P: Por favor, você pode nos dizer o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento?
LENA: Sim. Eu sou conhecida como jornalista e radialista como Lena Kurtz, mas meu nome completo é Luzia Helena Kurtz de Souza Bragatti. Um nome de princesa, mesmo que eu não tenha nenhum título nobiliárquico. A minha data de nascimento eu tenho muito orgulho de dizer. É dezoito de junho, mesmo dia do Paul McCartney, de 1954. Ele é bem mais velho do que eu, tá gente! Tem outros juntos comigo. Tem a Maria Betânia, a Eva Souza, a Isabela Rossellini, mas eu acho que o ícone do dia dezoito de junho é o Paul McCartney.
P: Você nasceu em Porto Alegre?
LENA: Não. Eu sou nascida no Rio de Janeiro. Eu nasci fora daqui por um acidente de percurso, uma história meio longa. O meu pai saiu daqui e foi participar da Segunda Guerra Mundial, na volta se radicou no Rio de Janeiro. A minha mãe também era daqui e teve alguns percalços pois casou muito cedo, com dezesseis anos. Na década de quarenta ela se desquitou, quando isso era um escândalo. Aí, ela fez um concurso para os Correios e foi transferida para o Rio de Janeiro e lá se reencontrou com o meu pai, que ela conhecia daqui já de infância e se casaram. E o fruto, o primeiro pelo menos fui eu. Então, sou nascida no Rio de Janeiro por isso.
P: E qual foi, assim, o teu primeiro contato com o rádio?
LENA: Meu primeiro contato é, na verdade, com microfones e toda essa parafernália da comunicação não foi, em primeiro lugar, com o rádio. Eu morei uma época em Belo Horizonte e tinha uma novela, que foi uma novela de muito sucesso, acho que a primeira, que era Direito de Nascer e meu pai se dava com o diretor da emissora e os atores na época foram lá e eu fui lá visitar e ver como que era aquela coisa dos atores. E lá já tinha essas coisas, holofotes e refletores, câmeras, microfones e eu acho que ali que realmente eu fui picada pela mosca azul.
P: Você tinha que idade?
LENA: Ah, nessa época eu devia ter uns oito anos de idade, por aí!
P: Você contou que nasceu no Rio de Janeiro por um acaso. Quando é que você voltou para o Rio Grande do Sul?
LENA: Eu voltei aos quinze anos, quando o meu pai trabalhava numa empresa de construção de estradas. Ele queria muito voltar, pois era daqui, né?! E a empresa que ele trabalhava ganhou uma concorrente e aí viemos embora para cá. Aí, eu vim morar aqui. Eu fui estudar no colégio Rosário, porque naquela época os colégios eles eram divididos. Isso é uma coisa muito louca, mas é verdade. Eram só masculinos ou só femininos. E apesar dos meus pais serem daqui, eles passaram quase trinta anos fora daqui. Então, eles não conheciam ninguém. Então, quando a gente veio pra cá, meu pai queria que eu fosse estudar num colégio muito bom. Meu pai era militar de formação. Ele queria um colégio que tivesse muita disciplina. Então teria que ser ou de freira ou de padre. E os colégios de freiras só aceitavam meninas que fossem apresentadas por outras alunas. A gente não conhecia ninguém. E tinha alguns colégios já abrindo alí essa coisa mista de meninos e meninas. E o primeiro que me aceitou foi o Rosário, então eu fui estudar lá. E aí eu comecei a conhecer pessoas. E numa dessas me convidaram para uma gincana que tinha em um programa de um jornalista, radialista, um televisivo na época, que era o Hélinho Wolfrid. Ele tinha um programa, na RBS, na época TV Gaúcha que se chamava Puxa é a Gaúcha. Eram umas gincanas que tinham. Aí eu entrei em uma equipe e no final a minha equipe foi vencedora e no fim fomos lá receber os prêmios e então, de novo, televisão na minha vida, refletores e aquela coisa toda. Eu adorei, eu tinha acho uns quinze, dezesseis anos. Aí eu falei, é isso que eu vou fazer na minha vida. Eu pensava em ser diplomata, até fui estudar para isso, mas aí falei, vou fazer televisão que é uma coisa que eu achei legal e, naquela época, pouca gente se interessava em fazer. Tinha muito preconceito com mulheres televisivas, que apareciam na televisão eram praticamente assim, um sinônimo quase que de prostituta. Mas eu falei, vou estudar e vou adiante. Vamos nessa, né? E tudo bem.
P: E como é que foi pra encontrar esse mercado aberto? Não foi fácil o que você encontrou de impedimento?
LENA: Eu ainda estava no Rosário e daí um amigo meu me convidou para gravar uns comerciais. Eu tinha um sotaque bem forte, sempre morei no Rio de Janeiro, morei em Belo Horizonte, morei em São Paulo, morei em Florianópolis, então eu arrastava um pouco o “r”, então eles precisavam, na época tudo o que vinha do Rio era maravilhoso. Aí, eu fui gravar no rádio uma personagem que era a Márcia da Von Von, era a loja Von Von.
P: A loja Von Von aquela que existe ainda, lá na Osvaldo?
