Hardy VedanaEntrevista Completa

Entrevista gravada no estúdio de rádio da Famecos, PUCRS, em 02 de outubro de 2006

P: Por favor, seu nome completo?

R: Meu nome completo: Ardy Antônio Vedana. Meu nome artístico Hardy Vedana. Botei um h e tirei o Antônio porque fica mais, como é que eu vou dizer, sonoro para os ouvintes.

P: E sua data e local de nascimento?

R: Nasci em Erechim no dia 13 de junho de 1928, portanto tenho 78 anos e vou fazer 79.

P:Local de nascimento?

R: Erechim.

P: Qual a sua experiência com rádio?

R: Eu posso fazer um pequeno resumo. Eu escrevi um livro, entre tantos que eu tenho que eu conto a história de Porto Alegre entre o ano 1900 a 2000. É só sobre fotografias. É a história. É uma pictórica história musical de Porto Alegre. Bom, o que que é?Acho que estou confundindo…

P: O nome do livro é Caleidoscópio…

R: Ah, tem razão. É um caleidoscópio musical de Porto Alegre. O que é um caleidoscópio? Caleidoscópio é um prisma que é feito de vidro. É um triângulo. Tem um comprimento de mais ou menos uns 20 centímetros. Ele é coberto com um papel escuro e dentro desse caleidoscópio, chama-se também de prisma, coloca-se uns papeizinhos pintadinhos que no mexer contra a luz ele vai formando diversas formações, são miríades. Esse é o termo correto. São luzes coloridas.

P: O senhor quis fazer uma alusão…

R: Exatamente. Eu com a idade de 4 anos tive a primeira experiência musical. Daí eu vou explicar pra vocês o trajeto que eu fiz e que permanece até hoje. Eu, com a idade de 4 anos. Recordo perfeitamente, o meu pai possuía um chalé em Erechim que tinha jogatina, tinha um bar, restaurante, tinha local pra se dançar, era bem amplo. Redondo. E tinha jogatina de noite e meu pai gostava muito de jogar. E naquela noite ele ganhou uma quantia muito grande. Então, quem cuidava da parte do bar e do restaurante ali era meu mano mais velho. Bom, terminou o jogo e fechou o quiosque. Quiosque. Esse era o nome. E o quiosque, ele é sextavado, vamos dizer, seria o mesmo formato do prédio de guerra dos Estados Unidos em Washington, o Pentágono, seria aquilo, porém coberto né? Com lâminas, igual a Paris. Bom, ele saiu dali e caminhando pela avenida principal foi pra casa. Ele parou na vitrina de uma ourivesaria e casa de óculos, que vendia além disso, vendia uma série de coisas, entre as quais gramofones e discos. E ele compra uma vitrola. Ele se encantou com aquilo. “Tava frouxo de dinheiro” e comprou uma vitrola e discos. Eu me recordo até de determinadas músicas daquela época. Com a idade de 4 anos. Bom, essa foi a primeira experiência, o primeiro impacto de música. Eu não conhecia a música. Depois eu fui conhecer o cinema mudo. Também na década de 30. Saí de Erechim em 1943. Eu saí guri. Mas houve uma série de conotações musicais que eu fui marcando, então, estas do cinema. Era cinema era mudo ainda. O que ocorre? Tinha um pianista que tocava. Em cena triste, ele tocava música triste. Se a cena era alegre, ele tocava música alegre. Apesar de que nós recebemos esse impacto bem mais tarde… eu pesquisando verifiquei que o cinema é interligado a uma série de coisas, inclusive a rádio e televisão. É tudo interligado, porque em 1927 saiu “O cantor de Jazz” do Al Johnson, foi o primeiro filme musical no mundo. Até então existia orquestra para tocar dentro, no hall e dentro, no fosso da orquestra, junto à tela. Hoje se faz isso em teatro, tocar pra fazer a música de fundo ou a música principal.

