Entrevista gravada no estúdio da Famecos – PUCRS no dia 28 de maio de 2002
P – Seu nome, sua data de nascimento e o lugar onde o senhor nasceu.
R – Mas isso aqui é depoimento, é CPI, não? Mas como…Meu nome é Antônio Carlos Galante Contursi e nasci, em Porto Alegre, dia 30 de dezembro de 1949, penúltimo dia do ano, no Hospital São Francisco.
P – Como é que foi a sua infância, como é que foi essa questão da aproximação com o rádio na tua infância?
R – Existiu porque o meu pai era jornalista, era repórter fotográfico…
P – O nome dele?
R – Carlos Contursi, falecido já faz quatro anos. Ele trabalhava no correio do Povo, Folha da Tarde, A Hora, todos esses jornais que existiram em Porto Alegre. Então eu me criei com ele, com a máquina fotográfica, e às vezes eu ia fazer alguns trabalhos junto com ele, ia ao aeroporto, no palácio do Governo, na Prefeitura, eu acompanhava, ele me levava. Fazia questão porque ele não tinha quase tempo, às vezes trabalhava de noite. Então para eu estar junto com ele então eu às vezes ia junto. Com isso eu comecei a pegar o ambiente, então eu já conhecia muitos comunicadores de rádio da época, eu conhecia em função do meu pai que me levava junto. Então “Ah, o filho do Contursi, o filho do Contursi”, Então eu peguei o gosto pelo meio. Mas até ai eu não tinha nada ainda a seguir, em qual segmento que eu ia atuar dentro do jornalismo.
P – Esse acompanhamento com o teu pai era com que idade?
R – Ah não, eu estou te falando piá, seis anos, cinco anos, sete anos oito, nove, 10, 11, 12…
P – Foi um longo período…
R – Foi um longo período, a minha convivência com o meu pai foi muito boa, foi uma coisa diária, foi uma coisa muito saudável e muito produtiva. Tanto como pai tanto como um homem que me deu um rumo, uma base profissional. Foi boa, a minha convivência com o meu pai foi boa, eu sinto saudades até hoje. Então nesse dia a dia, nessa convivência com ele. Até quatro anos atrás quando ele faleceu.
P – Quando é que surgiu a oportunidade de entrar no rádio…Não sei se foi no rádio que você começou…
R – Foi, foi no rádio. Uma outra coisa também, quando eu convivia com o meu pai eu vivia no meio político também. Isso é uma coisa que poucas pessoas sabem. Não daquelas que são da política e tal, mas que são do rádio da nova geração, eu convivia muito com o meu pai e com os políticos da época. Então eu tenho gosto pela política, eu gosto eu faço análise política também…
P – Isso foi em que época?
R – Na época isso era quando eu tinha seis, sete, oito anos…
P – Em que ano foi isso?
R – Ah 1956, por aí, quando o Brizola foi o prefeito de Porto Alegre, depois ele foi governador. Então todo esse período eu convivi com o meu pai indo ao palácio do governo, às vezes eu estudava lá, meu pai trabalhava no porão do palácio onde tem uma…Aonde é até hoje ali onde é o gabinete, na parte de rádio do palácio, ali era o gabinete do meu pai e na frente era a parte onde ficava a redação. Aquilo ali tudo o meu pai fez. Tem até hoje os eucatex ali, aquilo ali foi feito pelo meu pai. Então o meu pai me pegava, eu estudava de manhã no Rosário e me levava para lá e eu ficava estudando a tarde inteira ali no palácio, porque eu era muito levado, se eu ficasse em casa eu fugia, ia jogar bola e aí a minha mãe não ia agüentar. Então meu pai me levava para o palácio e eu ficava estudando lá. Então eu tinha essa convivência no meio político. E quando eu atingi, lá por 17 anos, por aí, eu estava querendo trabalhar. O meu pai disse “mas o que tu quer fazer”.E eu “quero trabalhar em rádio, eu gosto de rádio”. Como o meu pai se dava muito com o Maurício Sirotsky, pediu a ele daí e eu fui lá para rádio Gaúcha. Na época nem se falava em estagiário, manda lá o guri fazer o foquinha, manda lá fazer um teste. Então eu entrei na Gaúcha assim.
P – Por que quando o teu pai te perguntou o que tu querias fazer tu respondeu que era o Rádio? Com toda essa gama de opções…
R – Não. Eu acho que fotografia eu até tinha experimentado, meu pai tinha me dado uma máquina, tinha até feito algumas reportagens na praia, mas não me emocionava, não me conquistava muito. Sabe, eu faço o que eu gosto, aquilo não me dava prazer, não me arrepiava. E o rádio me arrepiava, eu escutava uma transmissão esportiva aquilo me batia, me dava uma sensação, uma emoção. Eu me transportava para o outro lado do rádio, para o lado do cara que estava fazendo aquilo ali. Então eu digo “pó, acho que eu tenho vontade de fazer isso”. Então o vibrante daquele troço, aquele jeito vibrante do rádio esportivo as corridas de automóvel. Eu gostava de ver as corridas que, naquele tempo, não eram em autódromo, eram nas ruas de Porto Alegre, que não é muito diferente daquilo que nós vemos em Mônaco, no primeiro mundo. Era aqui na Cavalhada. Eram As 12 horas de Porto Alegre… essas coisas fizeram com que eu dissesse para o meu pai que eu queria o rádio.
P – Então a coisa começou ali e o que rolou depois?
