Entrevista gravada no estúdio de rádio da Famecos PUCRS em 27 de abril de 2004
P – Por favor, seu nome, data e local de nascimento?
Célia -Eu me chamo Célia Pinto Ribeiro. Nasci em Porto Alegre no ano de 1929. Sou licenciada em filosofia pela UFRGS, mas não segui a carreira de magistério. De repente, comecei a fazer teatro em Porto Alegre com um grupo universitário. Acabei fazendo crítica de teatro no jornal A Hora e depois segui a carreira jornalística na qual me dei muito bem.
P – Por favor, seu nome, data e local de nascimento?
Lauro: Lauro Schirmer. Nasci em Cachoeira do Sul em vinte e sete de novembro de 1928. Comecei minha atividade profissional em Cachoeira na rádio Cachoeira do Sul. Depois vim para Porto Alegre e dediquei a vida inteira à atividade jornalística.
P – Dona Célia, como a senhora começou a se interessar por rádio?
Célia – Bom, o rádio aconteceu na minha vida em função do meu trabalho jornalístico. Eu trabalhava em jornal, no Correio do Povo naquela época. Fiquei muito surpreendida quando o Flavio Alcaraz Gomes me convidou para fazer rádio. Quem me ensinou a falar no microfone foi o querido amigo Osmar Meletti, querido e saudoso Osmar Meletti. Disse que eu tinha que arrumar a minha voz e tinha que falar em rádio. Falou que o microfone de rádio era muito mais sensível que o de televisão. Já tinha feito algumas incursões. Isso foi em 1966. Comecei um programa na rádio Guaíba, diariamente, de segunda a sexta-feira às onze e quarenta e cinco. Ele se chamava Reportagem de Bolsa e não da bolsa. De bolsa porque? Porque tratava de moda. Mas aconteceu que viajamos, o Lauro e eu, para a Europa. Isso aqui é muito interessante. Eu gravava na Europa, numa fita, gravava entrevistas. Entrevistei Louis Ferraud, um grande costureiro francês da época. Andava pela rua e descrevia as vitrines que via. E era muito gozado porque todas as terças-feiras, tinha que levar as fitas na agência da Varig, na cidade onde estivéssemos, porque a Varig transportava as fitas para o programa Reportagem de Bolsa. Nesse programa houve momentos muito interessantes. Fiz um programa da Espanha. Depois fiz um que, especialmente, me toca profundamente até hoje. Estávamos em Bohn, na Alemanha, e lá encontramos o Érico e a Mafalda Veríssimo que eram nossos grandes amigos. Foi um encontro realmente muito especial. Andamos de barco, juntos, percorremos aquelas ruazinhas daquelas cidades alemãs bem rústicas. E lá fiz uma entrevista com o Érico Veríssimo, andando de barco sobre o Reno. Essa entrevista inclusive, dei para Mafalda há uns dois anos atrás. Essa entrevista deve estar lá no acervo Érico Veríssimo no museu, na rua dos Andradas. Esse programa Reportagem de Bolsa durou de 1966 a 1970 e foi uma coisa muito interessante para mim a descoberta da minha voz. Depois que o Meletti me ensinou a falar em microfone, a primeira sensação de ouvir a minha voz no rádio foi uma sensação assim impactante. Porque a gente houve a prõpria voz de uma maneira dentro da nossa caixa torácica. Agora, tu ouvires de fora é uma coisa diferente. Fiquei meio fascinada com aquilo. E depois este programa durou quatro anos, conforme eu falei. Sempre tive um fascínio pelo rádio. Me criei na rua Fernandes Vieira, onde nós morávamos. Me criei ouvindo a rádio El Mundo de Buenos Aires. “Ele erre uno”, Rádio El Mundo de Buenos Aires. Ouvia com a minha mãe as rádionovelas, nas quais a Evita Duarte, que não era Perón ainda, nas quais a Eva Duarte fazia parte como rádioatriz, eu era criança. E acompanhei pelo rádio, inclusive todo aquele romance da Evita com o Juan Domingo Perón. Acompanhei aquilo tudo através da revista Rádiolândia, que vinha para Porto Alegre em função dos programas das rádios da Argentina que eram muito ouvidos aqui. Nós ouvíamos muito mais emissoras da Argentina que a do Rio de Janeiro. Então, para mim foi uma coisa muito estranha de repente surgir trabalhando na frente do microfone também. No decorrer da minha vida, eu trabalhei muito para Zero Hora no interior do estado fazendo exposições. E quando eu falava nos táxis, os motoristas já mais velhos, ouvia-se muito mais rádio no interior do estado naquela época do que na capital. Os taxistas olhavam para trás e diziam: -“ mas essa voz eu conheço, mas é a Célia Ribeiro,éa Célia Ribeiro”. Essa voz ficou marcante naturalmente. Com a televisão, ficou muito mais. O rádio me deu muita alegria. E sinto, não sei, porque o rádio não me aconteceu mais a não ser em 1975 quando eu fiz uma série de três programas na rádio Gaúcha. O título era Célia com Célia. E porque se chamava Célia com Célia? Porque o patrocinador era Célia & Irmãos uma loja de tecidos. Então se chamava Célia com Célia. Foi um dos programas que me deu grande satisfação. Eles eram sempre inspirados nas nossas viagens. Porque eu contava as nossas viagens através da música aos sábados pela manhã. O programa tinha uma duração de uma hora. Eu vou render uma homenagem aqui ao Maurício Sirotsky. Estava em Gramado num sábado de manhã caminhando. Cheguei em casa e a empregada me disse: tem um telefonema do seu Maurício para a senhora. O Lauro não estava em Gramado. O Lauro ia aos sábados à tarde. Fiquei muito aflita com a história do Maurício. Ele veio falar comigo, assim feliz da vida: “Célia, tu me deste uma alegria tão grande, eu passeei contigo hoje pela Disneylândia. Estava caminhando no Parcão e te ouvindo no meu radinho, ouvindo e fazendo teu passeio na Disneylândia”.Então essas lembranças minhas do rádio, são lembranças que são muito distantes porque meu trabalho se desenvolveu muito mais em televisão e em jornal, mas eu tenho uma memória muito grata, do rádio.
