Carlos Frederico MatzenbacherEntrevista

Entrevista gravada no estúdio de rádio da FAMECOS PUCRS em 21 de outubro de 2008

P: Comece, por favor, então dizendo seu nome completo, data e o local de nascimento.

MATZ: Bom eu sou Carlos Frederico Matzenbacher, mais conhecido por Matz, porque Matzenbacher é um pouco complicado. Daí virei Matz. E nasci em 14 de julho de 1945, então nasci depois da guerra. Sou de Porto Alegre, nasci e me criei aqui. Fiz a minha formação aqui, fui estudante do Júlio de Castilhos, ginásio e científico, depois eu fiz Faculdade de Medicina. Eu me formei em 1970 na faculdade de Medicina da UFRGS. E num determinado momento da minha vida eu tinha me separado e não tinha filhos, então fui morar sozinho. E achei que a minha noite era uma noite muito mal aproveitada. Eu não tinha o que fazer. Para vocês terem uma idéia, em 1979, passava a novela Dancing Days, e terminava aquilo e não tinha o que fazer. Então, às vezes, a gente era convidado para coisas não muito edificantes, como ir para barzinhos e turma de jogos de cartas, essas coisas. Como eu tinha uma atividade médica e achava que tinha que preservar a minha figura, eu tomei uma iniciativa de fazer um vestibular. E fiquei na dúvida, porque eu gostava de escrever e fazer Jornalismo ou fazer alguma coisa ligada à Literatura, Letras, enfim. E acabei optando por Jornalismo. E fiz em segredo, ninguém sabia que eu ia fazer.

P: Boa escolha?

MATZ: Não, porque eu sabia que ia ser um mico. E para minha surpresa eu acabei sendo aprovado aqui na PUC, na FAMECOS. Eu entrei em 1979, no meio do ano, e a minha turma se formou em 1983, são oito semestres. Só que eu me formei dois semestres depois, porque eu não conseguia conciliar tudo, no meio disso eu casei de novo, tive filho, mudei de trabalho, essas coisas todas. Então, as minhas noites que eram vazias de repente já tinham nenê, já havia outras coisas para fazer. E muito trabalho. Mas me oportunizou, além dos meus colegas de turma, que ainda são os meus colegas originais. Até hoje a gente se encontra. Agora tivemos em setembro o encontro de 25 anos de formados aqui na PUC.

P: Olha, a gente não vai se ver livre um do outro.

MATZ: A gente faz um almoço. Atualmente vão mais professores que alunos, porque os professores ficaram nossos amigos e continuam sendo.

P: O Brito já era professor naquela época?

MATZ: É, mas o Brito não tem sido incluído ainda. Tem que botar ele no meio. Mas todos os professores que vão lá não são mais professores da PUC. Também tem isso. São ex-professores da PUC. É uma maneira de juntar a turma. E com isso eu acabei encontrando colegas que se formaram depois, no fim do ano de 83, porque a nossa turma foi no meio do ano e no meio do ano de 84. Eu peguei mais duas outras turmas. Aí acabei sendo colega do Juremir Machado, que eu acho que vocês conhecem bem. O Juremir era meu colega. Fui colega do Tatata (Tatata Pimentel), que também foi professor aqui um período, foram meus colegas em tempos diferentes. Fui colega do David Coimbra, que hoje tem um espaço bem grande na mídia, é bem conhecido.

Então eu fui fazer Jornalismo por uma idéia deste namoro que eu tinha com a palavra escrita. Eu gostava de ler e de escrever. Eu achava que eu tinha alguma coisa a ver com a palavra escrita.

P: Desde a sua infância?

MATZ: Sim, menino em casa, com 12,13 anos escrevia um jornal em casa. Mas não foi assim escrever uma vez ou outra, eu escrevia diariamente um jornalzinho que eu fazia ficção, inventava histórias e botava resultados de futebol, histórias de artistas de cinema, que eram como hoje são os ídolos da Globo, que fulano namorava fulana, aquela coisa toda. E eu tenho cinco cadernos escritos, escrevi mais de um ano o jornal diário. Era eu mesmo que lia outras vezes meus pais, meus irmãos. Era um exercício. No Júlio de Castilhos eu tive um jornalzinho, que eu dei o nome de Cobra. E mantive esse jornalzinho. E na faculdade de Medicina eu escrevia de novo o Cobra. Até hoje meus colegas se lembram do Cobra. E me acompanhou nos 6 anos de faculdade. Quer dizer, eu sempre tive essa ligação com a coisa do jornal. Mas quando eu me formei, eu estava muito envolvido com o trabalho na área médica e não queria saber muito, não tinha tempo. Não fui me registrar nem buscar diploma. Levei dois ou três anos para ir lá buscar o diploma e registrar o diploma de jornalismo. E isso aconteceu por ligações com o automobilismo.

P: Essa história com o automobilismo é só de fora ou de dentro do cockpit também?

MATZ: Não, não, eu fui fazer curso depois já como jornalista, porque eu achava que fazia parte da formação tu conheceres. Eu tenho curso de piloto. Nunca corri porque eu não sou louco. Mas conheço algumas coisas que eu achei que eram importantes. E fora isso tem uma loucura, eu sempre que vou – tinha uma época que eu freqüentava o círculo da Fórmula-1 – eu sempre dava um jeito de entrar na pista. Andei em Silverstone, andei em Magny-Cour Circuit (França), andei em muitas pistas, eu pegava o carro de passeio e andava até o momento de ser botado para rua.

P: “Nürburgring” também?

MATZ: Não. “Nürburgring” (Alemanha) tem um sistema que se paga 19 euros e você pode andar na antiga pista, que são 22 km. , essa é aberta ao público. Ano passado eu fui para andar. Só que eu fui com um carrinho de passeio, eu cheguei lá e os caras vão de Ferrari, os caras vão para lá, pagam e querem emoção. Pensei “não vou atrapalhar eles”, mas ainda quero fazer essa aí. Mas então voltando, eu passei um ou dois anos assim praticamente distanciado e aí teve um jornalzinho aqui em Porto Alegre, um nanico, que se chamava Esporte Motor. Eles fizeram um concurso de conhecimentos e para acertar resultados de Fórmula-1. Eu ganhei aquilo, em 1985. E eu ganhei como prêmio uma possibilidade de ir ao vivo ao grande prêmio da Fórmula-1 no Brasil, de 1986, que foi em Jacarepaguá. Mas eu já tinha ido, em 1979,83,84. Já tinha ido à África do Sul em 1983, por gostar do automobilismo. Quando o Nelson Piquet foi campeão eu fui lá, foi uma coisa meio maluca, saí de POA para ver uma corrida na África do Sul. Teve gente que disse assim: “bom, esse é de internar, sair para ver uma corrida”. Mas por coisas assim que eu fiz amizades com pessoas até hoje, que é esse pessoal da rede Globo, são amigos há mais de 20 anos. Porque quando a gente vai, a gente acaba fazendo aquela coisa da tribo, aonde é que vai jantar, alugam carro juntos. Eu fiquei muito amigo, são amigos particulares. Eu cito o Reginaldo Leme, Galvão Bueno, são pessoas que eu convivo muito. Principalmente o Reginaldo, porque ele ainda está ligado à Stock Car que é uma das categorias que eu cubro.

