Entrevista gravada na residência do Dr. Ruy Lauer Simões,
em Porto Alegre, no dia 05 de novembro de 2003
Produzido por Camila Figurelli Xavier
P – Primeiramente, seu nome completo, data de nascimento e local de nascimento.
R - Eu nasci em Cachoeira do Sul em 1914 e meu nome é Ruy Lauer Simões, no dia 15 de fevereiro de 1914.
P – Dr. Ruy, qual foi seu primeiro contato com a rádio?
R – Meu primeiro contato com a rádio foi uns dias antes da inauguração da Rádio Farroupilha, não me lembro que dia foi. Era um sábado e eu tinha chegado a Porto Alegre vindo de Cachoeira do Sul. Tinha me formado lá em uma escola mantida pelo…
P – Era uma escola de segundo grau?
R - Sim, escola fundamental. Eu tinha terminado esse curso lá, em 1929. Então, eu vim para Porto Alegre nessa data. Em janeiro de 1929 eu cheguei em Porto Alegre.
P – O senhor chegou aqui em 29 e começou a trabalhar ou a estudar?
R – Vim para estudar no Colégio Cruzeiro do Sul porque o colégio fundamental lá em Cachoeira do Sul não tinha reconhecimento do Ministério da Educação. Então, era preciso que esse curso fosse reconhecido e tinha que procurar um colégio que tivesse esse reconhecimento, no caso, era o Colégio Cruzeiro do Sul. Na época, o Colégio Cruzeiro do Sul estava recebendo o reconhecimento pelo Ministério da Educação.
P – E esta escola lá em Cachoeira, eram professores alemães, que só falavam alemão?
R – Era um colégio mantido por uma instituição alemã da comunidade luterana. O Pastor Dohms era o Diretor. Aliás, grande amigo meu que se tornou, como dizer, uma figura que gravei naquela época porque era um homem muito correto, um homem sério. Naquela época os professores vinham da Alemanha, eram muito rigorosos, muito sérios e querendo incutir em nós, brasileiros, a seriedade. Eles tinham a idéia de que os professores precisavam ser mestres e orientadores na cultura então, nós éramos conduzidos – como dizer – além do ensino básico próprio das matérias que a gente estudava eles davam o aspecto cultural procurando orientar os nossos meios de conduta…
P – Dr. Simões, eles deixavam escutar rádio? Lá em Cachoeira o senhor escutava rádio. A sua família tinha rádio em casa?
R - Olha, a minha família na época não tinha. Depois que eu vim para a capital e entrei para a rádio Farroupilha e transmitia, eu precisei ir a Cachoeira do Sul instalar uma antena especial, muito alta para poder ouvir, é claro, a Farroupilha que iniciava as suas transmissões.
P – No caso, então quando o senhor morava em Cachoeira não ouvia rádio?
R - Antes de vir para Porto Alegre não pegava naquela época. As rádios Difusora e Gaúcha tinham pouca potência e não chegavam lá. Então, eu consegui comprar uma taquara bem comprida e um arame de cobre, um fio de cobre de extensão de mais ou menos 20 metros de uma ponta de taquara até a outra, de um ponto a outro, para escutar a Farroupilha. Então, eles conseguiam ouvir a Farroupilha.
P – Para ouvir ao senhor?
R – É, para ouvir a mim, isso aí.
P – O senhor estava dizendo que em 1929 veio para Porto Alegre?
R - Em janeiro de 1929. Vim para estudar no colégio Cruzeiro do Sul. Primeiro, o Cruzeiro do Sul teve uma formatura não oficial ainda. Eles davam o que eles chamavam diploma de madureza. Davam um diploma de madureza e com isso nós formávamos alunos para o Colégio Cruzeiro do Sul, não oficial ainda. Teve uma segunda formatura. A segunda formatura foi no ano seguinte em 1931, 32, por ali, já com o reconhecimento do Ministério da Educação. Então, era uma formatura oficial, para poder fazer vestibular precisava desse reconhecimento do Colégio Cruzeiro do Sul. Então, me formei pela segunda vez. Então, na segunda vez eu fiquei capacitado e fiz o vestibular em Porto Alegre. Foi no primeiro ano em que as vagas foram limitadas em Porto Alegre, até então, se entrava na faculdade com…
P – Era com histórico escolar, com notas?