P – Tem algum programa especial assim, um fato que lembre.
Célia: Não, porque neste aspecto o rádio não sei. Eu não fiz rádioteatro. Mas eu nunca tive um fato muito especial relacionado a um programa de rádio.
P – Alguma surpresa?
Célia – Não, acho que em televisão sim, a coisa é bem diferente. Acontecem coisas surpreendentes, especialmente para nós que fizemos televisão ao vivo. Sou do tempo que não havia vídeo tape. As recordações são de infância. Uma delas de ouvir a rádio El Mundo de Buenos Aires e, nas emissoras daqui são as de ouvir um programa chamado Os Serões da Dona Generosa. Lembro quando entrei na televisão Piratini uma das maiores alegrias minhas foi encontrar o Érico Kramer, que era o marido da Dona Generosa, uma personagem do programa Serões da Dona Generosa. Quando eu conheci o Érico Kramer vi que ele não tinha nada a ver com aquela pessoa que eu imaginava ao ouvir sua voz no rádio. Ele era o diretor do teleteatro da TV Piratini. Então, o rádio de certa maneira nesta evocação que a gente está fazendo, acho que é uma das frustrações profissionais, uma não, acho que é talvez a frustração profissional que eu tenho, talvez seja a de não ter feito mais rádio. Eu fico com pena.
P – A senhora chegou a atuar como atriz no teatro?
Célia: No tempo de estudante eu trabalhei no Clube de Teatro da FEUFRGS. Na época do Walmor Chagas. O Walmor Chagas, aliás, já tinha ido embora daqui. Trabalhei com Paulo José. Nós fizemos uma peça que se chamou Nossa Cidade e eu fazia uma mulher que adorava casamentos. Então, tinha uma cena que me lembro era meio caricata assim. Eu naquela peça não tive chance de mostrar que tinha alguma condição, sei lá, eu sei é que eu já pisei no Teatro são Pedro. Já tive aquela sensação da escuridão que escondia o público. Isso eu já tive. De repente, acho que estar no palco vendo as pessoas, a gente ouve os suspiros das pessoas, o barulho das pessoas. Mas estar num palco de repente sem enxergar nada não deixa de ser uma coisa meio parecida com televisão e com rádio também.
P – Até assim, quem está atrás do rádio, o ouvinte não vê a pessoas. Mas quando é apontada na rua, aquela ali é a Célia há agradáveis surpresas, não?
Célia: É, mas o reconhecimento é maior com a televisão. Eu hoje particularmente sou uma grande ouvinte de rádio. Eu acho o rádio mais próximo da gente do que a televisão. A televisão tem a imagem e a imagem desperta muito atenção. Acho que o rádio é uma via direta, é uma coisa muito mais intensa, profunda, porque a imagem dispersa muito a gente
P – E com relação à moda? A senhora teve uma formação filosófica. Há alguma relação?
Célia: É uma pergunta muito razoável. A moda foi um assunto que sempre me fascinou, às vezes as pessoas me diziam, achavam até que eu deveria falar sobre outros assuntos. Porque eu falava só sobre moda. Mas foi a oportunidade que tive em jornal, mesmo em televisão. Foi a oportunidade que tive de, digamos assim, de me especializar. Justamente, sempre fui muito ligada a coisas de história. Gostava muito de história da filosofia, depois de história da civilização. E a moda é o reflexo de um comportamento. Ela é um reflexo total. Fiquei fascinada por moda durante muito tempo.
P – E nessa linha também editou livros?
Célia: Sobre moda? Não. Sobre etiqueta tenho quatro livros. Meu nome ficou muito ligado a um livro chamado Etiqueta na Prática. Já fazia programas de etiqueta na televisão e no rádio também. Por exemplo, neste Reportagem de Bolsa, na rádio Guaíba eu já falava um pouco sobre etiqueta. Depois comecei a fazer cursos sobre etiqueta. Tive uma atividade paralela muito grande em relação ao trabalho jornalístico. Fazia cursos. Isso me deu uma experiência quando entrei em televisão completamente “verdinha”, sem ter feito rádio, coisa nenhuma. Já tinha essa experiência de fazer palestra, o que muito me ajudou na maneira de falar, até imaginando que tinha outra pessoa me ouvindo.
