Rogério BöhlkeEntrevista

VOZES – Como foi o teu começo no rádio?

ROGÉRIO BÖHLKE: O meu início no rádio eu posso dizer que foi premeditado. Na maioria das vezes, se começa de uma forma circunstancial, por uma coincidência, por estar num momento certo, num lugar exato. Então, até recordo um entrevistado de vocês aqui, o Adão Oliveira, que faleceu recentemente, e que era o meu conterrâneo da Zona Sul (ele era de Canguçu) e ele sempre contava uma história sobre o início dele. Ele estava passando na rua 15 de novembro, em Pelotas, e ingressou na Rádio Tupanci para ver as horas, pois tinha um compromisso e tal. E havia um concurso acontecendo naquele momento, e ele se inscreveu. Perguntaram se ele iria participar do concurso para a vaga de locutor, e, meio sem entender, disse que sim. Fez o teste, e passou. Então foi esse o ingresso dele. O meu não. Eu comecei a gostar do rádio e do esporte por uma influência do meu tio (fui criado por dois tios, que eram irmãos, em Pelotas) e o meu tio era muito ouvinte de rádio. Ouvia bastante a Rádio Universidade, de Pelotas. Falo disso dos anos 1970, primeiro lustro dos anos 70, ele ouvia muita a RU, que era a única emissora que fazia esportes então, e transmitia os jogos do Brasil, que era o time pelo qual ele torcia e pelo qual eu também acabei torcendo. Aqui de Porto Alegre, ele ouvia a Rádio Guaíba, que também estava no seu auge nos anos 1970, para acompanhar os jogos do Internacional. E, ao mesmo tempo, ele fazia algo que era muito comum e bem frequente na época por torcedores do esporte. Acompanhava os jogos e os certames, através de um carnê, uma tabela, que a Revista Placar variavelmente apresentava e até mesmo comerciantes que faziam um merchandising com o carnê nos jogos do Gauchão e do Brasileiro. E aquilo começou, eu com 7, 8 anos, a me interessar. Eu fazia o acompanhamento também dos jogos e aí iniciei as minhas primeiras estatísticas, meus primeiros trabalhos nessa área assim, como ouvinte de rádio. Fui gostando de ouvir, criei o hábito de ouvir rádio, ao mesmo tempo de ir aos jogos de futebol, em especial jogos do Brasil (de Pelotas), time pelo qual até hoje eu torço. Depois de uma certa idade, na pré-adolescência, eu comecei a me interessar mais por rádio e adquiri o sonho e uma meta de trabalhar em rádio. Eu fazia, por exemplo, o rádio imaginário. Acordava meia hora antes de ir para a sala de aula e descia algumas paradas depois de onde eu tinha que descer. Ia para as ruas da cidade, no horário da manhã (7h, 7h30min), apresentando um programa, lendo os comerciais através das fachadas das lojas, chamando repórteres, boletins do Brasil de Pelotas. Então, eu ia formatando aquilo na minha cabeça, com a intenção clara de trabalhar algum dia em rádio. E aí, surgiu a oportunidade, em 1983, ouvindo a Rádio Pelotense, num programa de debates que o Abraão Gonçalves fazia com a sua equipe esportiva, aonde ele tinha vindo de uma cidade de Santa Catarina (Capinzal), num evento esportivo. Na ocasião, surgiu a curiosidade dele sobre algumas características do futebol catarinense, e eu tinha um trabalho de pesquisa. Ouvi aquilo e liguei para eles e me ofereci para apresentar esse trabalho sobre os estaduais catarinenses. Desde quando era disputado, os principais times do interior, a fórmula de disputa. Apresentei isso no dia seguinte a eles. Já tinha premeditado que eles iriam gostar do trabalho e iriam me convidar para trabalhar com eles de alguma forma. E foi o que aconteceu. Eu mostrei o trabalho para eles e fui convidado então pelo Otaviano Cunha, diretor de esportes, pelo Abraão Gonçalves, saudoso, e pelos Régis Oliveira, que era o plantão. E aí, de outubro de 1983 até o final daquele ano, eu passei a ser rádio escuta da Rádio Pelotense, que acompanhava os jogos do Brasil de Pelotas e do Farroupilha. Isto em 1983. E o Régis de Oliveira, no ano seguinte, passou para comentarista, que era o sonho dele. Daí eu fui guindado à função de Plantão Esportivo. Eu falei pela primeira vez num microfone de rádio em 6 de novembro de 1983, num boletim rápido sobre loterias. Na função de Plantão Esportivo, que até hoje eu exerço. A minha estreia foi em 1º de fevereiro de 1984, num jogo noturno, estreia do Brasil na taça de ouro, que era o Brasileiro daquele ano. Brasil 1 x 0 Cruzeiro (MG), no Estádio Bento Freitas. Gol do Bira, que depois viria a jogar no Grêmio.