LENA: Ainda existe, ela era na esquina da Osvaldo Aranha com a Ramiro. E aquilo, assim, foi a glória e o inferno, porque as pessoas que me admiravam achavam bárbaro que a minha voz aparecia no rádio, que não era uma coisa comum. Mas também assim, os inimigos detratavam. Imagina, que horror, falar no rádio. Que coisa bagaceira. Então tinha muito esse preconceito. Mas eu fui indo, eu digo assim, eu quero isso aí mesmo, sabe? Vamos adiante. Aí em seguida, por causa desse comercial, na época eu gravei na rádio Pampa. Só tinham duas rádios jovens, na época não existia FM. Eu sou muito pré-histórica. E tavia duas rádios jovens, que eram a rádio Pampa e a rádio Continental que vocês já devem ter ouvido falar, lógico né? Quem até se formou comigo, no fim, foi o Cascalho, apesar de ele estar na minha frente, se atrasou e acabou se formando na minha turma aqui na Famecos. Mas o Cascalho tinha um programa super badalado das seis as sete, e aí o Júlio Furst, na rádio Pampa entrou com a concorrência, que era um programa que ele fazia das seis as sete também. Então assim, eles tinham que “viajar”, buscar bolachão, aí ficavam competindo um com o outro naquele horário para ver quem é que botava música mais legal. E aí eu entrei com essa ideia das vinhetas, de moça falando. E ali eu fiquei, fui contratada e fiquei fazendo locução de cabine.
P: E durante isso você já estava cursando?
LENA: Aí fiz vestibular e entrei, eu ainda estava fazendo Rosário, o último ano, mas fiz vestibular e entrei pra Famecos.
P: Entrou pra faculdade já encaminhada?
LENA: Já encaminhada. E na faculdade, eu não me lembro se foi até o João Brito, eu não sei, alguém me avisou que estavam procurando uma apresentadora para um programa infantil na TV Difusora. Gente, isso é muito antigo! Muito do baú! Eu fico apavorada. É muito do baú! Imagina, eu estava entrando, eu tinha ali eu acho uns dezoito anos. E aí eu fui lá fazer teste, porque eu queria televisão, queria televisão, vim para a Famecos fazer televisão. O Alencar sabe disso. Na época em que eu estudei aqui a TVE funcionava aqui nos estúdios da PUCRS. Então a gente tinha muito essa mobilidade assim, de trabalhar coisas de TV nas câmeras da TVE – eu nunca imaginei que um dia eu iria pra TVE – mas então eu queria aqui “lá tem a TVE, é pra lá que eu vou”. Aí eu fiz o vestibular e passei. Eu comecei na TV Difusora, fazia programa infantil. Fazia tipo uma repórter infantil, eu fazia tipo uma repórter mirim, ia para os aniversários das crianças. Elas se inscreviam, a gente sorteava no ar a cartinha e aí ia aos aniversários. Cobria, depois fazia uma pequena coluna social. “Foi o aniversário do Joãozinho. Olha o bolo dele, era do Mickey.” Aí foi indo, foi indo e depois fiz testes e acabei indo parar na RBS. Fiquei cinco anos apresentando o Jornal do Almoço apresentando na época que foi então quando fecharam a rede e então passou a ser Rede Regional de Notícias e passou a ser RBSTV que antes era TV Gaúcha.
P: Você começou na Rádio Pampa, passou pra televisão e agora voltou pro rádio?
LENA: Eu acho que a gente que trabalha com essa coisa de microfone, de apresentação, de se expor, acho que não importa muito o meio que tu estiveres, sabe? Acho que qualquer microfone é microfone. Acho que a responsabilidade é a mesma, né? Só acho que vídeo te dá um pouco mais de trabalho, porque tu tens mais aquela coisa da imagem que tu tens que trabalhar. O rádio ele fala mais ao pé do ouvido, aquela coisa mais baixinha, mais direta. Mas eu não tenho nenhum tipo de preferência hoje, né? E é engraçado eu ter voltado para o rádio. Porque assim fiquei na RBS, fiquei cinco anos lá. Eu não posso dar 100% de certeza, mas posso dar 90% de certeza de que eu tenha sido, provavelmente, a primeira apresentadora formada em jornalismo no Rio Grande do Sul. Não tenho certeza se teve alguma outra. Mas eu me preocupava em ter esse diploma e me preocupava em ter o conhecimento, em saber fazer, a cozinha daquilo que eu ia apresentar na sala de jantar, vamos dizer assim. Aí eu fui trabalhar na RBS e ficava muito intimidada. Vocês vão entender o que eu estou dizendo. Tem um filme que se chama Rede de Intrigas, não sei se vocês já viram, mas na época que eu comecei a trabalhar, existia muito aquele preconceito em relação ao apresentador. O apresentador ou apresentadora, era sempre aquele burrão que não tinha dado pra mais nada, que era só bonito que ia para a frente das câmeras, entendeu? Ninguém reconhecia assim, uma outra maneira que tu pudesse ter de fazer diferente. Todo mundo achava que não tinha muito conteúdo. Existia muito esse preconceito, principalmente com meninas. Eu era jovem, era bonitinha, fui modelo de passarela muitos anos, eu desfilava aqui, então eu tinha ainda toda essa carga da menina bonita. Então era bela e burra, loira burra. Aquela coisa! Então assim, eu comecei, lá pelas tantas, a pedir para participar da produção e, por isso, fui discriminada, parece mentira não é? Gozado isso aí, né? Aí tinha um cara, que não vou dizer o nome dele, ele foi muitos anos diretor da RBS, da TV lá, e ele não tinha esse alcance de entender que seria legal, seria um acréscimo, seria um ganho. E aí eu fui lá e pedi: “Eu quero ajudar na produção, eu quero fazer pauta, eu quero fazer texto” e assim ele me disse “não posso despir um santo para vestir o outro”. Ele não tinha ideia de que eu pudesse fazer tudo, sabe? Associar e mesclar. Em seguida eu casei na época e logo, engravidei. Daí eu já tinha problemas com o marido que implicava muito com a profissão televisiva, aí acabei pedindo demissão. Três anos depois me divorciei e aí eu fui lá para TVE que estava abrindo teste para apresentadores. Eu fiz teste e passei. Estou lá , há mais tempo que vocês têm de idade.
