Padre Landell de MouraEntrevista com Ivan Dornelles Rodrigues na íntegra

P: O entrevistado de hoje, Ivan Dornelles Rodrigues, é um aficcionado do radioamadorismo e pesquisador da área das comunicações. Escreveu um livro sobre a vida do padre Landell de Moura, brasileiro, gaúcho: um gênio diferente.

Ivan Rodrigues: Realmente, como subsidio para quem quiser conhecer e estudar a vida e a obra do genial cientista Monsenhor Roberto Landell de Moura, nascido em 21 de janeiro de 1861, pioneiro das telecomunicações, pioneiro da fonia, pioneiro da transmissão da voz pelo éter e patrono dos radioamadores do Brasil, resolvi narrar, fiel e despretensiosamente, minhas pesquisas sobre esse ilustre inventor brasileiro: gaúcho, nascido aqui em Porto Alegre. O livro apresenta uma introdução biográfica do personagem, dados de sua família, homenagens que lhe foram prestadas no Brasil e no exterior, depoimentos relevantes sobre a importância da figura do Monsenhor Roberto Landell de Moura para a história das comunicações no Brasil e encerro com uma sucinta cronologia sobre os fatos mais importantes de sua vida.

P: Por falar neles, nos fatos mais importantes de sua vida, tu poderias citar um pouco da vida do Landell de Moura, para que a gente pudesse entender o porque que ele é esse gênio das telecomunicações?

Ivan Rodrigues: Bom, ele é esse gênio das telecomunicações, porque em 1893, 1894, ele já estava fazendo suas primeiras experiências, com amplo sucesso, da transmissão da voz e também da transmissão da telegrafia pelo éter, por ondas eletromagnéticas e também por ondas luminosas, tanto que em 1900 ele já fazia sua primeira grande exibição pública, coroada de brilhante êxito, na presença, entre outras pessoas, do sr, Lupton, representante do governo britânico. Isso em 03 de junho de 1900 e eu estou frisando esse 03 de junho de 1900, porque este evento está documentado no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro do dia 10 de junho de 1900, na página 2. E este mesmo jornal, no dia 16 de junho de 1900, também registra uma carta do nosso genial cientista brasileiro ao cônsul britânico aonde ele comenta, aonde ele fala, sobre todos os seus inventos até então. Porque depois ele continuou com as suas experiências e seus inventos. O nosso Monsenhor Landell nessa data apresentava o telogostomo, que é um transmissor de ondas luminosas e também por ondas eletromagnéticas, ondas luminosas, usando o sei ênio. E também o telaucheofone, que é um transmissor de ondas eletromagnéticas, somente ondas eletromagnéticas. Esses dois eventos ele patenteou aqui no Brasil em 9 de março de 1901, patente 3.279. Ele já tinha inventado nessa época o caliofono, que é um intercomunicador com fios, o anematofono e o teletiton, que são telefones sem fio, e o edifono, filtro de áudio, filtro de voz, que depois ele utilizou no seu transmissor de ondas patenteado nos Estados Unidos em 1904, que logo logo vamos falar.

P: Então ele praticamente foi o inventor da telefonia sem fio?

Ivan Rodrigues: Eu diria assim, que ele foi um dos pioneiros. Ele foi o pioneiro a transmitir a voz pelo éter, tanto por ondas luminosas quanto por eletromagnéticas. Mas essa telefonia, ela foi, cada um dos estudiosos da época ia aperfeiçoando até chegar ao que nós hoje temos em matéria de rádio.

P: Para recapitular, vamos fazer um perfil do padre landell de Moura, onde ele viveu, onde é que ele fazia os experimentos, como é que era a vida dele? Tu que escreveste sobre ele tu deves ter estudado bastante o cotidiano dele.