P: Cada um tem mais de 30 anos de automobilismo…

MATZ: Desde os anos 70 eles têm. Eles têm mais de 30 anos.

P: E você também chegou a conhecer o Ayrton Senna.

MATZ: Sim, mas isso porque a gente convivia muito. Ayrton Senna eu viajei com ele, eu era uma das pessoas que tinha acesso ao Ayrton Senna porque as coisas não são assim tão fáceis para todo mundo, neste mundo. Primeiro porque há um pouco de estrelismo e as pessoas não deixam chegar. Mas como eu era uma pessoa, naquela ocasião eu trabalhava para a Rádio Gaúcha – na verdade era uma colaboração que eu fazia – e era um período, bom, hoje é difícil de imaginar. Mas veja assim: de 1981 a l991, foram 11 temporadas, em seis vezes o campeão foi brasileiro. Houve um período no fim de 1989 a começo de 1990 que foram sete corridas seguidas que foram vencidas por pilotos brasileiros. Hoje é quase inimaginável isso. Foram duas no fim de 90 vencidas pelo Nelson Piquet, depois quatro pelo Ayrton Senna e a quinta pelo Nelson Piquet. Então havia um interesse e com isso, por exemplo, a Rádio Gaúcha montou um projeto de fazer a cobertura e eu fui como comentarista. Aliás, sobre isso eu vou voltar um pouquinho depois porque foi bastante engraçado. Foi em 86 que eu ganhei esse prêmio, que era poder assistir um GP de dentro e aí surgiu o fato seguinte: como eu sendo jornalista eu teria mais facilidade de conseguir a credencial. Então as pessoas: “ah, mas tu és jornalista”, essas coisas. Mas eu dizia “é, mas não exerço”. Então vamos conseguir para que tu vás credenciado por este jornal como um jornalista porque eles pedem um documento, não basta chegar lá. Em 1987, eu fui e descrevi para a Zero Hora o Grande Prêmio visto da arquibancada. Então eu fiz o relato de como é o Grande Prêmio, toda aquela emoção do pessoal que chega cedo, aquela história toda de todo mundo que vai ver corrida, porque a corrida no Brasil é às duas da tarde, mas as seis, sete horas da manhã tu já tens que estar lá dentro, essas coisas todas. Mas a partir de 1988 eu já comecei a ter um envolvimento maior. E esse envolvimento é muito engraçado porque eu também ainda não tinha nenhuma atividade ligada a nenhum veículo de jornalismo, mas em 1987 eu resolvi marcar as minhas férias, porque eu tinha que trabalhar também né? Eu marquei minhas férias no período em que acontecia o Grande Prêmio de Portugal e o Grande Prêmio da Espanha,que eram em fins de semanas diferentes.E em 1988 eu fui de novo. E então nós estamos naquele auge assim do duelo Senna-Piquet-Alan Prost. O Massa veio um pouco depois, já tinha, mas o forte assim era essa rivalidade Piquet e Senna e o duelo de 1988 que era entre Senna e Prost. E alguém soube, de uma televisão aí, que eu tinha ido e aí me levou lá, aquela coisa toda, para fazer uma entrevista e saber como tinha sido a corrida, quem saía para ver corrida daqui, e aí tinha fotos, aquelas coisas. E no fim de 1988, na última corrida, que foi a que o Senna ganhou do Prost e foi campeão, a Rádio Gaúcha me convidou. Eles sabiam, alguém falou “olha tem um cara que vai, conhece e tal” e eu fui. E aí foi uma coisa muito grande para o Brasil porque o Senna foi campeão, aquilo ali foi muito comemorado e tal, e no outro dia, eu não me lembro que cargo ele tinha, mas era um dos nomes importantes da Gaúcha, que na época era o Flávio Dutra, talvez vocês conheçam foi diretor da TVE e da Rádio Cultura FM, no outro dia ele me disse assim:- “pô Matzenbacker, fostes muito bem. Se tu fosses jornalista já estava contratado, pena que tu é médico”. Aí eu falei:- “olha Flávio, tem o seguinte, eu também sou jornalista”. Ele: “Ah tu tá brincando, tu não é médico?”. Eu: “-Sou, sou, mas eu sou jornalista também”. E ele respondeu:- “Então tu estás contratado para ser nosso comentarista oficial”. E na verdade aquelas coberturas eram muito feitas em cima do tubo, se via a corrida em um aparelho lá e se comentava. E sobre isso tem uma coisa muito engraçada: porque muitas pessoas pensavam que a gente ia, mas a gente ia a algumas aqui no Brasil, a não ser a partir de 1991 que a gente foi credenciada e foi para lá. E a gente cobriu 91 e 92. Mas teve uma corrida que era assim: vai, começa a corrida e tal, muita gente pensa que a gente está lá, e liga na hora que larga a corrida e liga um aparelho em que ficam os carros passando (faz barulhos de carros passando), aquela coisa, então a pessoa que ouve está… nós comentando de lá, som local… A gente nunca diz que está aqui nem diz que está lá.

P: Omite

MATZ: É, dá. Fala: “no Brasil tantas horas, em Mônaco, tantas horas”.

P: Dá uma polidinha no diamante.

MATZ: É. Só que um dia largou uma corrida e houve uma batida e os carros pararam. E aí nos falando, porque a gente não ouvia isso, isso era uma voz, um som que saía lá da técnica. E o cara saiu, foi tomar café e continuaram os carros. E alguém ligou para lá e disse assim:- “vem cá, vocês estão aí, a corrida está parada e como é que os carros continuam correndo?”. Falha nossa, falha nossa. Os carros correndo e nós não estávamos. E aí então eu tive esse envolvimento com a Rádio Gaúcha, na verdade eu era um colaborador, eu não tinha uma disponibilidade, a minha profissão ainda era a profissão médica e ai eu fui desenvolvendo algumas coisas nessa área, depois eu comecei a fazer TV, sempre nessa área do Esporte. Uma época eu fiz a Bandeirantes, 1991 e 1992. Aí eu fiz dois anos na Rádio Itapema, que tinha um programa muito interessante, eu achava uma idéia maravilhosa, chamava-se Atividade Sobre Esporte, que era sábado de tarde. A gente fazia um preview de tudo que acontecia sobre esporte menos futebol, no sábado de tarde.

