Gustavo VictorinoEntrevista

VOZES: Músico, advogado, engenheiro e radialista, Gustavo Victorino nascido em 18 de janeiro de 1956, às 7h20min na Beneficência Portuguesa…

Gustavo Victorino: … e segundo a minha mãe chorando e reclamando muito, ou seja, eu seria radialista inevitavelmente.

VOZES: Há quanto tempo exatamente trabalha com jornalismo e com o radio?

Gustavo Victorino: Bom, esse ano eu faço de radio 40 anos. Eu comecei em outubro de 1973 na Rádio Cinderela de Campo Bom. Na época eu recebi o convite do diretor da Radio Cinderela que mais tarde foi prefeito de Campo Bom. A Radio Cinderela estava montando uma equipe de esportes. Na oportunidade eu fui convidado para participar da equipe. Eu era o narrador, o Enon Cardoso, hoje o diretor e dono da Rádio de Tapes, a Radio tapense, era o repórter e o Hélio Silva era o comentarista.Com o Enon eu ainda tenho contato, mas o Elio eu não sei onde se passou nesses 40 anos mas foi uma aventura e tanta.

VOZES: Gustavo, além de o senhor ser jornalista você também tem formação em Engenharia e também em Direito. São três áreas bem diferentes né, qual dessas três te completa mais e porque a escolha dessas três áreas?

Gustavo Victorino: elas me completam. Ao comunicador, seja jornalista ou radialista, cabe sempre a convicção na informação. E a convicção na informação nem sempre está nos fatos cotidianos. Sempre fui um comunicador, sempre fui um homem de radio, um homem ligado à informação. E isso sempre foi fundamental para que eu escolhesse esses cursos. Eu tenho formação em música também. Eu acho importante o porque na área de engenharia na área de sistemas, porque você tem ideia de dimensionamento. Você pensa em radio, pensa em comunicação também em termos técnicos. Você conhecer qualidade de microfone, qualidade de equipamento isso não está ligado necessariamente à engenharia de áudio, tem muito mais a ver com a engenharia de sistemas porque ela é uma área que trabalha com sistemas digitais. Então há muitos anos atrás eu previ que o mundo seria digital e eu acertei. A área do direito porque é fundamental na comunicação quando se fala de qualquer tipo de fato que recebe algum tratamento publico, seja avaliação de um crime de uma circunstância no trato da coisa pública, seja muitas vezes na avaliação de um caso especial, sempre o aspecto jurídico é importante. Dai o porquê que eu tenho comigo que, mesmo que não se faça o curso de direito completo, vá se exercer a profissão de advogado. Eu acho que todo o comunicador e radialista deve conhecer noções básicas de direito. Eu fui fazendo, fazendo e sou um viciado em faculdade, em universidade, em estudar e não nego que com 57 anos ainda quero fazer mais uma, não sei qual mas sei que vou fazer.

VOZES: Só por curiosidade, você se formou primeiro em jornalismo depois em outras áreas, como é que foi essa ordem?

Gustavo Victorino: Foi primeiro em comunicação. Meu foco sempre foi comunicação, eu nunca deixei de ser um comunicador, um jornalista, um homem de imprensa, nunca deixei de atuar nessa área.

VOZES: Desde a hora que nasceu né?

Gustavo Victorino: Desde a hora que nasci, segundo a minha mãe, reclamando, portanto um jornalista polêmico desde aquela época.

VOZES: Bom, Gustavo, tu comentaste antes sobre o teu começo na radio, voltando pra tua trajetória como tu começaste na Pampa e fala um pouco para nós sobre como é o teu programa hoje?

Gustavo Victorino: Bom, vamos fazer o seguinte, quanto tempo nós temos para eu contar a minha história?

VOZES: Quantas precisar.

Gustavo Victorino: Eu comecei na Rádio Cinderela, como locutor esportivo, porque eu tinha uma pequena experiência em Porto Alegre. Na época como freelancer e em outras emissoras que faziam futebol de salão. E aí a coisa foi evoluindo. De lá eu passei para a Rádio Progresso de Novo Hamburgo, eu já fui chegando perto de Porto Alegre. E aí vim parar em Porto Alegre, na rádio Gaúcha, na época do Programa Celso Ferreira, eu virei repórter da tarde da Rádio Gaúcha. Na época se distribuía prêmios à tarde. A Rádio Gaúcha na época tinha um foco mais popular do que tem hoje. Hoje o foco é mais jornalístico. A partir daí eu fui trabalhando, fui desenvolvendo o meu trabalho na Rádio Gaúcha. Mais tarde, quando a Gaúcha adquiriu a Farroupilha, eu fui apresentador por muito pouco tempo na Farroupilha porque eu recebi proposta pra sair do Rio Grande do Sul e fui pro Rio de Janeiro trabalhar na Rádio Manchete. Aí fiquei no Rio de Janeiro, trabalhei na Rádio Manchete, tinha um programa pela manhã. Depois fui para Florianópolis, onde trabalhei durante algum tempo na Rádio Cultura. Voltei para o Rio de Janeiro, trabalhei mais um tempo, estive na Rádio Tamoio. Sai da Rádio Tamoio e aí me dediquei à engenharia de sistemas ligados a áudio e instrumentos musicais. Aí fui morar em Chicago, morei em Chicago dois anos. Em Chicago, recebi uma proposta da Yamaha Europa. Fui trabalhar na Europa. Fui morar em Frankfurt onde eu morei dois anos, trabalhando sempre na área de sistema, desenvolvimento de sistemas digitais, circuitos para violões e guitarras. Depois da Yamaha eu trabalhava com software de sintetizadores eletrônicos, a parte de programação. Recebi uma proposta e voltei para o Rio de Janeiro outra vez, eu não nego, eu gosto muito do Rio de Janeiro, é a cidade que eu moraria se não estivesse em Porto Alegre. Voltei para o Rio de Janeiro onde eu trabalhei na mídia impressa. Fui editor de mercado da Gazeta Mercantil no Rio de Janeiro, fui colunista da revista Ele E Ela, fui colunista do Jornal do Brasil. Fui um dos criadores da revista Backstage, onde eu tenho uma coluna até hoje, há mais de 20 anos. Há oito anos atrás, por motivos pessoais, voltei para Porto Alegre, onde eu reencontrei o Paulo Sérgio Pinto, grande amigo, vice-presidente da Rede Pampa, que falou: “você não vai ficar sem trabalho, vamos para a Pampa que a gente vai arrumar o que fazer”. Aí entrei na Pampa como coordenador de esportes. Quando acabou a equipe de esportes da rádio Pampa. Eu fiz a Copa do Mundo da Alemanha pela rádio Pampa. Quando acabou a equipe de esportes da Pampa, aí me deram um programa à tarde, onde eu estou até hoje com uma equipe muito boa.