R - Com notas, com teor 7. Quem tinha 7 como média entrava direto na faculdade. Naquele ano em que eu fiz vestibular para medicina em Porto Alegre o numero de vagas foi limitado para 60. Então, só 60 que tiraram 7 entravam os outros não eram considerados. Então aconteceu que mais 12 alunos tiraram 6 e eles tiveram que se empenhar diretamente com o Presidente da República, com o Getúlio, para pedir permissão para poderem entrar. Isso aconteceu e com o tempo o Getulio permitiu e entraram mais 7 alunos. Era uma turma de 72. A turma do primeiro vestibular. Quando eu entrei naquela época foi o primeiro ano que foi limitado para 60 vagas, no caso, mais 12, 72.
P – Qual foi o ano que o senhor passou no vestibular?
R - Foi em… Deve ter sido em 1932 mais ou menos.
P – O senhor começou a cursar a faculdade de Medicina…
R – Ai comecei a cursar a faculdade de medicina em 32.
P – Em qual faculdade?
R – Na UFRGS. Naquela época era URGS. Era universidade estadual, Faculdade de Medicina da URGS, não era como hoje considerada federal, isso foi mais tarde um pouco. Naquela época era estadual e depois passou a federal. Mas isso mais tarde.
P -Como é que foi o seu contato com o rádio? O senhor cursava a faculdade ou já tinha terminado quando entrou na rádio?
R – Quando entrei na rádio eu acho que estava no segundo ou terceiro ano de medicina.
P – Como foi essa aproximação com o rádio?
R – Foi que eu precisava algo além do emprego que eu tinha que era de regente interno e professor de várias matérias. Na época ainda não existia registro de professor como hoje que tem que ser registrado oficialmente e reconhecido pelo Ministério da Educação. Era permitido o ingresso como professor, né?!
P – Como chegou à rádio? Na faculdade, o senhor precisava trabalhar era isso? Morava sozinho aqui em Porto Alegre?
R - Vim sozinho. Vim só eu e mais uns companheiros lá de Cachoeira do Sul de outras famílias que também aproveitaram a mesma possibilidade da oficialização do Cruzeiro do Sul.
P – Como é que o senhor chegou à rádio?
R - É que na época saiu anúncio nos jornais: “Concurso para locutor da Rádio Farroupilha”. Isso foi anunciado nos quatro cantos como coisa nuito importante. Isso levou uma porção de indivíduos a procurar esse concurso. Então, eu apenas me apresentei na Rádio Farroupilha num dia, num sábado e quando cheguei lá, no sábado, a porta já estava fechada. Tinha sido o último dia de conclusão do concurso para a Rádio Farroupilha então, eu bati na porta e quem me atendeu foi PAULO SALGADO. Foi o funcionário que atendeu e disse que estava fechado, o concurso havia terminado. Fechou a porta e eu esperando na rua. E eu pensando: bem, terminou. Disse que tinha encerrado e de fato, lá dentro não tinha mais nenhum dos elementos concorrentes ao cargo de locutor. Então, como eu era um estudante de medicina, naquela época se exigia que os locutores tivessem conhecimento de mais de uma língua para fazerem a locução.
P – Então, no caso, o senhor dominava o alemão?
R – Eu dominava o alemão e dominava o inglês, perfeito?. Eu tinha formatura do Cruzeiro do sul, na primeira formatura, eu tinha me formado com distinção especial em inglês e recebi um prêmio, quem dava era a Dona Sarita Thomas, esposa do Bispo Mathews Thomas e que dava uma libra esterlina, legítima, como prêmio de compensação ao aluno que melhor se conduzisse no aprendizado do inglês.
P – O senhor se destacou, então?!
P – Estávamos entrando na Farroupilha. O senhor estava sendo recebido num sábado.
R – Eu estava sendo recebido num sábado pela Comissão Julgadora que era composta por familiares de Flores da Cunha, ele, o general, seus filhos e alguns parentes.
P – O próprio general estava na Comissão?