P: O que aproximou você do público: trabalhar com TV, na TVE, ou rádio? O que você sentia mais prazer de estar comunicando?
LENA: Não, é isso que eu te falei. O prazer é o mesmo, o prazer é igual. É aquela… é aquela busca pela excelência, sabe? Pelo menos eu tenho. O Alencar sabe que eu trabalho com uma produtora que é um demônio, uma oficial nazista da SS,, mas eu amo ela, porque eu aprendo com ela todos os dias. Ela é super exigente, mas ela faz pautas maravilhosas, maravilhosas. Coisas que eu nunca imaginei. Então, eu trago isso dentro de mim também, essa busca pela excelência. Essa busca que eu acho que está um pouco assim, terminando esse tipo de jornalismo. Até porque a vida da gente é muito corrida, a gente não tem mais tanto tempo de fazer uma coisa tão burilada assim, tão buscada, mas eu, assim, recomendo, acho que vale a pena. Então o prazer é o mesmo, agora o contato com o público é maior, as pessoas têm mais é… Como é que eu vou dizer assim? Elas se permitem aproximar de ti quando tu estás fazendo vídeo, assim elas se aproximam mais. Mas as pessoas que trabalharam em rádio, normalmente elas vem com uma profundidade bem maior, assim é um pouco diferente o tipo de público. Isso é uma coisa que eu sinto bem assim. Mas a excelência, o prazer é igual de tu estares levando uma pauta legal, de tu estares aprendendo uma coisa diferente. Só para dar um exemplo. A gente falou sobre Terras Raras. Eu não sabia o que eram Terras Raras, vocês sabem o quê que é Terras Raras? Pois é, e tu vê é uma coisa que tá bombando, aí tem uma briga enorme entre a China, entre os Estados Unidos e entre a Europa e até o Brasil entra. Terras Raras são 17 minerais que constam na Tabela Periódica, mas que tem em poucos lugares e que os pesquisadores de tecnologia tão desenvolvendo materiais com eles porque eles permitem que as coisas sejam cada vez menores e mais potentes. Então é um tesouro enorme, porque não são todos os lugares que tem. Então a China, hoje exporta 93% das Terras Raras que se usa. Os Estados Unidos compram da China. A China agora quer impor um imposto enorme. E o Brasil está pesquisando, assim, a mil, na Amazônia. Então, assim, sabe? São coisas que tu… fica sabendo. É isso que eu te falo. É o furungar, pesquisar coisas que não são óbvias. Com todo respeito né, tem lá suas qualidades, mas a gente tem que ir além, né?. Ai hoje, por exemplo, o que a gente falou, porque a gente esquece as pautas mais atuais, mais do dia né? Deixa eu ver se me lembro aqui exatamente o que a gente falou, daqui a pouco eu me lembro. São sempre coisas diferentes, procuramos pegar um viés diferente daquilo que todo mundo dá.
P: Que saia um pouco do factual?
LENA: Mas é factual, porque daqui a pouco vai dar uma briga de terras raras, porque a China e os Estados Unidos estão se enfrentando, mas não saiu na Zero Hora, entendeu, então ninguém sabe. Então, eu acho que essa excelência, isso que eu digo, eu acho que a gente como jornalista não pode nunca deixar de ter esse olhar assim para aquilo que é fora do comum, porque de alguma maneira a gente vai, vamos dizer, sair fora de interesse que já estão de cartas marcadas. É isso aí que eu penso.
P: Pelas minhas contas, seu início de carreira foi ali nos anos 60?
LENA: Não, foi 70. Eu me formei em 76.
P: Você acompanhava pelas experiências próprias, ainda da época do colégio em relação ao rádio, quando deu a ditadura? Você sentiu alguma coisa, ficou receosa em relação ao mercado, de como ele poderia se apresentar para no futuro?
LENA: Ah, a ditadura foi uma coisa bem difícil, bem pesada né. Eu senti bastante quando eu vim estudar aqui né, porque o golpe militar ele aconteceu em 64, mas o tal do decreto 477 saiu em 68 né. Então o decreto 477, ele reinava quando eu vim estudar aqui, porque ele proibiu que se fizesse política dentro da universidade, então os DCEs, os centros acadêmicos, não podiam fazer política de jeito nenhum. Era uma coisa assim, que era muito Grenal, ou tu era patricinha ou tu era engajada. E as pessoas engajadas eram umas iniciadas mal humoradas, o pessoal era fechado. Então tinha muito medo sabe. O medo assim era uma coisa que permeava todas as relações. Ai, não vou dizer o nome do professor, porque já passou né, mas ele é muito querido e ainda está na ativa e foi ele… porque a gente não ficava sabendo das coisas. Tu pegava jornais e era tudo lindo e maravilhoso, um mundo maravilhoso da discoteca, da música, do não sei o que. E ai tu ficava sabendo, volta e meia, que tinha um mundo subversivo, de alguém que tinha sido preso, como Caetano Veloso… As pessoas que tu amavas eram subversivas. Mas, assim, os professores, de alguma maneira, todos eles deixavam perpassar alguma coisa para tu saber, porque tu não podias falar em Marx, tu não podia falar em Cuba, tu não podia falar em União Soviética, sabe, era tudo assim. Uma parte do mundo que era alijada. Então nesse ponto sim, existia muito essa coisa de tu não conseguir saber como é que tu ias desenvolver um trabalho dentro de um regime que era fechado e que a qualquer momento tu poderia dizer alguma coisa, que eles achassem que tinha alguma conotação e tu chegaria ali na porta e tu ias presa. Quando eu comecei a trabalhar era assim, então eu lembro assim, existia uma figura do Dentel. Havia umas fitas de rolo. Toda a programação era gravada. Eu não cheguei a ver, mas aconteceu. De repente alguém ia trabalhar, num dia bem feliz e no outro dia chegar lá e ser algemado e ir embora. Eu tive amigos, que eram mais velhos que eu, que chegaram a ser torturados por coisas que disseram. Teve um que perdeu dentes,perdeu unhas, coisas assim. Então era bem difícil nesse sentido, né? Tu não sabia aonde que tu ias te encaixar num momento que as coisas eram tabus. Então a minha geração lutou e lutou bastante pela democracia. Isso foi bem bacana.
