Arthur de FariaEntrevista

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Entrevista gravada nos estúdios da Famecos PUCRS em 5 de outubro de 2010

Pergunta – Por favor, seu nome completo e data de nascimento?

Arthur de Faria - Arthur de Faria Silva, nascido em 14/12/1968, em Porto Alegre.

Pergunta - Como foi o teu primeiro contato com o rádio?

AF - Na minha casa tinha algo bem particular que não se ouvia rádio, se ouvia disco. Isso dá um diferencial bem interessante na formação de uma pessoa porque tu escolhe o que tu vai escutar. Então assim, a única coisa que eu me lembro assim de infância, de começo de adolescência era o programa que os Discocuecas tinham, que era um programa de humor. Primeiro na Rádio Continental, no final da década de 70, quando eu tinha dez anos. E depois eu acho que na Rádio Gaúcha, eles continuaram fazendo na Rádio Gaúcha. Mas era a única coisa que me fazia ligar o rádio pra ouvir. Nunca fui muito ouvinte de rádio. Depois na época da faculdade, quando eu tava fazendo a Famecos, era a época que eu ouvia a Ipanema muito. Mas nunca fui um cara ligado em rádio, como os caras que trabalham comigo, por exemplo, que brincavam de rádio desde pequeno, que ouviam rádio, ouviam futebol, essas coisas. Nunca fez parte da minha…

Pergunta - Da tua história?

AF - É, da minha história, da minha formação.

Pergunta - E em que momento começou esse interesse por rádio e jornalismo?

AF - Em jornalismo na verdade. Começou esse interesse no terceiro ano do segundo grau, porque eu tinha uma professora de português muito bacana, e ela começou a me botar pilha pra fazer jornalismo. Por que assim, desde os doze, treze anos eu sabia que o que eu queria ser: músico. E eu sabia também que eu queria fazer a música que eu era a fim de fazer. E a música que eu já era a fim de fazer naquela época, por que eu via os caras que eram meus referenciais que enfim, não faziam muito sucesso e que não tinham muita grana e então que, se eu fosse só fazer a música que eu gostasse eu teria que ter uma outra profissão. Até o terceiro ano do segundo grau essa profissão era bioquímica, por que eu adorava bioquímica. Eu estava sempre enfiado no laboratório do hospital. Morava em Gravataí, do lado do hospital. Aí essa professora me fez mudar de idéia para fazer jornalismo. E foi assim, no último instante, aqui na PUC, na hora de escolher o vestibular fui para jornalismo. E aí comecei a me encantar ao longo da faculdade com a coisa do jornalismo escrito. Uma coisa que eu sempre gostei foi o texto, sempre gostei de escrever e sempre gostei de ler. E é uma história que eu já contei aqui. Eu não tinha menor interesse em rádio, nem em televisão. Aí eu tinha uma colega que gostava disso e aí a gente sempre fazia os trabalhos em grupo. Eu fazia os trabalhos de redação para ela e ela fazia os trabalhos de rádio para mim. Não era algo que me seduzisse. Nunca imaginei mesmo depois que terminei a faculdade trabalhar em rádio. Aí fui trabalhar em jornal. Fui trabalhar na Zero Hora, que na época tava estreando um caderno de bairro, que era o ZH Zona Norte. Fazia de tudo, o que foi uma puta escola. Fazia geral, cultura, polícia, tudo e fiquei três anos lá. Aí fiquei desempregado, fui pra rua. Tabalhei um tempo numa sucursal que a Veja tinha aqui. Aí um dia, eu ainda era jovem, mas tinha família, tava vendendo curso de inglês de porta em porta, me liga o Mauro Borba, do nada. Eu o conhecia, sabia que era o cara da rádio Ipanema. Ele me disse que estava montando uma rádio, ia dirigir outra rádio e que a Kátia Suman tinha me sugerido para ele. Porque a Kátia me conhecia como artista, já tinha me entrevistado muitas vezes, sabia que quando eu começo a falar não paro. E sabia que eu era formado em jornalismo e que nunca tinha trabalhado em rádio. Então o Mauro resolveu fazer um teste pra ver como que era a história. Isso há 17 anos atrás. Aí fiz teste para locutor, obviamente rodei, não tinha a menor noção de como se fazia a coisa. Mas tinha uma vaga também para jornalista. Aí fiquei trabalhando na rádio como jornalista e aí foi indo, assim. Eu só tive um emprego em rádio na minha vida inteira. E eu me lembro muito da minha surpresa e comentando com os meus amigos dizendo “gente, eu vou ser DJ de uma FM. Isso é muito bizarro”. Todo mundo achava muito engraçado isso. Na verdade de DJ, de botar música e ficar comentando eu fiz muito pouco tempo, fiz uns dois anos só. O resto do tempo foi fazendo outras coisas.

Pergunta - Mas essa tua habilidade de comunicação, de falar, já vem desde criança?

AF - É, a gente desenvolve muito no rádio. O que eu mais aprendi num primeiro momento quando fui trabalhar em rádio, é a escrever curto. A ter a capacidade de síntese, hoje é fácil porque a pessoa já se disciplina com o twitter, mas isso era muito difícil pois eu vinha da Zero Hora, de escrever textos muito longos, na época podia  isso, na época tinha muito mais espaço do que tem hoje qualquer jornal, então fazia matéria de duas ou três páginas porque também fazia não só no caderno ZH Zona norte mas também fazia matéria para outras editorias, e isso foi diminuindo, mas enfim eu cheguei. Escrever um texto de onze linhas é um negócio que eu nunca tinha feito na vida. Este era o padrão de quando eu entrei no rádio. Foi uma disciplina grande e foi muito trabalhoso. Foram três anos e com o Mauro no meu pé dizendo: “ ainda tem muito, tem que focar, não é assim’.  O Vitor Hugo não escreve assim , porque o Mauro vinha da Ipanema  onde tem o melhor redator  de FM gaúcho do mundo que é o Vitor Hugo. E aí até ter uma disciplina de conseguir escrever em onze linhas  que até hoje é difícil, bom quando eu comecei a escrever no twitter  aquela coisa insuportável de escrever cinco ou seis , sete post para contar alguma coisa, aí fui conseguindo resumir. Mas tem essa coisa mesmo de, eu acho que o rádio me ajudou  nessa coisa de texto, acho que meu texto melhorou também depois que eu comecei a trabalhar em rádio por causa dessa coisa da síntese, de menos firula. A coisa de falar acho um pouco disso mas muito de palco também. Meu primeiro show eu fiz aos 13 anos de idade e quando eu comecei a trabalhar em rádio, eu tinha 23, então eu já tinha dez anos de experiência de palco. Então você tem que se virar, tu tens que ser enterteiner , tem que falar com as pessoas, tem ocupar os espaços vazios quando o cara está afinando a guitarra, tu tens que falar alguma coisa, então esse tipo de coisa te dá uma certa cancha, e claro o programa Cafezinho, nesses anos todos, nestas coisas de tu fazer um programa 100% improvisado  de uma hora, uma hora e meia, isso é para fortes , assim tu acaba pegando uma cancha de preencher todos os espaços vazios, eu não posso ver um silêncio, que eu preencho.