R – O próprio general também estava lá. Então, eles tinham uma Comissão lá em cima, no estúdio e eu ficava dentro de uma cabine separada. A cabine era separada num cubículo de três por três ou quatro por quatro, mais ou menos, tudo forrado. Naquela época se tinha a impressão de que era preciso afastar o mais possível os ruídos que pudessem dar interferência. Então, para evitar que isso acontecesse, pra que não tivesse interferência de ruído havia uma cabine completamente isolada, toda ela. Paredes grossas, portas grossas e por uma janela eu podia ver a comissão lá no estúdio, que ficava na frente da cabine onde eu estava para falar.
P – Onde se localizava,nessa época, o estúdio da Farroupilha?
R – O estúdio era ali na esquina da Rua Duque de Caxias com o viaduto da Borges. A casa era bem na esquina. Então, eles resolveram me dar uma oportunidade, meio receosos, mas aos pouco foram dando cada vez mais. Trouxeram até mim uma porção de livros com bastante fotos e tudo, de óperas, de coisas, publicações.
P – Isso tudo no teste?
R - Isso tudo no teste. Entregaram para mim uns jornais pra ler, uma porção de coisa. Uma quantidade grande de coisas para ler. Resultaram, então, deram resultado positivo dizendo que eu fui aceito.
P – Só o senhor foi selecionado?
R - Só. Um só. Naquele momento só um. Dos cento e tantos candidatos que tinha, eu fui o único escolhido. Fui aceito porque fui considerado o mais apto para a função.
P – O senhor lembra em que ano foi esse teste?
R - Isso foi, esse teste foi em 1935. Foi antes, não foi no dia da inauguração.
P – O senhor passou no teste, mas era o único locutor da Rádio ou tinha outros na inauguração?
R - Na inauguração só tinha o ARIALDO PRÍNCIPE que não tinha sido concursado. Ele era, como se diz, era um locutor assim…
P – Ele apresentava os programas?
R - É, ele funcionava como locutor e era considerado assim um locutor muito fluente.
P – Ele já era profissional?
R – Era profissional
P – Veio de outra rádio?
R – Não, sem formatura. Não veio de rádio nenhuma.
P – Ele não tinha formação escolar.
R – É, não tinha formação escolar. Ele era sem instrução. Não sei se ele tinha só o fundamental e não tinha mais nada. Então, por isso, eles fizeram o teste porque o Arialdo Príncipe pouco depois não pode continuar porque ele adoeceu por causa de uma infecção. Imagina, por causa de uma infecção num dente ele fez uma septicemia e poucos dias depois morreu.
P – Então, o senhor foi o primeiro locutor concursado?
R - O primeiro, de concurso fui eu.
P – E quando inaugurou a rádio?
R – Em julho. Em 24 de julho. Ai, depois vieram outros locutores. Foram contratados, ANTONACCI RABELLO. O Antonacci Rabello estava na Europa. Estava por chegar. Achavam que chegaria um grande locutor e tal, que iria suprir o que estava faltando na Farroupilha. Um locutor só não dava, era preciso mais gente. Ele foi um dos que logo foi aceito e ele era maestro também. E foi aceito também, como maestro da Orquestra Filarmônica da Farroupilha. Então, ele veio para funcionar junto com o Maestro PAYSER. Este veio junto de Buenos Aires, junto com a compra dos equipamentos da Farroupilha.
P – O senhor foi escolhido no concurso, antes da inauguração. E até a inauguração como é que foi? O senhor teve que treinar alguma coisa antes ou como é que foi?
R - Antes da inauguração, dias antes, eu já fui aproveitado por ali.Por isso que, antes da inauguração nós já transmitíamos para todos os céus da América fazendo com que o pessoal pudesse dar informação de onde e de que distância estava sendo ouvida a Rádio Farroupilha.
P – O equipamento da rádio, o senhor disse…
R – O equipamento veio de Bueno Aires da Rádio Prieto, de Buenos Aires.
P – O equipamento era novo?
R - Era equipamento usado. E vieram maquinários, motores, etc,. Foi tudo comprado. Junto com o material que era aproveitado na transmissão. O transmissor era de válvulas de vidro de mais ou menos um metro de altura, grosas, grandes que queimavam com certa freqüência. Volta e meia a Farroupilha ficava fora do ar de repente e dava uma confusão medonha…
P – No caso, aconteceram essas transmissões de teste antes da inauguração oficial. Na inauguração oficial como foi? Ocorreu onde?
R – A inauguração oficial aconteceu num estúdio ali nos altos do viaduto.
P – Ela ia ser antes em outro lugar?