Tanto que o Radamés Gnatalli (www.bn.br/fbn/musica/radames/pmoleque.htm) iniciou aqui em Porto Alegre tocando em cinemas. Pouca gente sabe disso. Então, em 1927 termina o trabalho das orquestras e músicos no cinema. Então os músicos tiveram que procurar outro caminho como o rádio, as boates, os clubes, aquela coisa. E eu então tive o segundo impacto musical no cinema. Aliás, o terceiro. Nessa cena, houve um enterro. Esse enterro ia acompanhando uma banda de músicas. Eu sou de origem italiana. Os italianos são todos grandes músicos, todos eles musicais. Há quem diz o seguinte: italiano quando nasce se joga na parede, gruda, não sai coisa boa, se cai no chão é músico. Bom, o que quê ocorre? Nessa cena do filme o enterro ia indo para a Igreja e os músicos iam tocando atrás, atrás ou na frente, não me recordo bem, acho que foi na frente, ia puxando. Entre os quais tinha uma pessoa que vinha tocando clarinete e que tinha uma perna mais curta. Aquilo me chamou muito a atenção e o meu instrumento é clarinete também. Quer dizer, não sei se tem alguma conotação…e a música ela fazia um desenho em que o clarinete fazia com a melodia baixa, grave, (imita o som) e aquilo ocorria quando ele pisava com a perna mais curta. Pé torto. Aquilo me gravou, me chamou muito a atenção. Além disso eu ia ao cinema pra escutar as músicas de fundo do filme. Depois de terminado o filme eu ia a uma praça com uns amigos pra assobiar ou tocar gaitinha de boca as músicas que tinha escutado no filme.

P: Quantos anos o senhor tinha?

R: Em torno de uns 7, 8 anos, ainda em Erechim. Bom, eu sei que vai indo, vai indo e eu venho para Porto Alegre. Em Porto Alegre eu vim estudar… Ah, tem mais uma coisa. A minha mãe possuía um violão, que era do meu tio, por parte do pai, e possuía uma máquina de moer café. Então veja bem o seguinte, eu brincava de moer café. Era uma máquina dessa altura assim, uns 50 centímetros mais ou menos, era manual. E depois eu pegava o violão e passava a tarde toda blém blém blém, mas eu não sabia tocar, mas aquilo me dava, como posso dizer, uma certa agradabilidade no escutar o som. Eu ainda não sabia definir o som. Então vão acontecendo alguma coisas e isso eu conto nesse livro. Bom, aí eu venho para Porto Alegre e comecei a estudar piano. Piano eu estudei pouco. Primeiro porque eu não tinha dinheiro pra pagar professora, era muito caro, e segundo porque tinha que comprar um piano pra ter em casa, porque se a pessoa não pratica não consegue tocar bem. Tem que treinar. Larguei o piano e comecei a estudar violão, mas estudar é modo de dizer, estudava pra mim, sozinho. É, não deu certo, não sei, não era aquilo que eu queria. Nesse tempo eu ia muito às emissoras de rádio, que tinham aqueles programas de auditório. Eram uns auditórios pequeninhos, deviam ter o quê? Talvez umas 30 cadeiras no máximo. Por causa que em 1940, não, deveria ser em 44, por aí, eu até ganhei uma lata de azeite de algum concurso que eles fizeram ali.

P: Concurso no programa?

R: É exatamente. Então eles tinham um aquário. Você sabe o que é aquário né? Aquário é aquilo que está ali, o que separa o operador de áudio das pessoas que estão falando no estúdio, quer dizer, nós estamos aqui, os microfones e o público fica do lado de lá. Um vidro grande. Então isso se chama aquário no rádio.

P: E a platéia não tinha muita gente?

R: Não, era mais ou menos umas 25, 30 pessoas. Aí tinha orquestra, tinha o locutor, tinha cantor e, também, os radioatores. A primeira emissora de Porto Alegre foi a Gaúcha em 1927 e por acaso o diretor musical da Rádio Gaúcha era Otávio Dutra. E eu escrevi um livro sobre a história do Otávio Dutra em Porto Alegre. Ele foi o maior compositor de música popular. Então ele foi o primeiro diretor musical da Rádio Gaúcha.

P: Qual o nome do livro?

“Otávio Dutra na vida musical de Porto Alegre”. Pois bem, então veja bem que eu já freqüentava os auditórios porque aquilo me chamou muito a atenção. Meu pai tinha um aparelho de rádio e em Erechim nós pegávamos as notícias da Segunda Guerra Mundial, a Grande Guerra, e eu, é claro, mexia no dial. Mexia no dial porque eu procurava música e não notícia de guerra. Não me interessava, eu era guri. Então, veja, as coisas elas vão se formando. Bom, e eu freqüentava muito as emissoras de rádio, então eu me dava com todo mundo.