VOZES: E de todas as áreas do jornalismo, o rádio foi uma escolha. O rádio te escolheu, tu escolhestes o rádio?

Gustavo Victorino: Paixão. Rádio é cachaça. Você pode fazer televisão, você pode fazer jornal. Evidentemente que profissionais que estão no início da carreira tem a sua opção. Tem gente que é apaixonada pela mídia impressa. Eu conheço muita gente que é apaixonada por mídia impressa. Não gosta de mídia eletrônica. E tem gente que gosta de televisão pelo conteúdo visual, mas a minha opção foi pelo rádio. E olha, eu conheço muita gente que tem o vício pelo rádio. Porque o rádio consegue reunir a sutileza da mídia televisiva, da mídia com imagem e hoje até a internet tem isso com a objetividade e o pragmatismo da mídia impressa.

VOZES: Gustavo, o rádio, como as outras mídias, tem que se reinventar, justamente por ser um dos mais antigos. Qual é o desafio do rádio na atualidade?

Gustavo Victorino: Exatamente o que você falou, você observou muito bem. O processo de reinvenção do rádio ele é instantâneo porque de todas as mídias, a mais instantânea é o rádio. Com o advento dos telefones celulares, hoje cada um tem uma linha de rádio no bolso. Isso tornou a instantaneidade da informação, um ponto decisivo para a própria sobrevivência do rádio. Esse é um processo de reinvenção natural. O rádio precisa cuidar de si mesmo para se manter vivo porque teoricamente nós teríamos, com a evolução das mídias, notadamente as mídias digitais, um processo de desaparecimento do rádio. E não é isso que vem acontecendo. O rádio continua sendo uma mídia muito forte exatamente por conta desse processo de reinvenção. Mudou muito. Mudou a linguagem. Mudou o conceito da informação, o formato da informação. O rádio tende a se segmentar cada vez mais. A mídia impressa ainda engatinha no processo de segmentação no Brasil. Mas o rádio se tornou, hoje, inevitavelmente segmentado. Para você ter uma ideia, no Japão existem publicações para donos de revólver Magnum, quer dizer, uma coisa mais específica impossível. Existem publicações para mergulhadores de alta profundidade. A gente fica imaginando como uma revista com conteúdo tão específico pode sobreviver. Isso vai chegar no Brasil daqui a algum tempo, mas o rádio já faz parte disso hoje. Ou você é informativo, jornalístico, ou você é entertainment ou você é exclusivamente musical.

VOZES:A gente já vai falar mais sobre isso. Eu só gostaria de retomar que, então, esse é o Vozes do Rádio, uma produção dos alunos de Projeto Experimental em rádio da turma da noite da PUCRS. Eu sou  a Luiza Lorentz. Junto comigo aqui na mesa na apresentação os alunos Gustavo Frota e Priscila Jardim. E o programa conta com a produção e edição também dos nossos colegas Gabriella Soltys, Greta Paz, Igor Grossmann e Regina Albrecht. A técnica é de Anderson Almeida e José Alencar Diniz. A supervisão é dos professores João Brito e Luciano Klöckner. Mais cedo a gente já abordou um pouco da história do nosso convidado, que é o Gustavo Victorino: jornalista, radialista, engenheiro, advogado e músico. Que trabalha na Rádio Pampa aqui de Porto Alegre. E agora, nessa segunda parte, eu queria abordar um pouco mais sobre jornalismo, que a gente já começou a falar com a pergunta da Patrícia. Falando de uma maneira geral, além desses aspectos que são mais técnicos, que tu já abordaste mais cedo, o que mais mudou na nossa profissão que tu consegue enxergar hoje?

Gustavo Victorino: Ela é uma profissão mutante. Os meios digitais, a evolução da tecnologia transformou o jornalismo em algo que, vou usar a expressão que vocês utilizaram aqui na mesa que a Patrícia falou agora pouco: a reinvenção. Precisa se descobrir para sobreviver cada vez mais, todo o veículo de comunicação. Seja no mundo virtual, seja rádio, a mídia impressa, a televisão. E porque isso acontece? Por que nós temos cada vez mais velocidade. Velocidade da informação. Quando eu disse agora a pouco que cada um possui uma linha de rádio no bolso com o telefone celular, eu disse também que cada um é um cinegrafista em potencial. Porque tem no celular também a possibilidade de filmar e registrar coisas que podem ter um conteúdo jornalístico significativo. O que isso mudou? O processo de dinamismo. Vocês, profissionais, que estão iniciando a carreira vão precisar de muito mais reflexo e velocidade do que quando eu comecei a minha. No meu tempo o processo era de se escrever num papel carbono, em uma máquina de escrever. A gravação era gravação em fitas magnéticas que eram cortadas a mão, com tesoura, para se fazer a edição. Era uma coisa rústica. Hoje, a edição através daquele operador ali que está em frente a um painel e controla tudo de forma digital, leva 5 minutos para ele editar o que quiser, acrescentar o que quiser, e com uma qualidade muito superior.

VOZES: Tu não vês, de repente, esta cobrança pela velocidade, instantaneidade da informação, como algo que possa atrapalhar? A gente tem visto, por exemplo, informações equivocadas entrarem no ar…

Gustavo Victorino: É inevitável, Gustavo, é inevitável. O que aconteceu, por exemplo, quando no onze de setembro nós tivemos a queda das Torres Gêmeas: você viu a tragédia que foi? Você viu o que se ouviu de bobagem em tempo real? Sabe o que é aquilo: falta de preparo. As pessoas costumam dizer, por exemplo, que as transmissões esportivas é o primo pobre do jornalismo, é o primo pobre da informação, mas a transmissão esportiva dá uma coisa ao profissional que pouco segmentos dão, que é a instantaneidade, a capacidade de reagir rápido com a informação. Por isso que eu recomendo a qualquer profissional, contrariando inclusive grande parte dos professores e até jornalistas veteranos, que saíram do esporte para a economia, para a política, enfim. Eu acho que pelo menos algum tempo o jornalista deve passar pelo esporte por causa disso. Porque o esporte, o conteúdo, se vocês pararem para pensar, ele é muito pequeno. Então o jornalista precisa de reflexo, precisa dinâmica para manter o que a gente chama de ritmo notadamente em rádio. E aí vem a capacidade criativa, a capacidade de reproduzir ideias, de fixar um conceito, e tudo isso passando informação. Então é uma coisa complexa. Mas o porquê necessariamente você precisa focar nesse processo de reinvenção? Porque a própria linguagem muda, a própria linguagem muda. Imagina você dizer num Grenal que entra em campo a esquadra tricolor da Azenha, seguida da equipe alvirrubra dos Eucaliptos para um cotejo, que terá como árbitro principal… Ora, uma terminologia dessas hoje em dia seria motivo de piada. A 40 anos atrás, quando eu fazia esporte, isso era quase obrigação. Se você não usasse essas expressões, eles te achariam avançadinho, moderninho, ou um caipira tentando transmitir um jogo de futebol.

