mas profissionalmente não…

Ayrton – porque eu tinha problemas de que os diretores falavam o seguinte: “não, a ti ele não quer”. Por esse problema. E outra, eu era muito amigo do Gildo e cada disco que eles gravavam, o Gildo falava contra ele, e ele contra o Gildo. Mas ele pensava que quem botava a pilha no Gildo era eu. E era o contrário, tanto que a música mais forte que o Gildo gravou contra ele eu não lancei. E se perdeu, eu não sei se eu desgravei, mas era uma coisa que ia terminar mal. E ele nunca soube disso. E quando eu mostrei na gravadora, olha o que o Gildo fez, os caras disseram “bá isso aí vai ser um estouro”, e eu: não vai. Isso não vai é terminar bem, seguinte: não há dinheiro que pague. Então minha história com ele não foi. Fui sócio do José Mendes. Foi meu sócio. Montamos uma gravadora juntos. Que quando eu entrei dentro dessas histórias, eu levei muita música daqui para lá. E eles não queriam. Daí quando eu levei Pára Pedro, eu fui expulso da sala do Palmeira, Palmeira é uma dupla, Palmeira e Biálho, diretor artístico da Continental. Não quis, eu levei junto naquela época que o Osmar Melleti me gravou os três Chiruskis tinha uma música o Coça aqui Coça ali, e depois gravaram não me lembro…eu levava muito, porque não tinha estúdio.

Saulo – tu arriscaste muito como produtor musical, quer dizer, teve alguma coisa, alguma aposta tua que de alguma maneira não foi concretizada ou não vingou. Acabou não sendo reconhecida pelo grande público? Tu lamenta alguma coisa?

Ayrton – não. Não lamento. Eu fiz muita coisa que não aconteceu, mas é o seguinte né, só fazendo, porque ninguém tem bola de cristal. Negócio de gravar e dizer que vai dar certo botando mídia ou não botando é impossível, quando tu menos espera acontece. E o cara que às vezes tu espera tudo, não acontece. Aí falam, coisas que não interessam agora, o atual, programas como o fama e outros, sabe, aquilo ali tudo já tá praticamente tudo combinado. E não adianta, a pessoa quando tu menos espera acontece. E….eu fiz mito. Agora, eu posso te dizer uma coisa: eu fui um cara que tive das gravadoras, eu não gravei mais porque eu não quis. Porque eles acreditavam e me deram, em todas elas, e eu tive em potências: Warner, Continental, Polygram, Keytel, estive na Som Livre e ….eu tenho uma história com o João Araújo que quando ele veio botar a Som Livre, ele veio pesquisar em Porto Alegre. Eu tive lojas, aí eu tava no balcão porque gostava de atender dar sugestões, e tava um cara mexendo nos discos e eu perguntei: foi atendido e ele ‘não, eu tô fazendo uma pesquisa, eu sou do Rio e tô dando uma olhada e tal’ e digo ó legal qual é teu nome? E ele disse ‘ meu nome é João Araújo’. Não, tu não é o João Araújo que eu tô pensando que produziu a Elis e que a Elis odiava ele, quer dizer queria ver ele morto. ‘sim eu sou o João Araújo’. O João Araújo meu ídolo? Ah, tu tá brincando comigo…tá vir a página. Ficamos amigos até hoje né….meu amigo de que quando acontecia essa convenções, que eu fui jurado da MPB Shell 1 ano inteiro, então terminava o MPB Shell e o João fazia um sinal pra mim. Daí a gente se encontrava na boate saía com a turminha dele. É meu amigo eterno o João Araújo e foi quando ele botou a Som Livre. E eu dei um conselho pra ele, eu digo, pô tu vai bota uma gravadora com a rede Globo? Tu tá louco. Isso não existe, tu não pode fazer isso contigo. Eu achava que a rede Globo era uma porcaria porque naquela época era a Tupi. E ele: ‘não, vou começar com os caras desde pequeno’ e virou essa potência que é a rede Globo. Tem muito do João Araújo ali. Ele é um dos meus ídolos. Agora ele tá meio doente coitado mas tá aí…

Saulo – e o apelido Patinete, de onde vem?