R – Eu entrei na Gaúcha e aí Maurício (Sirotsky) Sobrinho me botou no esporte com o seu Ari dos Santos que era o diretor de esportes. Eu convivi ali com o Ruy Ostermann, Éldio Macedo como repórter, era o Marco Aurélio Barbosa, o José Matzenbacher o Willy Gonzer,…
P – O ano que você entrou na Gaúcha?
R – 67, 68 por ali, e depois eu saí em 70.
P – Saiu de lá, como é que foi esse período e saiu de lá para onde?
R – Nesse período eu fiquei ali puxando fio, indo para campo de futebol e trocando pilha de gravador e “Vai lá na federação e pega uma entrevista do Hoffmeister”, era mais ou menos isso. Ah, a inauguração do Beira-Rio, na época eles alugaram um helicóptero, era um helicóptero bolha onde cabiam só duas pessoas. Eles me botaram dentro do helicóptero com um rádio, na época havia um aparelho Motorola, tipo um celular que tinha em VHF, putz era um tesão aquele troço, daí eu entrava no ar lá de cima. A Gaúcha não era líder naquela época, mas ela fazia a pré-jornada e dava um banho na Guaíba, mas aí chegava na hora da narração era o Pedro Pereira ( na Guaíba) daí era mortal… Então eu saí da Gaúcha. A Gaúcha, em 69, terminou com o Departamento de Esportes. A Gaúcha naquela época tinha muita oscilação, porque a televisão dava muita despesa, o jornal, também. Aí, o Maurício cortou o esporte, não dava para concorrer, não tinha patrocinador, aquela coisa toda. E aí tinha a Copa do Mundo de 70 no México e ele não ia mandar uma equipe para o México. Aí ele entrou em cadeia com a rádio Globo. Eu pensei: “pô, o troço aqui tá ruim, acho que o futebol aqui não vai dar pé”. Até fiz algumas reportagens, porque na época da praia não tinha freeway, o cara ia aqui por Glorinha, Santo Antônio da Patrulha, e tinha uma caminhonete Rural Willis que o Maurício Sirotsky colocou, na época…Na época na música popular brasileira tinha a época da tropicália, Caetano Veloso, Gal Costa e tal. E tinham ” umas margaridas “, na época eram umas margaridas bonitas da tropicália e tal. E o Maurício mandou pintar a caminhonete, era a unidade móvel, com as margaridas, era a unidade móvel tropical, era bacana o troço. Então ela andava em Porto Alegre e tal e eu andei fazendo algumas reportagens e tal. Mas aí na época tinha o Ismael Fabião, já falecido, e ficou brabo comigo que eu fiz uma reportagem lá de Santo Antônio da Patrulha, e eu falei gíria demais. E aí ele disse: “mas como é que tu vai falar em gíria…” e tal, e me botou para rua. Eu já estava a fim de ir embora mesmo, fui embora para casa. O que eu vou fazer? Naquela época de noite tinha um, nós escutávamos no rádio de Buenos Aires, um amigo meu que morava na João Pessoa, ele tinha um rádio grande, e nós pegávamos a freqüência de uma rádio Argentina, a rádio El Mundo, putz, uma rádio do cacete, tinha um programa de noite e tocava cada música que “putz, mas essas músicas têm que tocar aqui”.
P – Naquela época aqui as rádios não tocavam muita musica…
R – Tocavam nada, só as marca diabo aqui…A única radiozinha boa que tinha era Cultura AM, que tocava só música popular brasileira e tinha um programa no final do dia com o Paulo Diniz, “o seu disc jockey Paulo Diniz”. Bah, com uma grande audiência. Mas faltava alguma coisa entendeu? O Paulo Diniz já era meio madurão e eu tinha 20, 22 anos. E eu digo “pó, mas tá sobrando um espaço aí”. Aí, bah! na Gaúcha não dá, na Guaíba não dá, na Difusora não dá, Farroupilha não dá, Itaí não dá. Princesa! Opa! Do lado da Guaíba, ali dava. Mas era um festival. Mas ainda dava para pegar um espaço na Princesa ali. Mas aí um cara disse: “Tem uma rádio nova aí que comprou um transmissor novo”. “Que rádio é?”. “Rádio Continental. É da Globo”. “Ah é da Globo?” Aí meu pai disse “Ah o cara da Globo aqui é o Tabajara Tages”, era um jornalista “das antigas”. Aí eu fui lá falar com o Tabajara. Daí o Tabajara disse “Pois é, tá aí a rádio atirada, tu sabe que eu cuido só o jornal, mas me deram esse pepino aqui…”. Daí eu disse: “Tabajara, eu quero comprar um espaço aqui”. “Que horário tu queres?” “Seis horas da tarde”. “Ah é bom, porque tem um piano e um cara que toca piano no final da tarde e tal”. “Como é que eu vou fazer o troço?”. “Não, tu tem patrocinador?”. “Tenho, tenho patrocinador”. “Quem é o patrocinador?”. “Lojas Bier”. Era um magazine “a fuzel”, fábrica de camisas… Aí fui lá, acertei com os caras, me deram o preço do horário do programa e tal e pá, pá, anúncio no jornal e estreei com o programa. Bier Show o nome do programa.
P – Esse Bier, B-I-E-R?
R – É, esse Bier era do avô do Dado Bier. Eram as lojas dirigidas pelo pai do Dado Bier, o Artur, e a Fábrica de Camisas Bier, que era tudo do avô do Dado Bier. E o pai do Dado era genro do velho Bier que casou com a mão dele, a Norma. E o Arthur era muito amigo meu, eu fui lá no Arthur e o Arthur “é isso mesmo que eu quero. Pode botar o programa que eu compro o programa”. Os caras da Standard Propaganda, entre eles o Pedro Pereira, vibraram. Mas disseram que o programa não duraria três meses. Aí eu abri seis horas da tarde “aqui, cascal…” não na época não era Cascalho era “Aqui Bier Boy, aqui na Continental e tal e pá e Creedence Clearwater Revival”.
