Salvador CampanellaVeja a entrevista completa

Entrevista gravada no estúdio da Famecos PUCRS em 03 maio de 2005


P – Dona Geci, então eu vou pedir pra senhora dizer seu nome completo, data de nascimento e naturalidade. E a do seu Campanella também.

Geci Campanella - Eu sou Geci D’Ávilla Campanella, nasci em 18 de agosto de 1940. E meu esposo, Salvador Campanella, nasceu em 3 de janeiro de 1907.

P – E ele faleceu quando?

Geci Campanella – Faleceu em 20 de janeiro de 1985.

P – Então, nos conta um pouquinho, Dona Geci, como é que foi um pouco da trajetória do seu Salvador Campanella, que foi um grande maestro. Na verdade, ele não é gaúcho, nem brasileiro.

Geci Campanella – Não, não, ele nasceu em Nápoles, numa cidade pequena de Nápoles, próxima de Nápoles. E depois, bem jovem ainda, ele veio com parentes para a Argentina. Aí depois ele veio para o Brasil. Foi pulando. Mas lá ele chegou a trabalhar em na Marinha Argentina. Inclusive, ele trabalhava como músico da banda da Marinha. Então, aí ele ficou algum tempo nessa função. E depois, ele casou. Depois, a esposa faleceu quando a filha dele nasceu que é uma senhora chamada Marta. Aí, meio que ele se desgostou e veio para o Brasil a convite de alguns músicos que já estavam trabalhando e iam visitar parentes na Argentina, e o convidaram, afirmando que havia um campo muito grande de trabalho aqui. Ele veio com eles. E gostou inclusive, mas não se sentiu bem, pois não se adaptou à alimentação. Ele estava nessa época na Patagônia que era um extremo muito frio. Então, quando ele chegou aqui no nosso país meio tropical, aí a alimentação não deu certo, ele passou mal, ficou meio doentinho e voltou pra Argentina. Mas, depois, ele retornou. Passado algum tempo, ele veio tentar novamente e aí ele ficou, não saiu mais. Aí começou o trabalho dele. Que eu saiba do que ele contava, ele começou na banda municipal daqui de Porto Alegre. E depois, daí, claro, ele foi chamado, foi conhecendo outros músicos e foi para a rádio Farroupilha. Trabalhou ali uma vida toda.

P – Antes de a senhora começar a contar a história da rádio Farroupilha, só pra gente retornar um pouquinho, ele, na verdade, nasceu em Nápoles e, como a senhora disse, e ficou lá até uns trinta anos mais ou menos?

Geci Campanella – Não, não. Ele saiu bem jovem. Eu tenho a impressão que ele não tinha 20 anos.

P – Mas ele fez alguma faculdade?

Geci Campanella - Ele fez. Ele fez. O pai dele também era maestro, como o avô também tinha sido maestro. Então, o pai, desde bem garotinho mesmo, deu toda a iniciação musical, em casa, pra ele. Aí, depois quando ele já estava preparado, ele o colocou numa faculdade de padres salesianos. Ele ficou 11 anos interno, fazendo todo o estudo básico. O que ele teria que fazer noutra escola junto com a faculdade de música, onde se formou em regência, em composição e regência. Aí saiu de lá já formado, com diploma.

P – Então quando ele foi pra Argentina…

Geci Campanella – Já estava formado.

P – E já na Argentina, ele se inseriu no mercado de trabalho como músico?

Geci Campanella - Não, ele foi assim, mais como uma curiosidade com esse tio…até ficou na casa do tio. Depois, ele custou bastante para se entrosar, e encontrou trabalho na banda municipal desse lugar da Argentina. Eu não sei bem qual era a cidade da Argentina que ele estava e dali é que ele depois foi para a Marinha, foi pra Marinha Argentina, como músico também.

P – Ele ficou uns 10 anos… quanto tempo, a senhora tem noção? Quanto tempo ele ficou na Argentina? Só pra gente ter uma média, não precisa ser exata.

Geci Campanella – Mais ou menos… quando inauguraram a Farroupilha (1935), eu não tenho lembrança da data, o ano certo, porque eu não era nem nascida nesta época. Então, eu acho que assim que inaugurou, talvez até antes. Eu não lembro quando ele entrou na rádio, mas eu acho que ele deve ter vindo para cá deveria ter mais ou menos pouco mais de 25 anos, quando ele chegou aqui no Brasil.

P – E Dona Geci, a senhora estava falando que ele começou trabalhando na Rádio Farroupilha.

Geci Campanella - Sim.


P – Ele trabalhou a vida toda na Rádio Farroupilha?

Geci Campanella – No rádio, eu não sei se ele trabalhou em outras emissoras antes, porque se trabalhou foi muito pouco. A lembrança que ele sempre guardou sempre foi a da Rádio Farroupilha, pois até quando encerrou a Rádio Farroupilha (fim das Emissoras Associadas de Assis Chateaubriand), ele ainda estava lá.

P – E ele começou fazendo que atividade na Rádio Farroupilha?

Geci Campanella - Ele começou, eu acredito já como diretor musical. Acredito que sim e regente da Grande Orquestra. Mas ele, da época que eu conheci até o final da rádio, foi como diretor musical da Rádio Farroupilha.

P – E além da Farroupilha ele esteve ligado à Orquestra Sinfônica de Porto Alegre?

Geci Campanella – É.

P – Era paralelo?

Geci Campanella - Não. A OSPA, na verdade, começou depois, bem depois, porque numa fita que nós temos ele dá uma entrevista, ele fala que a OSPA quando tinha que dar algum concerto, ela tinha que pedir emprestado os músicos da Grande Orquestra Farroupilha, porque, de fato, era composta pela nata dos músicos, que era considerada a melhor orquestra aqui do sul. Era a nossa da rádio. Eu digo nossa, porque também me considero uma pessoa muito ligada à Rádio Farroupilha. Então ele disse que tinham que pedir emprestado. O maestro Pablo Komlós, que é o fundador da OSPA, ele tinha que pedir emprestado. Então lá iam 20 e poucos músicos, ele emprestava, tinham que fazer gravações dos programas da rádio para suprir, depois, aquela falta de músicos. Tempos depois faziam concursos e começaram a ter mais músicos na Orquestra Sinfônica. Mas aí convidaram o Salvador também para reger a OSPA, porque ele tinha formação de música clássica também. Composição e tudo, porque ele veio com a formação dele lá da Itália. Então ele se sentiu muito bem ao fazer aquilo que o pai fazia o avô. Ele não fazia muita diferença entre o clássico e o popular. Ele regia qualquer tipo de música com muita alegria, com muita satisfação com muita garra, muita boa vontade. Mas a gente notava que ele tinha uma adoração muito grande pelo clássico, mesmo quando ele ficou doente, ele se emocionava quando escutava as músicas clássicas. Então a gente nota que aquilo ali, na verdade, era a parte que mais tocava ele, era o clássico.