P: Lena, você estava nos dizendo que trabalhou dois períodos diferentes no rádio. A gente queria entender quais são as maiores diferenças que você sentiu? De repente preconceito as tecnologias o que foi que elas mudaram?
LENA: Ah eu acho que é bastante diferente. Acho que ainda a coisa que segue é essa vontade de fazer legal, essa tesão que a gente tem dessa coisa da comunicação, que é uma coisa que está no sangue da gente, né? Isso ai acho que não muda nunca. Mas de fato as tecnologias são bem diferentes. É engraçado os tempos. Às vezes eu estou vendo até em televisão ou ouvindo algum programa antigo, alguma coisa assim de arquivo…eram enormes assim, uns programas que não acabavam nunca. E agora não, agora é tudo muito mais rápido, mais enxuto.
P: Você acha que chegou a mudar o ouvinte? É o ouvinte que exige que seja mais rápido ou de repente tecnologia mesmo que fez ele mudar?
LENA: Ai, eu não sei. Acho que o ouvinte vem sendo também…acho que tudo uma coisa só. Acho que as coisas vão andando mais rápido, comunicação mais rápida e as pessoas vão tendo também. Dizem que hoje em dia tu não consegues mais prender atenção de uma pessoa por mais de 15 minutos. Dizem que 15 minutos, hoje em dia, é o limite que tu consegues para prender uma atenção. Naquele tempo eu já cheguei a fazer programa de debate de uma hora. Tu ficavas com três criaturas, uma hora, sabe eu penso nisso hoje. Meia hora eu já estou achando muito. Acho que hoje um debate legal tu podes estabelecer em 20 minutos. Tá, vai lá, meia hora, mas já é longo, né? Então acho que tudo foi avançando com alguns ganhos e algumas perdas também, né? Acho que hoje a gente se aprofunda muito menos nas coisas. Tem um problema sério. A maioria fala as mesmas coisas. Se tu tens interesse em procurar coisas diferentes tu tens que furungar, tu tens que estar com o olho treinado, com o ouvido treinado. Tu tens que ver muita coisa, tu tens que ler bastante coisa, tu tens que ouvir bastante coisa e presta atenção no que está acontecendo, para entender, assim minimamente. Acho que essa é função nossa como jornalistas no mundo. Pelo menos assim eu encaro. Eu acho que a gente minimamente tem que tentar entender o mundo que a gente vive, o contexto onde a gente está inserido para poder passar aos outros. Sabe? Senão qual é o sentido? Não tem sentido, sabe? Tu ir lá ser papagaio. Dizer o que os outros todos estão dizendo. Acho que tu tens que tentar entender, sabe? Não, mas espera aí, como assim, o que é isso sabe? Então agora tem terras raras? E porque que estão brigando? Porque que a China aumentou o imposto? O que ela quer com os Estados Unidos? Eles não são parceiros e nós? Nós vamos conseguir entrar nesse mercado? Nós estamos investindo em pesquisa? Então nós temos que tentar entender em que contexto a gente vive. Em que mundo que a gente está. Porque senão a gente corre risco sério mesmo. E corre porque vocês sabem… Então acho que funciona essa idéia da gente como quarto poder, da gente ter essa coisa de poder fazer denúncia, sabe? Trazer à tona as coisas que estão obscuras. Acho que essa é a nossa função. Tem perigo? Tem. Os interesses são grandes? São. Eu vivi a ditadura militar, a gente sempre pode passar um contrabando, mas para isso a gente tem que saber do que está falando. Por que daí a gente vai achar um jeitinho de passar a mensagem… Senão, não tem sentido. Senão, vai ser ator, que também passa coisas. Jornalista tem uma carga muito grande. Olha só, quando eu me formei, trabalhava aqui o Carlos Urbim, que vocês todos conhecem. Ele foi meu professor de Redação Jornalística, era um professor bem exigente e acabou sendo o paraninfo da nossa turma de formatura… E na época, o Érico Veríssimo estava lançando o livro O Solo de Clarineta era a autobiografia dele. Ele acabou falecendo e deixando inacabada. No dia da nossa formatura, a gente recebeu o canudo e o Urbim nos dava uma velinha com um papelzinho enrolado. Nesse papelzinho, a gente abria e tinha um trechinho do Solo de Clarineta, que dizia mais ou menos assim (eu vou falar nas minhas palavras): “a função daquele que trabalha com as palavras é sempre manter a luz acesa. se não tiver luz elétrica, que se acenda uma vela na outra. Se não tiver vela, que se acenda um palito de fósforo no outro”. Então, a gente não pode nunca deixar a luz apagar. Eu penso isso e acho que isso que é o barato da coisa. Isso é uma grande responsabilidade porque o tempo inteiro vão tentar calar a gente. Faz parte, é do jogo. Então, a gente tem que estar com o olho aberto, com o ouvido aberto. Sabendo como a gente vai se posicionar, como a gente vai entregar para as pessoas aquilo que é o nosso produto: a informação. Uma informação de qualidade, uma informação refinada, uma informação diferenciada. Eu penso assim.