Ayrton – foi deste clube do disco. Ali comecei a me transformar, além do goleiro…

Saulo – em que ano isso?

Ayrton – 60 e….60. 60, 61. Mas o disco clube fazia o baile do ano. Com todos representantes, com família, fazia no Teresópolis e convidava caras de gravadora, as famílias e escolhia sua rainha. A rainha do disco. E o Maurício sobrinho que apresentava. Então tinhas duas três candidatas, tudo rádio lá no Teresópolis. O Maurício apresentando e a candidata: Elis Regina e tal e não deu outra, ganhou a Elis. Aí botaram coroa na Elis, e um vestido que parecia um bolo. E tava bom e aí o conjunto e tal, bom aí vamos dançar e tal, mas quem dança etc… pô dança tu! Tá vamos eu e tu, vamos dançar. E eu fui dançar, peguei para dançar e nesse tempo eu tinha um programa de rádio que nós fazia junto, toda Quarta feira na rádio porto alegre, a gente comentava disco, eu e ela, a Elis. E eu tinha meu programa sozinho nos outros dias. Daí vamos dançar…aí o salão parou e eu peguei e fiz assim ó…então vamos…agora que to com o pé ruim…mas antes eu não tinha o pé tão rui…e tal e fui andando dando a volta no salão (demonstração em pé no estúdio), quando dei a volta no salão, o cara da rádio diz: Elis como é que tá te sentindo? ‘andei de patinete’. E pronto daí o cara patinete, patinete ‘ nada mais que nosso comunicador, o disc jóquei..’ e tá, fomos pro baile e chegou no outro dia de manhã, cheguei na rádio, passei no corredor e o cara gritou: ‘fala patinete!’ e eu olhei…e deu pra mim. Aí o patinete viveu dez anos. Sumiu , porque eu sou de 4 gerações de músicos. A Elis é mais nova que eu 4 anos

Brito – Mas então o início não chegaste a assistir…

Ayrton – Não. Já assisti ela sendo Maurício. Bem coisa de guri né. E eu não ia assistir ela nunca se não fosse minha avó. Porque eu era uma dama de companhia da minha avó. E um detalhe, botei a trabalhar comigo os ídolos de comunicação de rádio. Por exemplo tinha um ídolo que era desse tamanhozinho. Até empreguei ele depois. Por empregar, Ter o prazer do cara tá trabalhando comigo. Que era meu ídolo quando eu era guri, que era o José Deliria. E então tem muito cara de rádio, Fernando Dironécio foi meu divulgador.

Brito – mas tu ouvia o Zé Deliria na rádio?

Ayrton – ele era o que fazia a locução: ‘ e agora o programa….’. era o que anunciava. E os comerciais, tudo era a hora e era um auditório pequeno que cabia…até estes que tu vê na televisão que parece Ter 200 300 pessoas tem 40 pessoas. E eles falando, fazendo locução, brincando um com o outro e eu penso, bá, se os cara imaginam em casa que que eles tão fazendo aqui…porque eles eram uns palhaços de alegrão e tal. E muitos deles trabalharam comigo. Depois que eu fiquei poderoso, pô agora vou chamar. E chamei muitos deles para trabalhar comigo. Bom gurizada…é que foi tanta história do disco, do clube do disco, de pessoas….

Brito – podia falar num negócio importante, jornalisticamente falando, importante para nós aqui. Como é este negócio do jabá?