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Pergunta - E como é que começou o Cafezinho, já que tu entrou nesse assunto?
AF - O Cafezinho foi completamente por acaso, muita coisa na minha vida aconteceu por acaso, eu gosto muito daquela frase da música dos Titãs que diz que o acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído. Muitas coisas na minha vida, o próprio fato de eu trabalhar em rádio aconteceu por acaso, e o cafezinho também aconteceu completamente por acaso, porque um dia a gente estava almoçando, até hoje a gente almoça junto, não todo o mundo, mas vários da equipe da rádio, e o papo estava bom, a gente estava se divertindo, dizendo merda e tal, aí o Mauro sugeriu: “ bah, vamos entrar no ar e continuar falando o que nós estamos falando aqui”. Era uma da tarde, a gente almoçava ao meio dia, aí a gente fez no dia, fez dia seguinte, foi legal e no terceiro dia as pessoas começaram a mandar fax, que era o meio de comunicação da época. O negócio foi engrenando, acho que levou uns dez dias para o programa ter um nome e para definir exatamente o que a gente ia fazer e tal, foi completamente por acaso.  Houve um programa matinal que se chamava Café Expresso que eu fazia com uns dos caras que começou fazendo o Cafezinho que é o Celso Garavello , que também era um programa de papo, de pegação de pé  e também de notícias, que agente fez juntos durante um tempo, mas não tinha um modelo. Na época já existia por exemplo o Programa X, mas eu nunca tinha ouvido e eu acho que a Jovem Pan tivesse, eu não sei e, obviamente, o Sala de Redação que também não tinha ouvido mas sabia que existia  e o que era. Eu sei que para o Mauro, o Sala de Redação é um referencial importante. Talvez eu seja o único gaúcho que nunca ouviu o Sala de Redação, pois ele é exatamente no mesma hora que o Cafezinho. Eu estou nesses 17 anos no Cafezinho e a gente nunca imaginou que pudesse durar como durou e como está durando 12, 13 anos eu acho. A gente achou que era coisa de dois, três anos  no máximo, e a coisa de ir trocando também. Mas conseguir manter o programa de pé, manter a química, manter o interesse, e isto é o mais difícil, é a gente manter o interesse no negócio.

Pergunta - E essa tua mudança assim, tu já falou do texto, mas também do jornalismo Zero Hora e trabalhou na Veja. De manter um foco mais noticioso e passar para o FM, como é esta mudança?

AF - É difícil… Eu acho. Há muito tempo que eu pensava isso, quem ouve FM quer ouvir música, não quer ouvir notícia, né? Agora com essa história de 3, 4 anos com essa mudança toda de como as pessoas ouvem música, isso está revertendo. Tanto, que as AM estão indo para o FM até porque é o que pega no aparelho portátil. No celular e tal. Mas, eu não acho que exista jornalismo no FM a não ser as AM que estão na FM. Não acho que exista. Não acho que Ctrl C e Ctrl V que é o que basicamente o que a gente faz, copiar e reescrever notícia catada em site, não acho que seja jornalismo, reportagem certamente não. As rádios FM tem unidades móveis mais para atender ao departamento comercial do que fazer reportagem, isso faz parte do negócio e tal. Então não acho que seja nem compatível assim. Não acho o que eu faça seja jornalismo, tanto que eu troquei de sindicato. Pra mim foi muito simbólico. Passei dos jornalistas para os radialistas. Foi complicado na época pensar nisso, mas agora eu to acostumado. Mas acho mais coerente. Até acho que jornalismo mesmo é reportagem entendeu? Quer dizer tem todas as outras funções. Eu trabalhei com gente muito puro sangue, realmente muito talentosa. Eu sabia que nunca ia atingir o nível dos caras. Era uma geração muito competente e,  até hoje, são os grandes repórteres da Zero Hora que estão entre os grandes repórteres do país. O Nilson Mariano é um deles, todos eles lançaram um livro juntos. Os bastidores da ditadura. O Humberto Trezzi entrou comigo, o Mariano, já era veterano. O Marcelo Rech foi fazer outra coisa, mas que é outro excelente repórter e o Carlos Wagner que é o melhor de todos. E a Eliane Brum com quem eu fui casado inclusive. A Eliane é uma ótima repórter. Então, essa história de tu viver como esses caras, assim, pô, isso é jornalismo. Tu não tem nem coragem de dizer que copiando uma notícia do U2  e botando numa linguagem de 11 linhas para que pareça que seja coloquial seja jornalismo, isso é outra coisa, isso é…

Pergunta - Tu achas que a tua fluência no FM seja mais pela tua facilidade de articular tua comunicação, não tanto pelo jornalismo?
AF - Eu acho que foi mais pelo acaso mesmo. Acho que foi acaso. Foi absolutamente o acaso mesmo. E claro, e aí nesses anos todos , uma coisa de sempre ter tido muita liberdade em todos os sentidos digamos assim. Tirando coisas óbvias assim, né, porque sempre tem que lembrar que a rádio é uma rádio luterana, então tu não vai falar contra os pastores luteranos ou contra a igreja luterana ou qualquer coisa assim. Mas assim, nunca teve nenhuma restrição política, todo mundo sempre soube, dentro do período em que pode falar, em quem que eu iria votar. A gente sempre falou que tratava qualquer assunto. Nunca houve qualquer espécie de patrulhamento. Ah! Tem uma outra coisa óbvia que tu não pode falar mal de nenhum anunciante, coisa que várias vezes eu fiz. Tem histórias espetaculares, mas não só eu vários outros fizeram também, até vira piada na história. Mas sempre houve uma liberdade muito grande para isso. Para falar o que pensa, eu nunca precisei dizer que eu acho a Claudia Leite sensacional. Então eu sempre tive certo alvará de soltura. Claro que tu vais conseguindo com o tempo, né? E outra coisa, também, sempre muita liberdade para poder fazer minhas coisas com música, para poder viajar, etc. Sempre foi um trato muito claro entre eu e o Mauro, que é meu chefe. Usando sempre o bom senso. Mas eu nunca deixei de fazer um show importante ou uma coisa assim porque eu já tinha esgotado meus 30 dias de férias. Sempre deu pra conciliar.