Ivan Rodrigues: Bom, monsenhor Roberto Landell de Moura é gaúcho, nascido aqui em Porto Alegre, bem no centro da cidade, na Rua de Bragança esquina com a Rua da Praia. Hoje, a rua de Bragança é a rua Marechal Floriano Peixoto e a Rua da Praia é a Rua dos Andradas. Ele se dedicava para aqueles estudos da eletricidade hoje seria da eletrônica, tanto que com 16 anos ele já construiu um telefone sem fio. Depois que ele fez a sua formação aqui no RS ele foi trabalhar no Rio de Janeiro e estudar na Escola Politécnica do Brasil, que era a melhor escola da época. Quando estava lá pelo Rio de Janeiro, o seu irmão Guilherme, mais velho do que ele, passando pelo Rio, convidou-o para ir aRoma, para onde ele estava indo para se tornar sacerdote. E no caso do Roberto, aceitou o convite do Guilherme e foram ambos para a Itália, para se tornarem sacerdotes. Claro que eu acredito que ele já estava vendo a possibilidade de se tornar também um físico, tanto que ele fez a formação sacerdotal na Itália e também cursou e se formou em física. E por lá ele foi adquirindo todos esses conhecimentos. Quando retornou ao Brasil foi para o RJ, ficou algum tempo por lá e depois foi para São Paulo E em São Paulo ele começou a desenvolver o seu trabalho sobre a eletricidade, sobre transmissão de ondas, sobre a possibilidade de construir um transmissor de ondas, na verdade não era bem um transmissor e sim um transceptor, como nós dizemos hoje, pois o mesmo aparelho que serve para transmitir servia para receber a modulação da voz e também de sinais porque ele também transmitia telegrafia. Nessa época, 1895, logo em seguida, o contemporâneo Marconi na Itália já fazia as suas demonstrações a partir de 1895, mas somente utilizando a transmissão de sinais de telegrafia. Por isso é que o nosso inventor brasileiro é o pioneiro na transmissão da fonia, da fonética, da voz. Em 1904 ele patenteou com êxito aqui no Brasil e em 1901 ele se dirigiu para os Estados Unidos para lá patentear também os seus inventos o que conseguiu em 1904. Patenteou o transmissor de ondas, o telefone sem fio e o telegrafo sem fio. O telefone sem fio na verdade era o transmissor por ondas luminosas usando o sei ênio. E o telégrafo sem fio era um transmissor apenas de sinais, de pulsos, somente sinais de telegrafia, isso em 1904. Ele é o pioneiro brasileiro com invenções patenteadas no exterior mais um pioneirismo do nosso inventor brasileiro.

P: Porque que ele não ganha tantos méritos dessa invenção da transmissão pela voz quanto o Marconi?

Ivan Rodrigues: Eu honestamente não sei o porquê, eu fico lamentando, apesar de o mundo todo tomar conhecimento do pionerismo da transmissão da voz humana pelo éter, eu e a nossa autoridade ainda não deram o devido reconhecimento,

P: Falando sobre o livro, conta da inspiração, de onde nasceu esse amor pela obra do Padre Landell?

Ivan Rodrigues: Eu sou radioamador e todo o radioamador é muito curioso. Um dia eu resolvi saber quem era realmente o patrono dos radioamadores do Brasil, quem era esse cientista esse inventor Landell de Moura, e ai eu comecei a fazer pesquisas, mas pesquisas despretensiosas. Procurando, consegui um livro aqui, um livro ali, e confesso que foi difícil conseguir esse material, pois todos os livros do Landell de Moura estão esgotados, com exceção do meu que é o mais recente. Mas os demais todos estão esgotados e eu fui conseguindo um aqui outro ali e terminei formando um acervo. E tive a sorte e o privilegio de conhecer alguns biógrafos do Landell, como a professora Veda de Castro Druck, que antes de falecer me cedeu todo o seu acervo, conheci os familiares do Ernani Fornari, enfim, ai eu fui tomando mais conhecimento sobre a obra deste genial inventor brasileiro.

E aí surgiu esse acervo que eu possuo e que está à disposição de todos os senhores. Representa minha admiração por esse vulto das telecomunicações. Na verdade o meu trabalho de pesquisa não é só sobre o Landell de Moura, é sobre a radiodifusão e sobre as telecomunicações, mas aqui estamos enfocando justamente o pioneirismo do nosso genial inventor brasileiro e gaúcho.

P: Tu poderias explicar o que é radiodifusão?

Ivan Rodrigues: Radiodifusão é a transmissão do som usando o éter, é a comunicação usando as ondas eletromagnéticas, nós normalmente utilizamos o termo radiodifusão no sentido do broadcast, das emissoras de rádio comercial. Mas todo o rádio que se difunde usando éter é uma radiodifusão. O serviço de radioamador, por exemplo, é um tipo de difusão pelo rádio, agente não costuma dizer radiodifusão, dizemos serviço de radioamador, ou o serviço aéreo que é utilizado pela aeronáutica, enfim, o serviço de rádio da marinha, o serviço de rádio táxi, mas tudo isso é um serviço de radiodifusão.