VOZES:Em relação ao teu estilo de ser comunicador, nós vemos diferentes jornalistas… uns mais sérios, outros que gostam de conversar que perguntam até questões pessoais dos entrevistados. Qual é o estilo Victorino de fazer jornalismo na Rádio Pampa?

Gustavo Victorino: Pati, eu sou mal criado. Assim, politicamente incorreto. Porque normalmente o engraçadinho perde credibilidade. Normalmente, o mal humorado também perde credibilidade pelo mau humor. Sabe, aquele contra tudo e contra todos? Aquela informação que você tem que me passar porque é uma barbaridade se você não… Mas, olha isso aqui, como é que pode? Mas não, mas… Isso não existe. Porque que eu digo que eu sou mal comportado? Porque, entenda uma coisa: o melhor da resposta é sempre o inesperado. Eu dei aula na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, no curso de jornalismo e lá eu dizia uma coisa para os meus alunos: “Sempre que alguém estiver ao vivo, e hoje quase todas as transmissões são ao vivo, vai ser fácil você arrancar ou uma grande resposta ou uma grande bobagem. Faça a pergunta e ponha o microfone para o seu entrevistado. Ele vai responder e você não tira o microfone. Esses segundos de hesitação, que faz com que ele sabendo que está ao vivo tenha que dizer mais alguma coisa, vão ser responsáveis por uma resposta genial ou por uma grande bobagem. Nos dois casos, ganha o jornalista”.

VOZES:Voltando um pouco nessa questão da instantaneidade e da reinvenção, recentemente nós tivemos o incêndio no Mercado Público. Nós ouvimos diversas versões de que “50% do Mercado foi queimado”, isso na hora que aconteceu. E também a questão, impossível deixar de comentar, dos protestos que varreram o Brasil inteiro. Nós ouvimos “não, foram os militares. Não, foram as depredações…”. Como o jornalista faz para pesar, para botar na balança como no Direito, esses dois lados? Porque hoje está muito difícil em função dessa instantaneidade. Esse talvez seria o maior desafio não só do rádio, mas também de todo o jornalismo?

Gustavo Victorino: Sim, e eu vou dizer porquê. Porque, entenda uma coisa: no Direito eu aprendi que não existe juiz imparcial. Não existe juiz neutro. Todos nós temos a nossa formação, todos nós temos os nossos conceitos de certo e de errado, todos nós temos os nossos limites. O jornalista também. O jornalista tem a sua ideologia, tem a sua formação. Tem coisas que ele aceita e que ele não aceita, coisas que ele gosta e que ele não gosta. Por mais que você tente priorizar a informação, vai inevitável você, de alguma forma, ter um lado nessa informação. Os professores ficam desesperados quando a gente fala isso. Mas eu estou falando do lado de fora da porta. Estou falando de quando vocês saírem e tiverem um microfone na mão, uma caneta na mão ou uma câmera apontando pra vocês. Vai ser inevitável vocês conviverem com a formação de cada um. É inevitável. Pode existir um fato em que a Luiza tenha um conceito sobre ele, que é diferente do Gustavo e que vai ser diferente de você, Patrícia. Vou dar um exemplo pra vocês, se vocês não passaram por essa experiência, vão passar mais cedo ou mais tarde. Já ouviram falar naquele teste do quadro? Nele, você tira dez alunos da aula de comunicação. Aí você pega um quadro, que ninguém viu, e coloca na parede. Aí, você chama um dos dez alunos que vem e olha o quadro. Aí você tira o quadro, chama o segundo aluno e pede para aquele primeiro aluno contar para o segundo aluno o que ele viu. Aí ele conta. O primeiro aluno senta. Chama o terceiro aluno, que vai ouvir do segundo aluno o que era o quadro. E assim por diante. O quarto vai contar pro quinto, o quinto vai contar pro sexto…

VOZES:É tipo telefone sem fio, é isso?!

Gustavo Victorino: É, é para você ter uma ideia de como é que funcionam as versões. Você não faz ideia quando o nono aluno contar para o décimo aluno o que era o quadro e você abrir o quadro e mostrar. É surpreendente. Não é nada parecido com aquilo que foi visto pelo primeiro aluno. Agora tentem imaginar isso dentro do tecido social com milhares de pessoas fazendo circular informações que têm origem em dezenas de jornalistas diferentes. Mesmo respeitando e aceitando a ideologia e o conceito de vocês, vai ser sempre fundamental que vocês tenham em mente que a notícia, a informação é a prioridade. “Dez mortos”, muito bem. Você pode dizer de onde vieram cada um dos mortos naquele acidente. Você pode dar a idade, o nome, tudo, mas a informação, o eixo é “um acidente que teve dez mortos”. A partir daí você constrói a notícia, a informação, buscando detalhes daquilo que aconteceu.

VOZES: Já que a gente entrou nessas tecnicalidades do jornalismo, eu não posso deixar de perguntar. Quais são as tuas impressões sobre esses novos movimentos, mídia-ninja, fora do eixo, que tecnicamente seria a informação bruta né…

Gustavo Victorino: A mídia sempre foi alvo. Então tem que se tomar cuidado porque vocês, evidentemente, estão entrando também agora no mundo da política, da sociologia, mesmo que involuntariamente. Porque o jornalista naturalmente se torna um avaliador do tecido social e inevitavelmente entram na política. E vocês vão entender uma coisa: em todos os movimentos totalitários ao redor do planeta, seja de direita ou seja de esquerda,  qual é sempre a primeira providência que se toma? É dominar a informação. A censura. É a primeira coisa que se faz. Uma relação em um país lá do Uzbequistão, Turquistão, sei lá onde está um país desses. É a primeira coisa que se faz quando alguém quer instalar um regime seja de direita ou de esquerda. Na revolução, a primeira coisa de que eles tomam conta é do jornal, do rádio e da televisão. Porque a informação é decisiva. Então, entendam uma coisa: o que eu vou dizer os advogados odeiam, mas eu já disse isso no ar várias vezes. A informação é mais valiosa que a própria lei. Então quando se criam mídias alternativas e movimentos, tem que se tomar cuidado, porque é uma forma de dominação a informação. Eu acabei de dar o exemplo na resposta anterior. Você divulga algo com a intenção de condicionar uma determinada camada da população, e você com insistência, com paciência, você consegue. Então esses movimentos, mídia-ninja, a rádio do sindicato de São Paulo, que divulga, essa coisa… Não se iludam. Sempre, em qualquer tecido social em que exista liberdade, você terá muitas versões para o mesmo fato.