P: Que ano nós estamos falando disso?

MATZ: Em 1992, 93 por aí. Então você ligava para ouvir a música e dizia assim: amanhã tem a regata tal, amanhã tem a competição de vôlei, tem o vôlei de praia. Então ele dava toda a agenda do fim de semana. E ele era muito interessante porque tinha uma produtora que fazia a montagem, então eu abria e fazia uma pergunta, gravada, e a pessoa respondia sem falar comigo. Então eu dizia:- “E aí Guilherme, o que vai acontecer este final de semana aí, no remo?” E aí o rapaz era orientado. Então eu não falava com ele nem ele comigo.

P: Mas se encaixava depois

MATZ: E terminava, e eu dizia:- “Obrigado Guilherme, um abraço, volte sempre”. Aquela coisa assim… Ficava muito bem feito. Eu nunca vi ninguém lá, porque era feito durante a semana, e era montado esse programa que eu achava muito interessante, que era o Atividade, som e esporte, que era uma agenda esportiva. Mas não se falava de futebol, porque futebol tem o seu espaço.Aí eu fui trabalhar com o Rogério Amaral. Fiquei dois anos na Guaíba com o Rogério Amaral. E mantinha a Gaúcha. As pessoas não entendiam bem como é que alguém podia trabalhar na Guaíba e na Gaúcha. Mas na verdade eu não era empregado de nenhum deles. Eu, na verdade, era um parceiro. Então, mesmo essas minhas idas para a Europa, eles me davam algumas coisas, me davam hotel. Eu tinha credencial, que era o mais importante. Sempre quando eu ia viajar, fazia um roteiro das minhas entradas. Fala ao meio-dia, fala de tarde no balanço, tal e tal. E gravava de lá. Às vezes era um pouco complicado. Hoje a gente tem mais facilidade com a comunicação. Naquele tempo, era tempo do Telex, depois veio o fax. Hoje mudou tudo, ninguém mais fala em Telex. Eu sempre tinha uma brincadeira de mau gosto, quando fazia o roteiro com Flávio Dutra, eu dizia assim: e acidente com brasileiro eu entro a qualquer hora. Sim, isso é motivo de… e foi o que aconteceu. Eu estava na França quando houve um acidente com Christian Fittipaldi, que no Brasil seriam seis horas da manhã e lá eram quatro horas da tarde. Não sei se tinha horário de verão. E aí eu entrei na Gaúcha e o cara disse: -“faz o seguinte, tu vai entrar ao vivo”. Eu entrei ao vivo e dei a notícia às seis horas da manhã no Brasil. Acidente com Christian Fittipaldi… Realmente teve fratura de vértebra, ficou muito tempo afastado.

P – Isso na Fórmula 3?

R – Não, Fórmula 1, Fórmula 1. Eu fui à corrida em que ele estreou, que foi em 1992 na África do Sul. Isso foi acho que em 92 e teve muita repercussão no Brasil. Todo mundo só entrou na hora em que as rádios começaram seus programas. Nós entramos às seis horas, então já estava dando, a Gaúcha aqui, que o acidente do Christian… demos um furo. Não era o objetivo dar um furo, mas era uma brincadeira: olha, acidente com brasileiro eu entro a qualquer hora. E depois em 94, que eu tive, digamos assim, o “desprivilégio” de dar em primeiro lugar, em primeira mão a morte do Ayrton Senna. Eu furei a Globo. A TV Globo estava enrolando. A Globo estava… naquela época era o Roberto Cabrini que era o repórter, meu amigo Roberto Cabrini, um rapaz muito humilde. Porque tem um pouco de estrelismo nisso aí, os jornalistas, as vezes, querem saber mais que os outros. O Cabrini veio muitas vezes perguntar coisas pra mim. Uma coisa de humildade. Eu gostava muito do Cabrini. Depois, a última notícia que eu soube é que ele andou aí com problema de distribuição né?

P – Sim, do atacado ao varejo.

MATZ – Aliás, quando aconteceu isso, vários jornalistas me mandaram mensagens: sabe o que aconteceu com Cabrini? Não faltou maldade nisso aí. Mas eu gostava muito do Cabrini. E aí o Cabrini estava enrolando, dizendo que tinha ido para o Hospital Maggiore de Bologna e tal. E na verdade, eu não estava lá. Estava fazendo aqui, com o Roberto Brauner narrando e eu fazendo comentário, mas aqui. Só que aí eu vi uma notícia, quer dizer, primeiro… aí funcionou o médico, porque eu era médico do pronto-socorro e tinha uma noção de como atender um politraumatizado. E eu presenciei o momento em que ele descerebrou. A descerebração é justamente quando ele relaxa. E na hora que Galvão Bueno, por desconhecimento, disse assim: olha, ele mexeu o pé. Na verdade, aquele pé mexeu porque ele parou de segurar o pé, que soltou pé. “Olha, ele está mexendo pé, ele está bem”, não, ele está descerebrado. Aí eu captei dentro de umas informações, uma história de que ele estava em coma irreversível. Eu disse bom, o que é coma irreversível? Esse cara não existe mais. Terminou aquele programa e começava um programa às onze horas com o Pedro Ernesto. E o Pedro Ernesto:- “fica aqui que tu vai falar. E aí eu disse:- ” olha, ele está em coma irreversível, ele está em morte cerebral”. Aí ele disse:-“bom, então ele morreu?”. Eu disse:-“olha,ele está com sinais vitais mantidos artificialmente, mas tecnicamente está morto. “Ele nunca mais vai voltar, nunca mais vai falar”. “Mas tu pode afirmar isso?” Aí me lembrei daquilo que a gente aprende aqui, que no outro dia tem que entrevistar o morto né?. Quando a gente mata alguém, a gente diz assim: agora tu vai lá e entrevista ele. E eu disse:- “Ayrton Senna, infelizmente é só uma questão de esperar para divulgar”. E a Globo deu às duas horas, duas e meia. E naquela semana, havia um jogo muito importante. O Brasil jogava contra um time, não sei qual, uma seleção dessas de pouca importância em Florianópolis. Um jogo que foi meio festivo.