P – Passemos para a televisão, então.
Célia: eu não entendi, estou esperando que o Lauro fale. Vocês vão fazer perguntas só para mim?
Lauro: vou entrar um pouco na conversa.
P – Então qual foi sua ligação com rádio?
Lauro: Ao contrário da Célia, eu comecei no rádio. Até um pouquinho antes do rádio existir como é hoje, era muito comum naquele tempo, geralmente na praça central das cidades, um serviço de alto-falantes. Em Cachoeira chamava-se Voz Sonora da Princesa do Jacuí. A minha estréia foi como locutor dessa Voz Sonora de Cachoeira, onde mais gente começou. O Antonio Carlos Rezende, que hoje deixou o rádio mas segue sendo um escritor de prestigio. O Rezende começou também na Voz Sonora. Lembro o Rui Porto que saiu daqui e foi ser locutor esportivo na rádio Nacional do Rio de Janeiro. Ele também começou nesse serviço de alto-falantes de Cachoeira. O Maurício Sirotsky por exemplo começou na Voz Sonora de Passo Fundo, que era na praça Marechal Deodoro de Passo Fundo. Então isso era uma coisa muito comum nas cidades do interior e geralmente o pessoal desses serviços de alto-falante passou a ser recrutados quando começaram a surgir emissoras de rádio no interior do estado. E o radialista muito importante na história do nosso rádio, o Arnaldo Balvé, criou as Emissoras Reunidas. A primeira foi de Passo Fundo, a segunda de Cachoeira, depois Santa Cruz, Santa Maria. Eram mais de dez emissoras que começaram a funcionar em meados da década de 40. A rádio Cachoeira do Sul começou em 1946, foi quando eu comecei a minha atividade. Eu era locutor, redator, narrador, locutor esportivo, enfim, a gente fazia de tudo. E foi uma experiência muito boa, muito gratificante esta minha participação no rádio. Eu, durante uns três anos mais ou menos permaneci trabalhando na rádio Cachoeira do Sul. Inicialmente misturando. Depois acabei me fixando no Jornal do Povo, que era dos mais importantes jornais do interior, acabei até assumindo a chefia de redação do jornal de Cachoeira, onde permaneci até 1954, quando deixei a cidade e vim para Porto Alegre. Vim para o jornal A Hora que estava iniciando no final de 1954. A rigor, nunca mais tive atividade direta em rádio. Em 1970, quando o Maurício Sirotsky assumiu o jornal Zero Hora, eu era o chefe do jornalismo do canal 12. O Maurício me levou para chefiar a redação do jornal Zero Hora. Era um momento de muita crise no jornal, quando se deram conta, ele vivia uma crise muito séria. O jeito foi enxugar o quadro e juntar pessoal. Era o editor chefe da Zero Hora e ao mesmo tempo chefe de jornalismo da rádio Gaúcha. O Ari dos Santos, que era editor de esportes da rádio Gaúcha, passou a ser o editor de esportes do jornal ZH. Foi o jeito de fazer economia que o Maurício achou naqueles primeiros anos de 1970 e durante este período que chefiei o jornalismo da rádio Gaúcha, embora dando mais atenção ao jornal ZH que exigia muito mais, acho que ocorreu um fato muito importante. O programa Sala de Redação, que tinha funcionado na televisão e o Cândido Norberto levou para a rádio Gaúcha. Quando foi lançado o programa ia ao ar das onze da manhã até a uma da tarde. Participei do lançamento do sala de redação.
P – Quando foi isso?
Lauro: Em 1971. O programa Sala de Redação começou exatamente dentro da redação da ZH a partir das onze horas da manhã, comandado pelo Cândido Norberto, que tinha apresentado um programa chamado Sala de Redação na televisão. A minha participação até foi importante, acho, porque começou a participar do Sala de Redação como torcedor, aparecia lá e participava de forma brilhante, o Paulo Santana. Eu disse: “vem cá, acho que nós vamos tentar efetivar o Paulo Santana”. Procurei o Maurício Sirotsky e perguntei: – “vem cá, ouve a rádio, tu ouve o Santana?. Ele disse: -“Ouço, é muito bom “ . Eu disse: “quem sabe a gente contrata o Santana. Por enquanto, ele “tá bicando” lá sem compromisso. Antes que outra rádio o apanhe vamos contratá-lo “. Aí o Maurício disse assim: -” mas vem cá Lauro, quanto tu quer pagar a ele”. Eu disse: “ah, sei lá, vamos dar uns duzentos. Nem sei se era cruzeiro ou cruzado, o que era na época”. O Maurício me disse assim: “não, dá 400 e ele passa a fazer uma coluna na ZH”. Eu digo: “Maurício, ele fala muito bem, mas eu nem sei se o Santana sabe escrever”. Ele disse:” não tem problema, tu pega um repórter, depois do Sala de Redação, faz uma entrevista com ele, e o cara escreve por ele, entendeu”. A primeira grande surpresa foi do Santana quando recebeu essa proposta dupla de ser efetivado na rádio e passar a escrever na Zero Hora. E a outra surpresa foi minha quando eu vim a descobrir que o Santana não só sabia escrever como escrevia muito bem. Então, a minha contribuição mais importante para a rádio Gaúcha neste período em que eu fui o chefe de jornalismo foi essa, a de efetivar o Paulo Santana no Sala de Redação e torná- lo colunista da ZH desde aquele tempo, desde 1971. Naquele tempo o chefe de jornalismo da rádio tinha passado a ser o Luis Figueiredo, que era também o editor da central do interior da ZH, dentro daquele mesmo espírito. E o Maurício me falava de vez em quando: “vem cá, eu estou achando muito fracos os nossos noticiários, dá uma conversada com o Figueiredo”. Aí eu me dei conta que praticamente toda a manhã o Maurício ia para o sítio dele em Belém Novo, caminhar, plantar árvore e vinha para a ZH perto das onze horas. Então, o noticiário que ele ouvia da rádio Gaúcha era o das onze. Era um noticiário muito pequeno. Chamei o Figueiredo e disse: “olha Figueiredo, capricha nas onze, que é o horário que o homem ouve”. Aí subiu o conceito do Figueiredo perante o Maurício Sirostky.