VOZES: Nós estamos mais ou menos chegando no final. Eu vou pedir para o Gustavo e para a Patrícia escreverem suas perguntas finais. Eu sei que o Gustavo vai terminar com chave de ouro. A pergunta que ele tem é uma pergunta surpreendente. É um pedido, mas depois a gente vai ficar sabendo. Então, só para terminar, o que eu gostaria de perguntar é sobre isso que a gente vive hoje, que é muito triste em relação ao jornalismo, que é a não necessidade de se ter um diploma para exercer a nossa profissão. Então eu queria que tu desses a tua opinião sobre esse assunto, tu que trabalhas, e também já deve ter trabalhado, pelo tempo que trabalha em rádio, com pessoas que também não tiveram formação, porque antigamente não se tinha. Então como é que tu vês isso, qual é a tua opinião sobre esse assunto?

Gustavo Victorino: Isso vai mudar. Eu acho que… Me perdoem os libertários, mas eu acho que o diploma de comunicação é fundamental para o exercício da profissão. Primeiro, por tudo isso que eu falei, o profissional precisa cada vez mais estar preparado. E você é preparado sim trabalhando, mas você é muito mais preparado no banco da faculdade. Lá fora você vai lapidar, mas é o banco de uma faculdade que prepara você, que lhe passa a informação, que estabelece para você parâmetros do exercício profissional. Isso vai mudar. Existe uma nova lei de registro profissional dos jornalistas que está no Congresso, deve ser votada a qualquer momento, e eu acredito que isso vai por água abaixo. Discordo da tese do STF, que alega que aquilo que não prejudica deve ser livre. Mas quem disse que a desinformação não prejudica e o mau profissional desinforma? Portanto, eu sou absolutamente favorável ao registro profissional, absolutamente favorável à faculdade de comunicação, que forma profissionais. Ponto. Aí eu pergunto: desinformação não faz mal? Faz, porque eu acabei de dizer que a informação, em regimes totalitários, ou em convulsões sociais, é mais importante que a própria lei.

VOZES:Em relação assim a essa desvalorização não somente do diploma de um piso que é considerado baixo aqui no Rio Grande do Sul e à qualidade de trabalho, ainda vale a pena ser jornalista? Pra essa nova geração que estÁ vindo será que o amor pela profissão vai superar tudo isso? A vontade de dar o furo, a matéria certinha a representação da realidade, o mais real possível, na tua opinião ainda vale a pena um jovem investir toda a sua carreira no jornalismo?

Gustavo Victorino: Sim, vale e eu vou dizer pra você o porquê. A comunicação ela é muito mais do que uma profissão, tem um componente de sacerdócio, a comunicação tem o mesmo processo de entendimento de um educado. Ai você vai me perguntar, mas os professores hoje, poxa, eles ganham tão mal, sim, mas fala pra eles mudarem de profissão, eles ficam bravos com você. Eu teria algumas alternativas para o meu exercício profissional, tenho meu escritório sim, mas eu só vou deixar de ser comunicador seja de rádio, assinando colunas ou participando de programas de TV no dia que eu morrer, ou que não me quiserem mais, porque isso transcende. Eu já não faço mais por dinheiro. Vocês com o tempo vão descobrir que não importa o dinheiro. Vocês se apaixonarão de tal forma por essa profissão, que vocês nunca mais deixarão de ser jornalistas. Não será mais uma profissão, será parte integrante do caráter de cada um.

VOZES: Bom, a gente já está terminando como a Luiza falou e tu disse reiteradas vezes da tua formação em música, da tua paixão e a gente não podia deixar tu ires embora sem antes dar uma palinha pra gente!

Gustavo Victorino: Palinha? Como assim?

VOZES: Tem como cantar? Dá uma cantada aí no microfone!

Gustavo Victorino: Cantar? Sério? Isso está me cheirando a uma das produtoras desse programa que agiu de forma maldosa! (risos) Eu não exatamente o que eu poderia cantar para vocês, mas eu vou citar então, já que eu não um bom cantor.

VOZES:Qual é a tua especialidade? Toca algum instrumento, não é voz?

Gustavo Victorino: Não, eu canto, eu toco, aquela coisa (risos), não posso nem dizer que não porque tem alguém aqui que já viu show da minha banda, então sabe que eu brinco um pouquinho de cada coisa. Mas eu não vou cantar, eu vou citar uma frase só pra vocês então, de um cara que eu gosto muito, não posso dizer que é amigo, mas eu tive a oportunidade participar de um dos discos dele como tecladista. Djavan, que nesses tempos de inverno no sul (pode dar um recado também pra todos os comunicadores?), quando ele diz, “um dia frio, um bom lugar para ler um livro e com pensamento em você assim eu vivo”. Vivam com informação.

VOZES  – Conte-me um pouco da sua história, desde que o senhor começou, toda a sua jornada no radiojornalismo.

GUSTAVO VICTORINO – Eu comecei há muitos anos atrás, há mais de 40 anos. Eu sempre fui um apaixonado por rádio e até hoje me assumo como um apaixonado por rádio. Eu era jovem, ainda menor de idade, tinha 17 anos, não tinha ainda carteira de motorista e uma pequena rádio do interior do Estado, a rádio Cinderela, de Campo bom, resolveu montar uma equipe de esportes. Eu tinha uma paixão porque na época eu era estagiário na RBS, na época Rede Riograndense de Emissoras, eu era estagiário lá, e sempre quis uma oportunidade tanto na Rádio Gaúcha quanto nas outras emissoras da RBS, mas nunca tinha recebido. E quando a Rádio Cinderela resolveu montar uma equipe de esportes eu fui convidado para participar com dois colegas inesquecíveis, Hélio Santos e o Enon Cardoso, hoje superintendente e dono da Rádio Tapes. Me convidaram para participar da equipe de esportes e foi com muito prazer que eu ingressei no rádio. E de lá a coisa foi andando. Depois eu acabei vindo pra Porto Alegre, trabalhei na Rádio Gaúcha, saí do Rio Grande do Sul muito cedo, com 24 anos fui morar fora do Estado, fui morar no Rio de Janeiro. Morei nos Estados Unidos, morei na Europa, em Frankfurt e lá eu perdi um pouco essa ligação com o rádio. No Rio de Janeiro eu sempre a mantive. No Rio de Janeiro trabalhei na Rádio Tamoio, trabalhei na Rádio Tupi e na Rádio Manchete, onde eu tinha um programa pela manhã. E os anos foram se passando, outras profissões foram entrando na minha vida, como o Direito, eu sou advogado, a Engenharia, sou Engenheiro de Sistemas e outras atividades, a imprensa escrita apareceu, eu assino colunas até hoje em veículos nacionais, fui colunista da Gazeta Mercantil, fui colunista do Jornal do Brasil e em todo esse tempo eu não me desliguei do rádio, eu me desliguei quando realmente estive fora do país. Mesmo assim, eu fazia algumas coisas para algumas emissoras do Rio de Janeiro como correspondente. Então assim, a minha ligação com o rádio, tem 42… 43 anos e eu gostaria que continuasse até o fim da minha vida.