P: E essa é a característica do seu programa? Qual a linha editorial que o seu programa segue?
LENA: Eu tenho algumas dificuldades porque é essa linha, a gente faz dentro daquilo que é possível… Eu acho também que tem uma outra coisa, hoje, em Relações Internacionais, a gente fala que a coisa não é mais de confrontar. Não é mais Guerra Fria. Agora a questão é negociar. Onde eu trabalho a gente tem que negociar muito e durante todo o tempo, porque eu trabalho numa empresa pública, então, cada vez que muda o governo, entram novos interesses. Isso é escancarado e aberto. Quando mais aberto e escancarado o interesse, mais fácil para a gente lidar. Pior é quando as coisas não são totalmente declaradas… Aquela coisa do “anjo mau”: tu nunca sabes se ele está jogando no teu time ou em qual time. Então, é bom que as coisas sejam escancaradas, para tu poderes negociar até onde tu podes ir. A gente faz um trabalho, o melhor que a gente pode, no contexto de política, assim, ideológico, né?
P: É censura ou você não chega a classificar como censura?
Existe a censura, uma tentativa de censura, vamos dizer assim. Então tu tens que estar sempre atento, sempre tentando negociar como que tu vais passar as coisas. É isso que eu te digo, é bom quando vem assim: ‘isso é uma pauta 500, isso aqui tem que botar no ar, é uma pauta 500′. Tá bom, tu vai botar. Aí daqui a pouco vem uma coisa, e tu: ‘Isso aqui, vamos negociar. Tem essa pessoa aqui, que é a única que fala, mas ela é de outra facção’. Porque tem facção, as vezes até dentro dos próprios partidos que estão no poder. ‘Essa não vai dar? Então vamos ver outra. Mas tem que ser essa. Então tá bom, tu passou a pauta 500, então vamos botar essa’, entende? Tem que estar sempre negociando, é um pouco desgastante. Muitas vezes não sai do jeito que tu querias, mas pode ter certeza de que, quando tu consegues passar tua mensagem, é muito gratificante.
P – E dá pra conciliar o seu papel de informar com neutralidade e essa censura toda? A gente não fica submetido a essa pressão toda da política?
LENA – Não, a gente fica. De alguma forma, tem que se submeter. Quem tem o poder, tem como comandar. Mas é como eu disse: é evidente que a corda vai arrebentar do lado mais fraco. Ninguém aqui vai colocar o seu pescocinho lá, ao menos não sem espernear. Então acho que a gente pode de alguma forma negociar as pautas e conversar. É sempre uma negociação, é sempre um toma lá, dá cá. Tem esse lado desgastante, não dá pra dizer que não.
P – Lena, você deve conviver bastante com jovens no trabalho, talvez com as suas filhas e os amigos delas. Você vê nos jovens que estudam jornalismo, que querem trabalhar no rádio, esse anseio que você diz? Essa obrigação de ser o quarto poder? Você vê isso nos jovens, para o futuro do rádio?
LENA: Pois é, eu sei que sou eu que estou sendo submetida às perguntas, mas eu gostaria de devolver a pergunta pra vocês: será que sim? Eu penso que sim, acho que é uma geração diferente da minha, tem outros meios, outros acessos. Única coisa que eu me preocupo é que eu acho que existe muita facilidade de tu acessares tudo, é muito rápido, hoje. É a cultura do supermercado, tu vais ao supermercado e compra pronto. Eu acredito ainda que há bastante gente, eu vejo as pessoas interessadas, querendo fazer coisas, mas temo um pouco pelas facilidades do acesso à informação. Temo por isso. Acredito que na medida em que houver essa consciência e de que houver esse prazer pela busca do que é inovador, eu acho que sair bem. Só temo um pouco pela falta de tempo de vasculhar mais, de pesquisar mais, de ir mais fundo, de tentar entender melhor e já ir reproduzindo aquilo que chega mais rápido, mas eu entendo que é assim hoje em dia. Mas acho que esse cuidadinho a gente tem que ter, ainda. Acho que faz parte, acho que os professores devem bater bastante nessa tecla. Vejo que tem outras profissões que poderiam trazem mais dinheiro, mas vejo tanta gente aguerrida querendo ser jornalista e eu acho isso maravilhoso, é isso aí mesmo. Vamos acender a luz nem que seja um fósforo no outro.
P – Você falou que no início sempre quis trabalhar na televisão: você trabalhou no Jornal do Almoço. Na TVE, hoje você trabalha na FM. Você ainda tem planos não concretizados no jornalismo e que tem vontade de realizar?