P- Esse contato que senhor teve com o Maurício Sirostky é muito importante porque é uma pessoa que não está mais aqui conosco e tinha muitas histórias para contar. O senhor foi muito próximo.
Lauro: muito, muito
P – Podemos aproveitar até para contar. Como o conheceu?
Lauro: Eu, a rigor, conheci o Maurício quando estudávamos no Instituto Educacional de Passo Fundo. Foi quando o Maurício começou atividade dele porque nos recreios ele pegava um cabo de vassoura, prendia uma latinha de sardinha e improvisava programas de calouros. Começou no recreio e o sucesso foi tão grande que de vez em quando ele passou a fazer isso no auditório da escola. A partir de então o Maurício desenvolveu a carreira de radialista. Trocou o microfonezinho de lata dele, a latinha de sardinha, primeiro pelo serviço de alto-falantes de Passo Fundo e depois pela rádio Passo Fundo da qual ele foi o primeiro gerente. Depois vim a encontrar o Maurício aqui quando ele já estava na rádio Gaúcha e eu no jornal A Hora. Havia um certo casamento da rádio Gaúcha com o jornal A Hora. Enquanto a rádio Guaíba, claro, casava com os jornais da Caldas Júnior. Então, de certa forma isso aí fez com que o Maurício, quando assumiu e inaugurou a tv Gaúcha, chamasse, pouco depois, a Célia para o canal 12 que fazia um programa logo que inaugurou a tv Gaúcha e eu, poucos meses depois, para assumir a chefia…
Célia: um mês depois…
Lauro:…a chefia do jornalismo da tv Gaúcha, no qual eu acho que cumpri uma trajetória muito importante.
P – Quando foi isso?
Lauro: Foi em 1962, não 63. A Gaúcha foi inaugurada em 29 de dezembro de 1962. Então fui nos primeiros meses de 63…
P – Só para fixar cronologicamente. No rádio e jornal foi anterior a isso?
Lauro: Não, foi posterior. Foi em 1970 quando o Maurício comprou a Zero Hora.
P – O senhor veio de onde?
Lauro: Do jornal A Hora. Fui secretário de redação daquele jornal a hora e assumi o jornalismo da TV Piratini, logo que foi criada.. No primeiro
momento o chefe era o capitão Erasmo Nascentes, mas ele foi chamado pela MPM, uma agência de publicidade e um mês depois do início do Canal 5, ele me passou a chefia do jornalismo na TV Piratini.
P – Não havia iniciado a década de 60, ou já?
Lauro: A Piratini foi inaugurada no fim de 1959, em 20 de dezembro, cujo primeiro noticiário foi o Repórter Esso. Agora, na TV Gaúcha eu tive uma participação, primeiro lugar, mais prolongada e a meu juízo e modestamente, com algumas contribuições importantes. Uma com um noticiário que foi criado, como dizia o Chacrinha “nada se cria tudo se copia”, foi copiado do telejornal da TV Excelsior que se chamava Show de Noticias e que foi realmente uma sensação. Sai do jornalismo também num momento importante porque em setembro de 69…um pouquinho antes disso começou o Jornal Nacional e eu estava no canal 12. Nós começamos até de forma muito brilhante porque o JN entrou no ar em setembro poucos dias depois da morte do presidente Costa e Silva cujo sucessor, o general Médici, era comandante do 3º Exercito aqui no RS, depois foi a Bagé. Era a cobertura desse inicio de governo e nós figurávamos diariamente no Jornal Nacional que passou a ser divulgado em cadeia nacional a partir de setembro de 69.
P – Aí o Maurício comprou a ZH e bem no inicio o sr. já foi para o novo jornal?
Lauro: É isso aí, eu assumi a chefia de redação.
Fui diretor de redação até 90. Depois eu passei a ser o coordenador editorial do grupo quando eu passei a ter uma vinculação também com a rádio Gaúcha até porque como coordenador editorial eu era a pessoa assim que transmitia a orientação da linha editorial para todos os veículos. Inclusive,é claro, a rádio Gaúcha, que era a emissora de informação do grupo.