P – Então Dona Geci, trabalhando aqui em Porto Alegre, ele trabalhou na Rádio Farroupilha e na Ospa. E quais as outras atividades que ele desempenhou na carreira?

Geci Campanella – Olha, antes mesmo de entrar na Rádio Farroupilha, que foi uma falta, eu não lembrei, ele fez parte da banda municipal de Porto Alegre, inclusive se aposentou pela Banda Municipal da Prefeitura. Tenho a impressão que ele trabalhava paralelo, alguns anos junto. Fazia as três, as três funções: a Farroupilha, a banda municipal até determinado tempo e depois na Ospa paralelo à Farroupilha.

P – E isso foi até a época que ele começou a adoecer um pouco?

Geci Campanella - É coisa das leis do Estado, eu não sei se é do nosso país, chega uma determinada época, uma certa idade, a pessoa tem que se aposentar compulsoriamente. Tem que se aposentar, embora ainda tenha potencial. Então, isso é um comentário que eu faço com bastante tristeza, porque não fez bem pra ele isso, porque ele ainda tinha muito, muito, muito potencial para dar na área de regência, pelo amor que ele tinha pela música, pelas músicas clássicas e isso provocou uma queda na qualidade de vida dele. Ele ficou um pouco depressivo.

P – Já havia iniciado a enfermidade dele?

Geci Campanella - Não, Não foi não. A doença era uma coisa bem, bem diferente, porque ele já tinha tido um grave problema de má circulação, tinha feito cirurgias e tudo, colocando artérias plásticas. Então aquilo era uma conseqüência do que já estava acontecendo nos anos anteriores. O que aconteceu no final foi que ele ficou bem enfermo. Na época da aposentadoria ele fez o último concerto, foi na OSPA para as autoridades. Depois ele fez para o público no Parque da Redenção, .. não foi nem no auditório Araújo Viana. Foi mesmo ao ar livre. Fizeram um palanque, uma coisa lá, e ele fez lá a última regência para o público que gostava de ouvi-lo.

P – A senhora lembra o ano?

Geci Campanella – Não, não lembro.


P – Eu tinha visto que era em 1978 mais ou menos.

Geci Campanella - É. Está no jornal.

P – Como é que funcionava a rotina na Grande Orquestra, as viagens?

Geci Campanella - Que eu saiba eles viajavam bastante. Apresentaram-se até na Argentina. Todos os países vizinhos, eles viajavam bastante, porque, de fato, tinham um conceito muito grande, por isso que era chamada de Grande Orquestra da Rádio Farroupilha, porque de fato, os músicos eram de primeira. Sabem aquele músico, como o Campanella costumava dizer, às vezes, na hora dos ensaios, que aquele músico largava a partitura, não precisava nem ensaio. Eles saiam tocando perfeitamente. Normalmente, tudo tem que ter um pouco de ensaio para dar certo, mas eles não, eram pessoas muito qualificadas. Tanto que muitos deles ainda, apesar da idade continuam tocando na OSPA. Outros até já não estão mais porque partiram também. Era uma orquestra, de fato, maravilhosa e acredito que tenham viajado bastante pra outros lugares. Foram a São Paulo também, foram a convite da Rede Tupi, inclusive porque a Rádio Farroupilha fazia parte da Rede de Emissoras Associadas. Em todo o Brasil existia uma rádio que era das Emissoras Associadas. Inclusive, a Tupi de São Paulo, como também depois, tinha a TV Piratini. Era uma empresa fabulosa, como a Globo é nos dias de hoje.


P – A senhora lembra quantos músicos faziam parte desta Grande Orquestra mais ou menos?

Geci Campanella - Olha, eu acho que mais de trinta músicos.


P – E o seu Campanella chegou a comentar sobre algum transtorno, alguma dificuldade ou algum problema que eles tenham enfrentado?

Geci Campanella – Da rádio, tu diz?


P – Na rádio ou na Grande Orquestra.

Geci Campanella – Olha, que eu lembre assim sempre tinha alguma coisa, mas ele não era, ele não era muito falante mesmo, sabe, sobre certas coisas, ainda mais na música. Ele chegava em casa, ele era o Campanella da casa, ., da família. Então, ele não comentava muito essas coisas. Alguma coisa que de repente posso lembrar é porque eu, quando estava lá participei, assisti alguma coisa assim, mas fora isso, ele não comentava.


P – Era muito diferente o Campanella dentro de casa e o Campanella fora de casa? O profissional e o marido, filhos, esposo?

Geci Campanella – Ah… com certeza. Ele não nunca levava o trabalho para casa. De maneira nenhuma. Ele era aquele pai extremado com a minha filha, com a nossa filha, Lana. Era aquele pai de dedicar todo o momento livre pra ela.


P – Ele falava muito de música?

Geci Campanella - Ele não comentava. Ele gostava de escutar música. Nós escutávamos com ele, inclusive as obras clássicas que ele gostava, nada imposto. Ele até comprou uns fones desses profissionais para escutar, porque ele era uma pessoa linda demais, sabe. Uma pessoa que deixava a família sempre à vontade para viver a vida sem a interferência do trabalho dele. Mas a gente gostava. Até eu gostaria mais que ele tivesse falado mais coisas sobre o trabalho.


P – E mesmo sem falar muito, chegou de certa forma a influenciar, mas como é que era a filha. Ela também gostava de música?