VOZES  – E o programa da Pampa?

GUSTAVO VICTORINO – Eu tenho um programa na Rádio Pampa chamado “Pampa na Tarde”, que vai das cinco da tarde até às sete da noite, de segunda a sexta-feira. Esse programa é um programa que tem entrevistas, tem opinião, é um programa multifacetado. Pra você ter uma ideia, é um programa tão multidisciplinar, que ele vai da culinária a política, ele vai dos direitos da cidadania, dos advogados até os temas médicos. É um programa que não tem limites, ele não tem uma pauta definida nem um perfil definido. E a informação, aquilo que acontece no dia-a-dia e que interessa pras pessoas, que é o fundamento desse programa. É um programa que tem bom humor, que tem mal humor, que tem discussões, que tem defesas acaloradas de pontos de vista, mas acima de tudo, informação. Sempre que eu levo algum advogado especialista em algum segmento, um juiz, enfim, de vara de família, um advogado de direito previdenciário, a busca por informação, a participação dos ouvintes aumenta significativamente. Isso se aplica a área médica. Quando se leva, por exemplo… Leve um otorrinolaringologista no meu programa há algum tempo atrás pra falar sobre o H1N1, influenza, enfim… Entupiu de ligações e participação dos ouvintes. Então tem muito essa coisa de se ligar com o tema do dia-a-dia, o interesse das pessoas. Mas essencialmente, é um programa multidisciplinar no seu conteúdo.

VOZES  – O senhor é formado em Direito, em Engenharia de Sistemas…

GUSTAVO VICTORINO – Gente, é tanta coisa…  Vamos lá. Sou radialista, sou jornalista, sou advogado e sou engenheiro. E também fiz curso avançado de Música, eu fiz harmonia funcional no Instituto Palestrina aqui em Porto Alegre e lá no Rio de Janeiro eu fiz arranjo e regência na Escola Nacional de Música. Então, tecnicamente, eu sou também maestro, embora nunca tenha ido para frente de uma orquestra.

VOZES  – É isso que é muito engraçado, o senhor é multifacetado. Como o senhor falou do seu programa, o senhor também é. Me conta um pouquinho de como é lidar com números, pessoas e com a música também. Como o senhor lida com tudo isso?

GUSTAVO VICTORINO – É uma coisa muito complicada, porque na verdade todas essas profissões vieram a reboque do rádio. Eu senti que cada vez mais, para ser passar informação, e para se comentar temas do cotidiano, era preciso uma informação complementar. Ou seja, você tem que saber sobre aquilo que você está falando, se não você fica retórico, você fica absolutamente recorrente, não apenas nos termos e nas expressões, mas também nas ideias. E aí eu fui me interessando por outros segmentos, outras atividades profissionais, exatamente por causa disso. Eu enxerguei, por exemplo, no Direito, uma forma de tratar os assuntos do dia-a-dia, a própria política brasileira, as decisões dos governos, as coisas que nos atingem no cotidiano. Todas elas hoje vêm carregadas de decisões jurídicas e essas decisões precisam ser compreendidas. Então eu vi no Direito isso. Na área de sistemas, eu me interessei por conta do avanço tecnológico brutal que nós vivemos hoje em dia e que se reflete muito na sua profissão, no seu trabalho. A informação hoje ela dá a volta ao mundo em dezoito segundos, o dinheiro dá a volta ao mundo em dezoito segundos. Nós temos quase um bilhão de mensagens diárias dos aplicativos de comunicação instantânea, como o WhatsApp, por exemplo. E isso precisa ser visto de uma forma diferente. E essa forma diferente é você se informar sobre aquilo que está acontecendo. Por exemplo, a discussão que nós tivemos há alguns sobre a retirada do aplicativo. Perdão pela sinceridade, mas eu vi muita bobagem. Teve gente que deu opinião sem fazer ideia do que estava dizendo. E olha, não eram apenas jornalistas, eram juristas que estava falando coisas sem o conhecimento técnico necessário para opinar sobre o aquele tema. Então a minha formação como pilar essencial na comunicação e no rádio, que é a minha grande paixão.

VOZES  – Com todas essas profissões, o senhor escolheu, de certa forma, seguir com o rádio, tanto que o senhor falou que nunca se afastou muito do rádio. Por quê o radiojornalismo?

GUSTAVO VICTORINO – O rádio tem uma coisa romântica, é uma coisa meio “cachaça”. Você quer ver uma coisa? Vou criar uma analogia para você entender. Um cavalo não produz nada, não vira carne, não dá leite, um cavalo exclusivamente serve como reprodutor, criação e perpetuação da raça. Por quê um cavalo é tão apaixonante? Por quê as pessoas pagam dezenas, centenas de milhares de reais por um cavalo? Porque tem um componente lúdico nessa paixão. Na área da comunicação, o rádio tem esse componente lúdico pra mim. Eu gosto de televisão, fiz muitos anos, em vários veículos pelo país e até hoje escrevo em publicações, tenho colunas e artigos em várias publicações nacionais. Mas a minha grande paixão continua sendo o rádio. Se você me perguntar porque que é que você me perguntou, esse componente lúdico subliminar e sutil que o rádio tem. O rádio uma uma capacidade imaginativa, ele conduz a imaginação do ouvinte. Tem o conceito da instantaneidade: nada é tão instantâneo quando o rádio, nem a televisão com todos os recursos modernos. Você vê que hoje o rádio faz parte de uma anti-previsão futurista, porque se dizia há um tempo atrás, quando surgiu a fita K7, que o disco de vinil ia acabar, aí quando surgiu o CD, a fita K7 ia acabar… Muito bem, as mídias foram sendo substituídas, mas o seu formato, o seu padrão de recepção, que é o padrão auditivo, nunca foi alterado. Então, o rádio tem se componente lúdico, é como você escolher entre a verde ou a cor amarela, é difícil explicar. Por isso que eu diria assim, eu respondo a você, é exclusivamente uma paixão.

VOZES  – O senhor falou, há alguns anos atrás, que o senhor se formou em engenharia de sistemas, previu que ia precisar disso para o rádio, pois o digital estava chegando. O senhor parece ser alguém que lidou bem com isso, pois muitos do seus colegas negavam, dizendo que isso podia vir a estragar o rádio. O que fez o senhor pensar em se adaptar ao novo rádio?