P: Quais foram os outros experimentos do Padre Landell de Moura, não tão grandiosos quanto o da telefonia sem fio e da comunicação pelo éter?

Ivan Rodrigues: Bom, eu vou te citar outros trabalhos do nosso Monsenhor, mas tão grandiosos como a descoberta da transmissão pela fonia pelo éter. Ele também é pioneiro no mundo pela descoberta, pelos estudos dele, da foto bioelétrica, ou seja, ele, em 1907, descrevia minuciosamente os efeitos eletroluminescentes da aura humana e animal, ou seja, o processo ótico ou fotográfico que mostra um mundo até então invisível de irradiações que emergem das superfícies de todos os corpos animados quando submetidos à ação de um campo elétrico de alta freqOência e elevada tensão e sua gravação em filme fotográfico. É o que nós conhecíamos como efeito Kirlian, ou foto Kirlian, hoje já não se diz mais isso, hoje chamamos de foto bioelétrica. Em 2000, no 5° Congresso Mundial de Kirliangrafia, realizado aqui em Curitiba. Os russos reconheceram a primazia do nosso genial cientista brasileiros no Museu Kirlian na Rússia, ao lado do busto do casal Kirlian que descobriu esse efeito em 1939. O nosso monsenhor descobriu em 1907, em seus estudos aqui em Porto Alegre, Ele tinha um profundo conhecimento não só sobre as telecomunicações, mas também sobre medicina, passando pela química, pela biologia, pela botânica, pela psicologia, pela parapsicologia, enfim ele realmente era um gênio. Tanto que o titulo do meu livro é “Brasileiro, gaúcho: um gênio diferente, Landell de Moura”. Um gênio diferente porque ele usava batina, era um sacerdote, na época ele fumava muito que deveria ser até um escândalo para a época, ele era uma pessoa muito avançada para a época. Ele tinha um conhecimento muito profundo nessa área toda que eu citei, nessas outras ciências. E aqui em Porto Alegre mesmo, ao lado da Igreja do Rosário, a ultima igreja, a ultima paróquia em que ele foi sacerdote, ali ele construiu um gabinete antropológico experimental.

P: Mas foi só durante aquela época enquanto ele fazia todos os equipamentos. Ele nunca sofreu nenhuma represália?

Ivan Rodrigues: Não, não, não, da igreja não, não. Muito pelo contrário, ele teve todo o incentivo da igreja. Tanto que ele permaneceu 4 anos nos EUA, justamente para tratar de assunto exclusivamente de interesse dele, que era patentear os seus inventos e ele precisou para essa temporada toda que ele ficou nos Estados Unidos, de uma permissão especial do Vaticano. Sei que alguns livros comentam que algumas beatas destruíram seus equipamentos, invadindo lá os aposentos do nosso cientista. Mas na verdade não foi isso que ocorreu, foram pessoas que não estavam interessadas que prosperassem as suas invenções, que realmente fizeram esse ato de vandalismo. A telefonia na época já era bastante avançada. Mas o primeiro biógrafo do Landell , o gaúcho Ernani Fornari, no seu primeiro livro ele contou desta forma. Mas depois os seus familiares me contaram que não era bem essa a verdadeira história, pois, ele na época não podia !contar o verdadeiro fato. Eu prefiro ficar com esse segundo fato que realmente faz sentido.

P: Da onde é que vinham os recursos financeiros para o Landell de Moura ter acesso aos aparelhos, custear viagens, etc?

Ivan Rodrigues: Olha ele se virava com os seus parcos recursos, conseguindo um empréstimo aqui, um empréstimo ali com um amigo, com uma pessoa conhecida. E assim foi que ele se virou como se diz, e teve bastante dificuldade nessa parte financeira, mas ele conseguiu um grande amigo dele que ele permitiu ele levar avante esse trabalho lá pela América, que foi quem lhe concedeu esses empréstimos,

P: Quando ele voltou dos Estados Unidos, como foi o tratamento dele no Brasil e no RS, mudou alguma coisa para ele?