P – Essa rádio, esse programa começou em que ano?
R – 70. Maio de setenta. Me lembro direitinho porque foi bem onde começou a Copa do Mundo, porque às vezes a Globo interrompia o meu programa para entrar em cadeia com a rádio Globo que tinha a transmissão do México.
P – O Cascalho veio depois disso?
R – Foi assim, o programa começou a crescer. Começou a estourar a fita e tal, e eu não queria mais ficar atrelado às lojas Bier nem Bier Show, ficar Bier Boy. Aí a Pepsi Cola disse que topava. Aí quando passou a Pepsi Cola para o meu programa aí eu “matei” o Bier Boy. Aí passou a chamar o programa de Cascalho Time, patrocínio Pepsi. E aí Cascalho, Cascalho, aí eu passei a usar esse apelido que eu já tinha…
P – Por que esse apelido?
R – Porque, era apelido de praia, sabe? Às vezes tem cara que tem um apelido na praia, outros tinham em Porto Alegre e tal. E eu na praia me chamavam, eu era um alemãozinho muito vermelhinho e tal, aí um cara “Ah tu parece um Cascalho”. Putz, aí eu ficava p. da cara e tal…
P – Mas o programa Cascalho Time veio por causa do apelido?
R – Claro. Ah, aí porque eu tinha que botar um nome no programa, eu digo, vou ter que botar um programa no meu nome, não Pepsi Cola, não tem nada a ver com o refrigerante, porque a Pepsi era o patrocinador. Por que, se amanhã sai a Pepsi e entra Chevrolet, Saco & Cuecão, era uma loja de roupas. Aí o que eu vou usar? Então toca Cascalho que é isso mesmo. Aí funcionou cara, era uma coisa que eu tinha pavor, no primeiro dia eu dizia: “Aqui fala Cascalho…” bah, me odiava (risos). Aí os caras que ouviam achavam maravilhoso “Ah, Cascalho… (risos). Mas isso aí foi que nem merda no sapato? Grudou e foi embora… espraiou!”.
P – Então, pelo que eu entendi, naquela época o programa era o que destoava da programação da rádio? E o que era o resto da programação?
R – O resto da programação tinha um programa com o Niederauer, locutor que até hoje está na Gaúcha, “Parabéns a você”. Aí tinha a música “Parabéns a você… muito boa tarde, aqui a carta da aniversariante Maria Claudete, ela tem 14 anos e manda um beijo para o Carlos Eduardo blá, blá, blá…”. “Então vamos cantar Parabéns a você, nesta data… na rádio Continental”. Esse era um dos programas. Ao meio dia tinha um pastor evangélico. Naquela época já tinha um pastor evangélico, vivo hein?! Mandavam uma carta com dinheiro dentro ele botava a mão num…Botava um copo de água em cima do rádio e botava a mão. E aí eles mandavam as cartas lá para rádio com dinheiro dentro. Haha, e os locutores abriam as cartas para tirar o dinheiro de dentro, haha. Eu me “deitava”. Aí os caras iam tomar cachaça ali no Tuim que era o bar que tinha perto da rádio, por conta do dinheiro dos fiéis, hahah. Tu vê o que era cara. Atrás, tinha um piano dentro do estúdio, e tinha os eucatex ai a gente tirava os eucatex tinham as garrafas de cachaça atrás (risos). Mas tinha de tudo na programação, seis horas da manhã era música gauchesca, dava de tudo.
P – Mas todos esses programas eram comprados no caso?
R – Ah, comprados, dados,…
P – Era mais ou menos um Canal 20 de hoje em dia, quem quisesse comprava o espaço, não era uma programação da rádio…
R – É, por aí, era uma mistura, era uma mistura. Tinha o Globo no Ar que era um programa da Globo: “O Glllobo no arrrrr!”, que o Estevão Riegel, já falecido.
P – E como é que foi então esse momento que engatou Cascalho Time, pegou e começou...
R – Aí pegou, eu estava na rádio, eu estava isolado na rádio. Eu tava… sabe? quando tu começa a ver, tu tem que mexer. Eu tinha uma visão, e eu via, bah, aqui tem que mexer em tudo. Daí eu digo “bah, eu vou ao Rio para mexer nisso aí”. Aí tá, tu vê como a vida é assim, pô dei um gol, quando eu vou fazer o segundo gol tu sabe que o cara sofre um acidente de carro. Se quebrou todo o Tabajara, quando eu ia pedir para ele ir ao Rio falar com os caras lá do Rio e eu digo “Eu vou fazer uma programação dessas 24 horas por dia”. Fazer uma programação louca? O cara sai de carro aí para fazer uma reportagem para Globo aí, mas se quebrou todo, quebrou perna, quebrou o diabo, ficou eu acho que seis meses em cima de uma cama. Nesse meio tempo a Globo tava com um problema, a rádio dava prejuízo, aí falou com um contato aqui com um funcionário da MPM, que era mídia da MPM, o Fernando Westphalen e eles conversaram. E eu não tava sabendo de nada disso. Aí eles conversaram e tal, fecharam um contrato com eles em janeiro eu acho, fevereiro de 1972. O Fernando assumiu como diretor geral da rádio, ele mais dois caras o Marcos Aurélio e o Moreira. Bom, aí nesse meio tempo o Otávio Gadret me chama para eu fazer esse meu programa na Pampa. Aí eles me chamaram, e disseram o seguinte: “olha, nós vamos ter uma reestruturação aqui, vamos botar todo mundo na rua, o único que sobrou foi tu”. Aí eu, “oba, Rei Momo, primeiro e único”. Aí eu digo “Tá, mas tem um problema. O Gadret (proprietário da Rede Pampa) me chamou e o Flavio Alcaraz me chamou querendo que eu fizesse um programa na rádio Guaíba”. Mas na Guaíba eu sabia que não ia dar nada. Ali era porque nós já estávamos futricando eles. Aí os caras disseram: “Bom, então vai lá conversar com eles”. Mas sabe quando tu vai a fim de não… Não tinha dinheiro, porque eu vi que a proposta dos caras era o que eu queria. Cheguei lá na Pampa, a Pampa ainda dava para coisa. Só que aí deu um problema, o Gadret não queria assinar a carteira como funcionário, era muito dinheiro na época, mas era por fora. Não tinha, sabe, eu era guri ainda, não tinha firma registrada. Aí na Pampa não deu, na Guaíba muito menos. Ta voltei e disse: “Ta, aqui ó…”. “E o que deu lá?”. “Não deu merda nenhuma, eu não quero, vou topar com vocês aqui”. “Então vamos lá”. Começamos a reestruturar a rádio. Aí foi em abril, maio, março, não sei bem, entrou a programação nova na rádio.