GUSTAVO VICTORINO – A tecnologia não é mais alternativa, ela é uma necessidade. Não existe como impedir o avanço tecnológico. Nessa semana passada, teve no meu programa de rádio, o presidente do TJ-RS, o desembargador Luiz Felipe de Filho. Conversamos sobre o processo eletrônico e ele disse que os advogados mais antigos, com mais de 55, 60 anos, são reticentes, pois lidar com a tecnologia é cada mais complicado e o processo do futuro não terá uma folha de papel sequer. O processo do futuro será todo feito por certificação digital, transmitido e acompanhado pela internet. O rádio, tal qual nós conhecemos, e vou fazer uma previsão aqui pra você, vai ser substituído por um conceito de mídia que será único. Nós não teremos mais, num futuro próximo, emissoras de televisão e de rádio. Teremos links de internet que vão nos proporcionar programação diferente para todos os segmentos. O rádio do futuro é um rádio conectado na internet. O jornal do futuro, você já começa a conhecer. Aos poucos, as edições físicas começam a desaparecer de grandes jornais do mundo inteiro, tudo indo para a internet, se transformando em grandes portais. Essa é a tendência natural. O rádio do futuro ele vai estar no seu celular, conectado através de transmissão de dados e não mais de ondas sonoras. A televisão do futuro vai funcionar assim também. Aí você vai me dizer: bom, então vamos democratizar a comunicação? Mais ou menos. Os grandes portais brasileiros pertencem a grandes grupos de comunicação. Porque a informação, esteja onde estiver e chegue a você da forma que chegar, ela precisa de investimentos, precisa de profissionais como você, que está se preparando para esse mercado.

VOZES  – Seguindo esse link do digital, o senhor acha que as novas tecnologias, estão ajudando o rádio ou estragando rádio? Ajudando a captar novos ouvintes? Qual a sua opinião sobre isso?

GUSTAVO VICTORINO – Está mudando. Se é para melhor ou para pior, só o futuro vai dizer. Mas essa expressão que eu usei, do mecanismo de democratização, ela é inevitável. O que acontece é que nos teremos muitas rádios web, já existem teremos ainda mais surgindo com o tempo, aí vai se separar o joio do trigo: os profissionais que tem uma boa formação, que tem uma boa preparação, que lidam bem com essa mídia, certamente vão ter programas melhores, vão ter conteúdo melhor, vão chegar ao público mais rapidamente. Se é bom fica difícil definir. Se é ruim difícil. Teremos uma enxurrada de emissoras web que vão competir com as emissoras convencionais, que hoje já estão indo para a web. Você pode ouvir praticamente todas as grandes rádios das grandes capitais, grandes cidades brasileiras pela internet. Isso é interessante, pois cria um mecanismo de interação absolutamente impensável até algumas décadas atrás. Por exemplo, você pode saber em alguns instantes qual é a música mais tocada das rádio do Líbano, basta você entrar numa emissora, a Beirute Radio, e acompanhar algumas músicas e você vai saber as músicas mais tocadas naquele país. Isso era impensável há algum tempo atrás. Você quer saber o que o Vladimir Putin está fazendo na Rússia, você sintoniza uma emissora russa. Claro que você vai precisar entender russo, entender árabe, mas esse processo de interação também passa por um mecanismo que aos poucos começa a ser adequado ao mundo real, ou seja, algumas emissoras tem também a transmissão em inglês. Isso já acontece com emissoras da Espanha, acontece com emissoras de outros países, no Oriente, algumas rádios japonesas transmitem também em inglês. Isso é muito interessante. É o futuro chegando.

VOZES  – A internet, facilita o encontro de informações mais rapidamente, mais facilmente. E aqui no Brasil, pelo menos, não é preciso ter diploma para ser jornalista. O senhor acha que a internet está tirando do jornalista essa exclusividade da notícia? Pois atualmente, qualquer um pode ser jornalista. O senhor acha que ainda é importante ter o diploma?

GUSTAVO VICTORINO – Isso vai mudar. Existe um processo de regulamentação da atividade jornalística no Congresso Nacional que deve ser apreciado muito em breve e sim, o diploma de jornalismo deverá ser fundamental para o exercício da profissão, regra número um. Regra número dois e mais importante: por mais preparada que a pessoa esteja, ela nunca terá um texto igual ao seu. Pois você é preparada por mestres, por profissionais da comunicação. Você tem uma orientação sobre o seu texto, sobre a forma como você se comunica, seja por rádio, televisão ou mídia impressa. E nenhuma pessoa, por mais habilidade que tenha, vai adquirir esse conhecimento exclusivamente pela prática. A decisão do ministro Gilmar Mendes, que colocou, digamos assim, no armário, os diplomas dos jornalistas, na minha opinião, foi uma decisão absolutamente errada. Pois a formação profissional, se não compromete a cidadania, e esse foi o fundamento que ele utilizou, traz um componente de falta de qualidade ao cotidiano muito complicado. Você pode entrar em alguns blogs e ver pessoas, que sonhavam em ser jornalistas, escrevendo sobre assuntos do dia-a-dia e aí você compara com textos de jornalistas profissionais dos grandes portais e você que a diferença é brutal. Então eu repito: nenhuma pessoa, por melhor que escreva, vai ter um texto jornalístico como o seu daqui a algum tempo, quando você sair da faculdade. Exatamente por conta disso: você está sendo preparada tecnicamente para essa atividade. É diferente de uma pessoa que quer fazer única e exclusivamente por gosto pessoal. É como uma competição de ciclismo. Um ciclista profissional sempre vai pedalar diferente, vai se comportar diferente em cima de uma bicicleta do que eu ou você andando numa bicicleta.

VOZES  – O senhor já foi professor universitário. Atualmente o senhor tem algum conselho que é imprescindível o aluno de jornalismo sair da faculdade e ir pro mercado, sabendo? Pois muitas vezes chegamos no mercado e existem coisas que as pessoas olham e dizem “tu aprendeu isso na faculdade? Não, tu não vais usar isso aqui…”. Muitas vezes os alunos até se frustram, pois como o senhor falou, se aprende muito na faculdade, mas quando chega no mercado é importante ter aquela bagagem, mas é uma lida diferente.