P – Véspera da Copa Mundo. Seis a zero contra a Islândia, não foi?

MATZ – É bem possível. Foi em 1994, em primeiro de maio. Foi naquela semana, quatro ou cinco de maio. Preparatório para a Copa de Mundo, Copa de 94, Copa dos Estados Unidos.

E lá correu uma história de que a Gaúcha tinha dado em primeira mão. Todo mundo queria saber. E perguntaram lá para o pessoal da Gaúcha:- “é verdade que vocês tinham um jornalista que furou a Globo, que deu antes?” E ele disse:- “é que casualmente o nosso comentarista de automobilismo é médico”. Então eu acho que era o único comentarista do mundo que era médico. “Ele olhou e viu pelos sinais que o Senna estava numa situação irreversível”.

P – Esse foi o principal momento que tu viveste na tua trajetória?

MATZ – Eu vou dizer assim: é um momento que eu não queria viver porque é uma coisa desconfortável, até porque a gente acaba ficando amigo do pessoal.

P – Aliás, no dia anterior, o Rubinho se acidentou. E no Warm Up, de sexta-feira, morreu um italiano, se não me engano.

MATZ – Não, não. Um austríaco. O Rubinho se acidentou na 6ªfeira, dia 29. No dia 30, morreu o Ratzenberger. Um austríaco que estava começando aquele ano, num carro com pouca segurança e é, até engraçado, escrevi uma crônica depois porque o Ratzenberger, curiosamente, nasceu no dia quatro de julho. Morreu no dia 30 de abril. E eu escrevi uma crônica sobre o nascido no quatro de julho, que é em cima do filme. Eu gosto muito de fazer esses jogos com nomes que lembrem filmes ou lembrem nome de música. E aí dia primeiro de maio morre o Senna, em 1994. Não foi o principal. Eu não sei, porque foi uma coisa muito constrangedora. Eu tive convites até para ir ao enterro. Preferi não ir. Fiquei vendo silenciosamente o enterro num lugar reservado, no meu consultório. Fiquei vendo numa televisãozinha.

P – O que se falava entre vocês, jornalistas, Roberto Cabrini, Galvão? Porque depois começaram a especular que houve um boicote no carro dele e naquela curva, a Tamburello, era uma curva que provocava muito acidentes.

P – Aliás, chegou a se comentar a coordenação do Frank Williams.

P – E mais, tinha um boato de que o Senna não queria correr naquele dia, até pelo que tinha acontecido antes.

MATZ – Isso é um pouco de fantasia. Eu estive com Senna no acidente mais grave que eu vi na minha vida, que foi em 1990, em Jerez de La Frontera (Espanha), o acidente com Martin Donelly. Ele se desprendeu do carro e ficou caído na pista e custaram muito a interromper. Ficou só ele e o assento na pista, jogados. Custaram a interromper e os carros passando. E passavam do lado dele, como se tivesse um cachorro morto, desculpe a impressão. E aí eu corri, saí da sala de imprensa, e corri para o local para fotografar, e então começaram os pilotos. Alguns pilotos, como o companheiro de equipe, o Derek Warwick, chegou e disse assim, me criticando:- “sanguinário! Tu queres foto do cara aqui, tu queres sangue”. O Senna parou o carro e naquele ano, um ano antes tinha sofrido um acidente com Berger lá em Ímola. O carro pegou fogo e foi muito importante o tempo que levou o socorro a chegar. Foram menos de 20 segundos e salvaram o Berger. E aí nós voltamos caminhando, eu e o Senna. Ele estava muito estressado e me perguntou várias vezes, ele me chamava de gaúcho:-“gaúcho”, tu marcaste em quanto tempo chegou o socorro?”. E eu disse que não, que tinha vindo de correndo de lá, vi o acidente e corri da sala de imprensa pra vir para a pista. E ele perguntava:-“ mas gaúcho, tu não sabe o tempo, tu não calculas mais ou menos? ”Nós fomos caminhando até os boxes. Depois houve o treino, voltou. E o Senna marcou, naquela ocasião, a sua 50ª pole position. É um número inimaginável. Até então o maior de número de pole era de Jim Clark, 33. E o Sena fez a pole de número 50. A equipe já tinha preparado um bolo para festejar e eu apareci nessa foto nos principais jornais e revistas do mundo ao lado do Senna. Ele com o bolo e eu do lado dele, quer dizer, profissionalismo. O cara quase morreu e… Mas de noite teve uma festa da Benetton que eu fui, aliás, eram festas maravilhosas. A Benetton entrou porque ela queria fazer um estardalhaço, como hoje está fazendo a Red Bull. A Red Bull tem um projeto de marketing muito grande. Tem um lugar onde vão os pilotos, onde vão aquelas mulheres “horrorosas” e levam artistas, essas coisas todas. Então essa festa da Benetton foi muito bonita, muito interessante. E já lá estava aquele piloto que quase me empurrou, o Derek Warwick.

P – Isso em 91.

MATZ – Não. Isso foi em 90.

P – O “alemãozinho” não existia ainda?

MATZ – Não, não existia. Ele vai surgir em 1991. E casualmente, naquela festa, eu tirei uma foto ao lado do Alessandro Nanini. Depois daquela corrida, o Alessandro Nanini sofre um acidente de helicóptero e perde o braço. Hoje ele corre até com um braço mecânico corridas de turismo, não Fórmula 1. Essa foto é histórica: eu, com os dois braços, e o Alessandro Nanini com os dois braços “ainda”. Foi a última foto com ele, coitado. Foi muito interessante, eles fizeram uma festa muito bonita, inclusive uma tourada. E essa tourada eu o vi sentado ao lado do Roberto Pupo Moreno. Também a foto foi muito divulgada. Saiu muito porque fotografam os pilotos e quem é que está do lado deles? Mas tem que se lembrar o seguinte, nessa época, como eu disse, o Brasil ganhou em onze anos, seis títulos. Chegou a ter sete corridas consecutivas com vitórias de brasileiros. É que a gente acabou fazendo parte do circo. E o circo era um circo mesmo porque hoje ele está aqui em Spa-Francorchamps, daqui a duas semanas está na Hungria, daqui a duas semanas na França, e são as mesmas pessoas. Vão os pilotos, vão as pessoas aqui e vão os jornalistas. Havia, além da Rede Globo, que é notório, e não é só o Galvão e o Reginaldo Leme, sempre tem o repórter, tem o câmera, eles tinham câmera exclusiva. Quem fazia era o “Baiano”, era assediado. Esse que apresentava o Fantástico…

P – Pedro Bial.