 A minha influência na função de Plantão Esportivo, como qualquer um desta época, foi do Antônio Augusto, aqui no rádio de Porto Alegre. Mais Guaíba que Gaúcha. Um pouco do Érico Sauer, Raul Moreau, que foram outros grandes plantões esportivos. Mais basicamente o Antônio Augusto. E, em Pelotas, o melhor plantão que lá havia era o Dinei Avelar, da Rádio Universidade, que várias vezes foi convidado para trabalhar no rádio de Porto Alegre e nunca quis sair de Pelotas. E esses dois, eu realmente agradeço muito, eles me influenciaram muito. Tinham até um perfil semelhante àquele plantão que não se resumia apenas em dar resultados, mas fazer um trabalho paralelo de estatísticas, de acompanhamento histórico, que é um trabalho diferenciado que acho que o Plantão deve ter. Na Rádio Pelotense, eu fiquei até 1985, quando fechou o esporte. Depois fui contratado pela RU, que era a principal emissora de Pelotas. E na RU, eu fiquei até 1993. No mesmo ano, fui para a Rádio Cultura, onde assumi a coordenação de esportes e a coordenação de programação da emissora até 1995, quando eu vim para a Guaíba. Em 1995, a Rádio Guaíba perdeu vários profissionais, porque houve um evento de importância radiofônica naquele ano, que foi a abertura da equipe de esportes da Rádio Bandeirantes, que tinha parado com os esportes e ressurgiu naquela temporada, contratando vários profissionais de Gaúcha e Guaíba. Marco Antônio Pereira, Luis Henrique Benfica, José Aldo Pinheiro e o Denis Olinto, que era o plantão da Guaíba. E os três plantões da Guaíba saíram naquele mesmo período. O Antônio Augusto, que foi trabalhar em Cidreira, na Rádio Tramandaí, com o Elói Braz Sessim. O Denis Olinto, que era o segundo plantão, foi para a Rádio Bandeirantes. E ainda o Haroldo Santos, que era o terceiro plantão e produtor, que foi trabalhar no Governo do Estado, com o Antônio Britto. Então, a Guaíba ficou sem nenhum plantão esportivo e, ao contrário de hoje, quando se pinçaria um estagiário, alguém da produção, houve a última vez em que uma emissora grande de Porto Alegre – Guaíba, Gaúcha – contratou vários profissionais do interior. Orestes de Andrade, que estava no rádio de Campo Bom e era de Santo Ângelo, para a narração; Antônio Jorge, narrador de Carazinho; Flávio Dal Pizzol, da Rádio Cinderela, de Campo Bom; e eu, da Rádio Cultura. Algo hoje impensável. Uma emissora que traga, ao mesmo tempo, quatro profissionais do interior, porque se abastece hoje, de estagiários, produtores, com gente que as faculdades despejam todos os anos.

 

VOZES –  Como foi essa sua mudança do interior para uma emissora de grande porte, como a Guaíba? Existe uma diferença muito significativa de metodologia de trabalho?