Geci Campanella – A filha gostava. Sempre gostou muito de música, ela gostava muito de piano, então tinha um dos cinco maestros da rádio, o maestro Roberto Eggers, que era um velhinho, mas um doce de pessoa. Era professor de piano. E era um dos melhores. Então o Salvador Campanella colocou a filha para fazer esse estudo, o começo do piano com ele. Aí fazia na casa dele. O Campanella a levava todos os dias, ele morava na Rua da República. Ele levava a Lana pra fazer as aulas com o maestro Roberto Eggers. Até que depois, eu não sei, acho que já velhinho, doentinho. Então a gente não quis mais incomodá-lo, também porque não queria desgastar a pessoa, embora a boa vontade que ele tivesse, o Campanella tinha muito cuidado nisso, porque eram amigos de muitos anos também. Mas em casa, quando ele escutava música, muitas vezes a gente participava disso. Eu dizia: ‘Ah não, vou escutar junto’. Então, sentávamos os três. Então o fato muito lindo que aconteceu, que emocionou a nós dois, eu e o Campanella, foi que nós estávamos, escutando uma obra muito bonita, não lembro qual foi, eu não tenho a formação de música clássica, eu acho que tudo é sentimento, aí tu nem precisa ter a formação, mas tu tem que gostar da música só, .. Então o que aconteceu? Nós estávamos sentados, os três, e ele colocou a música – ‘Ah… vocês querem? Então eu vou deixar todos ouvirem’ – e começou a música. Em determinado momento, os violinos tiraram uma nota linda demais. Sabe aquilo que vibra o íntimo da alma da gente. E o que aconteceu? Naquele momento que foi pega aquela nota pelo violino, nos damos conta que não só nós estávamos com lágrimas, emocionados, mas a menina que devia ter, eu acho que tinha uns 8 anos, também sentiu. E ele se emocionou e fez assim, um sorriso com lágrimas dizendo que ela também sentiu aquele momento. Então foi um momento mágico. Nós três estávamos envolvidos naquela música, todos os três mesmo, escutando aquilo dentro da alma, que todos sentiram aquela emoção. E a Lana também, a filha gosta muito de música clássica, até hoje gosta muito.


P – E Dona Geci, como é que a senhora conheceu o seu Salvador?

Geci Campanella – Ah… Isso aí é uma história muito interessante. Eu, na verdade, antes de eu entrar na Rádio Farroupilha onde fui fazer parte do casting artístico de cantores, fui morar no Rio com uns irmãos que trabalhavam já com televisão no Rio, a Ema D’Ávila, que era humorista, e o Walter D’Ávila. Fiquei lá uns 2 anos e pouco e depois tive que voltar porque minha mãe tinha ficado aqui. Antes de voltar, a minha irmã viu que eu cantarolava na casa dela. Então achou que eu cantava uma coisinha boa de aproveitar, que tinha algum futuro. E me levou, inclusive pra fazer alguns programas na TV Rio, onde ela estava trabalhando. Quando eu tive que voltar ela disse – ‘Olha é o caminho, é a música, você vai chegar “-, eu fiz amigos até o esposo da Ruth Regina, o José Maurício, que foi muito meu amigo, conheci ele antes dela, depois casou com ele aqui, ele era vizinho da minha irmã, da Ema.” Então eu já conhecia esse rapaz, e o Fernando Miranda, que já faleceu, e vim procurá-los aqui na TV que tinha começado a…

P – O José Maurício não faleceu ainda.

Geci Campanella – José Maurício não, mas o Fernando Miranda sim. Aí eu vim na rádio, aliás, na TV procurá-los. Aí, eles ficaram felizes de eu ter voltado. Aí fizeram um programa na TV Piratini e eu cantei nesse programa e o diretor da Piratini me deu uma carta para eu levar para o diretor musical da Rádio Farroupilha, que no caso, era o Salvador Campanella. E aí eu fiz o teste e comecei a cantar. E passado os anos a gente sentiu um amor muito grande um pelo outro, apesar da diferença de idade ser bastante grande, 33 anos.


P – A senhora tinha que idade?

Geci Campanella - Eu tinha 21 e ele 54 anos, mas foi também uma coisa mágica, mais que mágica, foi lindo demais. Por 23 anos, que foi o tempo que Deus permitiu que ele ficasse conosco.

P – Vocês trabalhavam juntos também?

Geci Campanella - Não, quando encerrou a Rádio Farroupilha, eu até sou suspeita em dizer o que eu vou falar agora, mas eu acredito que outras pessoas que vão assistir essa entrevista, amigos dele, sabem que é verdade. Ele era uma pessoa muito generosa. Sabe, ele gostava assim de ajudar as pessoas. Então dentro da música o que acontecia? Quando a Rádio Farroupilha começou a encerrar, porque foi gradativamente conforme os contratos foram encerrando, as pessoas foram sendo descartadas. Foram saindo. E ele viu que muitos músicos iam ficar sem trabalho, porque alguns não tinham ainda uma projeção maior, mas eram bons músicos. Então ele se propôs a fazer uma orquestra, um jazz, para tocar em bailes, porque os clubes aqui faziam muitos bailes naquela época, de debutantes e festa de aniversários de clubes, etc. E nós viajamos muito tocamos não só aqui em Porto Alegre, em todos os clubes, mas viajamos muito para outros Estados, Santa Catarina, fomos até o Paraná. Então, ele era muito conhecido, por que até nos admiramos muito quando nós chegamos uma vez em Santa Catarina para fazer um baile, foram nos esperar com uma carreata na estrada. Sabe? com foguetes e tudo mais. Ficamos sensibilizados e perguntávamos: “Mas como?! Que estranho??!” – achamos isso aí. Mas eu não sei como dizer, uma coisa que vou dizer que não tenho como explicar. Mas é um canal assim, a distância que pega uma emissora, a sua.potência, é isso, a rádio Farroupilha tinha uma freqüência que chamavam de “canal livre internacional”. Eu não sei bem como é que se diz, mas a Farroupilha era a que ‘pegava mais longe’.

P – Maior abrangência.

Geci Campanella - Quando a Farroupilha encerrou a Gaúcha assumiu o canal e o equipamento.

P – A licença deles no caso.

Geci Campanella - Que até hoje a RBS tem. Então nós éramos todos muito conhecidos em todos os Estados vizinhos.

P – Como era o nome da orquestra?

Geci Campanella - Orquestra Salvador Campanella. Quase todos os componentes vieram da Grande Orquestra Farroupilha.

P – Isso era mais ou menos em que década?

Geci Campanella - Não, foi antes de a minha filha nascer. A minha filha nasceu em 70. Portanto no final da década de 60.

P – Década de 60, pegaram o auge da ditadura militar, sentiram a repressão? Na arte se sentia o reflexo da censura?

Geci Campanella – Eu na verdade, pelo menos pelo que lembro, na verdade não tinha tempo, porque parece assim que a gente trabalhar numa emissora e assim paralelo com a TV, parece que não é desgastante, mas é. É aquele desgastante feliz, alegre. Você faz o que gosta ainda mais música no meu caso, e no dele também. Mas era muito atribulada sabe? Porque não é aquele, você pega tal hora da manhã e larga à noitinha. Chegávamos de manhã e não tínhamos hora para sair, não sabia que horas ia voltar para casa, não tinha tempo. O Campanella era apolítico. Recebeu várias homenagens de políticos aqui de Porto Alegre. Mas na verdade ele era apolítico, ele não se envolvia com a política, sabe?


P – E como eram estas aulas que ele dava?