R – Pedro Bial fez fórmula 1. Fui a algumas festas com ele, ficou um bom amigo. E havia cinco rádios que faziam para o Brasil. A Jovem Pan, que era o Nilton César; a Bandeirantes de São Paulo, que era o Edgar de Mello Filho; o Sistema Globo Excelsior, que era o Jorge de Souza; a Rádio Gaúcha, que era o Roberto Brauner que narrava e eu que comentava e uma rádio de Santos, que era o Marcelo. Havia os jornais que faziam, que mandavam seus repórteres para todas as corridas. Então, era o Globo, o Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo, a Folha de Londrina, que é um jornal, talvez o mais importante do Paraná até hoje, muito importante, e tinha o pessoal da Globo. Então, nós tínhamos assim, uns 20 profissionais. Em todas as corridas nós íamos e sentávamos mais ou menos juntos na sala de imprensa. “Onde é que vai jantar? Vai jantar aqui, vai jantar ali…” nós dividíamos hotéis. “Vai ficar em que hotel? Vamos rachar?” Aquelas coisas… Nós fizemos parte do circo por pelo menos dois anos de muita convivência. Alguns hoje ainda fazem alguma coisa. O Livio Oricchio, que naquela época fazia, imagine vocês, para um jornal chamado Shopping News. O Shopping News era um jornal distribuído gratuitamente nas portas de São Paulo aos domingos, mas ele gostava tanto disso, que ele fazia cobertura para esse jornal. Hoje ele é, não sei se ele é da Folha ou do Estadão, eu acho que ele é da Folha de São Paulo… ou do Estadão, não estou bem lembrado. Ele continua. Outro que fazia era o Flávio Gomes, que acabou parando agora, mas a turma que fazia, nós éramos uma turma muito boa, de boa convivência. Não havia muita rivalidade porque éramos de órgãos diferentes. Um que era para jornal, outro para rádio, outro para televisão, quer dizer, não havia uma concorrência direta.

P – Hoje eu acho que não existe mais investimento de botar equipe tanto quanto já foi né?

MATZ – Por quê? Primeiro porque resultado né. Nós temos que nos lembrar o seguinte, que o Brasil ficou de 1970 a 1994 sem ganhar no futebol. Então são 24 anos de jejum. E há uma necessidade de hiperativa de consumo de ídolos. Então nossos ídolos eram do automobilismo. Até hoje ouço depoimentos de como era bom acordar domingo de manhã, ouvir a música-tema da Fórmula Um, ouvir o hino brasileiro.

P – A musiquinha do Ayrton Senna ficou no nosso imaginário.

MATZ – É… Exatamente. Era uma coisa que as pessoas tinham aquele prazer e ele vendia uma imagem de moço bom, aquela coisa. A representatividade do Ayrton era tanta, que eu me lembro na época que ele morreu alguns colégios fizeram uma hora cívica.Lembro de uma menina chorando hasteando a bandeira do Brasil.

P – Eu tenho até hoje um cassete, que foi vendido a roldão com a música tema da Rede Globo, o hino nacional, uma música do Milton Nascimento…

P – Que é Amigo não é? E já passaram 14 anos

MATZ – É, já passaram 14 anos, talvez vocês fossem pré-adolescentes. Na verdade, houve uma comoção. Imediatamente, se você vai pela BR perto de Novo Hamburgo, tem o viaduto Ayton Senna. A avenida das Américas lá no Rio, uma das principais, é a Ayrton Senna. Em São Paulo, tem a Avenida Ayrton Sena e na rodovia do Trabalhador é o túnel Ayrton Senna. Quer dizer, houve uma comoção. Se você andar lá em Florianópolis, nos Ingleses, tem até a servidão Ayrton Senna. Então, ele se tornou uma personagem, ele era uma pessoa importante. E com isso era fácil de vender. Você sabe que, mandar uma equipe cobrir cada fim de semana no outro lado do mundo com passagens aéreas, hotel e o custo dos direitos de transmissão era 60 mil dólares. Então a rádio tinha que pegar isto para ter o direito de transmitir. Depois tinha a linha, pagar a linha, ficar no ar. Aquele negócio todo. Realmente era um investimento, mas havia empresas que pagavam isto. Nós tivemos aquela das bebidas do Piccinini com a Vodka Valesa e tinha a Data Control, investiram muito no automobilismo. Nós tínhamos patrocinadores que cobriam isto aí, e foi uma coisa muito interessante. Eu fiz uma entrevista muito bonita com o Ayrton Senna, que eu entreguei a fita para a Gaúcha, depois botaram futebol lá, qualquer entrevista. Eu fiz uma entrevista muito bonita com o Ayrton Senna, em 1989, já quando ele dificilmente fazia entrevistas individuais. Ele só fazia coletivas. Eu me lembro de duas perguntas que eu fiz pra ele. Uma delas eu perguntei “Quem é Ayrton Senna? Um robótico ou um romântico?” Ele riu muito e disse “não, eu não sou um robótico”, porque ele era um cara talhado pra fazer aquilo. E eu fiz uma pergunta que pouca gente sabe e eu vou dar a resposta aqui. Que talvez tenha sido publicado naquela época, há 20 anos. Eu perguntei se ele gostaria de ter um filho piloto. E ele disse que não. Que não gostaria de ser pai de um piloto. Foi uma entrevista de 1989. Mas um pouco antes do acidente, em 1994, eu tenho uma entrevista com ele, esta está gravada ainda no meu gravador pequeninho. Ele tinha passado para a Williams e a Williams estava tendo problemas de dirigibilidade. E estava surgindo o Schumacher na Benetton, isto em 1994. E aí, eu o entrevistei, e isto está gravado até hoje. Relata o seguinte:- “eles têm que resolver um problema de desconforto no cockpit. Que a direção estava batendo nas pernas dele. E, hoje, se sabe, depois destas análises todas, que foi cortada a barra da direção e foi soldado um pedaço para afastar. Então assim, houve uma falha dos metais, que foi ali que se soltaram. Esta curva do Tamburello, é uma curva engraçada, porque muitos já disseram que é uma curva reta, ou uma reta curva. Primeiro, que não tem área de escape, porque atrás passa um rio, que é o Santelmo, e não tem como afastar. Tem um rio ali e a distância é aquela. E é uma curva que se faz com um procedimento como se fosse uma reta, acelerando. Não é uma curva que se diminua, como outras curvas. Então todo mundo faz aquela curva acelerando. Se fosse uma curva normal, se faria com menos velocidade. Segundo, se simplesmente o carro, como aconteceu com ele, que quebrou a barra da direção, não teria grandes problemas. Na verdade, ele reduziu de 280 para 180/hora, ele conseguiu reduzir duas marchas e não teve nenhuma fratura o Ayrton Senna. Eu tenho as fotos aqui, foi o Ângelo Ors o fotógrafo lá, eu me dou com ele, eu tenho as fotos até hoje. Então, é o seguinte, ele não teve nenhuma fratura. O que aconteceu?. Uma conjunção de fatalidades. Primeiro, foi uma curva que se faz acelerando, não é uma curva que se faz diminuindo, a parte que quebrou, soltou a ponta de eixo e, com pneu, aquilo saiu rodando. Só que aquilo penetrou na única parte que é sem proteção, que é a viseira. A parte vulnerável. Aquela ponta entrou e perfurou o olho e destruiu o cérebro. Tinha massa encefálica solta lá, porque quando se soltou aquela flecha com aquele peso e pneu junto, ela caiu e levou massa encefálica. Quer dizer, foi uma morte instântanea a do Ayrton Senna. Não tinha como solucionar aquele problema. Tanto é que a partir do ano seguinte fizeram a chicane. Então, hoje, não tem aquela curva Tamburello, ela mudou porque não tinha como.