P – Que ano isso?
R – 1972 ainda. Quando entrou aí começou a fechar tudo. Aí para tu ver como a gente sozinho não…Uma andorinha não faz verão. Quer dizer, eu senti que quando a rádio fechou aquela programação, bah, aí eu comecei a crescer junto. Tinha um público. Tinha um cara que ouvia de manhã que ouvia a chamada dizendo que um tal de Cascalho entrava no ar às seis da tarde. Aí ele foi lá ouvir. Antes não, antes era uns maluquinhos da PUC, tinha uns caras lá que ouviam e tá…Peguei às seis horas. Mas a massa mesmo ainda não conhecia. Então aí fechou, aí foi embora. Aí a TV, aí a RBS me convidou para o Jornal do Almoço. Aí eu fui fazer o Jornal do Almoço, eu fui o primeiro que fez o jornal do almoço com videoclipe e tal. Aí do Jornal do Almoço eu saí e fui para TV Difusora, que hoje é a Bandeirantes, fazer o programa Portovisão. Fiquei um ano lá, fazendo videoclipes ao meio dia. Aí, bah, aí televisão é um balaço cara. Aí eu chegava em Uruguaiana fazia baile e fechava os clubes lá. Então foi isso mais ou menos a minha vida do rádio e a da TV.
P – Mas o que O Cascalho Time apresentava exatamente?
R – Ah todo dia era música nova…
P – Mas era só musica…
R – Música e sarro, música e sarro.
P – Então digamos, foi o precursor do FM, deste conceito de FM de hoje em dia. Até naquela época, não sei, rádios FM não…
R – Não, não tinha.
P – Então as FM todas têm um conceito bastante baseado no teu programa…
R – Olha, acredito que sim, acho que tem muitos ranços também o FM, tem os seus defeitos também, mas muita coisa dali, foi tirada daquele estilo de programa.
P – Mas tu apresentavas sozinho? Tu tinhas convidados, entrevistados…
R – Só quando chegava algum grupo, algum cantor de música popular brasileira, meio rock e tal, eu entrevistava. Mas era raro, eu não gostava muito de entrevistar, porque quebrava o timing do programa…
P – Vocês recebiam telefonemas?
R – Recebia telefonemas, mas não botava no ar. Porque na época tinha um problema. Quem botava no ar o ouvinte era brega. Entendeu? Então isso era uma merda porque se eu botasse queimava o filme.
P – Mas sugestão de músicas podia…
R – Ah, mas a gente “cagava e andava” (risos). Sim, nós ignorávamos. Naquela época nós tinha a ditadura política e tinha a nossa ditadura no rádio, nós botávamos o que nós queríamos (risos). Nós éramos meio ditadores… Não, é que a gente tinha que odecer a um formato. Depois do formato firmado aí a gente começou a flexibilizar e… Porque nós não tínhamos nem público. Nós formamos um público. Nós fomos o MST do rádio (risos). Nós invadíamos…(risos)
P – De onde veio a influência, a idéia do Cascalho Time e deste formato de programa e o que era o tipo de som que rolava naquela época. O que vocês colocavam, qual era a preferência de vocês, era mais música estrangeira ou a nacional?
R – Era mais estrangeiro porque as músicas brasileiras eram muito poucas, porque nós estávamos sob um regime militar e sob censura. Então toda música brasileira tinha que passar pela censura federal. Então a maioria era capada. Então o que a gente fez. Era só música internacional, na época era o soul music. É o som black, é o som negro. Era o movimento negro que tinha nos Estados Unidos. Era Gloria Gaynor, Barry White. Eu tocava rock muito pouco, rock pesado pouco. Mais os comerciais. Rolling Stones e tal. Só os filés, que eu chamava. Os filés eu botava. Os mais pesados, alguns programas que colocavam. Mas como a radio ficou também mais popular em termos de público, popular não no sentido de gosto? Assim mais de massa, ficou mais abrangente, então a gente tinha que colocar uma coisa mais fácil, mais comercial. Então a gente não podia rodar aquele troço que o cara pegava um fumo e “baahh”. Não dava para botar isso porque a gente tinha até compromissos comerciais.
P – Mas e de onde veio esta inspiração do formato?