Geci Campanella – Não isso aí era uma coisa muito particular, porque ele era muito ocupado, ele fazia muitos programas. Inclusive sábados à noite, de música clássica com uma cantora lírica, Terezinha Monteiro. Até hoje conversamos muito sobre a Rádio Farroupilha. O patrocínio era da Casa Masson. Então ele só pegava uma pessoa ou outra que insistia para dar algumas aulas. O que ele tinha como profissão era a Escola da OSPA, onde ele dava iniciação musical, era diretor da Escolinha da Ospa.


P – E ele recebeu muitas premiações pelo trabalho?

Geci Campanella – Sim ele recebeu quando Euclides Triches era governador. Ele tem uma medalha que recebeu, uma comenda, se não me engano era a medalha Simões Lopes.


P – Não dá nem para lembrar Dona Geci?

Geci Campanella - Sim, mas ele era muito assim, meio avesso a homenagens. Tinha que insistir muito com ele para ele participar, pois ele não era muito de. Ele gostava mesmo era de música.

P – Dona Geci e agora senhora falando de música ele tinha preferência por algum instrumento ou por algum artista?

Geci Campanella – Não. O instrumento dele era o clarinete. Ele se formou em música, tinha que ter um instrumento e até hoje, antes bem antes quando ele tava doentinho ele chamou a filha e deu o instrumento, que com carinho ele ia deixar.

P– E a filha sabe tocar?

Geci Campanella – Não a filha arranha o violão. A sensibilidade que o pai passou para ela é na poesia. Ela é poetiza.

P – E qual era o artista que ele apreciava?

Geci Campanella - Campanella era Beethoven com certeza. Num aniversário dele todos os músicos da orquestra se organizaram para comprar um presente. Deram a ele um objeto para por canetas, era o busto de Beethoven. Todos os músicos diziam: “Ah não o maestro é Beethoven, tem que ser Beethoven”. De fato ele gostava muito.

P – Como foi o trabalho que ele desenvolveu na Ospa? O que ele fazia lá?Quando começou?

Geci Campanella – Ele ajudava o maestro Komlós na regência. Ele fazia a regência em paralelo. Não sei se ajudou a fundar, mas ele dava aulas, era diretor da Escola de preparação para os que gostariam de ser músicos, a iniciação musical.

P – E esse trabalho foi após o fechamento da rádio Farroupilha?

Geci Campanella – Quando a OSPA começou os trabalhos a Farroupilha não estava bem atuante, e aí eles não tinham músicos formados.


P – Sim. Mas eu digo na iniciação musical!

Geci Campanella – Na iniciação musical, eu não sei se foi no começo da OSPA, Não sei que idade tem a Orquestra Sinfônica (segundo site da OSPA ela foi fundada em 1950), eu lembro que há alguns anos atrás nos fomos convidadas, eu e a filha, para o aniversário de 35 anos. Na verdade a OSPA, eu vou falar, pois eu lembro da crise, pois eles estavam sem local para se apresentarem. A própria parte burocrática deles não tinha aonde ser colocada. Então o que aconteceu. Eu fui com ele uma vez ao teatro São Pedro e ele muito triste mesmo. Porque veja, ele gostava tanto de música que ele foi quase às lágrimas, pois num canto eles tinham as partituras, estavam soltas dentro das capas, soltas assim, empilhadas. E ele ficou muito triste. E na época, se não me engano o Presidente da OSPA era Moises Velinho (presidente entre 1952 e 1972), um senhor habilidoso. E foi conversar com ele e que viria uma verba para fazer as cartelas, como se costuma dizer eram de papelão e ele confeccionou à mão, tudo feito à mão por ele. Eu gostaria muito que a OSPA me desse acesso para ver este trabalho. Eu o vi levar para casa e fazer, tudo feito à mão, para guardar as partituras. Tudo com carimbo, eu tenho até hoje o carimbo lá em casa, os carimbos que ele comprou. As caixinhas para carimbar as datas e vamos fazer uma referência, ele era muito organizado. A mesa dele era impecável, tudo certinho, no seu lugar. Quando ele viu aquilo ali, ele ficou bem transtornado. Então ele se propôs a fazer.

P – Ele ajudou a construir a cultura gaúcha? Parte da nossa história…

Geci Campanella – Apesar de ter vindo lá da Itália. Ele era aquele italiano que amava muito a pátria dele, mas ele amava muito o Brasil, com certeza. Ele se naturalizou brasileiro. Mas claro se escutava uma música italiana, uma tarantela que parece que é lá da parte do sul da Itália, ele se comovia bastante.


P – E a música argentina ele gostava também?

Geci Campanella - Sabe que não, ele não falava muito não! Eu acho que a passagem dele pela Argentina foi mais uma conseqüência na vida dele, sabe? Vamos dizer era mais Itália e Brasil. Ele sempre comentava que o Brasil era uma imensidão que nós mesmos brasileiros não sabíamos o que tinha.

P – Ele gostava de compor?

Geci Campanella – Ele fez algumas composições que não sei dizer quais. Ele era muito avesso a homenagens, como eu disse então ele era muito retraído para essas coisas. Mas eu lembro de um fato que ocorreu, uma coisa que foi comovente. E não foi ele que comentou, foram alguns músicos mais idosos, que comentaram comigo. Quando ele soube do falecimento do pai dele na Itália. Porque quando ele saiu jovem, nunca mais viu o pai. E ele já estava com certa idade. Quando ele soube que o pai faleceu, ele se fechou na sala e compôs uma música clássica para o pai. Depois ele num determinado dia, parece que num fim de semana ele fez um ensaio com a Grande Orquestra e tocou a música. Mas ele só tocou uma vez, quando terminou ele rasgou a partitura. Aquilo foi uma homenagem que ele prestou ao pai dele essa composição. E nunca mais se ouviu, também não sei como era, os músicos talvez lembrem…

P – E a família dele lá na Itália?