P – Já tinha quebrado o pé do Piquet..

MATZ – Piquet, em 1987, sofreu um acidente, o Berger, em 1988, incediou lá. 88 não, em 89 o Berguer pegou fogo lá. E sobreviveram os dois.

P – E aproveitando essa coisa toda do custo e da cobertura, hoje atualmente, tu estás no meio jornalístico? Tu estáS trabalhando?

MATZ – Em 2002 eu parei com a medicina…

P – A sua especialidade é a ginecologia/obstetrícia, né?

MATZ – É. Eu era um escravo das mulheres. A obstetrícia tem uma coisa engraçada. As pessoas acham que o obstetra é chamado depois dos 9 meses. Obstetra acompanha toda a gravidez. E, às vezes, têm umas coisas até meio canalhas. Ela vai ao dentista grávida e o ele diz “mas tu já falastes com teu médico? Eu vou te dar um remédio, mas primeiro tu pergunta para ele se pode tomar”. A grávida está com tosse, ela não vai no otorrinolaringologista, ela liga para o seu médico, seu obstetra. Então, na verdade, era uma limitação para eu fazer essas coisas que eu gostava.

P – E como era durante a faculdade?

MATZ – A faculdade era complicada, porque eu entrei com bastante tempo livre, depois comecei com outros empregos e casei de novo, tive filhos. Então quer dizer.

P – Quantos filhos?

MATZ – Naquela época em que eu era estudante, nasceu meu filho Patrick, que é formado aqui na Famecos também, só que ele é formado em publicidade e propaganda. Patrick tem 27 anos e trabalha na DCS, é publicitário. E eu tenho mais dois filhos, que são do casamento subseqüente. Uma que estuda direito e outra menina que faz vestibular este ano, talvez para design. Vamos ver o que ela vai fazer. Mas então, em 2002, em parei com a medicina pra ter mais tempo de fazer jornalismo. Eu tenho algumas atividades assim. Na verdade, eu não queria mais ser empregado de ninguém. Então isto tudo limita muito. Eu não queria patrão, eu não queria horário. Eu queria fazer o que eu gosto. Então isso é muito complicado. Hoje têm algumas coisas que você pode fazer. Eu fui diretor de duas revistas. Uma utilitário de automotivo off-road, 4X4, ela conseguiu ir até o número 52. Depois eu tive uma outra, que eu fui o jornalista responsável, a Motor Class, que foi até o número 49. O grande problema da revista é o custo. Uma edição de uma revista sai em torno de 20 mil reais. Então, você passa até o 29º dia do mês tentando viabilizar o projeto e, depois, tu tens que botar na rua de qualquer maneira. Tem que ir pra rua a revista, ela tem o prazo, tem o fechamento. E a gente vê que é muito complicado. A gente não vê muitas revistas isentas aqui no Brasil. Elas acabam sendo atreladas a outros interesses e tudo mais. Eu não vou falar destas revistas principais, a Veja, Isto É, Época, que elas têm uma tiragem expressiva, mas se vocês olharem as revistas pequenas aí o problema cresce. Nós tivemos uma revista notável, que o Brito deve se lembrar, que é a revista do Globo, que era uma revista gaúcha com circulação nacional, que era feita com extrema qualidade. E tinha na sua redaçao Érico Veríssimo, Mário Quintana…Eu já escrevi para a revista Experiência da Famecos també. Então hoje é difícil manter uma revista. Aí então eu comecei a fazer outras coisas. Fiz algumas participações de televisão e tudo mais, também dá muito trabalho para pouco retorno. E agora eu estou fazendo alguns projetos maiores. Eu tenho a colaboração com um site, que não é específico, ele é de eventos, o bbmix, mas que nós criamos ali uma parte da linha automotiva. Então eu faço testes-drives, faço lançamentos de carros, fui para o Salão do Automóvel em São Paulo. Têm três dias para imprensa, então eu produzo fotos e material lá… Vocês sabem que o site hoje, ele é muito mais visual. Ele não está preocupado muito com o conteúdo. É foto. As pessoas querem ver as fotos, olhar e fazer as suas relações ali. Não há muita preocupação com o conteúdo. Eu estou com alguns projetos maiores, que na verdade eu achei tempo para fazer e agora é o momento para fazer. Um deles que está quase pronto. O problema é que nós estamos com dificuldade de agilizar os problemas da lei, porque para conseguir a Lei Rouanet leva seis meses. E nós queremos lançar um almanaque da Fórmula-1 no fim de temporada. Mas esta corrida agora, dem 2008, em Cingapura, foi a corrida número 800. Então, em cima deste número cabalístico, 800, veio a idéia de fazer um almanaque. A próxima temporada é a de número 60, e até o Grande Prêmio de Mônaco, que foi o prêmio anterior, nós tínhamos 100 pilotos diferentes que tinham chegado em 1º na Fórmula 1. Então nós pegamos estas coisas assim. Só que o grande problema do prêmio de MÔnaco é que ele foi vencido pelo Vetel. Até então eram 101. Então, esta corrida vai se chamar 101 dálmatas. Porque ele vai fazer jogos, vai ter um pouco de humor, ser um pouco irônico. Então vai vir com os 101 pilotos que venceram, contando como foi quando venceram, quantas vezes venceram.