ROGÉRIO BÖHLKE:  Nem tanto assim. Eu continuei fazendo o trabalho que eu fazia no interior. Aprimorando algumas coisas, trazendo outras novas pra cá. Mas o Antônio Augusto, obviamente, a responsabilidade de substituí-lo era muito grande, porque foi o maior plantão esportivo que o rádio brasileiro teve, e não apenas o gaúcho. Se hoje a função do Plantão Esportivo, que está em extinção praticamente, ainda perdura, deve-se isso ao talento, seriedade, capacidade profissional e também a imposição de caráter no meio do Antônio Augusto. Porque, de uma forma geral, o Plantão Esportivo do rádio paulista e carioca se resume unicamente a fornecer resultados de jogos paralelos daquele período. E o Antônio Augusto, não. Desde o início da sua trajetória como plantão, ele já dava uma importância também para dados históricos, estatísticos e, basicamente, de loterias também, porque a efervescência das loterias, o surgimento delas no início dos anos 1970, fazia com que houvesse uma necessidade de abastecer esse público de informações. Então, o Antônio Augusto não se resumia a alguém que apenas dava resultados de futebol. Ele fazia um trabalho muito relevante de resultados de jogos paralelos, mas também de estatísticas, de levantamentos históricos e um trabalho de loterias. Ele apresentou outras três facetas da função do plantão esportivo, que depois foi seguido por outros plantões, como Érico Sauer, Raul Moreau, numa escala um pouco menor. E por consequência, no interior, bons plantões das boas emissoras faziam isso. Mas todos seguindo a trajetória de Antônio Augusto, que por isso é o ícone da função. E hoje acho que está em extinção. A própria Rádio Gaúcha não tem mais a figura do plantão, depois que o Cléber Grabauska virou comentarista. Hoje, eles têm a Central do Esporte, com bons profissionais jovens.

VOZES –  Qual é a principal mudança que você projeta no novo Plantão Esportivo?

ROGÉRIO BÖHLKE:  Eu acho que a função de plantão esportivo hoje deixou de ter importância, porque de um tempo para cá, a questão de trabalhar com números, com dados estatísticos, basicamente ela se resumia à atividade do plantão. Apenas o plantão, digamos, tinha essa autoridade de trabalhar com esta área. Hoje, com o advento da tecnologia e da informática, não há um boletim de um setorista de Inter e de Grêmio, e não apenas no rádio gaúcho mas no brasileiro também, onde não haja uma informação de ordem numérica. Há quantos jogos o time A não ganha, há quantos jogos o time B não perde, há quantos jogos fulano não marca gols. Até mesmo coisa que fogem do trivial numérico e que vão apenas para o lado da curiosidade são pinçados e exaltados. Ahhh… o jogo 100 do D’Alessandro, o jogo 200 do Danrlei. Então, hoje qualquer um trabalha com números, porque há uma divulgação em profusão. Não é mais uma função que o plantão apenas tinha esse domínio. Isso se espalhou. Por isso, claro que a função de plantão esportivo deixa de ter a  importância que tinha anteriormente. O próprio acompanhamento de jogos paralelos, a Rádio Guaíba está inovando com o Carrossel, que é uma ideia do Franklin Berwig que repercute muito bem no meio, que é o acompanhamento de todos os demais jogos. Algo que era inimaginável há algum tempo, que apenas o plantão faria. Hoje não. Todos os profissionais fazem, e fazem bem. Então, a figura do plantão está praticamente em extinção. Acho que eu e o Paulo Pires aqui do rádio de Porto Alegre somos os remanescentes, pois o Cléber Grabauska virou comentarista. Na verdade, o plantão esportivo sempre foi a porta de entrada no rádio. Todos de uma forma geral entravam no rádio na função de plantão porque era a função mais chata de se fazer. Todos que iniciavam no rádio faziam a função de plantão, mas buscando depois se tornar um repórter ou um narrador. Comentarista, não. Porque ele é, de uma forma geral, um repórter que envelheceu. Temos uma exceção na Guaíba que é o Vinicius Sinott, que desde o início de sua trajetória é comentarista. Mas de uma forma geral, Wianey Carley, por exemplo, é um repórter que envelheceu e virou comentarista. Com muita qualidade, por sinal. Então, poucos eram aqueles que entraram no rádio na função de plantão e continuaram. Antônio Augusto, Érico Sauer, Paulo Pires e o meu caso. É necessário gostar muito da função, porque você tem alguns prejuízos, digamos assim. Você não sai do estúdio nunca, não conhece outros lugares, não vai a estádio, fica trancado no estúdio acompanhando outros jogos. Hoje, pela internet, mas na época em que eu comecei com dois, três, quatro rádio ao mesmo tempo. Rádio grandes, modelo transglobe, invariavelmente, com chiadeira e onda curta fugindo na hora da informação.

VOZES –  Isso envolvia mais pessoas. Hoje em dia, o plantão até pela questão da informatização da comunicação já se tem acesso instantaneamente a todas essas informações na tela do computador. Como é esse processo?