P – E a Célia Ribeiro neste tempo estava na tv?
Célia: Pois é. Nós nos conhecemos no jornal, o jornal A Hora, e a nossa vida foi toda em função de uma atividade paralela. Não trabalhávamos juntos. Num período sim, quando ele dirigia o Show de Notícias. Eu tinha uma participação no Show de Notícias falando sobre moda. Já tinha esta característica.
P – Em que ano?
Lauro: começou em 1963, inicio de 1964.
Célia: Pois o jornalismo na nossa vida foi um fator muito importante, inclusive na preservação de uma união tão longa.
P – 1963 a 2003. Não, antes, no jornal A Hora.
Lauro: É, 1957.
Célia: Eu acho que este fato assim de inclusive de a gente não trabalhar junto, ele foi meu chefe no jornal ZH durante uns cinco, seis meses. Foi logo que saí da Caldas Junior e fui para ZH.
Célia: Sob o ponto de vista de casal, nós estamos sendo apresentados aqui como um casal. Passamos a vida toda assim, a profissão foi um ponto de encontro entre nós. Em suma, a gente sempre teve assunto na vida, porque sempre se falou sobre jornal, sobre imprensa, sobre coisas que nós gostávamos, dos nossos interesses. Mas tem uma coisa que eu acho muito importante. Eu não consegui trabalhar com ele quando ele foi meu chefe no jornal ZH. Eu era editora. Entrei lá como editora do segundo caderno. Como chefe de redação, ele me cobrava coisas. Eu me lembro que tinha um colunista que ele achava que era muito fraco.
P – Em que nível estava a relação já nesta época?
Célia: Já éramos casados. E então ele me cobrava muito. Dizia: – “Tu que falar com o fulano, tu não fala”. E no fim a gente acabava o dia, em casa, discutindo assuntos de trabalho. Eu digo: não, isso não serve. Isso não está certo. Isso não é possível. O que foi muito bom foi que a gente seguiu trabalhando junto, mas ele não era mais meu chefe direto. Acho isso muito complicado. Acho que, não sei como o Lauro sentiu isso. Mas eu achei isso muito complicado. Então ficou bom nós conversávamos a respeito das nossas funções. “Eu estou fazendo isso, eu estou fazendo aquilo”. Isso foi uma coisa que acho fundamental na nossa vida, praticamente toda uma vida.
Célia: eu quero saber o que ele achou, porque ele nunca me disse. Eu sempre me aconselhei com ele: “o que eu faço, o que eu não faço, o que tu acha” mas ai, no próprio Show de Noticias, o jornal da tv Gaúcha, eu tinha um quadro e era sobre moda. Então, neste quadro sobre moda eles não entendiam nada sobre moda, portanto não interferiam no que eu falava.
P – Então você não é favorável a que marido e mulher trabalhem no mesmo ambiente?.
Célia: Eu acho muito bom e acredito. Eu não tenho filhos. Eu acredito que eu não pudesse ter desenvolvido a minha carreira como eu desenvolvi, no sentido de televisão.Eu fiz já tv, rádio, jornal ao mesmo tempo, ainda fazia cursos e palestras sobre etiqueta. Eu acho que se ele não tivesse os horários de trabalho que ele tinha, chegava de madrugada em casa todos os dias. Eu por outro lado fazia editoria de moda da ZH, viajava muito, ia muito para o Rio e São Paulo. Foi quando justamente surgiu o boom da moda brasileira. Acho que não teria havido esta compreensão que houve entre nós, de um respeitar o trabalho do outro. Eu acho isso fundamental. Agora trabalhar debaixo das ordens do marido eu acho uma coisa muito complicada. A relação pessoal acaba.
