Márcio PazEntrevista completa

VOZES – Como e quando a sua carreira começou?

MÁRCIO PAZ – Eu morava em Alegrete, eu trabalhava numa empresa que vendia periféricos de computador, trabalhava com informática, e conheci um pessoal da rádio local de Alegrete e eu caí na profissão de paraquedas, muito por acaso. E, conversando com uma das meninas que trabalhava lá e comentei que, se eu pudesse faria outras coisas, aí ela perguntou por que eu não ia lá na rádio fazer uns testes, naquela época funcionava assim, há 25 ou 26 anos. Aí fui pra casa pensando que devia ser um trabalho burocrático, por que eu sou gago, eu dou umas gaguejadas quando fico nervoso e principalmente quando eu fico bravo. Fiquei pensando nisso e no meio do caminho me veio uma pergunta: E por que não tentar? O máximo que vai acontecer é não dar certo e tudo bem, vou tentar. Acho que foi a primeira vez na minha vida que eu pensei: Cara, vamo lá! Encara e tenta! Fui, conheci o dono da rádio lá, esse cara me deu uns textos pra gravar, pra ouvir a minha voz e eu achei engraçado aquilo, eu nunca pensei que tinha voz pra rádio. Eu ia até lá depois do trabalho e gravava esses textos durante uns vinte dias. Até que um dia ele chegou, me deu uns textos, botou o fone de ouvido e ficou do outro lado do vidro e disse: “Lê aí que eu quero te ouvir. ” Cara, eu fiquei num nervosismo só, eu não consegui falar uma palavra só, eu tranquei na primeira palavra. Ele tirou os fones, meio bravo assim e disse: “Se eu te colocar amanhã no ar, tu vai fazer isso?”, daí eu disse: “Não, se tu me colocar no ar eu vou fazer certo e bonito!”, ele disse: “Então tu tá no ar amanhã! Tu vai fazer uma programa no final da tarde”. Tudo que eu fiz em jornalismo, em comunicação foi meio no susto.

VOZES – Com que idade foi isso? E como a carreira seguiu?

Ah, eu tenho 51 hoje, eu tinha 23, 24 anos, por aí. E aí eu fui fazer um programa que se chamava “Ronda: O Melhor dos Festivais”, que era um programa de festival nativista. Na época tinha um boom muito grande dos festivais nativistas, os jovens da época faziam caravanas, se deslocavam pra Santa Maria, Uruguaiana, Alegrete, Santa Maria. E essa rádio tinha um programa de segunda a sexta-feira, das 18h às 19h, antes da voz do Brasil. O nome era Ronda por causa do nome do festival de Alegrete. Só que eu fiz uma coisa diferente, eu não toquei só musica nativista, toquei também músicas de festivais, que era uma coisa um pouco mais politizadas, já era diferente. Até que um dia, no aniversário da rádio eu pedi um horário a mais, pra dar uns discos de presente e aí o cara me liberou uns discos de vinil e aquilo foi um sucesso tão grande na cidade que no outro dia ele me pediu pra fazer de novo e na outra semana eu tava com um horário meu na rádio. De alegrete eu fui trabalhar em Santa Maria, foi onde eu conheci o Gerson Pontt, que é um irmão que e tenho, trabalhamos juntos na rede Atlântida, então o Gerson me profissionalizou, me lapidou como profissional, isso numa rádio chamada 105. Fiquei uns três anos nessa rádio e aí fui pra rede Atlântida. Na rede 1atlântida eu coordenei Santa Maria e Passo Fundo, trabalhei em Porto Alegre também. Trabalhei na extinta Pop Rock, voltei pra rede Atlântida, em Porto Alegre, onde a gente fez o programa Y, que chamou muita atenção. Em 2007, eu saí, quando começou a mudança que o pessoal da Pop Rock veio pra Atlântida e tiraram a galera da Atlântida, eu pedi pra sair, tava meio cansado, estressado. Eu fiquei um tempo fora do rádio, fiquei desempregado, pouco menos de um ano, aí voltei pro rádio na Pop Rock através do Tadeu Malta, que me ajudou muito no meu trabalho. O Tadeu assumiu a Pop Rock e no projeto dele, trouxe meu o meu nome, ficamos trabalhando juntos por três anos. Quando a Ulbra quebrou e tiveram demissões e aí eu voltei a ficar sem trabalho, mas aí eu voltei pra Atlântida. Voltei fazendo alguns freelas pra Atlântida, fiz uma temporada na praia, em Tramandaí, fui coordenar mais uma rádio da Atlântida em Santa Cruz do Sul, e quando eu tava em Santa Cruz do Sul aconteceu uma das coisas mais doidas da minha vida, um amigo que trabalhava no Rio de Janeiro e chefiava o departamento de jornalismo do SBT-Rio e um dia ele me mandou o link de uma matéria e perguntou se eu sabia fazer aquilo também, eu vi e respondi: “Consigo, só que é meio pastelão assim, mas eu consigo me divertir, consigo fazer uma coisa pra entretenimento”. E aí fui pro Rio de Janeiro, fiquei três meses por lá. Eu tive uma experiência mito legal de TV, a rotina do Rio de Janeiro é muito doida e eu fazer, três, quatro matérias por dia, mas eu não gostei por que eu vivi o pior do Rio de Janeiro, ele tem uma contradição, é uma das cidades mais lindas do mundo, mas também uma das mais feias, em função da violência e eu caí no pior fazendo o hard news. Quando eu cheguei lá, liguei prum amigo, o Marcelo Coelho e disse que tava apavorado e ele me mostrou o Rio de Janeiro bonito, mas mesmo assim foi uma experiência muito pesada. Teve um dia que eu fui fazer uma matéria sobre falta de recolhimento de lixo, em Duque de Caxias, e a chefe de reportagem mandou um rádio dizendo pra derrubar a matéria e disse: “Vai pro Chapadão, Morro do Papel Cagado, eu cheguei lá e tinha uma menina morta por bala perdida, a comunidade queimando carros e a Polícia Especial do Rio de Janeiro, o BOPE invadindo a favela com tiros em cima da gente. E aí eu pensei que não queria mais aquilo pra mim. Eu vivi 25 anos da minha vida trabalhando com música, não quero e aí voltei, com uma mão na frente e outra atrás. Quando eu cheguei aqui, fiquei tentando voltar pro mercado de trabalho, me juntei com dois amigos que tinham uma produtora e trabalhavam com artistas, isso foi legal, mas não deu muito certo. Depois fiz a campanha política da Manuela D’Ávila quando ela concorreu à prefeitura, foi bacana porque usei muito do que aprendi no Rio com televisão. Quando terminou a campanha a RBS me chamou pra fazer um dos trabalhos mais legais de toda a minha vida, eles me chamaram pra fazer uma parceria com a Univias.