ROGÉRIO BÖHLKE: : Bem mais fácil. Hoje, basicamente não há mais a necessidade de um trabalho prévio. Antigamente, nos anos 1980, quando eu comecei, até 1995, você tinha que se preparar antes com uma tabela com os jogos que iria acompanhar, que emissora iria ouvir, quantos rádios havia à sua disposição, que jogos o rádio escuta iria acompanhar e traçar um modelo para informações, que hoje não é mais necessário. Hoje, você abre a tela do computador e confere através dos sites que fazem o acompanhamento em tempo real e ali se têm informações gerais. A função do plantão ainda é importante numa jornada, mas o meu trabalho hoje não tem nenhum diferencial do plantão de uma emissora do interior ou de uma web rádio. Porque toda a informação que eu vou apresentar para o meu ouvinte, esse plantão da pequena emissora tem também ao mesmo tempo. Não existe mais uma exclusividade. No tempo do Antônio Augusto, era importante dar os gols na frente da concorrência. Atualmente, não tem mais isso aí. A informação do gol chega para todos ao mesmo tempo. Então, você vai dar a informação pro seu ouvinte numa fração de segundos na frente do concorrente. Não há mais aquela preocupação. Antigamente não era assim. Você tinha como dar na frente do concorrente com alguns minutos, por exemplo. Então, o computador nivelou o trabalho de todos. Isso tem o seu lado positivo, mas tirou um pouco, e eu insisto nisso, a figura do plantão. Por isso, que há poucos plantões genuinamente e sim profissionais que estão naquela função de momento, mas invariavelmente não necessitam ser um plantão específico. Nesse sentido, eu procuro no meu trabalho hoje em dia, e sempre procurei fazer isso, fazer um trabalho diferente. Não existe hoje a condição de você hoje ser melhor que um outro plantão, até porque as informações chegam ao mesmo tempo. Mas diferente você pode ser. Quando cheguei a Porto Alegre, eu tenho a pretensão de ter apresentado aos ouvintes coisas que até então não haviam aqui. Por exemplo, o trabalho de números não se resumindo apenas à classificação, mas trabalhar muito com percentuais que todo mundo usa, aproveitamento e tal. Na época, não era tão comum e apenas se divulgava os pontos ganhos, pontos perdidos, os jogos. Não é que eu tenha inovado nesse aspecto, mas eu comecei a usar com mais frequência e se tornou depois uma rotina. Não porque eu usei, mas porque começamos a ter mais acesso aos números, estatísticas, numa característica herdada do basquetebol da NBA, que desde 1950, quando surgiu, trabalha muito com números estatísticos de fatos que depois foram trazidos ao Brasil pelos aficionados do esporte. Hoje, o Futebol trabalha muito com isso, temos dados em profusão em todos os aspectos possíveis e imagináveis. Por exemplo, a informação de outros campeonatos que não eram divulgados, como o estadual amador, que tinha seu público bem interessante e não se divulgava na grande imprensa, que a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) promovia. Digo promovia porque a partir desse ano (2015) não há mais. Chegamos a ter mais de 200 times disputando nos anos 1970 e 1980, envolvendo por consequência mais de 200 comunidades, e hoje não tem mais. No ano passado, houve três times disputando e esse ano não vai ter mais. Analise combinatória, por exemplo, para a divulgação de chances de classificação e de título, trabalho que eu comecei a fazer aqui, que exigia um conhecimento razoável de matemática e que não era utilizado pelos plantões de então, a sobreposição de ranking, para se relativizar a situação de um time. Você colocar o ranking da CBF sobre o ranking do futebol Gaúcho. Vamos supor, vai jogar a Seleção Brasileira e a Seleção do Canadá. Para que o ouvinte tenha uma ideia do que seria esse jogo se sobrepusesse o ranking da FIFA e da CBF. Temos o Brasil (3º Colocado no Ranking) contra o Canadá (35º no Ranking). Então nesse jogo, Brasil e Canadá, que é o terceiro contra o trigésimo quinto, corresponderia no futebol brasileiro ao jogo entre Palmeiras e Náutico. Então, são algumas coisas diferentes que eu introduzi no rádio daqui que não havia. Eu sempre busquei nortear o meu trabalho nesse aspecto de fazer diferente, bem-feito e o melhor possível, mas também de inovar em algumas questões.