Ivan Rodrigues: Não mudou muito não. Porque ele, retornando dos EUA o governo brasileiro não deu o incentivo que ele mereceria. Com isso ele foi ficando desmotivado e foi deixando de lado os seus trabalhos pelo lado das telecomunicações. A marinha de guerra do Brasil utilizou os seus inventos fazendo experiências com o transmissor de ondas por centelha de Landell, mantendo uma rede de telegrafia em toda a costa brasileira. Isso sim, eles fizeram umas experiências com o encouraçado Aquidabã, e depois fizeram uma rede que atendia toda a área, toda a costa brasileira, desde aqui o RS até lá na volta do Brasil, no estado do Pará. Toda aquela costa era, vamos dizer assim, cuidadas por esse trabalho de comunicações, usando seus equipamentos patenteados em 1901 e 1904, todos criados pelo nosso genial cientista brasileiro.

P: A ênfase dele era a técnica? Montar instrumentos para o avanço tecnológico?

Ivan Rodrigues: Ele sempre esteve voltado para esse desenvolvimento da física, principalmente das telecomunicações, tanto que quando ele estava nos Estados Unidos, em 20 de agosto de 1904, eu quero frisar aqui, 20 de agosto de 1904, ele já tinha projetado uma transmissão da imagem à distância, ou seja a televisão, que ele chamou de telefotorama. Depois, quando ele retornou ao Brasil, em 31 de agosto de 1913, ele esmiuçou esse projeto, já utilizando o nome de televisão. Então ele também é o precursor, um dos precursores no mundo da invenção da televisão, ou seja, da transmissão da imagem. Esse homem era realmente um gênio, esta genial idade dele estava em todas as áreas que ele estudava e desenvolvia.

P: O que o impediu a seguir com os estudos sobre o avanço da televisão, ou melhor, do telefotorama?

Ivan Rodrigues: Olha, quando ele retornou aqui para o RS, ele deixou um pouco esse lado. Ele ficou, digo assim, um pouco sentido com o não reconhecimento, o não apoio do governo brasileiro, ele começou a se dedicar não mais as telecomunicações, e sim partiu a se dedicar à área da medicina.

P: Entre 1913 e 1928 o que fazia Landell de Moura?

Ivan Rodrigues: Nessa época ele já estava aqui em Porto Alegre, ele se dedicou exclusivamente na parte da botânica e fazia seus trabalhos, ao lado da Igreja do Rosário, em seu gabinete antropológico experimental. E em 1928, em 20 de julho de 1928, falecia placidamente ali no Hospital Beneficência Portuguesa de Porto Alegre, abatido pela tuberculose, aos 67 anos de idade, às 17 horas e 45 minutos, com todos os sacramentos da igreja, cercado por seus parentes e amigos fiéis e devotados, assistido nos seus últimos momentos pelo senhor arcebispo metropolitano de Porto Alegre, o Dom João Becker, que foi quem lhe ministrou os últimos sacramentos. Mais recentemente, aqui no RS, ele é homenageado com uma semana, a “Semana Padre landell de Moura”, conforme a lei 11.384 sancionada pelo governador Olívio Dutra. E me parece que ele é o único vulto riograndense homenageado com uma semana!

P: Qual é o período dessa semana?

Ivan Rodrigues: De 24 a 30 de setembro. E em São Paulo ele também é homenageado com uma semana, conforme a lei 7.957 de 16 dejulho de 1992, ele é homenageado com uma semana de 05 a 11 de novembro. Essa lei foi sancionada pelo então governador luis Antonio Fleury Filho. Sua obra é muito estudada e muito reverenciada, principalmente na Alemanha, na Áustria e em Portugal. Em 1982 em Portugal, foi lançado um livro com o título “Subsidio para saldar um divida” de autoria do Murilo Souza Reis. E na Alemanha, já se lançou no ano passado, o segundo livro sobre landell de Moura. Agora estão traduzindo o meu livro na Alemanha para, ainda este ano, fazerem o lançamento do meu trabalho sobre landell de Moura.

P: Quanto tempo tu levaste para escrever o livro, desde o teu arquivo pessoal, quanto tempo tu gastou?