P: O senhor ia pra assistir, mas acabava conhecendo todo mundo que trabalhava lá…

R: Exatamente, mas em determinado momento, depois de eu estudar música, mais isso e mais aquilo, eu formo um conjunto e acabo entrando no rádio.

P: Um conjunto musical… Como é que era o nome do conjunto?

R: Olha, eu quis lançar primeiro “Fantasy Five”, eu era americanizado de toda forma, eu gosto muito de jazz e naquela época, os anos 40, como tinha guerra, o mundo todo era dominado pela mídia norte-americana. Tinha a famosa revista “Em guarda” , quer dizer, eram livros, revistas, era discos, jornais, enfim, era tudo baseado no americano. Sim, porque eles estavam com a hegemonia. Aliás, eu lanço agora um livro da Casa Elétrica: “A Elétrica e os discos gaúchos”, onde eu conto a história da primeira gravadora de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul, a segunda da América do Sul e a quarta do mundo, na época.

P: Primeira e única né?

R: Não, a primeira em Porto Alegre, a primeira no Rio Grande do Sul, a segunda na América Latina. Apesar de ter gravado em torno de 1956, 57, por aí. A gente gravava em estúdio pequeninho. Ou então, nas emissoras de rádio. O meu primeiro disco foi gravado na Rádio Farroupilha. Mas o que eu estou tentando contar…como eu estava dizendo, eu conto a história,da Casa Elétrica porque até 1927, até 1927 não existia rádio, a emissora de rádio não existia, aqui, pelo menos em Porto Alegre, ou no Rio Grande do Sul. O que existia era, no Rio de Janeiro. Em 1922 tinha o Roquette Pinto, ele mexia com a emissora, a rádio Sociedade no Rio de Janeiro. Então, sem o disco nenhuma emissora de rádio funciona. Veja bem: o primeiro a usar, logo que surgiu o rádio, na Inglaterra, as primeiras manifestações do lado de música, a música clássica, é que abriu a emissora de rádio, era a BBC de Londres. Quer dizer, tu tira a música, tô fazendo conotação aqui do seguinte: tu tira a música do cinema, do rádio, da igreja, do automóvel, enfim, tu tira a música, fica parece uma morte, que é o éter. Um vazio. Não tem nada. É que o som é o que movimenta o mundo. Sem ele, não existiria a vida.

P: O senhor considera a música essencial, então…

R: O som, ele é… para a vida… tanto é o farfalhar de uma folha…o som é essencial. Daqui à lua não existe nada, não existe vida, não existe som. É, eu andei estudando a física do som, viu…

P: Mas o senhor estava falando da Casa Elétrica. Aliás, o senhor nasceu um ano depois da primeira rádio ser criada aqui de Porto Alegre.

R: Exatamente. E grande parte daquele pessoal que tocava na Casa Elétrica, que gravaram discos, eles foram trabalhar no início do rádio…

P: O senhor não lembra onde ficava a sede da Casa Elétrica?

R: Sei, como que não, eu escrevi o livro.

P: Sim, mas o senhor não disse ainda.

R: Ah, bom. Ali, onde foi a Casa Elétrica, eu consegui, através de um abaixo-assinado, eu consegui com que a Prefeitura de Porto Alegre tombasse o que restou. Fica na Avenida Sergipe. Ficava no número 9, 9A e 11. Hoje é o número 220.

P: O quê que tem hoje ali?

R: Hoje ali, o prédio tá tombado… parte dele. Tanto é que no meu livro, o livro é 30×30. Exatamente o tamanho do disco 78 da capa protetora. Então tu abre ele e fica 60. Ali tem uma fotografia inteira que eu consegui, através de muita pesquisa, com que apareça toda a fábrica. São dois prédios idênticos, uma ala ligando as duas, e um, atrás, com chaminé.

P: E de que ano até que ano funcionou a Casa Elétrica?

R: Ela começou em 1913 e foi até 1924 quando pediram a falência dela.