Geci Campanella – Não. Quando ele saiu de lá deixou duas irmãs. Uma irmã a Filomena ficou morando na Itália, a outra foi com os filhos para os Estados Unidos, para Chicago. Com esta ele se correspondeu por algum tempo, depois não houve mais correspondência. Mais a Filomena sim, a Filomena foi um fato interessante. Numa ocasião um músico veio de lá e disse que ela teria falecido. Ai ele ficou muito arrasado, pois era o único vínculo dele na Itália, essa irmã. Dai passou-se 11 anos. Um dia ele chega em casa meio preocupado, pois o pessoal do Consulado mandou uma correspondência para a OSPA pedindo que ele fosse até o consulado, o mais rápido possível. Eu fiquei preocupada com a ansiedade dele. Disse que devia ser uma herança, “não devia se preocupar, deve ser uma coisa boa” mexi com ele. Voltou muito feliz, porque a irmã foi no Consulado da Argentina, na cidade dela, perto de Bari, e acionou esse consulado querendo saber notícias do irmão, porque tinham perdido o contato. Mas ele trabalhava na Rádio Farroupilha, na OSPA, ela tinha todos os dados. Ela estava viva e queria saber dele. Ai eles se corresponderam e ela fez com que ele prometesse que iria visitá-la, queria muito ver o irmão. Dormia com sua foto. A mão deles faleceu quando ele tinha três anos e ela nasceu. Apesar de se mais nova, mais tarde ela cuidou dele. Tinha um carinho muito grande por ela. Se viu na obrigação de visitá-la. A cada dois anos ia visitá-la. Sendo que da primeira vez foi muito trágica a volta dele. Porque eram cinco horas de Roma à cidade em que ela morava. E ela se abraçou nele, não o deixava sair, dizia: “meu fratelo não quero que vá”. Tiveram que chamar os carabinieri para ajudar a contê-la, porque ela não queria que ele voltasse…

P– Ele teve outros filhos?

Geci Campanella – Teve Marta, da primeira esposa argentina que faleceu há um ano atrás. Teve o João, teve a Necilda, o Ricardo e depois Lana.


P – Definir o que significava música na vida do seu Campanella?

Geci Campanella – Ele era super amoroso com a família, com certeza, mas na época que a Lana nasceu ele tinha mais tempo para a família. Tenho a impressão que com os outros filhos ele não conviveu como gostaria. Ele era um pai muito amoroso, mas não teve a oportunidade pois ele tinha muito trabalho. Mas na verdade o grande amor dele era a música. Quando ele estava doentinho; um fato que até já comentei com vocês ele ficou muito alheio às coisas, dai ele não queria conversar, ele tava depressivo. Foi um problema circulatório geral, periférico. Ele foi perdendo os movimentos. Então, enquanto ele estava assim, mas sempre bem lúcido, mas não queria conversar. Então eu fazia de tudo. Conversei várias pessoas sobre o que fazer para dar um pouquinho de sentido a vida dele. Conversava, coloquei uma televisão no quarto para ele assistir as olimpíadas, que gostava muito, mas não adiantou. Dai eu pensei, vamos colocar o aparelho de som dele e vamos colocar músicas clássicas para agradá-lo. No primeiro dia que coloquei um disco que ele gostava fui fazer meus afazeres. Quando voltei ao quarto, ele não estava olhando, ele tentava mexer os braços para reger a música, em lágrimas.

P – Música, eu lembro que tinha comentado…

Geci Campanella – Só interrompendo um pouquinho, eu tinha a impressão que os políticos pelo menos aqui do sul, eles não se envolviam. Também no sentido assim porque eles também gostavam de música. Lembro que alguns deputados, aprenderam música com o Campanella, alguns deles. Eles respeitavam a parte artística da rádio, da música, até do radio teatro, porque não tinha nada a vê se envolverem.

P – E como eram estas aulas que ele dava? Agora a senhora lembrou que ele dava aulas?

Geci Campanella – Não isso aí era uma coisa muito particular, porque ele era muito ocupado, ele fazia muitos programas. Inclusive sábados à noite, de música clássica com uma cantora lírica, Terezinha Monteiro. Era patrocinado, o patrocínio era da Casa Masson. Então ele só pegava uma pessoa ou outra que insistia para dar algumas aulas. Mas era esporádico que ele tinha. O que ele tinha como profissão era a Escola da OSPA onde ele dava iniciação musical.


P – E ele recebeu muitas premiações pelo trabalho?

Geci Campanella – Sim ele recebeu numa comenda, se não me engano foi a medalha Simões Lopes.

P – Dona Geci, ele tinha preferência por algum instrumento ou por algum artista?

Geci Campanella – Não. O instrumento dele era o clarinete. Ele se formou em música, tinha que ter um instrumento preferido. Quando ele estava doente chamou a filha e deu o instrumento que, com carinho, ele ia deixar.


P– E a filha sabe tocar?

Geci Campanella – Não a filha arranha o violão. A sensibilidade que o pai passou para ela é na poesia. Ela é poetiza.


P– E qual era o artista que ele gostava bastante, assim…

Geci Campanella – Campanella era Beethoven com certeza. Num aniversário dele todos os músicos da orquestra se organizaram para comprar um presente. Deram um negócio para por canetas, era a o busto de Beethoven. Todos os músicos diziam: “Ah não o maestro é Beethoven, tem que ser Beethoven. De fato ele gostava muito.

P – Eu queria tocar num ponto delicado, a senhora responde se quiser, mas como foi suportar essa perda? Até em termos musicais, assim, porque foi uma perda para a música também, além da perda para a família.

Geci Campanella – No momento que aconteceu, na verdade, eu vou te ser franca, a música foi o que menos importou para mim, mais era ele, era ele. Mas foi uma coisa gradativa, foram três anos de invalidez até chegar quase que, bom, não tinha movimento nenhum, a não ser falar, ouvir e sentir as coisas. Mas eu te digo uma coisa, quem me deu força, na verdade, foi a minha filha porque ela precisava, ela não poderia ficar sozinha neste momento. Então foi ela quem me deu a força que eu precisava. Foi ela.

P – E um momento inesquecível que vocês viveram juntos.

Geci Campanella - Todos os momentos que nós estivemos juntos foram muito felizes, sempre, sempre. A nossa convivência, a nossa cumplicidade dentro da música também. Ele não era de elogiar nem a mim mesmo que era tão próxima a ele. Uma vez inclusive ele chegou falando para um músico que a Geci não precisa de instrumento, ela tem uma voz musical. Aquele foi o máximo do elogio que eu podia ganhar vindo dele. Mas todos os momentos que a gente conviveu foram muito lindos, ele era uma pessoa assim, eu e a filha, como se nós estivéssemos numa redoma de vidro. A gente não poderia ter uma gripe, a gente não podia ter nada porque ele se desesperava porque aquilo era muito grave. Ele exercia uma super proteção que chegava a esse extremo, sabe? Então o que nós podemos lembrar dele? É só muito amor, muito amor, amor demais.

P – Na rádio, quantos maestros trabalhavam?

Geci Campanella – Cinco maestros

P – A senhora lembra os nomes?

Geci Campanella - Maestro Roberto Eggers, maestro Manso, que também tocava na OSPA. O maestro da rádio era o maestro Manso. Na rádio o Eggers era o mais idoso, o mais antigo, o Manso, o maestro Uzbert, Alfred Uzbert, que era alemão e tinha o Campanella. Além da grande orquestra e de tudo o mais que eu falei nós tínhamos ainda o jazz que era do maestro Karl Faust, também vinculado à rádio. Então se a gente ia cantar uma música com jazz cantávamos com ele.