Pergunta - Conta uma das gafes pra gente.

AF - Ah! A mais sensacional foi quando o Nacional 24 horas foi patrocinar o Cafezinho. e aí pô, era o Nacional 24 horas, todo mundo dizendo: “ ah o Nacional 24 horas que legal o atendimento é bacana,é um supermercado de luxo.” Daí eu disse: “Pois é o Nacional 24h é tão legal que parece Zaffari”. Arruinei toda a campanha dos caras.

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Pergunta: O Cafezinho sofreu fortes mudanças com a saída de alguns integrantes, como foi o processo de mudança com a saída desses integrantes?

AF – Sempre é difícil  reacomodar a carroça depois né? De quem eu sinto mais falta é o Eron Dalmolin, hoje na Ipanema. Pra mim ele é o maior cara que já passou pelo Cafezinho. Nesses dias eu estava falando pro Mauro Borba, diretor da Pop Rock: “O Eron é o maior cara que já passou pelo Cafezinho incluindo eu e tu”. O Mauro não gostou muito desse comentário. Mas o Eron foi convidado para um negócio irrecusável que era dirigir a Ipanema. Ele é um cara super “rockeiro”. Então ele realmente se incomodava por não estar tocando rock. Era um grande colega, um cara muito bom de trabalhar, um cara que é muito engraçado e tem muita informação, que eu acho que é a síntese mais difícil de encontrar no Cafezinho considerando todas as pessoas que passaram por lá:  é o cara ter duas características: ter  informação e ser engraçado. Ele tinha os personagens dele, e os personagens tinham texto, e a gente podia fazer uma discussão. Ele é um cara muito atento, ele estava sempre atento no que os outros estavam falando, e isso talvez seja o mais difícil, por que é uma merda, as vezes se tu não está atento o programa não rola, ai tem uma reunião no intervalo “Gente vamos prestar atenção nos outros”. Daí dura uns dois três dias e o cara volta a ficar disperso, um outro catando coisa na internet, isso acontece também por essa coisa ser anárquica, todo mundo tem um pouco de material para fazer o programa, mas é muito improvisado, e ao mesmo tempo não daria pra gente tentar engessar, tipo agora tem o bloco tal que fala disso, o outro daquilo. Não dá, a única coisa que funcionou, foi o negócio do esporte no intervalo. Todo resto que a gente pensou que não ia rolar, por que justamente o que é legal é essa anarquia, é essa coisa não planejada.

Pergunta - Como foi levar a Máquina do Cafezinho aos estádios, como foi esse começo?

AF - Isso eu não sei muito bem. O que eu mais sei é que foi muito difícil eu  entrar, foram longas negociações para eu não fazer a máquina. Eu não queria de jeito nenhum, de jeito nenhum. Foi uma grande discussão, e consegui não fazer. Mas foi uma idéia do Tadeu Malta. A ideia dele era ter toda equipe do Cafezinho fazendo a transmissão. E o Ramiro Ruschel que se revelou um excelente narrador, tanto o quanto eu posso avaliar o que é um narrador.

Pergunta – Você odeia futebol, né?

AF – O meu desinteresse é maior do que a minha ignorância, eu acho um negócio muito chato. Eu não tenho o menor interesse em futebol. Eu não gosto, nunca gostei, nunca acompanhei, mas mais do que isso é até engraçado por que eu fui uma vez, eu combinei que eu iria uma ou duas vezes. Fui duas. Na primeira foi muito engraçado por que eu estava entrando, e a primeira pessoa que eu encontrei foi o professor Ruy Carlos Ostermann da Rádio Gaúcha, que eu conheço muito de muito tempo, por causa do programa Gaúcha Entrevista. Eu sou sócio remido do programa por que já fui lá quinze vezes. Até apresentei o programa uma vez por que ele não podia. O Ruy sabe que eu não entendo nada de futebol e ele disse pra mim: “mas o que tu estás fazendo aqui?”, e eu digo: “Ah pois é, vim pra cá e me botaram para comentar arbitragem, que conselho que tu me dá professor, o que eu faço? E ele respondeu: “discorda sempre que o pessoal vai achar que tu entende” . Então eu passei o tempo inteiro discordando da arbitragem. Acho que seja divertido mas a coisa principal era que eu já trabalho muito. Uma coisa que eu conquistei já há alguns anos foi a de não trabalhar nos fins de semana, o que é muito difícil pra radialista. Então ia ter mais um negócio na noite durante a semana e final de semana também. Eu não queria isso de jeito nenhum e a família também não queria e eu consegui não fazer. A gente pensa, obviamente eu ia ganhar mais , mas tem coisas na vida que vale mais a pena a gente não fazer. O dinheiro não é a coisa mais importante. Bom, ninguém estaria fazendo jornalismo se achasse que dinheiro é a coisa mais importante.

Pergunta – Qual seria o motivo do sucesso do Cafezinho até hoje?

AF – Eu acho que seria a verdade. Como a gente é muito íntimo, todo mundo se conhece muito bem, a gente almoça todo dia junto, mas fora não somos de nos encontrar, mas a gente se conhece muito bem. Já passamos por muitos problemas, todo mundo conhece a família, filhos um do outro. Então, não tem como tu querer bancar uma pessoa que tu não é. Eu acho essa a coisa mais difícil e mais rara. Eu vejo isto cada vez menos, na mídia, no jornal, na TV nem se fala. O meio TV é o rei das aparências. Rádio também, ninguém é aquilo que é. Ninguém quer mostrar o que realmente é, ninguém quer expor fragilidades. Todo mundo quer ser politicamente correto, porque isso gera polêmica e o cara paga de bacana. Então, o que me faria escutar o programa, se eu não o fizesse, seria ver que, dentro da medida da exposição, todo mundo é o que é. E isto me deixa estarrecido, eu parei de ver televisão, porque eu lembro que isto foi me causando um mal físico. Tu vais vendo que tudo é mentira, desde o que ela está redigindo, o que ela escreveu, desde a intenção que tem por trás do que ela está dizendo. Tudo é tão falso. O cenário, até essa praga de dez anos prá cá de repórter participativo. Essa falta de isenção que se tem da coisa, isso tudo me incomoda  mesmo. E no rádio também, muito. Essa coisa da verdade, que muitas vezes nos expõe ao ridículo, e chega a irritar, por que se pega no pé mesmo, é isto que mantém a coisa verdadeira.