P: E o senhor veio a descobrir isso depois…

R: Ah, não, claro. E o pessoal da Argentina e do Uruguai, quando começou a Primeira Guerra Mundial… Eu tô fugindo um pouquinho, viu, mas depois a gente volta pro tema. Porque parou, o mundo parou. Porque tinha a Alemanha e os Estados Unidos. Eram os dois que possuíam a hegemonia mundial do disco. E quem inventa o cilindro e o fonógrafo é Thomas Edison. O cilindro funcionava como essas caixinhas de música. São cilindros com umas tetinhas de metal que quando batem em determinada mola de metal, ela soa, dá um sonido. Então toca música. Então as gravadoras… as primeiras gravações eram assim. Aí, Emile Berlin, um alemão, inventa o disco plano, também disco chato, o outro era o cilindro e este o disco chato. Ele inventa o disco plano e inventa o gramofone. Tudo isso aí vai passar depois para a emissora de rádio.

P: Agora a gente tem que voltar para a Casa Elétrica.

Bom, então a Casa Elétrica, nesse período de 1914. Dezembro de 1914 a 1919, a Primeira Guerra Mundial… Como os dois países possuíam a hegemonia mundial, só tinham quatro gravadoras no mundo, que ficavam nos Estados Unidos, na Alemanha, no Rio de Janeiro e Porto Alegre. Por incrível que possa parecer. Os argentinos e os uruguaios, no início, iam ao Rio de Janeiro prensar os discos e gravar os discos na Odeon Records. Não, desculpe, eu tô fazendo confusão… Ela foi fundada em dezembro de 1912, mas no dia 02 de janeiro de 1913, é que ela começa a funcionar. Então, os primeiros discos gravados em Porto Alegre eram prensados… Prensados é a forma de fazer o disco. As gravações eram feitas aqui, a matriz se remetia pra lá. Porque, anteriormente, o disco gravado na Odeon Records, ou que eram gravados aqui no Uruguai e na Argentina, ou iam para os Estados Unidos para serem prensados, ou para a Alemanha. Tanto é que a primeira remessa das matrizes do Rio de Janeiro, eles começaram a gravar em 1912, eles puseram dentro de um vapor – porque naquela época só funcionava o vapor, era o único transporte –eles colocaram um caixote com as matrizes, do lado de uma fornalha. Esquentou, era cera, derreteu tudo, mas deixa pra lá, isto era apenas um detalhezinho.

P: E voltando pra época, daí o senhor acabou conhecendo todo o pessoal das emissoras e formou a banda, começou a estudar…

Claro, e comecei a estudar e tal, e eu tentava entrar pras emissoras de rádio, mas ocorre o seguinte: a emissora de rádio, ela forma uma turma, como é que a gente diria, um grupo fechado que não deixa ninguém entrar. Com medo que o outro entre e derrube ele, que bote ele pra fora. Só havia três emissoras de rádio.

P: Que eram?

R: A Gaúcha, em 1927; em 1934 a Difusora; em 35, a Farroupilha. Bom, inicialmente as três tinham conjuntos.

P: O senhor lembra quais eram os nomes desses conjuntos?

R: Sim, sim, claro que me lembro. Bom, a Farroupilha tinha… não, vamos começar pela Gaúcha. A Gaúcha tinha, em 1927, Otávio Dutra com o grupo dele, “Os Batutas”. Tanto é que… Eu tenho um livro escrito que conto a história de 1900 até 1935 do Otávio Dutra. Conto a vida dele. Ele não saía de Porto Alegre e gravou 32 músicas na Odeon Records do Rio de Janeiro. Bateu recorde. Ele e o grupo “Terror dos Facões”. O nome parece estranho né.

P: Outro grupo do Otávio Dutra?

R: Foi o primeiro.

P: E depois veio o “Otávio Dutra e os Batutas”?