VOZES – Você esteve sempre bem ligado a questão esportiva, já apresentou em outras emissoras programas jornalísticos. Atualmente, você está numa fase de transição, fazendo a parte esportiva e apresentando, junto com o Rogério Mendelski na Rádio Guaíba, um programa de informação e opinião. Como foi essa transição da área esportiva para o jornalismo e o que você procurou levar do esporte para o jornalismo geral?

ROGÉRIO BÖHLKE:  Eu vim da escola do interior, onde obviamente se faz tudo ao mesmo tempo. Então, não foi uma novidade para mim. Claro que no rádio grande a tua atuação é um pouco mais limitada. Você faz uma função específica e não tem oportunidade de fazer outros setores do esporte e do jornalismo. Eu não tive dificuldades, já tinha essa capacidade, e agora foi me dado essa oportunidade de exercê-la. Acho bem interessante o programa “Bom Dia”, que o Rogério Mendelski apresenta e é muito ouvido. É a maior audiência da emissora e tem um público diferente daquele do esporte. Existe até um paradoxo porque as mensagens que chegam, e são mais de 400, 500 por dia, e alguns ouvintes reclamam que há muito esporte neste horário e acham que deveria haver apenas um outro tipo de informação, que não a esportiva, que já tem um espaço muito grande. Mas ao mesmo tempo em que se fala de esporte, com as participações do Flávio Dal Pizzol e do Nando Gross, chegam muitas mensagens e o ouvinte gosta disso. E a gente procura tratar de uma forma bem cuidadosa, de não exagerar no esporte mas também não prescindir dele, que tem o seu público também. É um trabalho diferente, importante e de mais responsabilidade, porque no esporte, de uma forma geral, você pode criticar o presidente da FIFA, da CBF ou da FGF, e não haverá uma cobrança de parte desses dirigentes tão forte assim. Nem do próprio Francisco Noveletto, que é da aldeia. Eles aceitam mais a crítica. Agora, na política, por exemplo, se você criticar um vereador de Porto Alegre ou do interior sem uma fundamentação, isso gera uma consequência. Existe uma ligação da assessoria de imprensa pedindo direito de resposta. Então, tem que haver mais cuidado. Não se pode falar sem ter a certeza do que está sendo dito, porque senão a consequência pode ser ruim, pode haver um desgaste, uma reclamação. Exite uma responsabilidade maior de fazer jornalismo nesse aspecto da opinião e da informação.

 

VOZES –  Você se inspirou em algum jornalista?

ROGÉRIO BÖHLKE:  Não especificamente, porque não havia da mesma forma que eu procurei fontes de inspiração na função de plantão do Antônio Augusto, do Érico Sauer, no próprio Raul Moreau. Mas basicamente no Antônio Augusto. Pois eu não tinha a pretensão de fazer o jornalismo. Eu sempre achei que se fosse uma coisa que chegasse algum dia, seria ao natural. Então, eu não tive esse mesmo cuidado assim nesta função. Mas eu sempre ouvi muito rádio, acho que é básico para qualquer um que quer trabalhar em rádio, ouvir muito rádio. Eu ouvia, aqui em Porto Alegre, Mendes Ribeiro, Amir Domingues, Flávio Alcaraz Gomes. Depois. Um tempo à frente, o Antônio Carlos Macedo, na Gaúcha. Dois jovens, não tão jovens assim, que eu gosto muito, o André Machado e o Ozíris Marins. São bons profissionais. E o Felipe Vieira também. Eu ouvia esses âncoras, mas não no sentido de aprender alguma coisa que um dia eu pudesse colocar em prática com eles, porque eu não tinha essa intenção de fazer jornalismo tão rapidamente assim. Então, eu não tive, ao contrário do esporte, um ícone assim. Esses profissionais eu gosto bastante, acho que são de uma qualidade muito grande, mas não foi o mesmo sentimento de que eu tive no esporte com o Antônio Augusto.

 

VOZES –  Você teve também passagens pela Rádio ABC e pela Rádio Metrópole. Como foi essa experiência?