Lauro: O problema não chegou a existir porque durou muito pouco.Ela desistiu de ser editora
Célia: Eu caí fora até porque eu acho que eu não tinha talento para ser editora. Sempre gostei muito de entrevistar pessoas de falar com pessoas, de me movimentar muito fora do jornal. E há pouco a Julia me perguntou porque escolhi a moda. E eu acho que a moda me permitiu inclusive sair, viajar. Conviver com pessoas do Rio e São Paulo. Não ficar só restrita a esse ambiente aqui do sul me deu uma abertura muito grande. Eu sempre gostei muito de teatro. Eu aproveitava as viagens quando dava um tempinho ainda assistia aos espetáculos. Uma coisa que eu me lembro com muita emoção é quando a Bibi Ferreira estreou Piaf no Rio de Janeiro, era a grande incógnita como ela de desincumbiria naquele papel. Eu estava no Rio cobrindo a Semana de Moda do Rio porque naquela época, isso foi nos anos 70, naquela época o Rio concentrava o glamour todo de moda, depois foi para São Paulo. Estava no Rio de Janeiro, eu não fazia matéria de teatro para ZH, eu cobria era moda, pois era editora da área e ai eu fui ao espetáculo da Bibi Ferreira e fiz uma matéria sobre o espetáculo. Inclusive foi página inteira, mandei por avião. Era uma coisa muito engraçada. Mas a Bibi Ferreira, aqui eu vou me reportar a uma época do meu início na televisão, foi na época da tv Gaúcha, quando iniciei na tv Gaúcha. Eu tinha trabalhado quatro anos na tv Piratini e fui para tv Gaúcha com um programa semanal chamado Programa Célia Ribeiro. Foi quando o Maurício, o Maurício Sirostky me levou para lá. E a Bibi Ferreira estreava em porto Alegre com o Paulo Autran, My Fair Lady. E nós fizemos um programa que tinha a duração de uma hora. Tinha culinária que era com a Ione Taschman, tinha moda que eu que fazia. E sempre com entrevistas. E nós fizemos um programa especial sobre a temática do espetáculo My Fair Lady. Inclusive as roupas daquele período eduardiano, tinha um material muito bom daquilo tudo, de história da moda. Nós fizemos um programa que se chamou o Chá de Elisa. Elisa era o personagem que a Bibi Ferreira fazia. Nós fizemos todo cardápio do período, final do século XIX. Esse programa teve um sucesso muito grande. A partir dali eu me tornei muito amiga da Bibi Ferreira. Então isso foi uma coisa muito boa na minha vida. Tudo esteve muito entrelaço. Eu fazia cursos para debutantes no Leopoldina Juvenil. Eu trabalhei 18 anos consecutivos no Leopoldina Juvenil fazendo cursos para debutantes, fazia postura, fazia etiqueta. Lancei um livro em 2003 que se chamou a Duquesa Voadora. Esse livro é todo sobre as nossas viagens e repara que eu fiz uma série de programas de rádio sobre as nossas viagens que se chamou Célia com Célia. Sobre moda. Quando você visualiza moda, ela está muito ligada com o aspecto econômico. Agora está sendo lançado um livro A moda na guerra, que é um livro que conta aquela parte dos costumes da alta costura francesa por ocasião da ocupação alemã em Paris. Então aquela influência da guerra, o fator econômico, visto que eles não tinham dinheiro para comprar tantos tecidos, essa história dos complementos, bolsa, sapato. Essa importância dos complementos ela surgiu exatamente na época das vacas magras, na época da guerra, quando não havia dinheiro e elas não podiam trocar de roupa e nem podiam usar roupas com muitos tecidos. Então o que elas faziam? Elas tinham bolsas mais chamativas, mais glamourosas.Trocavam de bolsas e ainda se usava chapéu, elas trocavam de chapéu também. Então repara bem, nessa avaliação da moda, dos aspectos da moda, existe muito o fator lúdico. E um fator muito sério. Porque a moda lida com a auto-estima. E auto-estima é a propulsora de tudo na vida. Uma pessoa que não tem auto-estima dificilmente sei lá, poderá se superar, ou terá mais dificuldades de se superar, porque as vezes a pessoa tem um complexo, uma coisa e impulsiona para que ela se supere e consiga vencer e realizar coisas muito boas e muito positivas e gratificantes.
Lauro: Independente dessa questão de moda, a Célia foi a rigor uma das pioneiras de mulher trabalhando em jornal. No Correio do Povo já tinha a Ligia Comenta e a Matilde Zatar na Folha.
Célia: Gilda Marinho.
Lauro: É mas a Gilda começa na revista do Globo e depois na Hora. Quem deslanchou. Não, mas a partir da Hora é que começa a presença feminina dentro de redações. A primeira editora de jornal foi a Terezinha Zukauskas, na Hora. Bom, a primeira estagiária foi a Iara Almeida, depois Bendatti, estagiária de polícia. A Iara começou como estagiária e foi a primeira aluna de jornalismo a começar como estagiária num jornal, e isto aconteceu no Jornal A Hora. Aliás, o Jornal a Hora eu considero um marco na imprensa do Rio Grande do Sul. Na história da imprensa do século passado, teve dois marcos importantes: o primeiro foi a Folha da Tarde lançando os formatos tablóides, que era uma coisa inédita no Brasil, e que se concretizou aqui no Rio Grande do Sul. E a segunda foi o lançamento esse jornal A Hora, que foi uma revolução na imprensa. Foi quem modernizou a imprensa do Rio Grande do Sul. De certa forma a Zero Hora, não deixa de ser uma síntese desses dois marcos, primeiro porque tornou o tablóide um sucesso nacional, e segundo porque deu o modernismo que a Hora trouxe pro Rio Grande do Sul.
Célia: O Lauro escreveu um livro que eu acho muito importante, especialmente para estudantes de jornalismo, para pessoas até que já estão dentro da profissão. Chama-se “A Hora – Uma revolução na imprensa”. Esse livro foi lançado no ano de 2000, e ele conta toda história do jornal “A Hora”, e eu acho, que de uma maneira realmente muito interessante. E agente lê, ele é todo ilustrado e o livro tem uma vida porque justamente era uma época do jornal tão diferente, de tudo que se fazia aqui, assim como a história da RBS que o Lauro escreveu Da Voz do Poste à Multimídia. Os dois livros foram da Editora LPM e eu acho que preservam uma memória muito importante.