R: É, você veja bem, a pesquisa, ela te leva a lugares inimagináveis. Tanto que eu pesquisando, eu tenho uma coleção muito grande de carteiras de cigarro, a maior do Brasil, entre 1872 a 1923. E eu tenho uma embalagem que diz assim: o pau bate. Aparece uma mulher, viu, com um vestido, esses compridões, de 1902, 03, 04, 05, 06, por aí, cabelo enrolado atrás, um pedaço dum pau desse tamanho, dando paulada numa pessoa que parece um bicho, que tem um rabo. É o desenho da embalagem. “O pau bate”. Ao mesmo tempo, houve, num cinema num teatro de Porto Alegre, a peça “O pau bate”. Então veja bem o seguinte: eu fico observando que o diretor musical e o compositor… Que aqui se fazia muito… Como não tinha rádio, não tinha televisão, o teatro rebolado, o teatro de fatos e costumes estava muito em alta na época. Então eles metiam o pau no Governo do Estado, na Prefeitura, metiam o pau em todo mundo. Nos teatros de fatos e costumes, peças teatrais. Então quem é o compositor, viu, e o que regeu a orquestra, pequena, média, não sei o tamanho… chamava-se Artud. Eu tenho algumas dicas, entre 200 e 300 mil, sobre música popular brasileira, mais uns 6 volumes sobre música Argentina, sobre tango e mais uns 550, 600 volumes sobre jazz.

Então hoje eu tenho exatamente o perfil de todas as músicas populares das três Américas, o nascimento e tudo. Bom, eu procurando, procurando, procurando, digo Artud, Artud, Artud, e olha, vejo nos livros, nas partituras musicais, que eu tenho, entre 8.000 e 8.500 partituras, tanto prensadas, impressas, quanto manuscritas. Desde 1835 e de lá pra cá… tem muita coisa. E eu digo: quem é esse Artud, Artud. Passou uns 4, 5, 6 meses e um dia eu tava parado e pá! É aquela história: tu manda pro cérebro uma pergunta e ele responde na hora em que ele bem quiser. Eu pensei….. vou trocar: Artud invertendo fica Dutra. Aí eu descobri que ele tinha feito essas músicas e colocou um pseudônimo, porque se não prestasse ninguém conheceria ele. Veja como é que são as coisas, né. Existe uma intercalação entre o cigarro e a arte. Tanto é que até no esporte. Quer dizer, esporte entra junto. O teatro, as artes, aquela coisa toda. Bom, agora vamos voltar.

Na rádio Difusora, formou-se uma orquestra do Paulo Coelho. Sim, Paulo Coelho. Não o escritor, o escritor esse pra mim não leva nada. E, tu veja bem o seguinte: Paulo Coelho foi o maior pianista que o Rio Grande do Sul já teve, e talvez um dos melhores do Brasil. Ele tocava um noturno de Chopin com uma mão e tocava um samba aqui com outra. Simultaneamente. Tenho fotografias dele. E ele só compôs uma música: “O alto da bronze”, que vocês devem conhecer. Então, a vida dele era no rádio, na emissora de rádio, que era a Difusora. E, ao mesmo tempo ele tocava no Café Colombo. Ficava ali no Largo do Medeiros, no Centro. Ali, num lado tinha embaixo a loja Xangri-lá antigamente. E em cima tinha um curso noturno de pré-vestibular. Ali tinha, não sei se ainda tem. Em diagonal assim, tem o edifício do relógio, o Edifício Chaves Barcellos na esquina. É com a rua da ladeira ali. Aqui tinha o Café dos Medeiros, de fronte era o Café Colombo. Era o Café mais chique de Porto Alegre. Ali tocava Paulo Coelho. De tarde, quando tinha o chá das cinco, eu tenho uma fotografia da Iolanda Pereira, com duas princesas. Sabe quem foi? Iolanda Pereira foi a primeira gaúcha Miss Universo. Ela era de Pelotas. Eu tenho uma fotografia dela com duas princesas e mais o dono do Café Colombo e atrás a orquestra do Paulo Coelho. Tenho fotografia dele na Rádio Farroupilha, depois ele passa pela Rádio Farroupilha. Na sua inauguração veio a Carmen Miranda e o Mário Reis e para acompanhar a orquestra do Paulo Coelho. Bom, ele morre em 1941, mas antes ele esteve na Argentina, casou lá e a mulher dele morre. Estava grávida e a criança salvou-se e ficou com os avós. Ele naquela época em diante começou a beber. E bebia que era coisa séria, sempre com a garrafa de cachaça.