R – Eles estavam cogitando em fazer a inauguração em outro lugar mas, não sei porque, o General Flores da Cunha, era meio impulsivo então ele dizia tinha que ser hoje… e saiu e foi feita ali.
P – Por que o general Flores da Cunha tinha tanta interferência na Rádio? Ele era dono da rádio?
R - Sim, a família dele, ele e os familiares eram os donos. Eles eram os principais acionistas. Eram muitos acionistas. Além deles, tinha parentes que eu me lembro que também contribuíram com o dinheiro e fizeram a compra da rádio.
P – E o dia como foi?
R - No dia estavam lá o Flores da Cunha com seus familiares mais alguns parentes que eram acionistas que estavam ali fazendo presença na comissão de inauguração da rádio Farroupilha. Foi declarada oficialmente no ar pelo locutor Arialdo Príncipe, estava lá junto com o general e seus familiares. Arialdo fazia as vezes de mestre de cerimônia. O Arialdo é que comandava aquela coisa. No dia da inauguração houve uma festa meio atribulada porque era para ser em outro local e não deu. Por isso parece que também atrapalhou a vinda de pessoas que foram convidadas para fazer a primeira apresentação. Mas, não me lembro especificamente se houve maior repercussão de que se comparecesse gente mais importante para a inauguração. Agora, depois disso sim. Mais adiante a Farroupilha contratava artistas do México.
P – Havia muito público na inauguração?
R - Sim. Esse estúdio era isolado do público por uma janela grande de muitos metros de cumprimento com parede dupla de vidro para isolar o som. E, o pessoal ficava fora do estúdio. No dia da inauguração tinha bastante gente dentro da casa e fora do estúdio e que estavam separados.
P – E a inauguração do Parque Farroupilha ou da Redenção que foi em 1935, também?
P – Foi criado naquele ano também?!
R - Foi criado naquele ano porque, para a comemoração do Centenário Farroupilha. Ali já tinha um Cassino. Na época era permitido o jogo e o pessoal, à noite, ia para lá jogar e a rádio Farroupilha transmitia das onze horas a meia noite. Fazia uma transmissão de uma hora ali no parque Farroupilha.
Quando chegava onze horas nós encerrávamos na Duque de Caxias e ía para lá quem estivesse de plantão. Botava um fraque, trocava de roupa. Tinha que ir aparamentado para poder transmitir lá do Cassino.
P – As pessoas tinham que entrar a rigor? A caráter?
R – A rigor, é. Contratavam os artistas que iam para lá e cantavam lá, faziam um show.
P – Lembra de algum?
R - Sim, Aurora Miranda. Carmem Miranda também apareceu por lá. Shows que contratavam para aparecer lá no Cassino num número, para encantamento dos jogadores. Eu por exemplo, não gostava. Era um ambiente de fumo, uma ambiente muito poluído, muito concentrado de fumaça. A gente não gostava muito, mas tinha que fazer e ficava lá até o encerramento da transmissão. A transmissão era até a meia noite. Era uma hora de show que se fazia ali no cassino Farroupilha.
P – E quais eram as funções que o senhor desempenhava na rádio? O senhor falou na parte de comerciais.
R - Sim, a minha função mesmo, onde eu tinha bastante projeção era nos comerciais. Eu era o locutor que fazia as transmissões dos anúncios.
P – O senhor lembra de algum?
R – Tinham muito anúncio, era coisa séria. Tinha muito anúncio. Era carregado. Isso era a fonte de manutenção que a Farroupilha tinha para compensar.
P – Além das propagandas e dos comerciais?
R - Além dos comerciais eu atendia, por exemplo, o que bastante me lembra era o MAURICIO ROSEMBERG. Ele era encarregado de fazer a propaganda dos filmes, do lançamento dos filmes no programa de cinema. Ele preparava e fazia aquilo e entregava para nós. Na Praça da Alfândega, onde ficava o Café Central nós fazíamos a gravação, na Leopoldis Som que tinha uma gravadora, preparava os acetatos para depois divulgar no cinema e aparecia o anuncio antes de começar o filme.
P – Em setembro de 1935, quando inaugurou o parque Farroupilha a Rádio estava presente? O senhor também estava?