P – O Ricardo Patrese ganhou a 203. Eu lembro deste número não sei porque, mas… Enfim. Achei genial quando ouvi aquilo “Qual o serviço que te deixa tentar 203 vezes até tu acertar?”

MATZ – Mas isto é um número interessante. Este é o piloto que mais vezes correu até ganhar a primeira. Mas o Ricardo Patrese não foi na 203, ele ganhou antes. O piloto que mais corridas precisou para ganhar a primeira, pasmem, foi Rubens Gonçalves Barrichello. Ele levou em torno de 126 corridas. Entre os 101 pilotos que ganharam o grande prêmio, ele foi o que mais tempo levou para ganhar. Mas o Rubinho é um caso interessante, porque é o cara que mais leva pancada da imprensa e da sociedade brasileira, e é o cara que, agora, ao término do seu contrato, já tem quatro equipes disputando a contratação dele. Eu vou te responder como eu costumo responder quando me fazem esta pergunta. Eu nunca vi alguém que cobre a Fórmula Um ou que conhece a fundo, falar mal do Rubinho. O Rubinho acabou virando esta chacota do brasileiro, porque faz parte da índole do brasileiro, até de alguns veículos, como Casseta&Planeta, de criar estas coisas. Quando nós tivemos um carro Fórmula 1 brasileiro, que na verdade foi o único da América do Sul, que foi o Coopersucar, na verdade ele, o carro, era motivo de chacota, e quem o pilotava era o Emerson Fittipaldi, que tinha sido campeão do mundo e depois foi correr a Indy e ganhou a Indy também. Quer dizer, estes deboches estão muito mais pelo folclore brasileiro.

Eu acho o Rubinho muito bom caráter, isso talvez seja um problema pra ele. Porque o automobilismo é muito competitivo, ele não tem lugar para os bonzinhos. O Rubinho é muito bom caráter. Mas ele é muito bom piloto eu só acho que talvez ele não esteja mais com a agressividade necessária para pilotar, pra fazer tentativas de ultrapassagens mesmo sabendo que possa bater e tudo mais, mas é boa pessoa o Rubinho e talvez tenha até 4 equipes querendo contratá-lo.

Mas então meus projetos são: eu estou fazendo este livro que é o Almanaque que eu acho que é livro vendável porque ele é um livro que tem muitas curiosidades, muitas estatísticas. Nós estamos inventando esta que as pessoas não podem imaginar, assim, pilotos q já foram desclassificados na fórmula 1, então tem corridas que alguém é desclassificado. Teve uma corrida que o primeiro lugar foi desclassificado e normalmente sobrem terceiro para segundo, e não teve segundo lugar. São curiosidades, claro. É muita cultura inútil, mas a gente sabe que tem público para isso. E nós estamos vivendo um momento assim, que se vcs forem analisar em uma livraria, tem almanaque dos anos 70, da globo, do rock, sai agora o almanaque dos Beatles. Saiu almanaque dos seriados, de novelas, então assim dos 70, 80, 90. A gente vê que é uma literatura até de consulta, pq tu não vai ler, mas deixa ali e de vez em quando tu pega lê e dá uma olhada. Então vai ser um livro de curiosidade. Vou ter oportunidade até de colocar muitas fotos minhas inéditas, de alguns momentos que eu vivenciei lá.

P: Vai ser lançado pela editora da Terra?

M: Imagens da Terra. É uma editora que faz coisas da linha automobilismo. Já fez do automobilismo gaúcho chamado Levantando Poeira. Agora lançou o 37 anos Tarumã e eu fui revisor desta obra. Foi lançada em 2008 a história do Rally que fez 30 anos, foi o ocorrido em 1978, o maior rally até hoje da história e que foi uma dupla gaúcha que participou Foi também a Imagens da Terra que faz muitos livros desta linha aí, da linha do automobilismo.É o segundo livro que eu estou escrevendo é um livro muito interessante que até uma menina, que faz jornalismo,que ela é da Fabico, que ela está me ajudando, que é a história do Clube do Comércio de Porto Alegre. Isto tem importância porque dos anos 30 aos anos 70/80, a vida social de Porto Alegre, ou de grandes cidades, era fundamentalmente dentro dos clubes. Por exemplo, em 1958: o presidente da Itália Giovani Gronchi veio ao Brasil, então foi oferecido um banquete e onde era? Era lá no Clube do Comércio. Getúlio Vargas era presidente, nos anos da ditadura dava banquetes e onde era? Lá no Clube do Comércio. Os grandes shows, grandes bailes de debutantes e das big bandas da época. Tudo isso faz parte da história. E outro livro que estou fazendo, que é um livro de pesquisa também. E eu tenho viajado bastante. É um estudo genealógico da minha família. Veio só um Matzenbacher para o Brasil e eu comecei a me interessar também quase que acidentalmente e comecei a pesquisar. E isso é muito difícil. É muito difícil porque você tem que buscar registros de igreja, você tem que buscar registros de cartório. No ano passado eu tive uma vivência interessante. Eu fui até a Alemanha, buscar alguma coisa e acabei conseguindo fazer contato lá no instituto histórico lá na região de onde veio meu antepassado, que é lá no Fausten, e lá eu consegui toda a história dos Matzenbacher antes dele. E lá fiquei sabendo que era só uma família Matzenbacher. E é só uma, só veio uma para o Brasil. Só que o cara chega aqui, só pra vocês terem uma idéia, isso lá em 1827, casa e tem 15 filhos. Bom, os filhos homens, os 6 filhos homens, 6 que sobreviveram, dois morreram na guerra do Paraguai, os 6 são Matzenbacher, então é fácil de rastrear. Agora as 7 filhas mulheres, uma morreu e outra ficou solteira, as outras 5 casam e já não são mais Matzenbacher. Então às vezes quando eu descubro, olha a avó da tua bisavó era Matzenbacher..não, não…o máximo que ela diz é o nome do avô, né. Não ela era a fulana…mas ela casou com o fulano e tal… Então é uma parte muito difícil. Ingressei nessa parte das filhas da primeira geração, e é muito difícil pesquisar e até por que o seguinte, hoje as relações não são assim tão convencionais, antigamente os homens casavam com as mulheres e aquilo durava bastante…

P – Mas existe uma Karen Matzenbacker, né?

MATZ – Existe uma Karen Matzenbacher

P: Até queria perguntar se o senhor é parente, se já está na sua pesquisa agora.