Ivan Rodrigues: Como eu te reportei, eu estava fazendo essas pesquisas totalmente despretensiosas para atender uma curiosidade minha, de ler e conhecer a vida e a obra do meu patrono. Isso levou 8 anos. Neste período passei coletando e arquivando esse material todo. Quando eu já tinha um volume de material alguns amigos meus que fazem parte da diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do RS, começaram a me falar, a me incentivar para que eu escrevesse, fizesse um livro sobre a vida e obra do Monsenhor, e o pior de tudo é que eu acreditei. Ai foram 3 anos de trabalho. E tive a felicidade da Corag ter abraçado esse meu trabalho, e como é um trabalho de pesquisa é um livro com 250 páginas, eu coloquei imagens: jornais da época, fotografias, documentos, desde a imagem da casa onde ele nasceu, certidão de batismo, certidão de óbito, as patentes americanas, mas não só a capa das patentes mas a integra, com os esquemas, até porque algum estudante, algum acadêmico, ou até mesmo algum aficionado da eletrônica, que seja bom de ferro e de solda, resolva construir uma réplica, como fez um amigo meu: Marco Aurélio Cardoso Moura, gaúcho aqui de Porto Alegre, ele levou dois anos para construir uma réplica do transmissor de ondas do padre landell. Aqui em Porto Alegre, já foram construídas duas réplicas. Em 1984 um grupo de engenheiros da CIENTEC construiu uma réplica, levaram 3 meses construindo essa réplica. E no ano passado o Marco Aurélio Cardoso Moura, terminou o seu trabalho da outra réplica, são as duas que eu conheço no mundo, com amplo sucesso. Esse transmissor, na verdade um transceptor, porque na verdade o mesmo aparelho que serve para emitir e receber os sinais das ondas eletromagnéticas.

P: Onde se encontram essas réplicas?

Ivan Rodrigues: A primeira construída pela CIENTEC, esta no Salão da Feplam, lamentavelmente ela não esta mais em condições de ser utilizada e a segunda réplica esta na residência do próprio Marco Aurélio Cardoso Moura, aqui no bairro de Ipanema em Porto Alegre.

P: o que tu pretendes fazer com o teu acervo.

Ivan Rodrigues: Eu estou pensando seriamente sobre a quem entregar esse acervo, não só para acadêmicos gaúchos, mas de fora do RS a até mesmo de fora do Brasil. É um material importante, sobre a vida e a obra do nosso monsenhor, eu tenho livros, eu possuo todos os livros sobre o nosso monsenhor ou o nosso genial cientista, são fitas de vídeo, são programas de rádio contando sua vida, são cds, jornais, revistas. Enfim é um belo acervo mesmo que está lá à disposição das pessoas interessadas em conhecer a vida do monsenhor Landell de Moura. Nós aqui no RS já fizemos esse trabalho de fazer essa solicitação oficial ao governo, mas não tivemos o devido reconhecimento da obra desse genial cientista brasileiro.

P: Porque sempre se fala nas patentes, mostram que ele fez experiências antes de Marconi, mas sempre que se fala de radiodifusão fala-se de Marconi.

Ivan Rodrigues: Sim e não. Vamos dizer assim, não seria menosprezar o trabalho de Marconi. O trabalho dele como sendo um dos pioneiros da transmissão radiotelegráfica, a fonia sim, foi depois das experiências de Landell de Moura. E eu sempre cito a data de 1900, porque essa data está documentada nos jornais da época, em julho de 1900, na presença do sr Luptom, e com outros representantes do nosso governo o Pe Landell fez demonstrações de seus equipamentos e nessa época em, 1900, Marconi, estava utilizando a emissão por sinais, ou seja telegrafia.

P: E por ele ser padre, a gente sabe que na história da igreja, na antiguidade, a relação com a ciência nunca foi muito boa. Não houve nenhum tipo de repressão?

Ivan Rodrigues: A igreja o incentivou. Quando ele foi aos EUA, até conseguir as patentes, foi com uma autorização do papa, do Vaticano. Muito pelo contrário, a igreja imaginava inclusive que ele instalasse os serviços de radiodifusão do Vaticano, só não ocorreu porque ele veio a falecer, daí o Marconi fez a instalação no Vaticano, mas não houve empecilho. Aquela história de que as beatas invadiram seus aposentos e destruíram seus aparelhos, não foi bem assim, houve há destruição mas foram por pessoas que não tinham interesse que ele prosperasse, a telefonia era mto avançada e eles viram nos inventos do cientista que ele iria balançar o coreto dele. Então foi isso que aconteceu., essa é a verdadeira historia dos seus equipamentos lá em Campinas.