R - Não. Ali não houve uma inauguração mais específica. Foi mais assim natural que aconteceu. Um detalhe: Praças e Jardins chamava departamento que cuidava da Redenção. E nesse, quem era o chefe de praças e jardins era Leonel Brizola. Leonel Brizola estava lá nesse Praças e Jardins comandando o parque.
P – A essa altura o senhor já estava terminando a faculdade?
R – Não. Eu terminei a faculdade em 1938. Era o tempo que eu trabalhava como locutor para ganhar mais dinheiro, para aumentar a minha renda. Eu estava pelo terceiro, quarto, quinto ano de medicina.
P – Além de locução o sr. participou de programas da rádio?
R -Nós participávamos da transmissão de futebol. Da transmissão dos jogos de futebol.
P – O senhor estava lá?
R – Eu estava lá.
P – Qual era a sua atividade?
R - No futebol eu ia junto para o campo.
P – Geralmente ia o senhor e quem mais?
R - Ali era quem estivesse de plantão. Havia o GASTAL, o Manoel Braga Gastal que chegou até a ser até nosso governador aqui e tudo.
P – Quem mais trabalhava no esporte?
R - O ARI LUND. Era advogado e com ele eu fui junto e fiz uma transmissão de uma árvore, em cima de um eucalipto. Transmissão ali do Estádio dos Eucaliptos ( antigo campo de futebol do Sport Clube Internacional).
P – Então o senhor fez a transmissão em cima eucalipto? Qual era a história? Qual era o jogo?
R - O jogo não me lembro. Os times que jogavam naquele dia eu não me lembro. Aconteceu que a imprensa escrita achava que ia ser prejudicado o numero de torcedores. Transmitindo a rádio conseguia desviar a atenção dos torcedores. Então, eles achavam que nós de rádio estávamos prejudicando se transmitíssemos direto. Devido a isso nós resolvemos colocar um estrado no eucalipto fora do estádio. Ali havia uns eucaliptos altos que ficavam na calçada no lado de fora do estádio. Naquela época tinha ali um excesso de eucalipto pelo traçado da rua. Em cima daqueles eucaliptos a Farroupilha construiu um estrado e por uma escada nós subíamos para fazer a transmissão.
P – Como é que eram essas transmissões?
R - Era através de uma linha morta de telefone. Nós alugávamos uma linha de telefone de uma pessoa vizinha ao estádio e ficávamos transmitindo para as torres que ficavam lá naquele morro que fica ali na frente do IPA. Ali na frente do IPA tinha uma torre de dezenas de metros de altura. Para aquela torre nós mandávamos a transmissão ali do Menino Deus.
P – Por acaso, o senhor lembra do ano disso?
P – Isso não foi bem no inicio da rádio?
R – Não, foi mais adiante um pouco. Acho que nós estávamos lá por 1940, mas não tenho certeza.
P – Mas se tinha telefone deve ser lá por 1940. As outras rádios não faziam? Teria sido a primeira transmissão de futebol por rádio aqui em Porto Alegre?
R - Isso eu não me lembro. Mas eu acho que as outras, a Difusora e a Gaúcha também faziam. Mas eu sei que era muito pouco.
P – Essa dos eucaliptos, o senhor lembra, não foi a primeira da Farroupilha, já tinham feito outras antes? A transmissão de jogos de futebol? O senhor ta contando essa em especial porque tiveram que subir nos eucaliptos. Mas já tinham sido feitas outras?
R – Já, outras. Já tinham sido feitas outras, não dos eucaliptos, mas transmissão dentro do estádio.
P – Não queriam mais que transmitisse de dentro do estádio e vocês fizeram essa transmissão de cima nos eucaliptos?
R – Isso. Quando começou essa coisa de transmissão de futebol havia uma certa contrariedade entre a imprensa escrita e a imprensa falada. Então, eles achavam que o jogo ia dar menos renda. De fato, pouco depois, foi sanada a questão.
P – A rádio foi inaugurada em 35. Quando que se começou a pensar em fazer transmissão de futebol? Foi logo em seguida? As outras já faziam nessa época?
R - Faziam, mas faziam pouco. A transmissão de futebol custou a se tornar mais comum como hoje.
P – Na verdade, o senhor e os outros colegas foram os que abriram essa novidade, essa coisas de transmitir jogo futebol. Foi uma coisa popular. A rádio entrou nisso a partir da década de 30.O senhor acompanhava para fazer a parte de comercial. Mas o senhor chegou a narrar também?