P – A parte musical da rádio Farroupilha era formada pela grande orquestra, pelo jazz e mais pelo que?

Geci Campanella - O jazz era uma coisa à parte, o que era fixo mesmo era a grande orquestra, o Conjunto Regional, que é o que tem cavaquinho, acompanhava as músicas brasileiras, era liderado pelo Antoninho Maciel.Também tínhamos o Conjunto Melódico que era do Paulo Pinheiro, eu não sei se era ele quem dirigia ou se era um outro rapaz. E tínhamos a Orquestra Típica, que era mais tango, música Argentina. E tinha também uma outra que era do tipo de música mais daqui do sul, assim mais regionalista que eu não lembro o nome, mas era um tipo de música mais daqui do sul. Cada programa tinha um estilo e então também os músicos eram escolhidos, tinha um conjunto para cada tipo de trabalho.P – Já que a senhora falou dos maestros, diz dos cantores, quem eram eles?

Geci Campanella - Quando cheguei encontrei uma pessoa que cantava divinamente, como ainda canta, até hoje, que é Maria Helena Andrade. Era a cantora máxima da rádio Farroupilha, com um potencial de voz enorme, como tem até hoje. Nós tínhamos o Valdir do Carmo também com uma potencia de voz. Tinha a Ruth Regina.

P– Não havia uma Geci D´Ávilla?

Geci Campanella - Eu cheguei depois, eu cheguei bem no finzinho daquela época, consegui pegar só o final, mas havia muitos cantores bons que eu até vou ficar em falta com alguns deles. O Antonio Lemos também era um cantor muito conhecido. Olha o grupo de cantores era bem extenso, mas eu não lembro agora. A Teresinha Monteiro, eu não vou esquecer, mas era só cantora lírica. Em uma ocasião Teresinha, acho que estava já cansada de cantar só lírico, então nós nos dávamos muito bem. Nós duas escolhemos um bolero para cantar, foi feito o arranjo e saiu certinho sabe, a primeira e segunda voz.


P- A senhora se lembra de como funcionava a programação da rádio, os horários dos programas?

Geci Campanella – Os programas funcionavam assim, era paralelo, sempre havia os humoristas da rádio, aquelesprogrametes, aquele esquete de humorismo, então era sempre em paralelo com a parte musical. Até que nós ficávamos esperando atrás do palco em determinado lugar porque entravam os esquetes e daí chamavam o cantor. Sempre era intercalado com a música. Então funcionava assim, pelo menos no auditório.

P – O horário era à tarde ou à noite?

Geci Campanella - Era o dia todo. A gente entrava e batia o ponto de manhã e pegava o horário da Rádio Seqüência que era um programa muito conhecido. O Rádio Seqüência que era ao meio dia e as pessoas saíam do trabalho e ao invés de ficar vagando pelo centro iam lá para o auditório da Rádio Farroupilha sentados escutando a gente cantar e toda aprogramação

P – A senhora lembra onde era localizado o auditório?

Geci Campanella - Na Siqueira Campos, o prédio existe até hoje, é muito antigo, as vezes eu passo por ali e me dá uma saudade. Era no primeiro andar, ao menos na época que eu conheci porque eles estiveram em outros lugares, mas ali eu gostava muito. E a parte da direção da emissora ocupava todo o 22° andar da Galeria do Rosário. Todo aquele último andar era da rádio Farroupilha. Então a gente era obrigada a passar por lá de manhã, a assinar o ponto na mesa domaestro Manso que ficava na frente da mesa do Campanella, que era tipo um assessor dele.

Professor – E daí tinha que passar por um famoso porteiro né?

Geci Campanella – É, não, o porteiro era lá no auditório! Ahh! mas o porteiro era uma pessoa linda, eu me esqueci o nome dele, mas era uma pessoa linda, todo mundo amava muito ele, sabe, era um senhor baixinho, gordinho, era uma pessoa linda mesmo. Ele ficava no auditório e o nosso ponto ficava no auditório, lá na Siqueira, e nós tínhamos que passar pela galeria antes de ir para o trabalho na rádio porque havia um mural onde também ficavam escaladas as pessoas para os programas na televisão na Piratini. Nós não tínhamos um contrato, trabalhávamos por um cachê, mas nós tínhamos que passar ali para ver se havia algum programa a tarde ou a noite. E nós éramos obrigados a assinar o ponto se não o pessoal ia direto para a rádio. Isso era na década de 60. Nós não recebíamos as correspondências, mas as pessoas do interior pediam muitas fotos e, para minha surpresa, havia até vizinhas das minhas irmãs com fotos minhas porque gostavam de mim e iam lá na rádio pedir. Só que eles não nos davam as cartas, acho que tudo isso era feito lá no escritório do jornal Diário de Notícias, também pertencente ao grupo e seguidamente saía no jornal os programas em que a gente participava, saiam fotos dos artistas, a promoção era boa porque o próprio jornal da emissora proporcionava isso, dava essa oportunidade de promover o artista, e isso era muito bom. Eu quero só, antes que vocês encerrem, que osmeus colegas saibam, todos que eu convivi, que eu tenho um grande carinho por todos. Uma lembrança muito carinhosa, muito meus amigos, como irmãos. Foi uma época muito boa porque as pessoas se davam de coração, sabe, procurando se ajudar, se proteger, sabe, não havia competição entre nós, tanto que eu fui convidada pelo Mauricio Sobrinho várias vezes para ir à Rádio Gaúcha e em função desse companheirismo, do carinho que eu tinha por todos, e era até uma proposta muito boa que ele me fez algumas vezes, eu não quis sair da rádio Farroupilha pelo carinho dos colegas, sabe que a gente pega aquela amizade.

P- E o Salvador Campanella só trabalhou na Farroupilha?

Geci Campanella - Eu tenho uma impressão de que ele trabalhou na rádio Gaúcha porque eu não sei se foi o Mauricio Sirotsky…

P-….o Mauricio esteve na Farroupilha

Geci Campanella – Ah então foi isso porque eles fizeram uma amizade muito boa entre os dois, eles eram muito amigos. Inclusive quando o Campanella ficou doente, eu até gostaria de deixar registrado, o carinho, tudo, apesar da distância, o amparo que o Maurício demonstrou para nós, para mim e para minha filha. Ele pediu que fosse a minha casa a Vânia Elisabete, que era a esposa do Augusto Vampré, que foi um dos diretores artísticos da rádio Farroupilha. Ela trabalhava na Gaúcha e ele pediu que ela fosse à minha casa para saber noticias do Campanella. Então ela ficou na incumbência de toda semana, uma vez por semana, ela ia saber noticia. Ele mandou me dizer que eu não estava só e que ele só não ia visitar o Campanella porque ele não queria ver aquele italiano fortalhão em cima de uma cama, que ele não teria coragem de vê-lo assim.