LENA: Essa pergunta é boa… Olha eu tenho planos sim, não realizados. Eu tenho planos de tudo. Até é engraçado porque paralelamente à minha carreira de jornalista, à minha carreira de moda que eu trabalhei quando jovem – eu brinco que eu fiz jornalismo no século 12 e no século 21 voltei para a faculdade. Eu faço Artes Visuais na UFRGS, eu já passei por todo o período e agora estou encerrando. Então, eu tenho muitos anseios ainda em relação ao jornalismo, mas eu gostaria talvez de pegar alguma coisa que eu pudesse juntar essa experiência que eu tenho de outras áreas e aprofundar mais dentro do jornalismo. É difícil falar isso porque quem trabalha assim que nem eu a vida inteira em hard news – o jornalismo do dia a dia, notícia e vamo que vamo, e isso surgiu aqui, morreu fulano, agora não sei o que, estourou uma bomba lá, agora mataram os caras da história judaica na França, não sei o quê – tu tem essa paixão, não adianta, mas eu acho que eu gostaria de ter um pouco mais de calma pra fazer alguma coisa mais reflexiva, talvez no setor da arte, e também um outro setor que eu adoro que é relações internacionais. Já é uma coisa mais de reflexão mesmo, neste sentido assim.
P: Nessa trajetória, nestes seus anos de carreira, teve algum momento que foi bem marcante pra você? Que tenha marcado na sua vida profissional?
LENA: Tem muitos. Tem ótimos e nem tão bons assim. Não sei, o que tu gostaria de saber? Olha teria, mas eu acho que é uma coisa que não vale a pena. Eu vou contar, acho que é até uma maneira de refletir. Como eu disse para vocês eu comecei trabalhando em comunicação, na faixa dos 18 anos. Paralelamente eu trabalhava com moda e eu era uma menina bonita. Como todas vocês são. Todas nós temos direito a nossa beleza jovem, e beleza em todas as idades. Mas como no meu tempo existia a nítida diferença do que era o papo cabeça e o que era o papo de anjo, e eu queria ser papo cabeça, então eu me dediquei muito a ser uma jornalista papo cabeça. Eu achava que essa coisa do papo de anjo, vamos dizer assim “belezinha” não era muito pra mim, eu achava que eu ia seguir na minha vida uma linha como é uma jornalista que eu admiro que é a Leda Nagle. E de repente eu fui cobrada por isso, por uma pessoa…, eu trabalho em um lugar onde as contratações são políticas e muitas vezes por apadrinhamento, o que eu vou fazer? É essa a realidade. Entrou uma pessoa para quebrar um galho, e essa pessoa não era jornalista, não era radialista, foi uma pessoa que era assim de vendas/marketing e entrou como presidente da emissora. E a primeira coisa que essa pessoa fez foi mandar me afastar porque disse que eu estava muito feia. Então eu desenvolvi um trabalho, tinha já há bastante tempo um programa que eu apresentava, e tinha todo um público que confiava em mim, e de repente a pessoa me tira por uma questão “Ah, eu não gosto do teu visual”. Isso realmente foi uma coisa bem difícil pra mim, me chocou bastante na época. É uma coisa que mexe muito. Não era o que eu estava perseguindo, eu investi tanto numa outra faceta da profissão, e de repente eu sou cobrada por uma coisa que eu achava que tinha ficado no passado. Então foi um momento bem difícil para mim pessoalmente, fiquei bem desiludida. Mas foi impressionante também porque teve um outro lado. Isso aí foi público, notório, e em seguida começou uma mobilização em torno disso pelo desrespeito a profissional. Então, foi parar na Assembléia Legislativa, na Comissão do Serviço Público, foi parar na Câmara de Vereadores. Em seguida houve uma mobilização enorme, imensa, saiu em vários lugares, teve audiência pública na Assembléia questionando esse gestor e ele acabou, em poucos meses, sendo destituído do cargo.
Como tudo tem um lado bom, foi uma maneira de redimensionar a minha carreira. Talvez eu estivesse dando muito valor para coisas que eu não deveria, ou teria que dar para outras. Cheguei a voltar depois para a televisão, fiquei um tempo de novo, mas eu estou gostando demais desse trabalho que eu estou fazendo no rádio. Acho que é um trabalho que me dá outras possibilidades. Aí de repente a questão visual passou a ser uma preocupação. Não que a gente vá entrar toda esculhambada, é lógico. Tu vai arrumar teu cabelinho, mas tu não podes fazer nada com a tua ruga, entendeu? Tu queres viver, tu vai envelhecer, entendeu? Tu vais te manter saudável, mas vais manter um papinho, tu vai ter uma pálpebra mais caída a não ser que tu fiques te esticando e injetando coisas que tu fique com a cara inflada que nem um balão. Então eu não estava dando esta atenção. Eu realmente, ainda não fiz plástica, não to dizendo que não vá fazer um dia, mas não pela questão da televisão. Vou fazer se eu olhar no espelho e achar que para o meu bem-estar eu vou me sentir bem. Mas não é por uma imposição: “vou me injetar”. Tem colegas nossos que fazem isso: enchem a cara de botox e faz qualquer negócio e não adianta nada, por que às vezes piora e a idade chega. Tu tens que,de alguma maneira, saber que a idade chega e tu não vai ser jovenzinho nesta vida.
P – Provavelmente mais experiência.
LENA: Nem sempre. Tu tens que estar no fluxo. Não adianta só ser velho e achar que porque tu ficaste velho adquiriu um conhecimento e uma sabedoria, não é bem assim. Tu tens que envelhecer no fluxo. Tu tens que te manter ativo intelectualmente, pensante, questionando com a capacidade de se indignar de vasculhar, de entender onde tu tá inserido, o contexto, , de que forma tu vai lidar com isso e, aí sim, tu vais aumentando o link dos teus neurônios.