R – Eu ia junto. Cheguei a narrar uma vez, mas sem conhecer quase os jogadores. Eu me atrapalhei um pouco.
P – Foi no mesmo dia esse do estrado no alto da árvore?
R – Foi no mesmo dia do eucalipto. Eu estava junto com o Ari Lund, com o advogado esse. Ele fazia a transmissão, ele conhecia mais os jogadores. Então, eu estava junto com ele. Chamaram ele por outro motivo e ele teve que sair e disse “Olha só Simões, agüenta a mão ai porque eu vou ter que sair um pouco e tu ficas transmitindo.” Eu não conhecia muito o nome dos jogadores dos times que estavam lá. Isso atrapalhou um pouco, mas o Ari voltou e tudo se regularizou.
P – Além dessa parte de esporte, o senhor também participou do radioteatro?
R - Sim, do radioteatro eu participei bastante. A peça mais importante que eu participei “Deus lhe Pague”, de JORACY CAMARGO, onde havia um mendigo pobre, que continuava como pobre e tinha um mendigo tapeador, que durante o dia pegava esmola ali na igreja, ali em Menino Deus. Quando escurecia ele se fardava, se botava em beca e ia para a noite.
P – Qual era o papel que o senhor fazia na peça?
R – Deixa eu te contar o seguinte. Ali houve algo que atrapalhou a coisa muito. O Antonacci ia fazer o mendigo rico e naquele dia, não sei a razão, o Antonacci não compareceu no ensaio desse teatro. Sem ensaio ele não podia de noite fazer a transmissão. O PERY BORGES faria o mendigo pobre e ele, Anotonacci, faria o mendigo rico. Então, entrei eu para fazer o mendigo pobre. O Peri Borges fez o mendigo rico que ia ser feito pelo Antonacci. Então, com isso modificou-se completamente o elenco que fazia a transmissão daquele programa.
P – Como era o nome, era o grande Teatro Farroupilha já?
R – É, era o chamado Teatro Farroupilha.
P – Aos domingos?
R - É, aos domingos à noite.
P – Era ao vivo a apresentação ou era no estúdio?
R – Não, só no estúdio, mas com permissão do pessoal poder entrar e olhar pelo vidro aquele.
P – Então as pessoas podiam olhar?
R - É, podiam olhar. Estava sempre completamente lotado, não é?! Porque era a grande novidade nos domingos, a transmissão do Teatro Farroupilha.
P – Era às nove da noite?
R – É, mais ou menos.
P – Essa foi a sua primeira peça?
R - Essa peça foi uma que me lembro que eu tomei parte, dado o inusitado que eu não estava preparado para isso. E, no entanto, eu fui bastante aplaudido. Me aceitaram muito bem. Até com flores e tudo.
P – E o senhor participou de outras depois?
R - Sim, de outras. Ai seguiu o Teatro Farroupilha funcionou durante muitos anos ali e eu sempre tomava parte em um ou outro programa. Esse que me chamou a atenção por causa desse fato que foi de surpresa, não é?!
P – Além dessa parte de esporte, o senhor também participou do radioteatro?
R – É, tudo feito na hora.
P – Além dessa parte de esporte, o senhor também participou do radioteatro?
R - Os atores ficavam na frente do microfone com tudo escrito para poder ler.
P – E quando erravam o que acontecia? Começavam a rir?
R – Quando… alguma vez que alguém errasse tinha que corrigir na hora. Não tinha como voltar.
P – Quem é que fazia os sons?
R – A sonoplastia era feita pelos indivíduos especializados nesse sentido. Eles faziam o som de acordo com o que era preciso. Isso era feito pelos sonoplastas.
P – O senhor lembra nomes, além de Peri e Estelita, lembra de outros nomes que trabalhavam no radioteatro?
R - Ali no, por exemplo, o que fazia a sonoplastia era o… um nome argentino…
P – O nome do sonoplasta?
R - É, ANGELITO TIZON. Ele era muito especializado nisso. Durante o dia ele era empregado da Farroupilha e trabalhava em tempo integral.
P – E havia outras novelas durante o dia, não?