R – Tem duas coisas. Uma da minha irreverência, que é uma coisa minha. A segunda é que no Rio tinha a rádio Mundial, que era do mesmo grupo da Globo, do Sistema Globo de Rádio. Tinha a Mundial no Rio, em São Paulo a Excelsior e tinha uma em Belo Horizonte também. E lá no Rio também tinha um cara que nem eu, que chamava Big Boy. O Big Boy fazia também no meu estilo, mas ele tinha o estilo dele. E era também muito parecido. Só que eu era mais eclético um pouco, era mais fechado no esquema.
P – Ele era bastante centrado em Beatles pelo que eu sei?
R – É exatamente. Mas de Beatles ele tinha um programa aos sábados. Até foi uma zebra, o cara (Big Boy) morreu com 33 anos. Mas aquilo ali foi um formato que a Globo, o Sistema Globo passou e ele seguiu. Nós pegamos alguma coisa da rádio Mundial e adaptamos para a Continental. Inclusive eles não gostaram muito, deu problema, eles queriam que o nome fosse Mundial aqui, também. Aí o Fernando disse, na época ,”não, nós vamos continuar com o nome Continental”.
P – Mundial, Continental, uma coisa meio separatista o tipo “não queremos tudo”…
R – É, porque se abrisse para a mundial ia abrir um espaço para o playlist vir pronto do Rio, como eles tentaram até. Mandar o playlist pronto. Aí os caras “opa, não é por aqui”…
P – Mais ou menos como funciona hoje a Continental FM.
R – É, por aí. Por exemplo, a própria Atlântida. Ela tem um playlist que Santa Maria, Pelotas, Rio Grande é o playlist de Porto Alegre. Mas isso é porque é rede, é porque tá transmitindo simultaneamente. Naquela época a tecnologia não nos dava esse privilégio. Quer dizer, o meu programa, por exemplo, era um programa que eu poderia hoje estar gerando para muitas emissoras do Rio Grande do Sul.
P – Naquela época tu tinha o alcance de quanto? Tu transmitias aqui tu pegava em que cidades mais ou menos?
R – Pegava aqui litoral, pegava em Caxias, em Lajeado, pegava pouco. Porque a Continental tinha um limite de potência, na potência e na freqüência. Então essas coisas nos limitaram. Não tinha onda curta na época, era onda curta que levava entendeu? Hoje é o satélite, hoje tem a internet. Então quem tinha onda curta lá em Uruguaiana sintonizava Guaíba, Gaúcha porque tinha onda curta. Nós não tínhamos. E também chegar lá com aquele som “vroum, vroum, vroum” também não? Então esse formato foi uma mescla do que fizeram no Rio com a Mundial.
P – Mas teve um momento em que o Cascalho Time teve um fim…
R – Bom, aí quando chegou em 76, entrou o FM. Entrou Gaúcha, já estava a Itaí, tudo com musica clássica e tal. Aí o dono da rádio Itaí tinha a rádio Itaí AM e tinha a rádio Itaí FM. Aí ele comprou a Cultura AM e FM. A FM era um link, antigamente tu não usava o… Antigamente o link entre o estúdio e o transmissor não era por UHF, eles usavam com um transmissor de FM. Um transmissor de FM de 250 watts, de 500 watts, era o link entre o estúdio e o transmissor, para mandar a voz do estúdio para o transmissor. Aí foi feito um plano de radiodifusão para o FM. Quem já tinha, quem tinha link entre o estúdio e o transmissor, podia transformar aquele link numa emissora de rádio. E a Cultura teve esse privilégio. Aí o Gabellini, que era o dono, me convidou e disse “Olha Cascalho, tu tá contratado. Em uma rádio pop, mas era uma rádio pop mesmo. Por exemplo, o Cunha Jr., quem criou o Cunha Jr. fui eu. O Cunha Jr. chegou um dia lá na rádio Cultura e queria falar com o dono da rádio, o gerente da rádio. Aí “Ah não, o cara não tá aí” não sei o que. O cara tinha uma pastinha de estudante de medicina. Voltava e ia embora. O cara voltou umas três vezes “não, eu quero falar com o Cascalho”. Aí ele sentou e tal. “Faz dois meses que eu quero falar contigo”. “O que que é?”. “Não é que eu quero fazer um programa de rádio”. “Pô, mas tu é estudante de medicina…”. “Não, mas eu quero” e pá, pá, pá. Aí eu digo “Fulano, leva ele lá para discoteca, tá liberado”. Aí o cara voltou “Pô o cara é legal, tem uma voz boa” e tal. Aí disse “Dá um programa para ele”. Aí eu dei um programa para o Cunha Jr. O Cunha Jr tá na TV Cultura de São Paulo. E ele diz que eu sou o padrinho dele (risos).
P – E na época da ditadura, como é que foi o controle na rádio, como é que funcionou?
R – Os caras nos ouviam e nos enchiam… Enchiam o saco, ligavam e pá. Eu procurava, só dar uns toques. Mas eu não dava espaço para eles nos puxarem. Mas, nas notícias a rádio se “cravou”, duas vezes nos tiraram do ar.
P – O que foi que aconteceu?
R – Ah, foi uma notícia dos militares, que foi no dia do Soldado, e o cara botou ali que enquanto o povo morria de fome os caras estavam condecorando os milicos com umas tampinhas de refrigerante no peito. Cadeia!
P – Então maiores problemas com a ditadura, não chegou a ter grandes problemas, apesar do formato inovador e bastante irreverente.
R – Pô, porque o que nós queríamos cara, nós queríamos fazer o rádio e ganhar dinheiro. Então se nós começássemos a contestar o regime… E até porque era difícil contestar o regime naquele formato de rádio…
P – Acabava sendo mais alienante.