P: E aí foi desperdiçando, jogando a carreira fora?

R: É, e ele acabou morrendo de tuberculose, e não de cirrose. Tuberculose. E ele não se alimentava lá muito bem. Naquela época existia muito isso.

P: E na Gaúcha, quem é que tocava?Na Difusora era o Paulo Coelho e na Farroupilha era o Otávio Dutra…

R: Isso foi até um certo tempo. A partir de 44 eu comecei a ir na emissora de rádio.

P: O senhor disse que era difícil pra entrar…

R: É claro, eu estou tentando discriminar a cena daquela época. Paulo Coelho morre, assume a orquestra Marino dos Santos, que tocava sax com ele. Era um preto, que o Paulo Coelho ensinou a tocar. Junto dessa orquestra, eu tenho uma fotografia da Rádio Gaúcha, em que aparece a orquestra do Marino dos Santos com a Oracina Correa, o auditório lotado, na rua 7 de setembro,. Eu tenho a gravação feita da Oracina Correa, que foi considerada a melhor cantora de todos os tempos do Rio Grande do Sul. A Difusora não tinha um cast musical fixo. Então, havia programas em que tocava o Jazz Cruzeiro. Primeiro era Royal Jazz Band, e eles tiraram as duas primeira lestras de cada palavra e formaram o “Rojabá”, transformaram o título em brasileiro.Então ela tocava na Difusora. Tinha o Maurice Can, também. Eu tenho a fotografia da orquestra do Ernani Marino. Mais tarde, o Marino se junta com o Ernani Oliveira. Eu tenho uma fotografia da Rádio Difusora, pois eles passaram para a Difusora. A briga entre as emissoras era apresentar as orquestras e as cantoras e cantores. Tinha o horário nobre, que era das sete as dez da noite. Era uma briga violenta; um tentava tirar o artista do outro. Eu andava por ali, até que uma hora eu entro, mas eu acabei entrando pelo fundo do palco. Em 1958, saio daqui e vou ao Rio de Janeiro. Lá fiz exames de músico para entrar no exército. Não deu certo. Eu tinha 30 anos e seis meses, e deveria ter 30 anos. O cara do exército havia dado uma abertura para dois amigos de 35 anos, e quem faz uma exceção pode fazer duas. Ele foi duro e não deixou. Eu fiquei lá no Rio, junto com o pessoal da velha guarda, Pixinguinha, Donga, Russo Rangel, enfim, aquela turma. O único que não quis me receber foi o Ari Barroso. Até então eu já tinha uma coleção de partituras musicais antigas, e fui levar para eles essas partituras que tinham autógrafos. Autógrafos daquela turma de 1917/18. Eu queria fazer um conjunto moderno. Disseram pra eu tirar isso da cabeça, pois o moderno é passageiro. Para mim, moderno seria um conjunto que tocava mambo, rumba, suingue, samba-canção, etc. Tinha, por exemplo, a Rádio Nacional, que tinha uma grande orquestra com cerca de 150 músicos. Havia também os conjuntos regionais, que eram os que acompanhavam os cantores e cantoras, os “faz-tudo”. A orquestra tinha que orquestrar, ensaiar, e o regional acompanhava aquilo que saíam cantando. Esse era o regional, “pau pra toda obra”.

P: E aí chega a sua vez?

R: É, aí eu entrei na Rádio Farroupilha. Eles me disseram o seguinte: “Vedana, forma uma banda, tipo a do Altamiro Carrilho”. A banda dele tocava música popular brasileira, mas músicas mais antigas. Eu voltei para Porto Alegre, pensei e decidi fazer a banda mesmo, e fiz. E estava tocando na Gaúcha; eu trabalhava na Farroupilha e tocava na Gaúcha. Eu tocava no regional do Paraná. Quando eu vim do Rio, tentei entrar na Farroupilha para tocar e não consegui, porque tinha um cast de 120 pessoas, músicos, cantores e cantoras, maestros e copistas. O maestro faz o arranjo, isso ele entrega para o copista, que tem que escrever uma cópia para cada um dos músicos. Ele tem que conhecer a harmonia, a tessitura de todos os instrumentos. A Farroupilha chegou a ter o maior cast de Porto Alegre. Eu tenho em arquivo muito material. Diversos arquivos de partituras musicais, recortes de revistas, que eu junto desde 1947. E fotografias, tenho quilos e quilos, e os livros. O primeiro foi “Quem é Quem em Porto Alegre”, em 1967. Depois o “Jazz em Porto Alegre”, “A História do Choro”, “Otávio Dutra na Vida Musical de Porto Alegre”. Tenho esses quatro, e o quinto que é “A Elétrica e os Discos Gaúchos”, que, por sinal, quem faz o prefácio é Luiz Antônio de Assis Brasil. Tem esses e muitos outros livros que já estão prontos e não foram publicados, como “A História das Litografias de Porto Alegre”. Esse foge um pouco do tema, por causa dos desenhos das embalagens de carteira de cigarros, algo incrível. Tenho uma coleção de 12 mil dessas carteiras de cigarro. Eu junto desde a idade dos 5 anos.