Lauro: Aliás, falando em rádio esse livro que eu escrevi sobre a RBS, eu acho que ele é importante em relação a história do rádio. Claro em relaçãoà rádio Gaúcha, à rede Itapema. Conta assim detalhes muito curiosos da Gaúcha e das emissoras da RBS. Acho que é uma das boas contribuições que esse livro dá sobre a RBS e, também, em relação a história do rádio do Rio Grande do Sul. Nós temos a Zero Hora microfilmada praticamente toda coleção. Aconteceu uma situação muito curiosa, provando como a gente não liga muito pra memória. Nós compramos as coleções do Diário de Noticias e de A Hora, que passou a ser associada, microfilmamos e doamos as coleções pro Museu Hipólito da Costa. Quanto eu fiz esse livro, eu precisei fazer uma reprodução da capa da Zero Hora nº 1, que eu tenho micro filmado na Zero Hora e precisava ter cor, só que os primeiros quinze dias da coleção da Hora, que estavam lá no Museu Hipólito da Costa desapareceram, sumiram. Tanto é que não se tem aqui nesse livro a data em que circulou a última edição do jornal A Hora porque desapareceu. Eu consegui uma página com o Antonio Carlos Porto, que foi repórter da Hora e que escreveu uma reportagem no primeiro número, tem guardado até hoje, em casa, esse primeiro exemplar impresso, então o Portinho me emprestou e eu pude então reproduzir em cores a capa do jornal. Aliás, cor foi uma das inovações que esse jornal deu para a imprensa Gaúcha além de outras tantas. Foi o primeiro jornal a ter diagramador. Isso aqui são ilustrações do Xico Stockinger que veio do Rio pra ser diagramador do jornal A Hora, junto com Vitório Gheno, Nelson Boeira. Com a avaliação que possa ser feita com a imprensa de hoje, eu acho que a Hora mantém até a atualidade uma qualidade que os jornais de hoje não tem.
P -: O que é?
Lauro: É a crítica. Tinha crítica de cinema. O critico de música era o Bruno Khifer, tinha críticos para todas as áreas, e hoje (2004) praticamente desapareceu, pelo menos aqui em Porto Alegre não há crítico de cinema, crítico de música erudita. De música popular ainda tem o Juarez Fonseca, mas praticamente desapareceu. A crítica foi a coisa das mais importantes desse jornal.
P – E como perguntamos pra Célia Ribeiro, vamos perguntar para o senhor também, se na infância tinha assim uma preferência profissional pelo jornalismo ou foi despertando depois.
Lauro: Pois olha um negócio curioso, eu gostava de desenhar um pouco, nunca desenvolvi, mas gostava de desenhar e eu quando estudei num colégio muito bom que é o Sinodal de São Leopoldo, eu devia ter uns doze anos, eu acabei fazendo um jornalzinho que se chamava “A Crítica”. Inspirado na crítica de Buenos Aires, que a minha madrinha morava em Buenos Aires e trouxe o jornal “A Crítica Argentina”. Achei muito bonito e resolvi fazer esse jornal no colégio, entendeu. E até me deu alguns problemas porque algumas críticas colocadas acabaram sendo mal recebidas, mas eu acho que foi meu início do jornalismo.
P: Já então decidiu uma profissão por aí?.
Lauro: Depois eu já estava estudando no IPA e houve um concurso do Diário de Notícias sobre crônicas, com vistas a um GreNal que ia se realizar. E acabei fazendo uma crônica e para surpresa e gratificação minha, a minha foi escolhida como melhor. Só que esse Grenal para mim é de má memória, porque o Grêmio acabou ganhando por quatro a três.
P: Mas valeu a pena então?.
Lauro: Foi a minha primeira crônica escrita e impressa. Deve ter sido lá por 1944.
P – E a competição entre RBS e Caldas Júnior?
Lauro: Falando assim na competição, Zero Hora Caldas Junior. Eu acho a seguinte, que a afirmação da Zero Hora e da RBS diante do Correio decorre fundamentalmente duma coisa. É que o Maurício, o Jaime e o Fernando Ernesto assumem em 1970 a Zero Hora. Eram pessoas que vinham da televisão, da propaganda e o Fernando também um pouco de sangue de jornalista filho do doutor Ernesto Correia. Então, naquele momento a televisão brasileira e a propaganda do Brasil viviam um estágio assim ascendente muito inovador ao passo que na imprensa, inclusive no Rio e São Paulo, afora da experiência meio frustrada da Última Hora era um clima de estagnação. Então em função disso, o que acontecia, tinha uma exposição anual da associação dos jornais americanos, todo ano a Zero Hora ia para lá junto com a Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, o Jornal do Brasil e com o Globo do Rio. Eu não me lembro do Correio do Povo ter comparecido uma vez sequer a esses encontros, muito menos num evento assemelhado que tem na Alemanha, a cada quatro anos em Colônia e a Zero Hora sempre presente a isso. Isso fez com que agente trouxesse coisas novas. Eu fui participar dum simpósio em Bogotá e conheci o Mário Garcia que é um grande diagramador. É a Zero Hora quem traz pela primeira vez ao Brasil o Mário Garcia que dá uma primeira mexida na Zero Hora e depois faz o projeto gráfico do Diário Catarinense.