P: Eu queria saber qual pauta você considera a principal da eua vida? Qual história você participou?
LENA: A coisa mais legal? Sei lá, tem tantas, sabe? Tem muita coisa legal que eu vi. O que eu mais gosto eu vou te dizer: Como eu já estou há muito tempo e eu sempre trabalho nestas coisas de ponta da informação então, às vezes, tu fica com um conceito de uma coisa e quando tu estás quase criando um preconceito daí passa o tempo e tu vais fazer uma entrevista e alguém já pensou aquilo bem diferente e aí derruba tudo aquilo que você pensou. Então isso é uma coisa que eu amo. O que eu posso dar de exemplo que eu achei muito legal foi acompanhar a evolução do movimento negro. Quando eu comecei a fazer entrevistas com as pessoas que eram do movimento e o movimento ainda estava começando lá no início, era incipiente, as pessoas iam para frente do microfone: “Ai, porque nós somos coitadinhos, porque negro não pode, negro não tem, negro não faz, negro não consegue” e não sei o quê. Eu queria dar uma força, mas aquilo era pobre, não tinha um desdobramento era queixa, queixa e queixa, era a pauta da fartura, faltava tudo. Aí com o tempo, lógico, as pessoas são inteligentes, elas foram se instruindo, elas foram percebendo que aquela coisa da queixa não era legal e elas foram dando um upgrade e, de repente, hoje, vocês tem que ver que maravilha é entrevistar o pessoal do movimento negro. São articulados. Eu brinco até, sabe, com as pessoas, que eles deveriam vender know-how para os outros movimentos.
Provavelmente, entre eles, fazendo avaliações, e redimensionando, e redirecionando. E hoje, assim, é um grande prazer entrevistar as pessoas que participam do movimento negro. E, por isso, como eles são organizados, eles conseguem tantas coisas. Então, acho que nesse sentido – eu não vou dizer que seja “a” pauta da minha vida – eu vou fazer, talvez, uma injustiça com outras – mas que eu posso me lembrar, assim, da surpresa que foi, assim, e também dessa coisa legal de acompanhar esse crescimento, eu citaria a revolução do movimento negro.
P: E de bastidor? Uma coisa que talvez a gente não perceba tanto, uma saia justa, um TP que não passou uma situação diante da câmera, “e agora, o que é que eu faço”? E no rádio, vazou alguma coisa no microfone?
LENA: Ah, aconteceu uma coisa. Eu fazia um programa, quando eu fui trabalhar na TVE – olha só, gente, era um programa de duas horas – eu não estou mentindo. Eu ficava duas horas no ar. Era um programa de tarde, das quatro às seis: “A Casa É Sua”. Eram dois apresentadores, aí eu fui substituir as férias de um e o outro resolveu sair., Eu fiquei com duas horas de programa. Às vezes eu chegava a fazer 16 entrevistas no ar. E aí eu entrevistei – hoje ele é meu querido amigo e a gente já conversou a respeito disso – que é o Frank Jorge, tá. O Frank Jorge era um menino, acho que ele tinha uns 15 anos, e ele tinha recém montado a banda dele, na época, que era a Graforréia Xilarmônica. E essa foi, realmente, a maior saia justa que eu passei, porque ele foi, ele e os dois colegas, eles iam fazer um show de apresentação – a primeira, o primeiro show da banda no Ocidente, e eles chegaram lá a fim de ‘apatifar’ no programa. E aí eu fazia as perguntas pra eles, e eu dizia assim: “ah, mas que legal esse nome Graforréia Xilarmônica, o que quer dizer?”, “não sei, tu sabe?”, “eu não sei”, “bah, não sei”, “não, não sei”… “Mas e vocês se juntaram como, onde é que vocês se conheceram?”, “bah, sabe que eu não me lembro. Tu te lembra?”, “bah, não me lembro”, “tu te lembra?” E resolveram apatifar. E eu falei: “bom, eu não vou ficar com esses guris aqui fazendo, né, essas besteiras.” Aí, naquela época tu não tinhas como comunicar-se com o teu produtor porque não tinha ponto, né. Aí eu digo: “olha, sabe, azar do goleiro.” Eu cheguei assim: “ah, então tá bom, né. Então é a Graforréia Xilarmônica, o show é hoje de noite…” aí fiquei assim com eles acho que cinco, dez minutos – era pra ficar 20, vamos dizer – “muito obrigada, é um prazer, blá-blá-blá” e encerrei a entrevista. E aí, quando acabou a entrevista, eles se deram conta que eles tinham perdido, botado o espaço fora, entendeu. Porque eles achavam que eles iam tocar – era pra eles tocarem, tinha todo um esquema montado pra eles se divulgarem, e aí queimaram o filme deles, entendeu. E o Frank, que é um cara muito querido, mas ele disse que eles saíram já “em gurizada”, e resolveram que estavam nervosos e resolveram tirar um sarro. E ele ficou até o final do programa, ele ficou acho que uma hora e 45 minutos me esperando pra pedir desculpas, sabe. E aí, eu: “olha, tudo bem, o problema não é meu, e de vocês.” E aí, anos mais tarde, ele foi trabalhar lá, aí um dia a gente tocou nisso, assim. “Ai, graças a Deus tu tá tocando nesse assunto, eu nunca achei que tu ia falar comigo de novo, não sei o quê”, eu digo: “não, tudo bem”, “ai, desculpa, desculpa, eu vou morrer e não vou ter me desculpado o suficiente”, e eu digo “não, já passou, tudo bem.” Então, tem umas dessas, assim.