P: No teu livro tem bastante material de jornal impresso, que mostram as manchetes de que ele foi pouco homenageado, desde essa época a imprensa o ajudava?

Ivan Rodrigues: Homenagens ele recebeu, e continua recebendo, no mundo afora, tanto que eu tenho um capitulo no livro que eu elenco algumas homenagens que ele recebeu no Brasil e no exterior. Em Portugal existe uma ordem, Ordem dos Radioamadores Padre, Roberto Landell de Moura. Na Alemanha e na Áustria também existe essa ordem, inclusive eu fui homenageado com uma comenda na Alemanha pelo reconhecimento do meu trabalho aqui no Brasil, na divulgação do nosso cientista brasileiro.

P: E o sr. coloca no livro e nos mostrou documentos e fotos que ninguém mais tem, como o senhor conseguiu tudo isso?

Ivan Rodrigues: Eu até me considero privilegiado por residir na cidade em que ele nasceu e veio a falecer e onde, em grande parte de sua vida, permaneceu. Tive a oportunidade de conhecer alguns biógrafos do Padre Landell, e inclusive alguns estão ao nosso lado, mantenho um excelente relacionamento com eles, o dos que já se foram eu tive o privilégio de receber os acervos deles, foi como o caso da professora Ida de Freitas de Castro Druck, que é autora de um dos livros sobre Landel de Moura, e com isso realmente o meu trabalho está mais atualizado que os outros.

P: No total quantas obras foram lançadas?

Ivan Rodrigues: Duas na Alemanha e uma em Portugal. No Brasil nós temos o Incrível Padre Landell de Moura do Ernani Fornari. Depois nós temos ” História de um Inventor” , “O homem que apertou o botão da comunicação” do Fernando Cauduro, editado pela Feplam, “0 outro lado das telecomunicações -a saga do Padre Landell” do Hamilton Almeida, esse livro é que foi traduzido para o alemão. 0 Hamilton Almeida também lançou o “Landell de Moura”, um livrinho da editora Tchê. Depois o Ernani Fornari voltou a lançar “0 incrível Padre Landell de Moura”, o OttO Albuquerque lançou aqui em Porto Alegre “No ar a luz que fala” e depois teve o lançamento de “Quem inventou o rádio” que é um livro do professor César Augusto de Passo Fundo, e por último temos o meu trabalho: “Brasileiro, gaúcho, um gênio diferente: Landell de Moura”.

P: Alguma previsão de novos lançamentos?

Ivan Rodrigues: Pretendo esse ano, lançar mais um trabalho sobre Landell de Moura. Na verdade é uma transcrição de um caderno do Monsenhor Landell de Moura que está comigo, me pertence, que é a peça mais preciosa do meu acervo. Ali ele fala sobre televisão, sonambulismo, hipnotismo, espiritismo, então eu estou transcrevendo esse caderno, com alguns comentários meus e pretendo lançar na semana alusiva ao Padre Landell este ano, de 24 a 30 de setembro.

P: Conta para agente a história desse caderno do Landell que é de sua posse.

Ivan Rodrigues: Esse caderno pertencia ao Ernani Fornari. Antes de falecer ele entregou todo o acervo do Padre. Landell de Moura ao Instituto Histórico e Geográfico do RS, mas esse caderno ele entregou para o filho dele, o Rubens Fornari, que reside no Rio de Janeiro. Há uns dois anos atrás o Rubens ficou sabendo do meu trabalho aqui no RS e comentou com o tio dele que é meu colega radioamador, dizendo que ele ia fazer um mimo para mim, doando um material sobre o Padre Landelll de Moura. Eu confesso que fiquei a primeira semana, segunda semana ansioso, passaram uns 30 dias ele me ligou e disse que estava enviando por sedex um caderno do genial cientista Landell de Moura, eu agora já estou emocionado. Eu confesso que fiquei emocionado, espantado, e reportei a ele: “Rubens tu sabe o valor deste caderno?” E ele disse: “eu sei e é por isso que ele está nas tuas mãos”. Esse caderno tem anotações a partir de 1900.

P: Além do teu acervo, onde se pode encontrar material sobre o padre Landell de Moura?