P: Bem. Voltando ao seu trabalho nas orquestras das rádios portoalegrenses…

R: Então, quando cheguei em Porto Alegre, comecei a trabalhar na rádio Gaúcha. Eles precisavam de um copista transpositor na Rádio Farroupilha. Então eu entrei pelos fundos. Tinha 6 maestros, isso na Farroupilha. Não era aquilo que eu queria. Eu trabalhei com Carlos Nobre na rádio Gaúcha, ele era cantor de seresta, ele sempre gostou de seresta. Ele contava histórias, anedotas, e depois cantava uma seresta. E eu tocava em uma bandinha, eram as bandas no estilo do Altamiro, que estavam na moda, muito em voga. Então, eu tocava na bandinha do Paraná, na rádio Gaúcha e trabalhava de copista transpositor na Farroupilha, isso por volta de 1958/59. Ficaram sabendo que eu trabalhava nas duas rádios, mas a princípio eu não tive que sair de nenhuma das duas, porque não atrapalhava, eram dois trabalhos diferentes. Da mesma forma, eu trabalhei na rádio Farroupilha e também na TV Piratini, ambs pertencentes aos Diários Associados. Então, quando eu falo aquela história do livro, das miríades, vocês observam que eu venho, vou atravessando a história de Porto Alegre, em que eu conto a história de Porto Alegre através da fotografia, dos músicos, das orquestras, dos cantores e cantoras. E eu passo pra lá e pra cá, até que uma hora a minha história se funde com a história musical de Porto Alegre. Essa é a razão pela qual eu ponho nesse caleidoscópio musical, acho que dá para entender.

P: Aí o sr. saiu da Gaúcha?

R: Então eu saí da Gaúcha por um simples fato: eu não sei se vocês conhecem música, mas tem música que se ataca no terceiro tempo, e outras em que se ataca no ar, e chama-se de anacruse, é um termo técnico. O Paraná, dono do regional e da banda, dizia: “eu quero isso no terceiro compasso”. Aí eu disse: “mas não dá pra tocar assim”. Ele disse: “eu quero assim”. Eu disse: “se é assim, então arruma um outro, porque eu não vou me atravessar na música. Tu não conhece música, porque está discutindo?” E saí. Mas antes disso, em um programa que o Carlos Nobre fazia, o Ivan Castro era ator. Antes o Ivan Castro foi cantor, ele iniciou cantando na Gaúcha, no início dos anos 30, ele cantava em orquestra. E estando sempre ali ele acabou entrando como ator. Para mim, a rádio se compõe da seguinte forma: primeiro músicos e cantores, segundo radioteatro, terceiro locutores, quarto os técnicos. Pra mim, a emissora de rádio se compõe disso.

P: Continuando… e as sua saída da Gaúcha…

R: Então, eu tinha uma estante, e coloquei uma partitura ali na frente, e ele dava 1, 2, 3, e tinha que atacar. Mas quando ele dava o segundo, eu já estava no ar, pra dar certo o tempo forte. E, de repente, o Ivan de Castro me puxa a partitura pra ler o texto, e eu puxei também e comecei a tocar. Foi uma situação gozada, meio cômica. E isso no final entrou no meio do programa. E depois eu fui embora.

Produção:

Barbara Chanin

Fernanda Moncks

Tanise Scherer