P- A senhora falou em grandes auditórios. A Orquestra ia para o interior do estado?

Geci Campanella – A gente fazia a Festa da Uva sempre. Todos os anos que eu estive lá, nós íamos à Festa da Uva em 3ônibus. Sim, porque não eram só os músicos e cantores. Ia toda uma equipe de pessoal de áudio, os que iam apresentar os programas, locutores, era uma turma muito grande, inclusive os humoristas iam e lá na metade faziam os esquetes de humor.

P – A senhora gostaria de acrescentar algo?

Geci Campanella - Eu gostaria de deixar registrado também até que a família do Mauricio sabe disso que, numa das últimas vezes que ela foi lá em casa, a Vânia, ela me chamou depois que conversou com ele porque ela que conseguiu que ele fosse para uma cadeira de rodas porque eu tinha dificuldade de levá-lo de um lado para outro e ele tinha necessidade de sair da cama. E daí ela conversou com ele e disse que ia trazer uma cadeira lá da Gaúcha, que era muito linda e ela me disse que conseguiu fazer com que ele aceitasse. Daí, então os dois conversavam muito até porque ele conhecia muito bem o Augusto Vampré e a Vânia, eram amigos de anos. Aí ela chegou pra mim quando ele já estava bem doentinho, no ultimo ano, e me falou: ‘olha, tem uma coisa que vai te magoar, mas se eu não falar o Mauricio vai me cobrar e ele esta percebendo, pelo que eu transmito que o Campanella está cada vez piorando da saúde e ele gostaria muito de fazer um pedido pra você, se você não se importa que ele faça os funerais do Campanella. Pois seria para ele uma última homenagem que ele faria a ele, como amigo. É claro que eu aceitei e foi nesse momento, que nos abraçamoseu e ela porque a gente sabe que estava chegando a hora, mas a gente sempre faz aquela historinha de que não vai acontecer. Mas eu agradeço muito aos familiares do Maurício. Eu tenho uma gratidão muito grande pelo carinho que ele demonstrou sempre na doença do Campanella

P – Apesar de concorrentes, de trabalharem em emissoras concorrentes?

Geci Campanella - Não, mas não existia isso, não existia essa concorrência, as pessoas da Gaúcha até iam nos visitar.


Prof interrompe – Até porque a Farroupilha era dos Diários Associados. Assemelhava-se à Globo de hoje.

Geci Campanella – É, era as Emissoras Associadas estavam em todo o Brasil. Mas como tu falaste se havia uma convivência entre as emissoras, no caso a Gaúcha, era assim: quando tinha uma programação dentro da cidade, como por exemplo, o aniversario da cidade de Porto Alegre ou alguma coisa assim, nós fazíamos todos unidos e participávamos de um conjunto só.

P – Agora só pra finalizar o programa com chave de ouro, tem como a senhora cantar pra gente “Sabor a mi”?

(Geci canta um pedacinho de Sabor a mi)

P – A senhora pode nos contar a origem do nome do maestro Campanella?

Geci Campanella - Quando o Campanella estava para nascer foi decidido que o seu nome seria Tomazzo Campanella, mas depois que ele nasceu, nos primeiros meses, houve a erupção de um vulcão próximo da região que ele morava e acordaram com aquela fumaça toda, com aquela fuligem que saia do vulcão e a criança, ele, estava se asfixiando e a mãe desesperada abriu a janela pra entrar um pouco de ar e fez uma promessa de que se ele fosse salvo, ela colocaria o nome de Salvador no filho. Então ele ficou Salvador Campanella. Mas os familiares, até hoje, a irmã o chama de Tomazzo, porque seria este o nome verdadeiro dele.

SALVADOR CAMPANELLA – 1983


Entrevista realizada pela Rádio Universidade da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em1983

Locutor- Passamos a apresentar um programa especial com a presença do inesquecível maestro Salvador Campanella.

Maestro Salvador Campanella, cidadão porto-alegrense, título honorário recebido em março último das mãos do ex-prefeito Villella. Músico dentro do panorama acessível da orquestra da rádio Farroupilha em outros momentos empregando a atitude erudita da orquestra sinfônica de Porto Alegre, Campanella é italiano de Nápoles mais precisamente do subúrbio de Marian. Nasceu a 3 de janeiro de 1907, mas deixemos que ele mesmo nos conte sua vida, suas vivências.

Salvador Campanella – O meu pai, além de maestro era clarinetista também, tocava clarinete. E ele tinha alunos, e quando saía eu pegava o clarinete do meu pai e experimentava.

Locutor – Escondido dele?

Salvador Campanella – Escondido. Porque eu via como ele ensinava os outros: bota o dedo aqui que sai o mi, sai o ré, sai o fá. E eu experimentava. E um dia o meu pai saiu, e esqueceu algo em casa e daí voltou logo e ouviu alguém tocar clarinete, mas sabia que não tinha alunos, era eu. E ele me passou uma belíssima carraspana.

Locutor – Ele não gostou?

Salvador Campanella - É. E ele disse:’ tu gosta do instrumento?’ Eu disse: ‘gosto’. Daí ele disse, então vamos aprendê-lo. Então o meu maestro foi o meu pai. Depois eu entrei no conservatório São Pedro em Nápoles. Aí fiquei onze anos e me formei maestro e clarinetista porque cada maestro tem que ter um instrumento obrigatório. Essa foi a minha vida.

Locutor – E o senhor participou de alguma orquestra lá, de alguma banda?

Salvador Campanella – Não, dentro do conservatório tem uma orquestra.

Locutor – E daí o senhor tocava ali?

Salvador Campanella - Ahã. Dentro do conservatório tem uma orquestra e o maestro rege a orquestra do conservatório e toca ao mesmo tempo. É um estágio que se faz.


Locutor – E porque o senhor saiu de lá?

Salvador Campanella - Porque terminei os estudos e resolvi o seguinte: o meu primo, que morava na Argentina lá na Patagônia, chegou na Itália para passear. Foi quando eu tinha saído do conservatório.

Repórter – Ele tinha a sua idade?

Salvador Campanella - Não era maior. Eu tinha 21 anos e ele tinha uns 35, 40 anos. E daí ele disse ao meu pai: deixa o teu filho ir na Argentina passear um pouco como um presente.