R – É, então tu dava alguns toques, subliminarmente. Dizia “alô atenção, vai ter greve, greve, greve amanhã, amanhã vai ter greve… lá na Itália…” . Os milicos diziam “é agora que nós vamos prender eles”. Então a gente fazia isso. Então a gente dizia “Então amanhã tem greve gente, greve amanhã…”. Nós fazíamos. “Greve, greve” e largava os teaser. “Greve, greve amanhã, mas nós vamos tocar música”. Daqui a pouco ligava o censor para rádio: “Que história é essa que vai ter greve amanhã?”. O Bispo da Hora. Não, acho que hoje ele é juiz? Aí os caras “que história é essa?”. Daí “Não, nós não estamos nem escutando a rádio”. “Como, vocês estão aí dentro da rádio, que história é essa”. “Mas que história é essa”. “Mas quem é que tá aí”. Não, mas daí ele ouvia (risos), “manda ele escutar que ele vai ouvir…” (risos). Azucrinava os caras. Era um Pânico (programa da Jovem Pan). Meu programa era um Pânico, mas só comigo e com menos papo.
P – Tu usava de trejeitos, coisas assim.
R – Sim, usava, imitava, dentro das minhas limitações. Nunca tive…Imitava dentro de umas coisas não com vozes, com característica, que daí tem gente que sabe imitar mesmo. Às vezes imitava um locutor do interior, entendeu. “Aqui fala o Pedro Raimundo da Radio Camanducaia”. Daí o cara “Ué, o cara enlouqueceu?” “Você está louco? Não. Louco estou eu”. Aí o cara “pô o cara enlouqueceu” Aí eu “Ah, toca Beatles, toca um Rolling Stones aí”.
P – E tu eras bem este estilão, esta coisa bem solta, este era o teu timbre, este era o teu estilo? Digamos que tu fosses apresentar uma música agora. Apresenta um Beatles aí prá nós.
R – O Beatles era pouco que tocava, enfim, até pode ser. Aí eu botava “Hello garotada, aqui é Cascalho na loucura da Continental, seis da tarde, você que está andando no carro aí. Oh, oh garoto, você está com a gatinha aí, botando a mão na gatinha. Oh não faça isto, cuidado, o pai da guria aí, louco, louco. Bom, vamos de Rolling Stones, a última deles, tal”.
P – Então tu tinhas esta questão do pique. Time era por isto, era a questão do timming.
R – O programa tinha muito timming. O programa era uma gasolina, o programa era muito arretado. Aí, com isso, o programa teve uma festa. A primeira festa chamada “baile dos magrinhos”, no Sava Clube, lá na Vila Assunção. Foi num domingo, as sete da noite. Às oito horas da noite tinha meia dúzia de gato pingado. Às nove e meia tinha mil e quinhentas pessoas dentro do clube.
P – Quem estava por lá?
R – Ah, a garotada. Claro, os da Vila Assunção, da Tristeza, Ipanema, tudo baixaram. Aí depois, aí comecei fazer no Teresópolis, no Gondoleiros. E aí com a televisão fiz Uruguaiana, Santana do Livramento, Bagé, aí foi embora.
P – Mas existia já esta idéia de fazer festas assim?
R – O Brito está dizendo que aí eu enriqueci.(risos) Graças a Deus. Deu para fazer um patrimônio.
P – Estas festas já existiam em outras rádios? Outras emissoras já faziam este tipo de evento?
R – Não, não.
P – Na Continental que começou?
R – Foi na Continental.
P – As rádios não faziam festas? Então mais uma vez pioneirismo.
R – Mais uma vez pioneirismo. “É neste sábado, onze da noite, no Teresópolis Tênis Clube, Cascalho e sua tchurma, vai ser uma loucura. Dois mil Watts de som. A iluminação psicodélica, o globo giratório. É neste sábado, no Teresópolis Tênis Clube. Não percam. Pepsi, pepsi, pepsi…”.
P – E as outras rádios não copiaram a idéia?
R – A Pampa depois fez. Fazer festas também com o Sbroglio. Flash Gordon o Sbroglio.
P – Tu conhecia o Sbroglio pessoalmente?
R – Conhecia…
P – Como era o dele na época, quando surgiu…
R – Ah, surgiu um ano e mio depois mais ou menos. Ele era gordo, era outro estilo. Enfim, ele tinha um estilo e eu tinha o meu.
P – Não era uma concorrência então.
R – Era, era porque na época roubava público. Não era tão grande a cidade. Por exemplo, para tu fazer duas festas no Rio de Janeiro, lá na Mundial o Big Boy fazia uma na zona norte e outra na zona sul. E ele ia na zona norte e na zona sul. Eu não conseguia fazer isso aqui, porque não tinha público para tu fazer festa na zona sul e na zona norte. Porto Alegre era menor. Então às vezes a gente combinava “Oh, tu não faz esse sábado”, “tá, eu vou fazer lá no Teresópolis” “tá eu vou fazer…”. Mas aí quando eu comecei a fazer eu comecei em lá Cachoeirinha e no interior do estado, aí eu decolei cara.
P – E as festas da televisão enchiam mais do que as festas feitas na rádio?
R – Não, no interior dava mais porque as chamadas eram na televisão, na televisão local da RBS.
P – E que período foi que tu trabalhaste na televisão?
R – 1974 a 1976.
P – E depois?
R – Aí depois eu fiz um período na TV Guaíba, na TV Educativa, mas isso aí já foi em 1980 .
P – E para o rádio, nunca mais voltou?