MATZ – A Karen ficou famosa por duas razões: uma ela casou com o Jardel(jogador de futebol). Depois ela foi a única Matzenbacher que saiu na Playboy., que foi um escândalo na época. Hoje ela é casada com um jogador de Hóquei, lá de Portugal, ela voltou pra Portugal, depois de ficar um tempo aqui separada do Jardel e tarbalhou na Sport TV. E lá ela conheceu um jogador de hóquei, que lá é um esporte meio de elite e com ele ela está casada, ela casou em maio de 2008. Tem dois filhinhos, o Mario Jardel Filho e a Vitória. E o Jardel esteve aqui, foi se encontrar comigo e me ligou. Ele queria levar a atual mulher dele para consultar comigo, eu disse não Jardel, não sou mais médico. E ele está jogando no Criciúma agora. Ele estava em Porto Alegre naquela ocasião. Mas, como eu te disse, somos uma família só. Acabamos todos tendo a mesma origem.

P – Voltando ao rádio e ao automobilismo, eu me lembro que foi no ano passado, a última corrida que eu escutei pela Jovem Pan. Quais são as rádios, e se ainda tem uma rádio aqui no Brasil que faz esse trabalho que as fazias nas décadas de 80 e 90?

MATZ – Olha, eu sei que a Bandeirantes chegou a fazer um contato comigo para ver se eu tinha interesse em trabalhar com eles. Quando eu estava na Bandeirantes aqui em Porto Alegre, eu tive um programa de bastante audiência, até 97 pontos eu tinha, eu estava na TVCom. Peguei toda aquela reforma que teve na TVCom, naquela época que foi a Tânia Carvalho, foi o Tatata, né, que está com esse desenho que tem hoje, há 11 anos. A TVCom mudou, e me chamaram para fazer automobilismo e eu não era contratado, eu ia lá fazer e no domingo a noite tinha um programa, o Bate Bola. É o Pedro Ernesto que apresenta e eu participava quando tinha corrida, a TV tinha transmitido e eu participava. Foi na época em que o Marsíglia tinha sido contratado. Estava o Marsiglia lá. Então eu estava fazendo a TVCom em 1997 e me ligaram da Band, para fazer um programa de automobilismo. Tinha uma pessoa que fazia, ela tinha saído e tinha um buraco. E a Band também estava terceirizada, a Band também é terceirizada hoje. E eu me lembro que quem me indicou foi o Cláudio Cabral, meu amigo. Convivemos na Gaúcha uma época e ele disse:-“Ah, Matzenbacker, no automobilismo é tu quem sabe mais, tu vai fazer o programa”. E aí eu fui fazer e eu fiz um programa até 2000, eu fiz um programa chamado Pit Stop, com codinome Automobilismo Com Estilo, que eu mantive em 3 anos.E aí eu me envolvi num projeto político, eu fui candidato e aí eu tive que me afastar e na verdade eu fui bem sucedido, eu fiquei como suplente, assumi algumas vezes aí como interino.Era o Partido Progressista. Bom, hoje falar em partido é complicado. É tudo meio misturado. Quando eu entrei as coisas eram bem divididas, hoje não.Eu fui duas vezes: fui terceiro suplente, depois segundo suplente e aí eu tive que sair por causa da lei eleitoral. Voltando, aí pensei assim, olha aqui ó, todos os sábados, você vai lá, faz um programa, e aí você acaba comprometendo o final de semana. E você fazer um programa, além de você ter que ter responsabilidade pelo que você diz e você tem que ter pauta, tem que preparar o programa, você não pode chegar lá abrir o microfone e não estar com convidados com as notícias e tudo mais. Então optei por parar.

P- Você tem um outro assunto relacionado à Famecos e à PUC…

MATZ – Eu quero contar uma história que eu comecei ali fora e não contei da nossa vivência com a PUC aqui. A gente sempre se encontrava, na época da formatura. Isto foi, parece, em 11 de agosto de 1973. Alguém ligava, “ah! Vamos para uma pizzaria, isso ou aquilo”. Bom, quando chegou a 20, em 2003, coube a mim organizar. E eu organizei um almoço aqui no Panorâmico, que é muito bom ali e tal, nós reservamos um local específico e ficamos lá. Eu tive a idéia de plantar uma árvore e não imaginei que ia ser tão complicado plantar essa árvore.

P – Foi mais fácil ter um filho e escrever um livro?

MATZ – Exatamente! A coisa foi assim: nós queríamos aqui na frente do bar, ali naquela área e fizeram na lateral quase nos fundos do prédio 7. Está lá, com cinco anos. Mas lá pelas tantas eles acharam que “mas vem cá vocês querem plantar uma árvore, que história é essa?” E eu digo não, nós queremos representar os nossos laços, as nossas raízes. E agora quando a gente se reencontrou, em agosto teve reencontro. Então vieram aqui os colegas, poucos, mas os remanescentes, vieram alguns professores e depois de a gente almoçar, a gente foi visitar a árvore.Então quer dizer o seguinte: pra mim foi muito importante a Famecos por que na Famecos eu já não era um menino, eu já era um homem maduro eu tinha uma profissão uma responsabilidade e eu era um pouco bombeiro, a minha vida já estava começando a se encaminhar para um momento mais calmo, pq eu tinha vivido todo aquele período da efervescência das limitações quando eu era estudante de medicina. Eu fui estudante de medicina de 65 a 70 e coincidiu com o período da ditadura militar. E quando eu cheguei aqui, ainda o presidente era o João Fiqueiredo, e aí a Puc me transformou de bombeiro a incendiário de novo. E agora vamos arejando novas idéias. E foi muito bom eu ter sido um aluno não tão menino, um aluno mais maduro e consegui concluir o curso e me dá uma profissão que hoje eu faço muito mais pelo prazer no exercício da profissão e de ter formado laços de amigos até hoje.

Agora volta e meia eu sou procurado, agora eu fui procurado por alunos para falar sobre o clube, eu já estou um especialista em Clube do Comércio. Fui procurado no fim do semestre passado por um aluno de jornalismos que está fazendo o trabalho de conclusão sobre automobilismo e eu presenteei ele com o meu trabalho de conclusão, que também foi de automobilismo na mídia. Então essas coisas assim de poder servir aos alunos como vocês e volta e meia ser requisitado me dá muito prazer. Então eu queria dizer para vocês muito obrigado por terem me convidado pra vir aqui.

P – Deixa o endereço do blog aí…

MATZ – O blog do Matz. se alguém colocar no Google “blog do matz”, ele vai dar o link direto. Na verdade o blog é um exercício de escrever as coisas que eu gosto assim, na verdade não tem muito compromisso.

P – Muito obrigado.