P: Alguma vez teve algum problema de conciliar a sua vida profissional com a pessoal?
LENA: Muitas vezes, com certeza! Eu me divorciei do pai das minhas filhas quando elas eram bem pequenininhas. Quando eu fui trabalhar na TVE, eu tinha uma de um ano e uma de três. Aquela que está ali (assistindo a entrevista) tinha um ano.
P: Eu acho que nós vamos chamá-la pra reivindicar o tempo perdido?
LENA: Mas eu acho que eu dei a maior atenção, porque eu me desdobrava bastante. Então, eu era sozinha. Assim, foi um final de casamento meio traumático. O pai delas que é um ótimo pai, ele era muito consciencioso, ele passava o tempo inteiro cuidando para que eu fosse uma boa mãe. Então, essas coisas que nenhuma mulher deixa de fazer, eu já fazia naquela época, mas no fim se criam, estão todas aí, muito bem, obrigada.
P: Lena, no seu programa na FM Cultura tu falaste que tu sempre gostaste, além apresentar, de produzir coisas. O que você faz para o programa estar ao ar?
LENA: Como eu te disse, eu sou dessa geração que não era muito bem vista a mistura de tu ser apresentador e tu ser produtor. E eu tenho uma produtora que é mais ou menos da minha geração, ela é mais velha do que eu, ela é muito cônsciente, vamos dizer assim, da função dela como produtora, e ela é uma excelente produtora. Ela tem um gênio do cão, ela sabe, eu falo isso pra ela. Ela pensa a pauta, me passa a pauta, me dá material de subsídio pra eu estudar, às vezes algumas coisas eu procuro a mais se eu sinto necessidade. Eu estudo todo aquele tema, e no final, antes de eu entrar no ar eu vou passar com ela, porque ela é muito dona do programa, o que eu acho muito bom, ela abraça o programa. Não tem assim “essa é a tua parte”, não, ela é o todo, ela é responsável por tudo. E eu vou com as minhas perguntas, com os meus questionamentos, com as minhas informações e ela sempre tem outras coisas a mais pra acrescentar. E isso eu acho fantástico. O Sócrates quando dava aula ele não explicava, ele fazia perguntas. Ele vinha te perguntando, e ela vai fazendo isso. Então, ela sempre tem uma pergunta nova.
P: Você falou na questão de, por exemplo, ir um pouco além do que sai de Zero Hora, que é o jornal mais lido, está tendo alguns problemas nesse sentido que está vindo concorrência também. Mas falando das grandes empresas de comunicação, você sente que existe um monopólio da informação, que a questão das empresas menores que têm grandes ideias, que conseguem procurar coisas novas, mas não menos atuais, acabam tendo mais dificuldade de introduzir esse assunto na sociedade. Você acredita nisso, que é uma questão de falta de interesse?
LENA: Eu acho que têm muitos interesses sim, poderosos, comandando, acho que tem bastante disso aí sim. A minha esperança é essa geração de vocês que tem acesso como nunca nenhuma outra teve à informação. É a única maneira de se quebrar esses paradigmas de monopólio. É através da Internet, que a gente vê as pessoas se mobilizando loucamente e fazendo coisas. Tu vês esse Occupy Wall Sreet, eu até estive lá vendo esse movimento, que as pessoas dizem “não pode barraca, não pode não sei o que, não pode cartaz”, mas é aquela história, pensam que as pessoas se mobilizam por causa das barracas. Mas não é isso, a mobilização já está existindo, tem coisas sendo repensadas. Fiquem muito atentos vocês que puderem a essa movimentação que está acontecendo pelas redes sociais, pela internet, porque eu acho que é por aí, dessa maneira vai chegar num ponto que a gente vai estar acima dos monopólios, sabe? Porque não vai ter como controlar. Eu acho que é por aí. É por isso que a gente tem que estar bem consciente, bem informado, bem situado de onde a gente está pra gente ir poder quebrando isso aí.
P: Além da sua experiência profissional, teve algum evento na sua vida pessoal que tenha ajudado a ser uma jornalista melhor, como talvez alguma viagem, algum amigo?
LENA: Eu acho que todas as tuas vivências são importantíssimas, seja qual for a profissão que tu escolheres, quanto mais vivência pessoal tu tiveres, mais tu vais ser uma boa profissional. Se tu viajas, se tu tens uma vida afetiva satisfatória, se tu tens uma relação legal com os teus filhos. Porque as pessoas são muito desafiadoras, os relacionamentos são desafiadores. Tudo te faz crescer, tu serás uma jornalista melhor, uma médica melhor, uma advogada melhor, qual seja a tua profissão. Sempre o que tu te enriqueceres como ser humano isso aí vai trazer de volta pra ti uma qualidade profissional. Sem nenhuma dúvida, com certeza. Por isso, tenha muitas experiências né gente, por favor. Não se reprimam. Com cuidado, que o lema daquele livro “Mulheres que correm com os lobos” que tem mulheres, tem pessoas que tem fome de vida e por essa fome de vida não saciada elas podem se meter em flechas envenenadas. Então, só tomem cuidado com as flechas envenenadas que o resto dá tudo certo. Cuidado com a fome de viver. Alimentem essa fome de uma maneira produtiva, de uma maneira saudável pra não se deixarem ser envenenadas pelas flechas.