R – Na Cultura foi só um ano, foi em 77, e depois, em 1980, eu comprei uma rádio AM. O nome dela era rádio Sucesso. Era uma rádio comunitária, era uma coisa bem assim, com transmissão de futebol. Aí eu fui para trás da mesa e fui trabalhar como empresário. Aí depois da Sucesso, eu vendi a rádio Sucesso e depois peguei uma FM em Tramandaí, mas deu um problema de sociedade, e a gente se separou. Depois eu fui voltar, depois de muitos anos, eu voltei, em 1996, na rádio Jovem Pan, que naquela época era uma freqüência de 100.5 MHz. Aí foi vendida e 4 meses depois eu fui para a Atlãntida. Fiquei quase dois anos na Atlântida. E aí eu encerrei.
P – Transmitindo?
R – Sim. Programa às dez da noite depois às seis da tarde. “Programa do Cascalho”, na Atlântida.
P – A Sucesso durou quanto tempo?
R – A Sucesso durou oito anos.
P – De 80 a 88?
R – Exatamente. Depois na Jovem Pan foi de 86 a 87 mais um pouquinho, depois na Atlântida foi de 87 até 88, 89.
P – Mas a Sucesso ainda era sua?
R – Não, já tinha vendido. Vendi em 88.
P – Mas no caso em 86 e 87 na Jovem Pan…
R – Não 96, desculpe, 1996.
P – Sim, bem mais recente. Aí encerrou seus trabalhos como radialista? Perdeu o tesão? O que houve?
R – Não. Eu acho que houve, como é que eu vou te falar? Eu acho que houve um conflito, no meu estilo com o momento, com quem tá fazendo o rádio hoje. Então houve, sabe, tinha gente que era favorável e outros que eram contra, na Atlântida. Aí por um motivo comercial eu não me acertei com eles, eu não quis ficar fazendo dentro daquele padrão comercial que eles queriam me impor. Aí eu digo, pô ficar aqui, eu já tinha…
P – Não precisava mais?
R – Não, não é que não precisava. Até precisava. Quando tu atinge um padrão, tu tem que buscar dentro daquele padrão. E eu tinha que regredir. Digo, então não dá. Infelizmente. Então eu acho que também por outro lado, não tinha uma boa vontade para acertar com a gente. Porque eu acho que, o rádio de hoje tem um estilo, e eu vinha com um estilo que ele pegou, porque eu cheguei a ficar em primeiro lugar no Ibope aqui na Atlântida, tanto na Atlântida como na Cidade,… Na Jovem Pan. Mas tinha um problema que eu era da antiga, entendeu? Então, eu tinha uma marca antiga.
P – Certo preconceito?
R – Preconceito, exatamente. O preconceito foi mortal dentro da Atlântida. E isto é uma coisa que eu acho um pecado, tchê. E isso aí eu culpo a direção da Atlântida. Isto eu culpo quem dirige, entendeu? Eu até nem posso fazer uma injustiça, por exemplo, com o Amauri Grando que é da Cidade e na época me convidou na Atlântida para eu fazer o programa com ele. Mas eu acho que foi gente mais graduada dentro do esquema, tu entendeu? Tinha que ter a sensibilidade de dizer, “não, mas peraí um pouquinho, mas porquê é que ele está ultrapassado”. Primeiro lugar, voz não fica velha. As gurias… Eu atendia ao telefone e as gurias perguntavam “qual é a tua idade?” Eu “ah, não vou te dizer, gatinha não vou dizer”. “Diz então”. “Ah, tu tens 19, ah tu tens 20″. Entendeu? Então, quer dizer, era puta preconceito. E uma inveja. Tinha inveja também, porque eu tava muito bem remunerado, dentro de um esquema comercial, e o pessoal que trabalhava lá, tava dentro daquelas regras, de carteira assinada e tal. Infelizmente, tem isso. Então, agora, isto só uma direção pode quebrar isto, chamar a turma e dizer “pô vem cá tchê, vamos, o esquema é este, pá, pá, pá, mas por que tu tá…” sabe? Isto falta. Por isso que um técnico que nem o Felipão, porque é um cara que tá mostrando a personalidade e tem tudo a vencer. Agora se pega lá um bundão, e deixa o troço com ele,… Vai à bancarrota. Então, o cara que é líder, e que apara as arestas ele só tende a ter sucesso. Na minha época, já tinha saído o diretor da rádio, que era da família, aí entrou um empregado, enfim, a rádio já tinha que ter tido uma transformação, e aí não queriam transformar a Atlântida. A Atlântida tinha que ter uma reforma,… E tinham medo, entendeu? De fazer aquela reforma na Atlântida. Então eu paguei por isso. Tinha que ter tido um cara e dizer “não, peraí um pouquinho, vamos fazer uma reestruturação na Atlântida e o Cascalho vai ser o âncora disso aqui, deste programa”, e pronto. Mas não, nada disso, não apareceu um cara assim. Apareceu, o cara me valorizou mas, em compensação, quem deveria ter mais, pelo contrário, se rendeu àquelas pessoas, com inveja, com ciúmes, com preconceito, essa coisa toda.
P – Foi então de 72 a 96, 97?
R – É, é.
P – Foram uns vinte anos então…
R – Não, mas nesse período eu parei, no tempo da rádio Sucesso eu tava atrás do balcão…
P – Foram dez anos de rádio tocando mesmo o Cascalho…
R – Cascalho na Continental foi uns seis anos, depois na cultura mais um, sete. Aí eu montei uma produtora de vídeo, fui pioneiro também. A primeira produtora de vídeo, a VTR. Foi a primeira produtora independente fora das estações de televisão.