Ivan Rodrigues: Sim, no Instituto Histórico Rioograndense. Ali está o material que pertenceu ao Landell, ali estão as patentes, alguns cadernos, alguns jornais, duas fotos do nosso cientista e todo material que estava com Ernani Fornani e Hamilton Almeida, ambos os biógrafos cederam o material para lá. E algumas coisas eu também possuo, e aqueles que eu consegui na época, que era o presidente do Instituto o professor Luis Seibel ele me forneceu as patentes americanas, as cópias, tudo.

P: A família do Pe. Landell te procura?

Ivan Rodrigues: Lamentavelmente não, a família Landell de Moura está se conhecendo através do meu trabalho. Porque eu resolvi no meu trabalho contar a origem da família Landell. O avô dele era um médico escocês e veio para o Brasil instalando-se primeiramente em São José do Norte, depois em Rio Grande, depois em São Leopoldo e por último em Porto Alegre. Em decorrência desse trabalho, tive contato com toda a família Landell de Moura. Sempre na semana Landell de Moura, eu realizo um grande evento. No ano passado foi o lançamento do meu livro, no ano retrasado foi uma peça de radioteatro, que apresentamos no Teatro Dante Barone,foi uma peça de multimídia. Mas ele vem de um bom berço, de uma família escocesa pelo lado da mãe e portuguesa pelo lado do pai. E era uma família tradicional do Rio Grande do Sul.

P: Os mais novos, os jovens da família não lutam para que ele seja reconhecido?

Ivan Rodrigues: Não, só abnegados que ficam sempre tentando que haja esse reconhecimento oficial aqui no Brasil. A própria semana aqui no RS ocorreu devido a uma fala que eu fui fazer na Assembléia Legilsativa, em uma sessão especial, que estava sendo presidida pelo deputado Giovani Cherini e estavam lá presentes 14 deputados. E lembrei-os que em São Paulo ele era homenageado com uma semana que aqui não havia. E logo em seguida o Cherini providenciou o projeto que foi aprovado por unanimidade e que hoje é a Lei 11.384. Também por minha iniciativa procurei a Câmara de Vereadores. Lá eu consegui que o vereador Luis Brás patrocinasse um busto paro Monsenhor aqui em Porto Alegre, e a lei foi sancionada pelo prefeito Raul Pont. Houve alguns movimentos aqui no RS, como o da Associação Riograndense de Imprensa, da LABRE, da Feplam, da Fundação Mauricio Sirotsky.. O arcebispo Dom Vicente Scherer solicitou uma homenagem para nosso genial cientista em um selo comemorativo e não teve sucesso. Eu também fiz o pedido à Empresa de Correios e Telégrafos há 2 anos atrás e não obtive sucesso. É lamentável e eu não consigo entendei porque até hoje não houve esse reconhecimento por parte das nossas autoridades governamentais.

P: Como tu rotulas, caracteriza e vê o padre Landell de Moura?

Ivan Rodrigues: Em duas palavras já da para sintetizar tudo isso: ele é um injustiçado inventor brasileiro, assim como todos os nossos outros. Assim como o que inventou a máquina de escrever. O governo não faz esse reconhecimento e ele se perde na história. Aqui no Brasil nós não tivemos esse reconhecimento, pelo menos até agora, espero que um dia isso ocorra, esse reconhecimento oficial não só ao nosso inventor quanto aos outros injustiçados pelas nossas autoridades.

P: Ele é o pioneiro…

Ivan Rodrigues: Da fonia por ondas eletromagnéticas e da foto bioelétrica, foto da aura humana, na área da medicina para se detectar as futuras doenças que nós vamos adquirir o nosso comportamento, na área da agricultura na análise das sementes, as grandes empresas utilizam muito esse trabalho da foto bioelétrica nesse contexto das análises.

P: Para fechar, quem foi Landell de Moura?

Ivan Rodrigues: Para os radioamadores ele é o nosso patrono e ele é realmente de fato o pioneiro que transmitiu a voz, a fonia pelo éter, não só pelas ondas eletromagnéticas, ele realmente é o primeiro inventor brasileiro com patentes no exterior.

Entrevista gravada no estúdio de rádio da Famecos PUCRS em 9/5/2005.
Por Cibele Carvalho e Priscilla Casagrande