Ayrton – o jabá tinha, tem, e não vejo fórmula de como fazer, porque agora eles tavam num movimento contra o Gilberto Gil que não se agilizou nisso e sempre falou, então uma das coisas que todo mundo fica…é que enquanto existir este sistema….porque tu não tem chance de lançar um cara novo se tu não tem uma verba disponível de execução. E não adianta tu executar numa rádio. Não adianta tu tocar uma vez. Tu tá num mercado como porto alegre que se tu tá num programa de televisão tu faz um programa no ano, porque se vou te entrevistar duas vezes vou dizer: pô, mas tu tava aqui mês passado. E eu fiz agora califórnia 6 e 34 e tal e tive semana passada lá então não podia ir. Porque matéria de jornal, tu sai numa página, lançamento …só anos que vem daí. Pô é muito difícil daí e o jabá…chegou a um ponto que tava oficial. Jabá com recibo. Que eu achava mais honesto. Bom, vamos tocar na rádio X, quanto é? Bom, lá tão cobrando 1200. Aí o cara te dá um recibo de volta. Toma 1200 reais. Tu tá pagando para executar 5 vezes por dia, fechado? Tá fechado. Esta foi uma maneira que tentaram. Mas não adianta. Mesmo fazendo esse tipo de coisa o cara ganhava por fora também, o programador. Aí tu morre né. Fica, bom, agora vai ser jabá oficial, quanto é para tocar e tal? Eu passei momentos terríveis no negócio de acreditar num disco e achar que tem condições e os caras chegar e dizer que precisariam de 200 ou 150 ou 300 para poder apostar pra estourar.

Brito – mas se é bom, não vai estourar de qualquer jeito?

Ayrton – não. E o que tem de cara que não teve chance. Esses dias tava conversando com uma senhora lá que chegou pra mim, e é fã destes programas de calouros…a maioria desses calouros são tudo profissionais. Não existe calouro zero. É tudo cara que tá batalhando na noite dez anos, cinco anos. E vai lá e dizem: olha lá começou ontem, pode ser um gurizinho de 6 anos, este gurizinho tá cantando desde que nasceu. Ninguém chega ali por um cara encarregado de inscrever os calouros. Porque tu vê cada cantor maravilhoso que tem ali. Que varia do estilo de musica pra cantar também. Tu imagina, freqüenta a noite de SP, por exemplo, o caso que eu dei do raça negra, que gravou um disco fez todo o disco, daí o Carvalho que era amigo do nosso amigo, e nós tínhamos uma reunião no hotel, disse eu não vou pro hotel, vou te levar pra ver uns amigos meus tocar. Os caras gravaram um disco o Rodrigues não quer ninguém quer os caras….onde? ‘ah, num boteco na vila não sei das quantas…’ tá vamos embora. Chagamos lá e os cara são bom, mas o cantor tem a língua presa, tirando isso até é interessante. ‘pô tu também é outro, os caras aí compositor meus parceiros …’tá vamos pro hotel pra reunião, que eu freqüentava pra seleção de artistas nacionais, né. Nós tínhamos que fazer um suplemento e eu também dava meu voto. Tem cara que vendeu 500 mil discos e eu disse, não esse cara é muito ruim…aí o Luís Carlos né, ‘bom quantos discos vamos lançar este mês? Nós temos dez discos de lançamento e vamos lança isso, isso e tal’ bom daí o presidente da gravadora dizia assim ‘bom, inventem’. E que que nós vamos lançar? Falta um disco pro suplemento. E eu disse: Carvalho, tu tem aquele conjunto de samba, os caras tão com capa, com tudo pronto, não lançaram….aqui ó Rodrigues, ele tem uns caras aí. E ‘pô eu já ouvi, aqueles caras são muito ruins, não, não…vai nos falta um disco…o cara tá nos dando um disco inédito…faz mil deles então, não vai aparecer mas pelo menos nós temos suplemento e tal. Vira a página. Lançaram o disco dos caras 500 mil cópias de primeira. Apareceram todos aqueles sambistas que digo carinhosamente …de Mustang. Então ninguém sabe…mas não sei nem porque contei isso aí agora. Já embolou tudo.

Dimitri – então eu acho que é isso, Ayrton, agradecer tua presença, foi bastante satisfatório e o que tu tiver de material, a gente vai entrar em contato porque isso vai para a Internet, as fotos que falou…todo material antigo é….

Ayrton – tem uma foto interessante com o Carlos Galiardo, era do tempo do Francisco Alves, como eu estou velho tchê. Só falta eu e o Francisco Alves juntos. Mas eu vou ver este material para vocês e daí eu ligo e a gente….

Dimitri – não, pode deixar que a gente entra em contato.

Ayrton – tá valeu pessoal, obrigado hein. Tchau.