P – Isso foi quando?
R – Eu montei ela em 79…
P – Antes então da Sucesso…
R – Exatamente, e depois eu incorporei ela com a Sucesso, e depois daí eu vendi a produtora e fiquei só com a Sucesso. Mas fiz trabalhos maravilhosos, fui eu que inaugurei a TV Guaíba com os meus equipamentos, que não tinham chegado da importação. Eu viajei para Europa, fiz a Feira de Hannover. Eu só não tive microondas, mas mesa de corte eu tive, câmera portátil, unidade móvel. Eu gravava futebol. Às vezes tinha futebol que a Guaíba não podia gravar, não tinha equipamento, eu ia, gravava e passava para eles. Era legal…
P – O pioneirismo então é marca na tua história...
R – (risos) A inquietude me leva ao pioneirismo. É, mas às vezes tu te quebra também. Tu tem que ser ousado, cara! Isso é uma coisa que eu deixo para vocês, tem que ser ousado. Por que os ousados são os que brilham. Também podem se quebrar, mas isso é o risco. Agora se tu quer ter sucesso, tu tem que ousar, tem que inovar. Não interessa, vai pagar o seu preço.
P – Bom eu acho…
R – Deu, estou livre desta CPI aqui (risos). Tu sabia que até CPI eu já fiz? Dei depoimento em CPI. Dei há pouco tempo depoimento na CPI porque eu era diretor da loteria do estado do Rio Grande do Sul. Um deputado babaca desses aí, para querer fazer política botou que a loteria do estado não tinha competência para legislar sobre loteria, só a Caixa Econômica Federal. Mas é que o cara queria atingir o PT e tal… Então eu fui um dos indiciados lá, na CPI da Segurança Pública. Tremendo babaca, não vou nem dizer o nome dele porque ele não merece. Não deu nada, arquivaram.
P – Quem inova, que é irreverente tende a mudar os padrões. Se tu tem um padrão tu tem segurança.
R – É verdade. Mas tá aí… Por isso que tem outras emissoras do Rio e de São Paulo que entram aqui e fazem sucesso. Nós não devemos nada em padrão para as rádios do Rio de Janeiro, nada. Tu vê, hoje nós somos história aqui. Tu pode ver, se hoje tu for fazer uma história sobre o rádio FM, tu vai fazer do rádio FM dos anos 80, não dos 90. Porque a marca que ficou… E não é por “Ah, ele foi pioneiro”. Não, os bons, os talentos estavam naquela época.
P – Sim, porque foi quando estavam se formando, estavam surgindo idéias…
R – Aí depois, sabe como é que é, os bons começam a ganhar dinheiro, querem crescer na vida. E aí tem aqueles que mudam o padrão, do padrão do salário. Aí entra um esquema empresarial que o cara diz “Não, meu teto é tanto”. Aí o cara “Não, mas eu quero ganhar cinco mil por mês” Daí o cara “Não, é mil e olhe lá”. Que mil… Seiscentos setecentos… Aí os bons o que fazem? Largam e vão trabalhar em outra coisa, trabalhar em agência de propaganda, vão fazer bicos, vão trabalhar na rádio João XXIII, cemitério, shopping. O cara quer grana. E às vezes o rádio padece dos talentos por problema de grana, por problema de salário, pagando mal.
P – Tu é formado em…
R – Eu sou formado em comunicação.
P – Aqui?
R – Isso, sou bacharel em comunicação social.
P – Por que tu falaste antes que tu saíste daqui quando o Bira chegou no estúdio.
R – Tu vê, eu sou mais velho que o Bira. Que coisa tchê. (risos) Que pena eu não trazer o meu diploma para cá. Sabe onde é que está o meu diploma? Numa caixa de papelão. Não botei na parede nunca. Bah, o homem ali vai ficar bravo comigo.
P – A gente tinha comentado que a faculdade foi depois que tu já estavas trabalhando com rádio. A faculdade veio depois então…
R – Não foi bem no meio. Inclusive a faculdade foi um problema para mim, eu nunca chegava na hora. Primeiro eu ia no RU comer os bifes das tias ali. Bah, tinha uma tia ali que fazia uns bifes desse tamanho, coisa linda. Aí eu chegava oito e meia, 9 horas na aula. O primeiro turno era mortal. Mas daí eu dizia “Pô, estava na rádio”. “Mas não dá, não dá”. “Pô, mas eu estava na Continental até agora”. “Mas não dá”.
P – É, tu tinha dito que o programa ia até às 7 horas.
R – Sim, mas aí eu tinha que guardar os discos, aí era o telefonema do não-sei-o-que, aí eu tinha que descer, aí eu ia pegar o carro ali na Sete de Setembro. Aí eu tinha que vir para PUC, que horas que eu ia chegar aqui?
P – E tinha que passar no RU…
R – (risos) Ah, ir para aula com fome mas nem pensar. Não tinha o McDonalds na época.
P – Então no caso, tu não conseguiute formar no tempo certo ou conseguiu mesmo assim?
R – Eu não me formei na turma de 74, fui me formar na turma de 75.
P – Era para ter se formado em 74 então…
R – É, mas é que em 74 eu chutei o balde e fui para copa do mundo na Alemanha. (risos) Fiquei trinta dias na Alemanha passeando. Aí então perdi. Aí não me formei com os caras e formei em 75.
P – Então tu entraste em 70, porque são quatro anos de curso já naquela época…
R – É… Tá bom gente amiga da Farroupilha!
Alunos: Carlos Eduardo Alves e Felipe Bozzetti.