VOZES – Como foi esse trabalho?

Esse projeto foi muito legal, eu fiquei 30 dias viajando todo o Rio Grande do Sul, tem lugares aqui no estado e as pessoas saem daqui pra procurar coisas iguais. Tem lugares lindos a 150 km daqui e eu mostro isso nesse material todo, viajei 7.000 km.

VOZES – Em que ano foi isso?

Foi 2013, a Univias tava saindo da concessão de pedágio das estradas e queria entregar um matéria de despedida ou também uma tentativa de se manter ali, fazer uma coisa meio política, Eles encomendaram com a RBS um material bacana onde eu contava histórias. Fiz essas viagens, matéria pra rádio, TV, jornal e internet, foi onde eu pude pegar toda a experiência de comunicação e jogar em cima desse projeto e me diverti muito! Eu tenho uma felicidade muito grande em ter feito a escolha de trabalhar em comunicação.

VOZES – Quais as suas referências no rádio gaúcho?

MÁRCIO PAZ – Lá em Alegrete, quando eu comecei, eu não tinha como ouvir alguns profissionais, mas quando eu cheguei em Santa Maria eu conseguia ouvir, eu ouvia o Gerson Pontt, que foi o cara que me ensinou muito, o Tadeu Malta, que me ensinou muito também. Hoje eu tenho uma grande referência, como caráter, como profissional, como postura, que é o Macedo. Depois desse trabalho da Univias, eu fui chamado na rádio Gaúcha, Até então, eu tinha trabalhado só com entretenimento em rádio, rádio news eu não sabia fazer e é completamente diferente da rádio de entretenimento, tanto operacionalmente quanto os conteúdos. Eu achava que não conseguiria fazer uma rádio com a gaúcha e eu aprendi, eu fiz várias coisas na Gaúcha fui apresentador de dois programas, fazia crônicas, fazia comentários, comerciais e eventos… Foram dois anos lá e, cara, foi uma faculdade. Com essas mudanças todas que estão acontecendo na RBS, que todo mundo sabe, eu fui remanejado pra Itapema, o que, pra mim, foi maravilhoso, por que eu estou no meu chão.

VOZES – Os teus programas são todos pela manhã, certo?

MÁRCIO PAZ – Eu faço quatro programas da Itapema, eu chego às 7h e faço o Wake Up até as 9h, depois faço um programa de uma hora que é de um patrocinador, que é o I Fashion Music, depois eu apresento a Boa Dica, onde as pessoas mandam dicas legais, várias pessoas colaboram e das 11h ao meio dia eu apresento o 80 por hora, que são músicas dos anos 80, onde toda a programação é minha. Fora isso, toda a programação musical é feita pelo Alexandre Fetter. Eles nos ouvem muito, damos sugestões, acho a programação excelente.

VOZES – Como você nota hoje essa inserção tão grande nas redes sociais no rádio? Como isso colabora numa rádio de entretenimento?

MÁRCIO PAZ – Eu acho que o rádio e as mídias convencionais têm medo da internet, é impressionante. Temos que enfrentar como um bloqueio, de peito aberto. Nós das mídias convencionais estamos preocupados com o resultado, quantas curtidas, precisamos não nos preocupar exatamente com isso. O exercício que faço diariamente é tornar o meu veículo, o espaço que eu tenho, em um portal de comunicação. Se eu não usar a internet como ferramenta e tornar um veículo tradicional em um portal, a gente vai perder. Musica legal tá no celular e ele te deixa escolher e te sugere outras músicas. Musicalmente falando, eu posso colocar uma música na itapema, alguém ouve e põe na playlist e o spotify vai te indicar outras, mas eu fui uma referência, eu preciso ser essa referência. Eu posso oferecer músicas legais, mas tenho que saber como te dar uma informação, tenho que oferecer referência, conteúdo e credibilidade e acho que aí vamos ter uma sobrevida e andar junto com a internet, hoje nós estamos correndo atrás dela.

VOZES – Depois de vivenciar tantas coisas no jornalismo, você falou antes da entrevista que vai cursar jornalismo. Como foi essa decisão e por qual razão fazer isso agora?

MÁRCIO PAZ – Muitas vezes eu recebi alunos de comunicação, eu acho que eu tenho muito tempo de comunicação, que é uma faculdade, mas eu tenho muito a aprender. Eu me sinto meio culpado de não ter um canudo, de não ter feito comunicação e eu quero fazer faculdade de jornalismo, é uma vontade que me acompanha há muitos anos. Mesmo com 51 anos acho que ainda é cedo pra essas decisões, mas o motivo principal é porque quero ser professor, fazer mestrado, quero dar aula e passar tudo o que eu aprendi.