P: Que mexida é essa?.
Lauro: A mudança na parte gráfica do jornal. Esse Mário Garcia só pra definí-lo é o cara que mudou o Le Mond, da França e introduziu a cor no Le Mond, na França. Pois este cara veio pro Brasil trazido pela Zero Hora. Num desses encontros por exemplo, no ano em que eu compareci em que foi a Ana Cássia, eu, o Marcos Dvoskin, o Fernando Ernesto junto com os Marinho, os filhos do doutor Roberto, fomos a San Diego, onde nós praticamente copiamos o projeto ZH na sala de aula dum jornal de San Diego na Califórnia. O Madruga Duarte, que era o diretor comercial nosso ficou durante dois meses no Miami Herald aprendendo como é que o Miami Herald fazia com os classificados. E esse projeto dos classificados, que se previa que ia levar um ano ou dois para vingar, em seis meses já tinha ultrapassado o Correio do Povo. Então eu acho que fundamentalmente foi esse espírito inovador, entendeu, que o Maurício, o Jaime e também o Fernando trouxeram para a RBS, que acabou determinando a ascensão da Zero Hora e a queda do Correio do Povo. Há mil exemplos, por exemplo: redação eletrônica, no Brasil foi introduzida, por quem? Pela Zero Hora e pelo Globo. O Olyr Zavaschi e um jornalista do O Globo foram para os Estados Unidos e escolheram o equipamento, que só não veio para a ZH porque o Diário Catarinense estava começando e serviu como piloto para a Zero Hora e para O Globo. Fomos também pioneiros na redação eletrônica dentro da imprensa brasileira. Eu acho que isso aí é uma coisa muito importante na história da RBS, e da imprensa gaúcha e brasileira. A tua pergunta sobre a Célia, problemas assim que nós vivemos, especialmente naquele período do arbítrio militar. E desde logo confesso uma coisa, a Zero Hora pertencia a RBS que tinha várias concessões de televisão e naquele período o governo federal, com uma penada sem qualquer explicação podia cassar o canal de televisão, então o Correio do Povo também minha concessão de TV Guaíba e de Rádio Guaíba. O que estou comentando com isso, que os jornais que estavam vinculados a concessões de televisão fizeram muito mais autocensura do que os outros. Por exemplo, a Folha de São Paulo e o próprio Estadão que tinha só uma estação de rádio e puderam assumir uma postura de muito maior independência, do que jornais como o nosso que pertenciam a uma empresa que dependia das concessões do Governo Federal. Não obstante isso claro, eu acho que dentro dos limites, e, desse limite que era muito importante a gente conseguiu realmente ultrapassar várias tentativas de cerceamento, uma delas foi essa que logo depois da revolução. Aconteceu um negócio muito engraçado porque eu assinei uma requisição do terceiro exército, pedindo credenciamento dos repórteres e cinegrafistas que iam cobrir a chegada do Presidente Castelo Branco, na sua primeira visita ao Rio Grande do Sul, e aí o ofício voltou do QG trazido pelo Clóvis Stenzel com a informação de que como eu assinava, eu estava fichado na segunda sessão do Terceiro Exército, tinha que mandar um outro ofício. E aí o Cambis Martins que era o diretor artístico assinou o outro ofício credenciando a mesma equipe.
P: Qual o motivo de esta fichado?
Lauro: Era bobagem, porque eu militei no Partido Socialista. Tinha assim umas coisas ridículas, entendeu, eu nunca tive militância no PC, mas como tinha eu, como tinha o Ibsen Pinheiro, como tinha o Werner Becker, que até tinham mais posição esquerdista do que a minha, houve uma pressão em cima do Maurício pra tirar, a começar por mim, entendeu, mas o Maurício, teve duas grande atitudes. Primeiro não tomou conhecimento da pressão, segundo, não me informou disso. Eu só vim, a saber, disso, muito tempo depois. E houve vários episódios durante aquele período em que o Maurício assumiu posições. Por exemplo, quando prenderam o João Batista Aveline, que era o chefe de reportagem da Zero Hora, o Maurício mandou dar todo o apoio. Eu e o Fernando Ernesto íamos diariamente lá na Polícia Federal, na Avenida Paraná, conversar com o Aveline, dar apoio Aveline. A Célia ia casa do Aveline dar apoio para a mulher dele. E o Aveline acabou solto, porque não havia nada de grave contra ele, a não ser o fato de que confessadamente era do PC e continua até hoje. Continua stalinista até hoje, por incrível que pareça. E o Aveline voltou da prisão para a redação da Zero Hora, o Maurício fez questão de recebê-lo na porta, e ele continuou Chefe de Reportagem da Zero Hora. Então há vários episódios, assim que alguns até eu conto nesse meu livro da RBS que valorizam assim a posição que o Maurício em vários momentos muitos difíceis soube assumir, apesar dessa dificuldade, que era o fato que a Zero Hora pertencia a um grupo cheio de concessões federais suscetíveis de serem cassadas a qualquer momento e sem nenhum pretexto.