Pergunta - Tu achas que estes programas de mesa redonda, onde tu consegues conversar com a pessoa expõe mais a verdade do jornalista no rádio?

AF – Eu fico sabendo que no Sala de Redação o Rui e o Sant´anna se pegaram. Obviamente que se os caras realmente se pegaram, tem verdade nisso. Ali ninguém está representado nada. Não é a toa que o programa tem uma enormidade de tempo no ar. Eu acho que isto é uma coisa que está faltando muito na mídia. Acho bem complicado.

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Pergunta - Desde que tu entraste no rádio até hoje, o que tu podes relatar de mudanças?

AF - Eu só tive um emprego no rádio, que é na Pop Rock e várias vezes fui convidado para sair de lá. Eu acho que a grande questão é que a partir de 2008 as pessoas estão deixando de ouvir FM. Se a gente pega os números do Ibope, a cada mês diminui o número de ouvintes de FM, de uma forma muito mais rápida do que se imaginava. Acho que a FM vai virar LP, vai virar uma coisa de culto para pouquíssima gente e a tendência é segmentar. Mas cada dia faz menos sentido tu ter uma rádio para escutar música.

Pergunta - Tu achas que o Cafezinho vai virar um podcast?

AF - Muita gente acha que sim. O problema é como ganhar dinheiro com isso, tem muita gente que sabe, mas enfim. Essa coisa de internet lá da rádio tinha que ser melhor. Mas eu acho que o que sobrevive, é a tendência, é a fala. É tu ligares o radio para escutar as pessoas dizendo coisas ou que vão te divertir ou que vão te informar. Por isso as rádios AM não estão caindo, mas estão migrando para FM. Mas as FM estão possivelmente condenadas a ficar uma coisa muito de segmento.

Pergunta - E um fato que tenha acontecido com algum ouvinte que tenha dado algum problema para a rádio.

AF - Ah, no começo da rádio, no começo do Cafezinho, tinha muito a coisa da transferência, e depois isso milagrosamente foi sumindo. Muita gente. Ah, desde a guria em crise de 15 anos que ficava te ligando, ai ligava a mãe dela, ai ligava o pai, até gente psicopata seguindo locutor por paixão e tal, tem muito disso. Num primeiro momento o Cafezinho teve um êxito muito grande muito rapidamente. Foi difícil administrar isso nesse sentido, assim, de muita energia que as pessoas colocam em ti. Eu acho que agora, com a coisa da internet, do torpedo, isso deu uma certa distância, mais saudável, mas no começo era muito próximo, as pessoas conseguiam o telefone da tua mesa e  isso não acontece mais. Curiosamente…de repente tu atendia o telefone era um cara que queria conversar contigo porque ele estava deprimido e ia se matar. Isso aconteceu várias vezes. E uma guria adolescente, ou então outro que queria saber se casava ou não casava. Este  tipo de coisa, de transferir para ti uma responsabilidade que tu não queres ter. A gente só brincava com isso dizendo: agora a gente entende o Kurt Cobain, se a gente é um cocô do passarinho do Kurt Cobain, imagina este elevado a um milhão de potência, a energia, a expectativa que as pessoas botam em ti. Tu vira meio que um oráculo. Ou então aquele guri mala, espinhento, que manda umas coisas chatas. E ai o pai dele fala contigo:” bah, meu filho te adora..”. e ai tu pensa: “ tenho que aguentar, tenho que tratar bem, não pode tratar mal, porque afinal de contas, o guri não pediu pra tu entrares na casa dele”. Então, tem toda uma responsabilidade que é difícil. Ainda mais em um programa desses, que tu te expõe como tu é mesmo, que tu abre muito a guarda da tua vida.

Pergunta - Conta muita história…

AF - A gente foi aprendendo a ficar mais cauteloso com algumas coisas. Mas é um aprendizado.

Pergunta - Falando em ídolos, quem são teus ídolos, na profissão?

AF - Bah, na profissão, nenhum, cara. Nessa profissão de rádio, o Osterman talvez. É um cara que eu acho muito legal. Meus ídolos estão em outras áreas: no cinema, na literatura, na música. No jornalismo não tive.

Pergunta - Porque o jornalismo te decepcionou ou foi assim desde o começo?

AF - As duas coisas. Assim, eu tive um período de empolgação pelo jornalismo. Eu não sei se vocês tiveram aula ou vão ter aula com o Leonan.

Pergunta - Sim. Todo mundo que tem aula com o Leonan se empolga…

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AF - O Leonan devia ser processado por causa disso. Porque o Leonan te bota numa pilha e tu queres ser o maior jornalista do mundo. E foi o período em que realmente me empolguei, acreditei muito e tal. Na época da ZH foi muito bom. Eu nunca fui daqueles caras que na faculdade falavam mal da RBS depois iam trabalhar na RBS, porque acho isso uma babaquice. Acho que tu podes trabalhar bem, decentemente em qualquer lugar. Tu não vai certamente alcançar cargos de diretoria, mas tu podes trabalhar de uma forma decente em qualquer empresa. E foi muito bom lá, me senti muito jornalista. Ainda era uma época em que as redações não tinham se tornado em enfermarias totalmente. Eu entrei no mesmo mês que entrou o computador e entrou a intranet. Já tinha, em 1989, email interno. As pessoas já se falavam por mensagem, as vezes há 2 mesas de distância, coisa que já eram pré-MSN.. Mas ainda tinha aquela coisa viva de um cara gritar pro outro, falar:” fulano, qual é mesmo o nome do cara lá”. Ainda tinha umas quatro ou cinco maquinas de escrever. Tinha essa coisa mais viva que hoje quando vou lá e tal… Ah e vejo que …ou no Correio do Povo ou no Jornal do Comércio, eu vejo que, isso meio que se perdeu, assim né? Essa coisa mais viva de jornalismo mesmo, de discussão mesmo. Essa coisa, esse ambiente mais anárquico, que a gente tem lá na rádio, claro que num universo muito menor. Claro que na maior parte do tempo a gente fica sentado na frente do computador, trabalhando, preparando coisas, catando coisas.