ROGÉRIO BÖHLKE: : Eu saí da Rádio Guaíba em 2010 e retornei em 2011. Eu tive um litígio com a emissora por causa de uma atividade sindical. Sai por um ano e três meses e depois retornei. Nesse período, estive na Rádio ABC, de Novo Hamburgo, que é uma grande emissora, que pertence a um grande grupo de comunicação, que é o Grupo Sinos. Uma emissora organizada, muito bem dirigida pelo Rodrigo Giacomet, que é o diretor, que faz um trabalho muito interessante, um jornalismo muito bom, um trabalho sério. É uma emissora que tem contra si apenas, me parece, e isso é uma opinião bem particular, o fato de estar muito próxima a Porto Alegre, o que limita um pouco a sua atuação. Porque é uma concorrência quase desleal com a Gaúcha e a Guaíba. Mas é um trabalho ao nível de Gaúcha e Guaíba, que faz um esporte local muito bem-feito, acompanhando o Novo Hamburgo e o próprio Aimoré. Um jornalismo sério que acompanha os eventos da cidade e da comunidade, ligados ao setor calçadista. Então, é uma grande emissora que eu acho que vai crescer muito agora com a migração para o FM e fará um trabalho muito melhor. Foi uma atividade minha diferente da Rádio Metrópole, que tem a sua outorga em Gravataí, mas cujo os estúdios são em Cachoeirinha. Ali, eu e o Ernani Campello, meu colega de Rádio Guaíba,  assumimos o esporte da emissora, num primeiro momento, para fazer uma trabalho que sempre foi um sonho nosso. Que houvesse um acompanhamento dos demais clubes da grande Porto Alegre. São José, Cruzeiro, Cerâmica e Sapucaense, que não têm seu espaço na grande imprensa e nem tem como ter, pois não estão ao nível de Inter e Grêmio, mas têm um público interessante. Então, fizemos um trabalho de dois anos acompanhando esses clubes no Gauchão e em competições como a Copa RS. A Rádio Metrópole não tem a mesma estrutura da Rádio ABC. Lá nós tínhamos um trabalho de coordenação e foi bem interessante. Fizemos um bom trabalho acompanhando esses jogos desses clubes, também com uma boa audiência, o que nos leva a crer que existe espaço também para que o rádio divulgue e transmita esses outros clubes que têm também seu apelo popular não tão expressivo assim. Infelizmente, tivemos como obstáculo lá, a questão comercial. O rádio está realmente perdendo o seu espaço no bolo publicitário. Já algum tempo perdíamos para Outdoor, por exemplo. E como há muitas emissoras que fazem a cobertura esportiva, até mesmo as web rádios, com um trabalho interessante. Então, a concorrência é muito grande pela publicidade. O rádio perde espaços cada vez maiores. Por isso, obviamente que realizar um trabalho numa emissora muito próxima a Porto Alegre tem isso contra si. É muito difícil abocanhar uma fatia mínima necessária do bolo publicitário estando tão perto da Capital e das grandes emissoras.

 

VOZES –  Como você vê a migração das emissoras AM para a Frequência Modulada? Vai dar um novo impulso para elas?

ROGÉRIO BÖHLKE:  Eu acho que sim. Mas não tão grande, como os diretores imaginam que venha a ser. Eu acho que é uma mudança necessária, imprescindível para a sobrevivência do rádio, mas não será assim um salto de qualidade tão grande como as direções das emissoras esperam. Porque vai ser para todas no caso. Vai ser imprescindível que elas tenham essa possibilidade. No futebol, basicamente, não se pode entrar hoje com um rádio a pilhas num estádio de futebol. Já a questão da portabilidade, por exemplo, existem condições hoje de se ouvir emissoras de AM nos aplicativos de Smartphone, mas não é a mesma coisa. Basicamente, as emissoras vão ter a possibilidade de realizar a cobertura esportiva e jornalística com o som do FM, que não tem o mesmo alcance do AM, mas tem muito mais qualidade. Ainda hoje, o problema do som do rádio AM é um grande obstáculo. Não tem como você prescindir de uma qualidade sonora, é como se a televisão hoje tivesse um risco. Então, haverá com certeza um crescimento das emissoras de qualidade, mas não vai ser algo assim de fato um grande salto para elas. Vão continuar sendo emissoras ainda de um porte bem menor e vão continuar ocupando a sua faixa de importância no aspecto local. O rádio é um fenômeno local. Mas vai ser bem interessante. Quem não migrar para o FM, vai deixar basicamente de existir.

 

Entrevista concedida a Gustavo Inácio no dia 4 de Setembro de 2015.