GUSTAVO VICTORINO – Esse conceito de informação acadêmica, eu sou contra aqueles que usam expressões do tipo “você está estudando coisas que você nunca vai usar na vida”. Eu discordo dessa expressão. Primeiro, pois o conhecimento acadêmico é compilado de forma a produzir o encadeamento de informações. Então, assim, você está estudando um determinado conteúdo e pensa “poxa, eu nunca mais vou usar isso”. Mas, na própria academia, no próprio curso de jornalismo, em alguns semestres adiante, você vai estudar algo que você precisa desse conhecimento que você tratou como dispensável. Então, esse processo de encadeamento é, muitas vezes, desconhecido fora da academia, fora da faculdade. Eu sou contra as pessoas que dizem que nada substitui a prática. Não, a questão não é substituir, mas agregar. Um grande profissional, como uma grande prática de microfone, de câmera, de texto, será sempre melhor com uma formação acadêmica. Sempre será melhor. Pois a formação acadêmica traz esse processo de preparação, ela dá a base, é como você construir uma gigantesca ponte sob pilastras sólidas ou uma gigantesca ponte que seja estaiada ou suspensa e sujeita ao desgaste do tempo. Ou seja, o conhecimento acadêmico é fundamental para que você tenha a capacidade de compreender a prática tal qual ela é. Claro, a prática é necessária. Mas a prática você vai obter trabalhando, exercendo a sua atividade. O conhecimento acadêmico só dentro de um curso.

VOZES DO RÁDIO – E como profissional, o senhor tem alguma dica, algum ensinamento que o senhor acha que o profissional tem que sair da faculdade sabendo?

GUSTAVO VICTORINO – O mais importante é ele entender que ele trabalha com uma ferramenta de alto poder de influência na sociedade. O tecido social é sensível à informação, a boa e a má informação. E esse é o problema. Não existem, em alguns contextos, verdades ou mentiras. Existem fatos fragmentados, que foram interpretados e transformaram numa notícia, que muitas vezes pode ser tendenciosa. Esse é o grande perigo da comunicação. O Nietzsche dizia que não existem fatos, existem interpretações. E isso se aprende na faculdade, se entendendo o processo de transmissão da informação. E essa é a maior atenção que o aluno do curso de jornalismo de veter. Por exemplo, não sei se vocês já fizeram, mas mais ou cedo mais tarde, vão acabar fazendo a experiência de ter um quadro mostrado em sala de aula. Você retira dez alunos de uma sala de aula e abre um quadro para que todos os alunos da sala de aula o vejam. Você traz um aluno de fora da sala, que vai olhar o quadro com muita atenção. Nesse momento, o quadro é escondido. Aí vai se chamar o segundo aluno e o primeiro aluno vai contar para o segundo aluno o que ele viu no quadro. Esse segundo aluno senta e chama-se um terceiro aluno, que não viu o quadro, lá de fora, e o segundo vai contar para o terceiro aluno o que viu no quadro.

VOZES  – É quase um telefone sem fio.

GUSTAVO VICTORINO – Quando o nono aluno contar para o décimo aluno o que viu no quadro, é uma monstruosidade a informação. E esse é o mecanismo de transmissão da informação no tecido social. E esse é o maior cuidado que o aluno deve ter. Primeiro a credibilidade da fonte, de onde veio a informação. Hoje em dia os blogs são especialistas em spams, em bobagens. Nesse momento político em que o Brasil vive então é um absurdo o que se lê de bobagem…

VOZES DO RÁDIO – Nas redes sociais principalmente…

GUSTAVO VICTORINO – Sim. Nas redes sociais e nos blogs se vê muita bobagem escrita. Então diria a todo o aluno de comunicação, o maior conselho que eu dou é: cuidado com a fonte. Uma grande fonte pode fazer você ter destaque e obter uma notícia, um furo maravilhoso. Mas a mesma fonte pode levar você a dar uma barrigada inesquecível.

VOZES – O senhor, com bastante experiência no rádio, mais de 40 anos, como é lidar com o ouvinte, no dia-a-dia? Você tem alguma situação engraçada, alguma história inusitada que aconteceu?

GUSTAVO VICTORINO – Nossa. Tem histórias fantásticas do rádio. São inclusive motivos de livros de vários comunicadores, as grandes barrigadas do rádio.. São fantásticas. E o programa ao vivo ele tem isso, você precisa estar preparado… Ontem [03/05/2016] acontece uma coisa fantástica. Olha, essa é quentíssima, aconteceu ontem no meu programa. Entraram as meninas, as soberanas da Expotupã, de Tupanciretã, um evento muito bonito que acontece todos os anos. E as meninas entraram no meu estúdio e os meninos da produção me passaram as folhinhas com os nomes [delas]. As meninas sentaram e eu comecei a entrevistá-las apresentando uma por uma e nenhuma era os três nomes que eu tinha na folha de papel. De alguma forma, um erro de comunicação, foi passado aos meninos da produção os nomes errados, enfim. E eu fiz aquele prólogo bonito, “vamos agora conversar com a rainha soberana, esses lindos olhos verdes, a fulana de tal”. E ela “não, essa não sou eu”. Isso aconteceu ontem. Então no rádio, na televisão, veículos em tempo real, transmissão ao vivo, é muito comum a mancada. Nessa hora é que o profissional precisa ter jogo de cintura, transformar isso em bom humor, uma tirada engraçada, pois notadamente você perder o equilíbrio emocional, se desconcertar, se mostrar irritado ou brigar com a produção, como a gente vê na televisão toda hora… Muitas vezes programas ao vivo, apresentadores se irritam, xingam a produção, botam a culpa na produção… Você sabe que o estagiário é sempre o culpado, né? Historicamente, o estagiário é o culpado. Então o que acontece? Nessa hora é que o profissional tem que mostrar uma índole na frente, mostrar bom humor, se divertir com a mancada, transformar numa brincadeira. Pois o ouvinte ou o telespectador ele percebe a insegurança do profissional. E esse talvez seja o principal fator de desequilíbrio de um profissional ao microfone ou em frente a uma câmera. A partir do momento em que ele desequilibra, o telespectador ou o ouvinte percebe. E é nessa hora em que acontecem as maiores mancadas. Por exemplo, transmissão ao vivo de rádio ou de televisão. Você faz uma pergunta aos políticos. Não tem nada nem ninguém tão despreparado para uma transmissão ao vivo quanto político sendo entrevistado. Sabe por quê? O político sabe que você está ao vivo ai você faz uma pergunta para ele e ele responde e você não tira o microfone e aí ele tenta emendar com alguma coisa. Normalmente é uma grande sacada ou uma grande besteira. Invariavelmente é a segunda hipótese.

VOZES – Me diz uma coisa, o senhor teve alguma grande dificuldade na sua carreira como radialista?

GUSTAVO VICTORINO – Tive. Eu não tenho inglês nativo, eu não estudei inglês desde jovem, desde criança. Eu fui aprender inglês depois de velho, e mesmo assim o meu inglês é absolutamente macarrônico ainda, apesar de ter morado em Chicago algum tempo. Mas o meu inglês é um inglês de conversar, de entender, de se fazer entender, enfim Se eu sentar para fazer um texto em inglês, sai um monstrengo. Pois eu não tive formação nativa, desde cedo, no inglês. Esse sempre foi uma grande dificuldade que eu tive e até hoje é uma grande dificuldade que eu tenho, embora para conversar, para entrevistar, para entender e se fazer entender, não existe nenhuma dificuldade. Mas certamente para sentar e escrever em inglês, essa uma dificuldade que eu tenho comigo até hoje. Eu diria que é uma pitadinha de relaxamento.