Pergunta – Tirar sarro um com a cara do outro?

AF – É todo mundo se conhece! Cada vez que entra um novo custa a se adaptar coitado, porque se assusta um pouco com o nível de sinceridade. Mas isso tem… Ah! Então não tinha muito isso, assim nunca.  Mas pra mim um ponto, retomando o ponto, que foi crucial pra mim foi ter trabalhando na sucursal da Veja. Isso acabou com a minha fé no jornalismo total.

Pergunta – A Veja destruiu com a tua fé no jornalismo?

AF – Destruiu, acabou com a minha fé no jornalismo.

Pergunta – Por quê?

AF – Na época tinha uma Veja no Rio Grande do Sul. E editavam a revista que era a Vejinha. Então a gente fazia a matéria para a Vejinha que só circulava aqui e fazia aquelas matérias de tese da Veja… A Veja faz até hoje, ah: Os estudantes brasileiros estão não sei o que…  Aí mandam os caras de cada sucursal fazer a matéria. E pelo jeito não mudou isso até hoje. Assim aquelas coisas ligam: – “Ah fulano tu tens que achar três ou quatro pessoas que digam isso, anota ai: nanana..”.
Então é uma coisa completamente dirigida. Matéria de tese mesmo. E além do que os caras mudavam tudo que eu escrevia, inclusive nos textos assinados, inclusive colocando frases e depoimentos que não tinham sido dados. Ai toda a segunda-feira saia aquela maldita revista e eu tinha que ligar para as pessoas que eu tinha entrevistado para pedir desculpas: “Olha eu sei que tu não me disseste isso e eu também não escrevi na matéria, mas os caras botaram”.

Aguentei seis meses lá e foi o suficiente. A minha editora na época era a Thais Furtado, hoje eu acho que ela dá aula na Unisinos, ela fez o mestrado dela sobre isso. Sobre como os repórteres entregavam as matérias e como as matérias saíam, assim nesse tipo de distorção com os mais diversos interesses. Acho que a Veja é campeã de processos, mas enfim, toma os processos e é a revista mais vendida do Brasil. Então gasta menos em processos do que ganha sendo assim.
E é ridículo é visível, e não é só porque seja a Veja, eu acho que a Caros Amigos, por exemplo, faz o mesmo tipo de jornalismo, ridículo, visível, do extremo oposto. Tudo que se vê ali é ideológico não jornalístico, como na Veja. E me espanta isso assim… Que seja um negócio tão escandaloso, tão na cara e que isso passe assim… E não só na área política, na área de cultura também. As matérias da Veja, nas poucas vezes que pego pra ler pra ver que realmente não mudou. Então é assim, não basta falar mal, tem que destroçar de uma forma má e inteligentinha, que era uma coisa que se fazia muito em São Paulo em 1980. Que era aquela coisa do jornalismo Rock inteligentinho, adorar detonar não sei o que… Quanto mais malvado tu foste mais interessante tu era.
Mas que pelo amor de Deus! As pessoas vão ficando velhas e vão continuando assim. Bom, continuam assim porque vende.

Pergunta – Tocou nessa parte das noticias tendenciosas, digamos assim. No rádio FM o mito do Jabá ainda existe? Está presente com as ferramentas sociais de hoje?

AF – Cara assim: Eu sei que em São Paulo até hoje não tem nenhuma rádio, nada que toca na rádio, não pago. Mas, é aquela coisa, nunca tem como provar, mas tem várias histórias de amigos. Agora! Recentemente um amigo que tem… ele é de uma Igreja e… Enfim não é uma Igreja picareta dessas, ele é realmente cristão de uma tendência que eu não me lembro qual é, enfim, ele tem uma banda, que não é uma banda gospel, não fala em Deus, mas fala tipo… Legião Urbana assim, né? Falando coisa legal, de ser legal… Aí, levaram ele para dar entrevista numa rádio religiosa, não religiosa, mas numa rádio dessas Igrejas. O diretor chamou para uma reunião e disse: “Ah, muito legal, gostei muito da banda de vocês é o tipo de coisa que a gente precisa que não fica falando em Deus, mas fica dando a mensagem né? Que nos interessa para a religião. A gente gostou tanto da banda que a gente vai fazer 50% de desconto. Custa 150 reais cada execução. Imagina, cinco vezes por dia, cinco vezes de 150, vezes sete na semana, um mês. Quanto custa um mês para tocar no rádio. E também a gente sabe que a rádio tal cobra 40 mil por semana pra tocar na rádio. No Rio Grande do Sul isso sempre foi muito menor. E hoje isso está em extinção, não sei, porque as gravadoras estão muito falidas sem verba de marketing. Mas, por exemplo, as rádios dão nota, a Jovem Pan, por exemplo, dá nota. É verba de marketing, o cara paga tanto para tocar a música tal e recebe nota disso. A Jovem Pan especificamente, porque todos copiam a programação da Jovem Pan. Se um negócio toca na Jovem Pan, todos as outras rádios jovens vão tocar o troço. Por aí eu dou o outro lado, eu como músico, independente. E agora, depois de quatro ou cinco anos, que está se encaminhando uma proposta que está sendo discutida há quatro ou cinco anos, que começou com a ABMI, que é Associação Brasileira da Música Independente, das gravadoras independentes, que é como tu cercar isso. Porque assim, nos Estados Unidos jabá é crime e é o país mais jabazeiro do mundo. Tudo é dominado. É de lá que partem as coisas todas. Então a proposta de lei que está encaminhada, que foi feita por um grupo de estudo, um grupo de discussão que está a quatro anos nisso, é de obrigar, por exemplo, uma rádio FM a tocar não me lembro se 150 ou 200 músicas diferentes por semana, que isso pelo menos pulveriza. É a única forma de tu poder controlar. Outra proposta, que também é interessante, pois aí mexe com grana, que é de diminuir impostos de rádios que toquem mais do que, não me lembro o número, mas vai lá, 400 músicas por semana. Aí seria abatido no imposto.

