Domingos MartinsEntrevista Completa

Entrevista inicial realizada em 2004 e atualizada pela acadêmica de Jornalismo Laura Schneider em abril de 2016.

VOZES  – Nome completo, naturalidade e data de nascimento?

DOMINGOS – Domingos Martins Sobrinho. Nasci em 20 de março de 1952 em Santa Maria.

VOZES  –  Como começou sua vida no rádio?

DOMINGOS – Eu acho que essa história de quem é radialista tem esta profissão no sangue vem desde a época em que era guri, de ser gente, ser piá. Quando tinha aqueles programas de propaganda política em Santa Maria, onde fiquei até 1974, eu brincava com os folhetos de propaganda política. Lembro de um até hoje, que dizia: “Vote em Izidro Gai e Antônio Abelin para prefeito”.

Foi assim que eu comecei, com microfones improvisados, a ter noção de que gostava de rádio. Lá pelos idos de 1970 eu “meti os peitos” e fui na Rádio Guarathan de Santa Maria, onde me candidatei a locutor. Todo mundo dizia que eu tinha a voz boa. Eu tinha, na realidade. Com 18 anos, era um guri, com a voz bem formada, mas não tinha a voz preparada para isso. Fomos, eu e um amigo meu, hoje um grande locutor, o Bira Brasil, que me apresentou para a direção da Rádio. Eu fiz um teste e comecei a trabalhar. Não me esqueço jamais desta história, porque eu o levava para fazer os programas. Apresentava um programa chamado “A tarde é sua”. Tocava músicas com o Guido Renzi – “Tanto Cara”, e com a dupla Simon and Garfunkel – “The Boxer” e “Mrs. Robinson”. Levava meus LPs, compactos duplos e simples, de músicas nacionais e internacionais, o programa ia das 14 às 17 horas. Como essa rádio na época era popular, tive um confronto. Aliás, tive que dar um jeito de derrubar meus conceitos com músicas que eu não gostava. Eu não gostava das músicas populares que tocavam na Rádio, mas o público da rádio era esse, eu tinha que fazer, mas a minha formação musical não era essa. Não existe música ruim, só cada um gosta de um tipo de música, mas a minha formação musical na época era outra, que não essa de ouvir Nelson Ned, por exemplo. Tive que começar a rodar essas músicas que não eram da minha preferência pessoal. Mas, além disso, eu rodava as músicas que eu gostava.

Houve uma passagem muito importante: eu não era funcionário, não tinha carteira assinada. Na Rádio Guarathan em 1970 eu recebia vale. Todas as sextas de tarde ou sábado de manhã eu quase derrubava a porta da casa do gerente da Rádio, que ficava no térreo do mesmo prédio da Rádio, para receber. O vale dava para ir com os amigos e colegas para a noite, aos bailes e reuniões dançantes nos clubes.

Trabalhei mais ou menos um ano na Guarathan. Em 1971, tive minha carteira assinada pela primeira vez, quando fui para a Rádio Santa Mariense, mais organizada e de nível melhor. Através do Sr. Beto Brenner eu fiz um teste que tinha uma palavra que até hoje não me esqueço. Ao invés de ler “Ohio” com a pronúncia em inglês, li “Óhio” com pronúncia em português. Foi a única palavra que eu errei.

Lá trabalhei e modifiquei, com as minhas idéias, um pouco da estrutura da Rádio Santamariense, que já tinha passado da época do seu auge, tinha outras rádios que eram o primeiro lugar de audiência em Santa Maria.

O meu sonho era a rádio mais ouvida de Santa Maria, a Medianeira. Este era o meu objetivo. A Rádio Medianeira era a mais famosa da região central do Rio Grande do Sul, e foi a precursora das rádios FMs de Santa Maria e até daqui de Porto Alegre. Muita coisa que se faz hoje e que se fazia na época foi a Medianeira quem lançou. Em 1972 fiz um teste na Medianeira e fui ser locutor da rádio mais famosa da região central. Lá, fui locutor de notícias, apresentador de programas. Realizei lá o maior sonho da minha vida: apresentar o programa mais popular e mais famoso em termos de audiência, que era o “Fim de Noite”, apresentado das 23 às 24 horas, só com músicas românticas. Tinha muito disso em 1972. Roberto Carlos, Johnny Matthis, Andy Williams, Fausto Realli, todas as musicas daquela época, italianas, francesas e brasileiras.

Eu sempre ouço tudo em rádio, AM ou FM e televisão, desde a primeira até a última do dial. A primeira do FM até a última do FM, eu sempre ouço quando tenho tempo, nunca fico parado. Isto é muito importante para saber o que os outros estão fazendo, até mesmo aquelas que a gente pré conceitua de “marca diabo”, a gente tem que ouvir pra saber se tem algum radialista bom e que a rádio possa aproveitar. Em Santa Maria eu também fazia isso.

Na Rádio Bandeirantes de São Paulo ouvi certa vez um programa com o saudoso Hélio Ribeiro, um programa com muito eco. Ele era um cara muito inteligente e fazia muita bem a tradução de músicas do inglês para o português, exclusividade dele naquela época. Ele foi tão famoso que o Chico Anísio fez uma sátira criando um personagem totalmente inspirado nele, o Roberval Taylor.