R – Ele fazia ao mesmo tempo toda a sonoplastia junto. Angelito Tizon, ele era argentino. E muito esperto, muito vivo, desse tipo elétrico que andava por tudo e dava conta de tudo. Tinha uma cabeça muito boa. Acompanhava muito esse tipo.
P – O Otávio Hipólito o senhor lembra dele também?
R - Lembro. O Otávio Hipólito era uma pessoa bastante ativa lá, na Farroupilha.
P – Trabalhava lá também?
R – É.
P – Então, o senhor ficou lá até que ano trabalhando na rádio?
R - Na rádio? Até 1942 quando ela foi vendida e queimaram o Diário de Noticias e queimaram a Farroupilha, né. E foi por causa de complicações com o Assis Chateaubriand. Ai eu sai.
P – O senhor resolveu sair?
R - Eu pedi demissão. Porque eu mesmo estava terminando meu curso de medicina. Precisava já. Porque a Farroupilha foi um acontecimento que ocorreu no percurso do curso de medicina, não é?.
P – Na verdade, foi por acaso que tudo aconteceu?
R - É, por acaso que tudo aconteceu. Foi por acaso que eu fui cair na Farroupilha. Por causa do estudo, do momento em que eu precisei… Momento econômico e financeiro. Eu precisei aumentar os rendimentos para poder casar também, tinha mais isso ainda.
P – Muitos jovens estudantes procuravam o rádio por causa disso?
R – É, muitos.
P – Josué Guimarães, ele chegou a ser seu colega lá?
R – Josué Guimarães, justamente. Ele trabalhou mais… até era morador aqui de Teresópolis, mais para cima. A família do velho Guimarães morava aqui nessa avenida (Av. Teresópolis). Logo ali adiante. Não me lembro de mais intervenção dele no tempo da rádio.
P – E o Arnaldo Balvé? Lembra?
R – Ah, o Arnaldo Balvé. Arnaldo Balvé era uma grande figura. Era um gigante do rádio. Era um colosso. Ele tinha a mania de passar o pente na cabeça. Acompanhava tudo. Era muito meu amigo. Às vezes passava horas transmitindo lá na Farroupilha quando acontecia, por exemplo, havia uma interrupção e tinha que, de repente, dar conta de uma quantidade enorme de comerciais que precisavam ser postos em dia. Às vezes eu ficava horas lá sem almoço, sem nada. O senhor Balvé mandava lá de cima, vinha comida de lá do seu Balvé.
P – O que ele era da rádio?
R – Ele era o diretor da rádio. Arnaldo Balvé era o diretor da rádio.
P – E morava também lá?
R – Morava no prédio, no mesmo prédio no alto da Duque de Caxias.
P – Mas ele participava do radioteatro também? Mas com outro nome, não é?!
R - O Balvé participava também, mas com outro nome. Agora não me lembro.
P – Conceição Pereira?
R - É. É isso. Ele participava com o nome de outra pessoa. A participação dele era quase sempre de um personagem com menos intervenção. Porque ele achava que não estava de acordo com um diretor trabalhar na radioteatro. Então, era sempre uma participação, vamos dizer, de um personagem menos importante.
P – Ele foi o diretor da rádio em todo o período que o senhor esteve lá?
R – Todo o período.
P – De 1935 a 1942?
R - Foi. Quando a rádio foi vendida o Balvé era diretor.
P – Me diga uma coisa Dr. Simões. A rádio Farroupilha começou em 35 e logo em seguida já superou as outras duas?
R - Em seguida a Farroupilha entrou “botando para quebrar”.
P – A programação era diferente das outras?
R - É. Trouxe mais novidade. Trouxe artistas de fora. Até alemães, gente da Europa e tudo. Tudo porque era muito caro trazer gente de fora. Custava um dinheirão para trazer gente de fora para fazer uma programação mais extensa, né. Isso fez com que a Farroupilha, vamos dizer, se torna-se uma grande novidade na transmissão.
P – Havia transmissões da radioteatro que não eram feitas no próprio estúdio?