Pergunta - Mas será que eles não vão falar que isso seria censura, que isto seria contra a liberdade da rádio de programação?

AF - Não sei. Isso sempre tem, a coisa política de querer usar isso partidariamente para um lado ou paro outro. Mas é muito difícil mapear esse negócio porque ninguém sabe, ninguém diz. Eu nunca vi na minha frente, mas sei de muitas histórias.

Pergunta - Quando tu entraste no rádio como era esse processo? Era mais forte?

AF - Dez anos atrás tu via por duas coisas que chegavam na gente, que não é exatamente o jabá. Era disco. As gravadoras davam discos. Hoje ninguém mais dá. É difícil. Mandam por e-mail. Mas enfim, muita gente formou sua discoteca assim, ou pior, vendiam os discos. E a coisa de viagem, de viajar pra ver um show não sei de quem. Eu nunca fui, mas acontecia muito. Ou então aquela de verba, dar não sei quantas coisas. Eu me lembro aquela clássica da lambretinha que tinha na capa de um disco do Oasis, que foi sorteada. Todas as rádios pop ganharam uma lambretinha daquelas da gravadora pra sortear entre os ouvintes. Então era aquela coisa, que dentro do conceito de rádio é: “Ah, porque isso aqui não está indo para o bolso de ninguém, tá revertendo para o ouvinte”. Mas pelo amor de Deus, isso é uma concessão pública. Não é assim. Não deveria ser assim, mas é assim, não adianta. É uma discussão, uma briga, que eu como músico muitas vezes entrei e há muito tempo  que eu digo aos meus amigos músicos e agora acabou se revelando mesmo. Essa é uma guerra perdida, a guerra pra tocar no rádio. A não ser em rádios como a FM Cultura, como a Cultura de São Paulo, emissoras não-comerciais, ou a Unisinos.

Pergunta - Até talvez a Ipanema?

AF - É tudo interesse de alguma forma. Não sei porque eu não trabalho lá. Certamente jabá, de pagar, não. Na gestão Eron, por exemplo. Não sei se havia antes ou se havia depois. E a gente sabe dos caras que pagam também, as vezes, direto na conta do cara. Não passa pela rádio. A gravadora que paga o aluguel do fulano. Enfim, isso tem. Mas é aquelas coisas que não tem como provar. A Kátia fez o trabalho de mestrado dela, eu não sei se foi aqui ou na sociologia, mas sei que foi na PUC, foi sobre isso, sobre o jabá. E ninguém fala claramente, é difícil, não consegue cercar para falar diretamente. Mas obviamente tem o interesse. E sim, todas as rádios trabalham com essa coisa do interesse. A não ser rádios que realmente não tenham preocupação com faturamento, como é o caso da Unisinos, como é o caso da FM Cultura e da Cultura de São Paulo. E que é como deveria ser tudo, como deveriam ser todas as rádios, assim, ter um perfil específico. Mas agora é tarde demais, agora nem dá tempo de isso acontecer.

Pergunta - Tu disseste que começou a tocar, a ter banda, com 13 anos de idade. Tu acha que tu te realizou quando tu conseguiu articular o jornalismo com a música também? As duas profissões juntas?

AF - É, um pouco sim. Ainda que muitas vezes até hoje eu me pegue pensando se eu tivesse um laboratório eu não estaria com mais dinheiro e muito mais livre para tocar música, mexendo com uns tubos de ensaio de vez em quando. Mas o primeiro choque de realidade foi isso. Eu sempre soube que a música que eu queria fazer não ia ser fácil. E era aquela que eu queria fazer. Mas foi um choque de realidade começar a trabalhar numa rádio e cada vez mais me dar conta que eu trabalhava tocando música e que essa rádio jamais ia tocar a música que eu faço. E, enfim, ninguém tá errado. Nem eu de fazer a música que eu faço e nem a rádio de não tocar a música que eu faço, porque são para públicos diferentes. Mas aí tu também pensa que, porra, porque tem que ser assim? Porque que na década de 70 era tão diferente? Na década de 60? Isso sem nem falar na época de ouro do rádio, anos 40 e 50, onde a melhor música que se fazia no Brasil estava no rádio. Então porque que isso foi se perdendo, né? Porque nos anos 70 a mesma rádio que tocava, em horários diferentes, o Odair José, tocava o Chico Buarque. A mesma gravadora que bancava o disco do Chico Buarque bancava o disco do Odair. E estou falando de dois caras que eu gosto, nem falando dos que não gosto. Isso foi uma coisa que começou com a monocultura nos anos 80 na verdade. A culpa primeira disso foi o rock brasileiro, assim. Culpa. Se alguém tem culpa. Foi a primeira coisa que virou monocultura. “Agora todo mundo vai tocar rock brasileiro”. Daí, logo em seguida, foi sertanejo, depois o axé, depois o pagode e o funk, com ondas de música eletrônica e tal. Mas aí se instalou essa coisa da monocultura, de todos falarem da mesma coisa. Agora está acontecendo um fenômeno de uns dois, três anos pra cá que o underground meio que virou mainstream. Que tu vê assim, por exemplo, na Globo, um programa como aquele que passa tarde da noite, mas enfim. Aquele que eles pegam um compositor e um monte de gente toca, de bandas diferentes. O Som Brasil. Assim tu vê coisas que tu não veria na Globo até pouco tempo atrás, bandas do underground, artistas não tão conhecidos. E mesmo outros programas o Altas Horas ou outros programas da mídia aberta mesmo. De começar a ter abertura para isso porque vê que o mercado cresceu muito. Porque o mercado independente hoje é responsável pela maior parte do que circula de música. Caiu muito a venda de CDs, e a venda de discos tem esse fenômeno do vinil que é bem interessante, mas ainda se vende CDs, muito menos do que vendia, mas ainda vende. Bom, tu pega pelos números do big business, das Lady Gaga da vida que vendem milhões de discos.

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Pergunta - Mas se tu fores ver no mercado brasileiro é o Gospel que vende mais. Tu acha que é por causa do nível da classe que compra isso?