VOZES  – O senhor também é músico, né? O senhor tem banda, toca algum instrumento?

GUSTAVO VICTORINO – Toco, toco. Hoje é diversão, minha grande companhia é a música. Eu sempre gostei de música. Ao lado da minha paixão pelo rádio, eu sempre tive uma paixão pela música. Eu tenho uma coluna há 25 anos numa revista chamada Backstage, que é a Bíblia do mercado fonográfico brasileiro, uma publicação que tem sede lá no Rio de Janeiro, editada pela H. Sheldon.

VOZES  – Que o senhor é um dos fundadores.

GUSTAVO VICTORINO – Eu fui um dos criadores da revista e quando vim para Porto Alegre, me mantive como colunista lá. E essa ligação que eu tenho com a música, também por conta dos muitos convites que eu recebo para acompanhar festivais e eventos, escrever sobre a música. Então eu tenho na música a minha grande parceira. Eu toco vários instrumentos, eu estudei aqui em Porto Alegre no Instituto Palestrina Harmonia Funcional e lá no Rio de Janeiro estudei Arranjo e Regência na Escola Nacional de Música. Como eu disse, eu sou um maestro que nunca fui para a frente de uma orquestra.

VOZES  – Qual é o seu estilo de música favorito?

GUSTAVO VICTORINO – Gente, eu vou confessar para vocês que eu sou um apaixonado pela música visceral americana. Eu adoro jazz e blues e claro, o bom e velho rock’n’roll. Agora se aplica aí a música brasileira de qualidade, clássicos da Bossa Nova, nós temos grandes sambas… E temos a nossa música pop dos anos 80, 90 até a virada do ano 2000, é muito boa. Lulu Santos, Paralamas [do Sucesso], Jota Quest, bandas que fazem música de qualidade. Das coisas modernas que estão rodando aí, confesso a você que muito pouco me atrai.

VOZES  – Somos dois. Há três anos, aqui na Famecos, o senhor falou que é um viciado em estudar e que pretendia fazer mais um curso, só que na época o senhor ainda não sabia. O senhor já descobriu qual o próximo curso que o senhor quer fazer?

GUSTAVO VICTORINO – Olha, a minha grande frustração foi não ter feito medicina e que hoje é impraticável, pois medicina é um curso de tempo integral. Você vê que tem um componente absolutamente maluco aí: tem a área jurídica, tem ciências humanas, tem a área tecnológica e agora a área biomédica. Mas eu tinha sim vontade de fazer alguma coisa na área biomédica. Diante da impossibilidade, por conta das características do curso, hoje eu pensaria num curso como Economia ou Psicologia, que são cursos que se complementam a essa minha formação e que certamente me traria uma base interessante para ler, para ler refletir sobre uma série de coisas. Economia pela modernidade do conteúdo e Psicologia pela vontade de aprender e conhecer cada vez mais o ser humano.

VOZES  – O senhor tem algum projeto pro futuro?

GUSTAVO VICTORINO – Olha, os meus projetos pro futuro estão difíceis de se realizar. Eu tinha vontade de ter uma Lamborghini, morar na Riviera Francesa, mas estão meio complicados esse projetos… Com o tempo, a gente transforma estes projetos em propostas imediatas. Então assim, eu fiz cinco Copas do Mundo, três Olimpíadas, conheço praticamente o mundo todo, mas existem alguns lugares que eu nunca pude parar para conhecer com mais atenção. Então eu tenho vontade de viajar e conhecer alguns lugares ainda. É um projeto que faz parte do meu universo. Mas nada além disso. Eu acho que com o tempo você conquista coisas materiais suficientes para lhe dar conforto. E isso eu agradeço a Deus porque já tenho, graças ao meu trabalho. Então os meus projetos tem um cunho mais pessoal, muito mais lúdico e romântico. Não penso em ser dono de um rádio, dono de uma televisão, de um jornal, nada disso. O que eu escrevo, o que eu faço hoje, já me satisfaz como profissional. Mas, certamente, conhecer alguns lugares e algumas culturas exóticas. Esse é um desejo que não vai passar tão cedo e vai ficar comigo enquanto eu tiver saúde.

VOZES  – O radiojornalismo, apenas ele, sozinho, o senhor acha que paga as contas atualmente?

GUSTAVO VICTORINO – Depende das contas que você fizer. O radiojornalismo é, talvez, o segmento mais achatado em termos econômicos hoje. Pois ao longo do tempo, esse mecanismo, foi passando por um processo de mutação e o surgimento de novos profissionais e a falta de novos espaços foi compactando. Aí é uma lei da economia: aumenta a oferta e reduz a procura, naturalmente o preço cai. Isso está se invertendo de um tempo pra cá, exatamente por conta da web, das rádios web e de várias outras atividades ligadas ao radiojornalismo que começam a surgir. Você percebe que as notícias hoje nos grandes portais vêm em formato de texto. Mas, de algum tempo pra cá, eu diria que dois ou três anos pra cá, essas notícias começam a vir também em áudio e vídeo. O formato multimídia. E essa tendência se torna inevitável. Portanto, eu acho que o mau pagamento do radiojornalismo tende a se inverter e já está num processo de reversão. O profissional multimídia, aquele que tem um bom texto, mas também aquele que sabe falar, sabe se expressar e tem um componente visual pra a televisão, esse notadamente vai voltar a ser bem pego eu diria, que a médio prazo.

VOZES  – Para finalizar: depois de todo esse tempo de profissão, de experiência que o senhor tem, vendo tantas mudanças e fatos acontecendo no jornalismo, o senhor acha que vale a pena trabalhar como jornalista? O senhor indicaria essa profissão para alguém que está saindo do Ensino Médio e quer fazer faculdade de jornalismo?

GUSTAVO VICTORINO – Sim. Eu faria tudo de novo e acho que a comunicação, o rádio, o jornalismo, a informação, é um sacerdócio: a pessoa gosta daquilo, se identifica com aquilo. Eu vou falar uma coisa para você: nada será tão bem feito quanto aquilo que você fizer com prazer. Quem gosta de comunicação, quem gosta de trabalhar com a informação, deve sim seguir essa profissão. É uma profissão digna, que tem coisas boas, que tem coisas ruins, que tem percalços, mas que é um profissão que representa a ocupação de um espaço no futuro, onde a informação, por mais veloz que seja, sempre vai depender de um profissional que está atrás da tela de um computador, de um microfone de rádio ou de uma câmera de televisão.