R - Ah, sim. A coisa era a seguinte. Nós éramos chamados a apresentar os artistas que eram contratados para se apresentar em público. Nos éramos contratados para fazer uma espécie de apresentador. Funcionava o locutor como um apresentador. DEMISTOCLES era um desses indivíduos que tinha uma memória privilegiada e era capaz de gravar ao mesmo tempo assim, dez ou mais números maiores para fazer a soma e dar o resultado. Aquilo era importante naquela época. Se considerava o individuo, o Demistocles, como um grande pensador e memorizador. Então, isso era feito lá no Cine Teatro Imperial (na Praça da Alfândega). Ele estava lá e nós no palco fazíamos as vezes de apresentador do individuo e acompanhador dos acontecimentos que iam ocorrendo.
P – Naquela época na programação da Farroupilha já tinha aquelas novelas com capítulos diários? Não aqueles teatros que eram uma peça única que tinham inicio, meio e fim. Já existiam aquelas novelas com capítulos?
R – Não. Nós em geral fazíamos a transmissão de uma peça de autores conhecidos. Então, isso era transmitido em uma vez só.
P – Então, o senhor não lembra de novelas daquela época. Nessa época em que o senhor trabalhou em rádio não existia essas novelas que depois se tornaram o grande sucesso do rádio. Tinham capítulos diários…
R – Não, isso já foi muito depois. Não era do meu tempo.
P – Pery e Estelita faziam um programa cômico, humorístico?
R - Pery e Estelita eles mesmos já tinham programas deles. Isso era em horários diferentes e tal, de curta duração.
P – E o senhor saiu da Farroupilha porque?
R – Porque tava no fim meu curso de medicina
P – O senhor se formou em 1938, não é?
R - Em 38, é. Ainda fiquei um tempo formado e trabalhando por causa da amizade com o seu Balvé, me dando com a família. Trabalhando era possível harmonizar a coisa que eu continuasse mais esses dois anos. Eu sai em 1942. No meio disso houve uma interrupção por vários meses. Eu tive uma nefrite causada por bactéria.Foi por causa de infecção na garganta. Eu fiquei uns meses parado. Nesses 4 anos de formado eu fiquei trabalhando no rádio.
P – O senhor nunca mais voltou ao rádio depois disso?
R – Nunca mais. Depois que sai eu fui convidado pelo Laboratório Weimmann do Hospital Moinhos de Vento. Fui trabalhar lá como patologista clínico, o que me impediu de comparecer na rádio.
P – O senhor foi dar aula na Faculdade também?
R - Sim. Eu me formei em 1938. Em 1941 eu já comecei como professor de histologia na Faculdade de Medicina no primeiro ano de medicina junto com anatomia.
P – O senhor trabalhou durante anos dando aula?
R - Sim.
P – Na federal?
R - Sim. Na UFRGS. Na federal. Ai me fui dando aula até o chamado, quando chega a idade dos 70 anos. Antes, para não esperar a compulsória, eu me aposentei um pouquinho antes. Por isso estou até hoje usufruindo da aposentadoria da UFRGS. É o que me salva, mais do que outra coisa.
P – Para terminar, vamos fazer a chamada da transmissão. Como é que era a chamada da rádio?
R - PRH2, Rádio Farroupilha de Porto Alegre, transmitindo para todos os céus da América em 600 kilohertz
P – Mas naquela época era kilocilcos. Tinha que ser como se fosse na época. Tinha alguma musica junto?
R – Não. Mas tem uma outra coisa que tem que explicar. Com esse negócio da chamada final. Quando eu encerrava a Farroupilha à meia-noite, dia do meu plantão, eu falei com o seu Balvé se não dava para ser assim, eu encerrar antes do último disco. Naquele tempo era disco. Disse a ele: – “Não dá para mim encerrar antes para pegar o bonde que passava ali na, o bonde que ia para Teresópolis, ali na Riachuelo”. Fazia a volta ali, então eu descia o viaduto correndo para pegar o bonde ali, para pegar aquele da meia-noite. Depois o outro era só a uma hora da madrugada. Depois da meia-noite era de hora em hora. Então, eu tinha que encerrar a transmissão. “PRH2, Rádio Farroupilha, Ruy Simões está despedindo-se”.
P – O senhor pode repetir essa?
R – E agora, prezados ouvintes, ouvirão o último disco do programa de hoje (dava o titulo.
P – Vamos só repetir o prefixo. Em vez de 600 kilohertz é 600 kilociclos.
R – PRH2, Rádio Farroupilha de Porto Alegre, transmitindo para todos os céus da América em 600 kilohertz, kilociclos.