AF - Não, eu acho que a música que a gente não gosta, a gente entendido como nós que estamos aqui, sempre foi a música que mais vendeu, a música que mais tocou, isso sempre foi. Isso não é um fenômeno decadentista assim. A gente fala das bandas, do Restart, se tu pega a média das bandas dos anos 80 era tão ruim quanto isso.  No cinema, agora esse filme espírita aí é o filme mais assistido do Brasil em longo tempo… então assim oh.. tem um número que sempre cito quando dou aula  de música brasileira que é de 1961. João Gilbero lançou o segundo disco dele e o Teixeirinha lançou o Coração de Luto e o segundo disco de João Gilberto que é um disco cult até hoje e que enfim… faz parte de transformar ele num artista mundial que influenciou a musica do mundo inteiro vendou 30 mil cópias, o Teixeirinha vendeu 6 milhões. Então, assim, sempre… sempre foi isso.

Pergunta - Comprar o cd por uma música só…

AF - É, é. Então assim, por exemplo, o Caetano deve ter lançado, sei lá.. 15, 20 discos até um disco dele começar vender muito. O primeiro disco dele que vendeu muito foi nos anos 90 já que vendeu 1 milhão de cópias. Até então os discos do Caetano vendiam 30-40 mil cópias. Hoje 30, 40 mil cópias é disco de ouro. Chico Buarque é a mesma coisa, Milton Nascimento a mesma coisa, esses caras… E aí o que aconteceu, investindo nisso, investindo numa carreira? Até, mais uma vez citando o Odair José, que é de um cara que eu gosto muito ele sempre dizendo isso e o Chico Buarque também diz isso: eram os discos do Odair José vendendo muito que sustentavam as produções caras dos discos do Chico. Eram artistas da mesma gravadora. E aí justamente nesse boom do rock porque foram muitas bandas que no primeiro disco venderam muito e os caras foram se dando conta “pô não precisa ficar investindo num cara se tu pode pegar uma bola da vez e dar um super gás…”  O RPM foi o primeiro exemplo claro disso né, durou 2 discos e implodiu, vendeu tudo sugava os caras ainda gastaram todo dinheiro em cocaína venderam tudo e ninguém lucrou com esse negócio.  E isso piorou agora nos anos 90 e nos anos 2000: quem dirige as gravadoras. Se tu pega assim década de 70… 60, por exemplo, as principais gravadoras do Brasil eram dirigidas por grandes músicos, grandes produtores musicais. Aloísio de Oliveira que era parceiro do Tom Jobim que era lá do bando da Lua que tocava com a Carmen Miranda grande produtor da Bossa Nova, o Radamés Gnattali grande arranjador, Braguinha que compôs as Pastorinhas. Esses eram os caras diretores de gravadoras . Ao longo da década de 70, começo da década de 80, foram entrando os caras que eram do time C da jovem guarda.  Os caras que eram músicos de estúdio foram pegando mais ainda, eram músicos. Na virada do milênio, essa coisa de usar os grandes administradores. Os caras com raciocínio de cortar custos, otimizar não sei o que e aí pega o cara que era gerente da BOMBRIL para dirigir a Warner ou sei lá o que dentro dessa lógica dos números assim  “ah esse artista aqui a gente investiu tanto e ele não deu lucro tanto,então tá tchau pra ele”. Eu não sei agora, mas dois ou três anos atrás a Universal que é uma gravadora do mundo tinha dez artistas no catálogo no Brasil: o Caetano e nove pagodes e sertanejos e tu pega um selo médio independente como sei lá Biscoito Fino tinha 30. Os caras minaram sua própria. Foi um tiro no pé… uma cagada empresarial, de logística que agora os caras tentam reverter e não tem mais como. E botam toda culpa na pirataria e a culpa não é toda da pirataria.

Pergunta – Tu que estás nesses dois lados tanto da música quanto do rádio, o que tu podes prever no futuro. Tu acha que a FM vai se manter pela música ou vai criar outras alternativas que possam inverter esse papel?

AF - Eu acho que é mais Talk Show, eu acho que o futuro é mais falado e menos musical. Ainda que eu ache, e ninguém mais ache que essa função de curadoria é uma função importante ainda, que alguns blogs fazem e que alguns caras do Twitter fazem. O Ed Mota é um cara que faz isso o tempo todo no twitter né, que aponta “olha só essa música é legal aqui, que ninguém conhece, esse outro negócio, que durante um tempo as rádios fizeram. A Ipanema fez isso durante muito tempo, a Felusp que é anterior à Pop Rock fazia isso também. Foi a primeira a tocar Pato-Fu, toda essa turma: Nação Zumbi, Chico Science, Raimundos. O Rock Gaúcho foi lançado na Ipanema nos anos 80. Mas este rock dos anos 80 a gente acompanhou muito o nascimento: era o Miranda, que andava pelo Brasil inteiro de bermuda molhada e havaiana e uma sacola cheia de fita K7, e ia nas rádios –“olha isso aqui é Raimundos, lá do não sei o que”, uma fita k7 podre, com um negócio escrito a mão, e aí botava pra tocar a Nega Jurema, isso funcionou muito e isso tinha essa função de curadoria assim, “olha só que legal isso aqui, as pessoas ouvirem rádio para ouvirem coisas novas”. Mas isso diminui muito com a internet, eu acho que perdeu muito dessa credibilidade o rádio nesse sentido assim.  E uma coisa que é assustadora nesses anos todos que eu não consigo me conformar, mas que é um fato puro, nu, cru quanto menos música tu toca, mais o Ibope sobe. Se tu fecha a rádio em TOP 40 que em várias vezes fechou, que assim só toca 40 músicas por semana são só as mesmas 40 músicas, o Ibope sobe, tu passa para 80 o Ibope vai caindo. E aí é sempre aquela coisa de manobrar o que é mais importante, se é o conceito da rádio né, porque tem que pagar as contas do departamento comercial o que vale mais, se é o Ibope ou o conceito. Sempre nessa luta de o que funciona mais.

Pergunta - Os programas que mais dão audiência são os Talk Shows como o Cafezinho?

AF - Uhum

Pergunta - Mas será que vai ter um espaço tão grande assim para que várias rádios FM fazerem o mesmo estilo de programa?

AF - Eu acho que outra coisa que tem crescido muito são as rádios religiosas. Esses dias eu me dei o trabalho de ir ouvindo rádio por rádio eu contei seis, em Porto Alegre eu não sei o número exato deve ser fácil de descobrir, mas pelo menos seis rádios ligadas a igrejas que também são os maiores vendedores de discos hoje. Os caras que botaram o filme desse espírita como o mais votado pré-candidato ao Oscar, não adiantou nada porque aí escolheram o filme do Lula. Mas enfim, essa coisa do lobby. Por isso tem tanta gente se convertendo, a Mara Maravilha, volta e meia tu descobre mais um cara que se entregou pra Jesus.