Locutor – Salvador Campanella encerrou sua carreira como regente em 1978 à frente da OSPA em plena semana de Porto Alegre. A primavera já ia adiantada, há 5 anos atrás, quando Campanella numa manha de domingo, no parque Farroupilha, iniciou sua despedida com a abertura da ópera Norma de Vicenzo Bellini. Escrita em 1831, Bellini teve o desgosto de vê-la vaiada em sua estréia por um público que parecia ter ido ao teatro com este único fim. No entanto, em 1835, apenas um ano após a morte de Belini, Richard Wagner, então um desconhecido, proclamava Norma uma obra prima. Estamos então com a orquestra sinfônica de Porto Alegre, sob direção do maestro Salvador Campanella na abertura desta ópera.

(entra a opera)

Locutor – Ouvimos a abertura da ópera Norma, de Vicenzo Bellini, com a OSPA, tendo a frente o maestro Salvador Campanella convidado deste programa especial, pelos 1080 Kilohertz da rádio da Universidade.Federal do RS.

Salvador Campanella - O que tenho pra contar da minha experiência é muita coisa. Vamos ver se minha memória me acompanha a eu desenvolver tudo o que tenho pra dizer. A minha máxima experiência foi na rádio, na famosa rádio Farroupilha. Eu estava em um viaduto e por ali passavam artistas nacionais e internacionais. São artistas reconhecidamente internacionais. E era uma vida artística completamente diferente da de hoje em dia. A Farroupilha sempre teve a nata dos músicos de Porto Alegre. Era uma orquestra de primeira categoria. Todos os artistas vinham patrocinados, porque sem patrocínio era impossível. A rádio vive de patrocínio.

Salvador Campanella - Primeiro eu vim para a Argentina. Eu tinha um tio lá na Patagônia, sul da Argentina. E depois eu vim pra Porto Alegre. Em Porto Alegre tinha a famosa Banda Municipalcal. Essa orquestra municipal eu não lembro em que ano foi formada, mas foi no ano de 33, 1930 mais ou menos. Em 1935, na exposição Farroupilha, já existia a banda municipal. Bem, ali na banda municipal tinha um maestro aqui italiano, o seu Leonardo, e um músico que ainda existe, o Constantino, você o conhece? É patrício dele, escreveu para o maestro para nós virmos para Porto Alegre. E viemos para cá, para Porto Alegre. Eu tocando clarinete, eu era clarinetista, e o Constantino, pistão. Chegamos aqui, fizemos o concurso, passamos e ficamos em Porto Alegre. Em 1935. Primeiro eu toquei na rádio Gaúcha. A rádio Gaúcha estava onde hoje em dia se localiza a Hidráulica do Moinhos de Vento na rua Mostardeiro, lá em cima na rua 24 de outubro.


Locutor – Campanella era carinhosamente apelidado pelos músicos da Orquestra o “Nossa Senhora da Bronca”, pela correção e pela disciplina que exigia. Vamos ouvi-lo agora dirigindo variações de um tema brasileiro de Francisco Braga, que numa ensolarada manhã de domingo alegrou o nosso parque Farroupilha. O Chico dos Índios, como era chamado Francisco Braga, é o autor do nosso hino à bandeira. A saudade da pátria e os assuntos brasileiros ocupavam obsessivamente o seu espírito, e entre suas obras mais conhecidas está a que ouviremos a seguir.

(entra ópera regida por Campanella)

Locutor – “Variações sobre um tema brasileiro”, de Francisco Braga, na interpretação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre sob a direção do maestro Salvador Campanella do concerto de encerramento de sua carreira no ano de 1978. apresentamos a seguir mais um trecho de sua entrevista, em que nos fala da sua carreira na rádio Farroupilha.

Salvador Campanella - Bom, a Farroupilha estreou em 24 de outubro de 1935. e eu fui contratado no dia 1° de julho e a Farroupilha estreou dia 25. Ou seja, eu fui o parteiro. OK, daí eu comecei com a música. Tinha um maestro que regia a orquestra, um alemão. E ele foi embora. E quem era o diretor da rádio era Arnaldo Balvê. E faltou maestro de um momento para outro E daí eu comecei a reger.


Repórter – E daí não parou mais?

Salvador Campanella - E daí eu não parei mais.


Locutor – Continuando o nosso Concerto no Parque com a OSPA e o maestro Salvador Campanella, escutaremos a abertura da ópera A Noiva Vendida. É uma obra de caráter folclórico, alegre, e marcada por episódios pitorescos passados em praça publica e numa estalagem de aldeia em dia de festa.

Locutor – Corria o ano de 78 , quando o maestro salvador Campanella se despedia de duas funções. Aqui pela rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ele nos conta como foi sua experiência na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.

Salvador Campanella – quando eu entrei na OSPA eu já tinha bastante prática na rádio porque na rádio é necessária muita tarimba, do contrário não se resolve nada.


Locuor- … muita improvisação

Salvador Campanella - sim, muita. Não dá tempo para nada, tudo é feito muito ligeiro. E eram cinco programas noturnos de meia hora. E tinha ensaio de duas horas. Então o negócio era feito assim: “tá, tá tá bem. Tá, tá tá pronto, cuidado com o sinal. O maestro Pablo Cómlos que às vezes ia lá para assistir a rádio ficava bobo, como é que esse pessoal se arranja? Eu me saía bem. Saía bem porque os músicos eram de primeira categoria. Olha, me recordo do Cartorial, violinista. Carlos Marrone. O Cartorial vive ainda. Augusto Beldetti. Ihhh, tem uma porção deles. Não me lembro agora de todos. Breno Baldo. Rui Silva, diarista. Eram 35 músicos. E foi lá da rádio Farroupilha que surgiu a OSPA. Toda vez que a OSPA tinha algum concerto, despachava 22 músicos. Quase toda a orquestra. Nós gravávamos o programa e a OSPA fazia o concerto. Foi quando me convidaram pra ser regente da OSPA. Eu disse ta, tá certo, eu vou. E daí foi toda a orquestra junto. Eu guardo com mais carinho a OSPA porque foi aonde eu dei….como se diz….dei tudo o que eu tinha. É uma orquestra muito boa. É onde se reúne um grupo de músicos ótimos e é onde um regente pode tirartudo o que pode pedir. Agora quem formou a OSPA foi o maestro Pablo Komlós. Esse foi o maestro que formou a OSPA.


Locutor- que lutou, que brigou…

SC – que lutou, que brigou. Que ia em São Leopoldo ensaiava o coro até a 1, 2 horas da madrugada e voltava e às 7 horas estava estudando para, às 8 e meia, começar os ensaios. Tinha um oficio privilegiado. E foram mais de 20 anos que ele fez isso.