Pergunta - Voltando um pouquinho mais para a questão do rádio. Que dicas tu darias pra quem trabalha no rádio, pra quem pretende trabalhar no rádio? Rádio FM que tu tem mais convívio, o que um profissional de rádio FM precisa no mercado atual?

AF - Sorte é importante. Só essa semana, bom só no último mês perderam o emprego duas pessoas fundamentais no rádio gaúcho que é a Mary Mesari que saiu da Ipanema e a Kátia que estava com um programa lá na Gaúcha. Ela segue com o programa dela na TV Com, mas o talk show que ela tava fazendo na Itapema também dançou. Então é um mercado que tá diminuindo muito rapidamente. Os números de faturamento caem mês a mês, os números de Ibope absoluto caem mês a mês. Vai ser muito rápido isso. Eu acho que o futuro da FM é minúsculo. Acho que é mesmo essa coisa, como tem a coisa do LP vinil.  O LP vem crescendo e ressuscitando e reabrindo as fábricas de LP, por isso, é um determinado tipo de público, de um nicho que não é insignificante, assim, mas que é muito menos do que hoje. Eu acho que talvez uma coisa seria, as rádios serem muito segmentadas. Muito segmentadas dentro dos estilos, acho que isso poderia ser uma solução, mas nunca consegui convencer ninguém disso. Sempre quis fazer uma rádio mais segmentada, mas é difícil de arriscar dentro de um modelo. Até porque, tem uma coisa que a gente não falou, que eu acho muito irritante, que é a coisa de copiar uma fórmula que dá certo. Isso é muito irritante e cansativo. Não vou dizer que é uma coisa que a gente não faça na Pop Rock. Faz, mas faz pouco. Usando o exemplo direto da Atlântida, eles têm infinitamente mais audiência que a gente e a maior parte das pessoas que ouvem a Atlântida não ouve a Pop Rock, a Jovem Pan e a Cidade. Mesmo assim, qualquer coisa que a gente invente lá na rádio daqui a pouco tem igual. Só quem vai saber que tem igual são as poucas pessoas que escutam a Pop Rock e a Atlântida.  A imensa maioria das pessoas que não ouve a Pop Rock vai achar que é mais uma coisa que os caras criaram.

Pergunta - Quantas vezes a gente vê uma piada do Cafezinho com o nome do Pretinho Básico?

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AF - Isso também. Essa confusão acontece o tempo todo. Caras que manda emails comentando uma coisa de lá. Eu sei que isso acontece lá também.

Pergunta – Tu acha que o Manhã Morning Show eles já copiaram também?

AF - A gente até nem seguiu com o negócio, porque a gente fez por dois meses e daí eu já entrei de férias. Mas tem isso quando pinta uma ideia… Isso é bem irritante, principalmente porque não está na disputa. A distância é muito grande. Não tem porque fazer esse tipo de coisa. Mas, enfim, é do jogo. Outra coisa que sempre incomodou muito a mim, ao Eron e outras pessoas é que não tem porque estabelecer uma guerra. Não faz sentido e ninguém ganha com isso. Isso não agrega nada a ninguém, mas tem muita gente que acha que sim. Aquela velha história do “fale mal, mas fale”.

Pergunta - Para ti que entrou no rádio por acaso, o que é mais gratificante de trabalhar no rádiojornalismo e no rádio FM?

AF - Cara, radiojornalismo eu não sei, porque eu não acho que eu tenha feito isso alguma vez. Eu acho que o mais legal na rádio é o instantâneo. Agora que nós temos essas ferramentas imediatas… O fax já era um pouco imediato, mas essas imediatas mesmo como twitter, torpedo, etc. Tu fala uma coisa, sabe que tu disse uma bobagem e, antes mesmo de tu corrigir, o cara já mandar um torpedo te corrigindo. Essa coisa de ver que tem muita gente… Pô, a gente não sabe quase nada sobre nada. Como todo jornalista a gente é um generalista. Nós sabemos um pouquinho sobre muitas coisas e não aprofunda quase nada. Então, é impressionante, no Cafezinho a gente sempre se surpreende com isso, como tem gente especialista em quase todas as áreas. Pessoas que ouvem a gente. Desde um cara que é cirurgião mega especialista em pé até o bioquímico. E por algum motivo eles nos ouvem, mesmo que seja para nos ouvir dizendo bobagem sobre a área dele. Espero que o cara não se dê conta que se a gente diz bobagem sobre a área dele deve dizer sobre todas as áreas. Isso é o mais legal. Nenhuma outra forma de comunicação, nem televisão nem jornal, é tão instantânea e imediata. É quase como estar em palco de teatro. É quase como a diferença de teatro para cinema. É o cara a cara. Tu não estás vendo a cara do cara, mas ele está imediatamente ali te buzinando e comentando o que tu está fazendo.

Pergunta - Para fechar, o que é mais gratificante ou não na profissão de jornalista para ti?

AF - O que é menos gratificante eu acho que é essa coisa de como não se aposta muito na verdade, sabendo sempre que a verdade de cada um é a verdade de cada um. As pessoas falam muito menos a verdade, muito menos o que elas pensam, do que seria permitido. O cara não força esses limites da liberdade que tem. Qualquer criança em crescimento, eu tenho um adolescente de 12 anos em casa, faz isso e depois a gente fica adulto e não faz mais. Não vai testando o teu limite, até onde tu podes exercer a tua liberdade, até onde tu podes ser tu. Tu ficas esperando que te digam o que tu tens que ser, o que tu tens que dizer, como é que tu tens que pensar, qual é a tua opinião sobre esse assunto… E eu acho que isso é muito engessado no jornalismo em geral e especificamente em rádio e televisão mais do que no jornal. Isso é uma coisa que me adoece mesmo.

Pergunta - E o que o Gauchão tem a dizer sobre Arthur de Faria?

AF - Pior que isso só se tu me pedir “imita a loira”. O Gauchão é uma ironia, pois eu não gosto do movimento tradicionalista. Foi o acaso, mais uma vez, o acaso.