Não vamos dizer que eu copiava o que ele fazia, mas eu peguei a essência e elaborei o projeto de um programa na Rádio Medianeira de Santa Maria, fazendo a minha voz igual a do Hélio Ribeiro, com sotaque de paulista. Com o passar do tempo fui criando meu próprio estilo, do meu jeito. Mas tem uma particularidade: O programa começava às 18h05 e ia até às 19 horas. A rádio era católica, era dos padres e em todas as rádios católicas na época, às 18 horas era a “hora da prece”. Todo mundo achava que eu não teria sucesso, porque era nesta hora que todo mundo desligava o rádio. Que esperança!

Mas, modéstia à parte, fez enorme sucesso o meu programa que se chamava “Edisom Especial”. Porque Edisom? Porque era a edição de um som e o especial foi para dar um charme no programa. Quer dizer, a “edição de um som”, aí a gente fez o Edisom Especial, das 18h05 às 19 horas, todos os dias, de segunda a sexta. Eu fiquei famoso em toda a região. Desculpe novamente a falta de modéstia, mas fiquei famoso como os artistas de televisão de hoje. Era convidado para bailes de debutantes, eu era o galã da época, a celebridade da época. Na época não se dizia celebridade, se dizia galã.

Como sempre, dediquei muita atenção, dedicação, carinho e responsabilidade por tudo o que fiz e faço. Acho que esse é um dos segredos para se dar bem em qualquer profissão, não só de radialista, eu coloquei isso na pele, no sangue. O programa durou comigo, ao vivo, até 1974.

Durante esse tempo apresentei um programa com um diretor de teatro que trabalhava na rádio, era o programa “Martins, Freire e Cia Limitada”, das 10 às 12 horas. Também apresentei o programa que, no rádio, foi o antecessor do Domingão do Faustão. Ia ao ar aos domingos, das 14 às 17 horas, inicialmente. Naquela época a televisão não tinha influência, era o rádio que liderava. O programa que eu fazia era chamado de “Domingão”. A explicação desse nome: o programa era aos domingos e apresentado pelo Domingos. Nada melhor do que ser o Domingão, com músicas, variedades, entrevistas, ouvintes ao telefone e todas aquelas coisas que o rádio permitia naquela época.

Trabalhei até 1974 na Rádio Medianeira, mas com o foco já voltado para Porto Alegre. Queria vir para Porto Alegre. Eu vinha para cá visitar os parentes e pensava em me mudar. No mesmo ano fiz um teste na Rádio Guaíba, que era a melhor rádio da época. Vim para a capital no inverno de 1974. Comecei onde todos na época terminavam. A maioria das pessoas da rádio tinham entre 40, 50 anos para cima. Naquela época eram mais velhos. Hoje não me considero velho com 52 anos. Comecei a trabalhar na Rádio Guaíba. Foi muito difícil, porque era outro tipo de profissional, pessoas mais velhas do que eu. Eu era um profissional mais jovem. A locução, na época, se fazia como se faz até hoje na Rádio Guaíba, não se usava essa voz coloquial como eu estou falando aqui com vocês. Vocês não lembram, acho que nem vocês nem eram nascidas em 1974. A gente impostava a voz porque na época isso que era bonito, impostar a voz. Fiquei um ou dois anos na Guaíba.

VOZES  –  Quem eram os locutores mais famosos da Rádio Guaíba naquela época?

DOMINGOS – Tinha o chefe dos locutores, José Fontella. E havia o Egon Bueno, Antônio Carlos Niderauer, Clóvis Seganfredo. Eu achei uma maravilha porque eu conheci o Milton Jung, o locutor do Correspondente Renner, e fiquei muito amigo dele, muito amigo mesmo. Estavam lá o Adroaldo Streck e Flávio Alcaraz Gomes, diretor da Rádio.

VOZES  – Como te receberam na Rádio?

DOMINGOS – Receberam bem, mas com o “pé atrás”. Afinal, eu era um guri do interior, com 22 anos. Acho que pensavam assim: “O que esse guri quer aqui, tirar nosso lugar?”. Como eu tinha chegado em Porto Alegre há pouco tempo, era “verde”, não durei muito tempo na Guaíba. Estava começando em uma rádio onde todos terminavam. A maioria das pessoas mais velhas se aposentava na Guaíba, com muita experiência e eu não tinha nenhuma experiência.

Eu era locutor comercial e de notícias. Apresentei algumas vezes o Correspondente Renner, na ausência do Milton Jung. Apresentava, convidado pelo pessoal do departamento de esportes, a resenha esportiva do meio dia e a da noite, que isso era uma coisa fantástica. Quem não fosse bom ou competente não parava no departamento de esportes da Guaíba.

Depois da Guaíba, fui trabalhar na Rede Riograndense de Emissoras, em 1975, empresa do Otavio Gadret, composta na época pela Rádio Caiçara – tudo AM -, Eldorado, Pampa e se não me engano estava começando a Rádio Universal.. Mas lá eu trabalhei pouco tempo, só no ano de 1975. O salário era muito baixo, o salário era muito pouco. Fazendo uma composição salarial, trabalhando em cinco rádios eu ganhava pouco. Não durei muito tempo lá.

Em 1976, fui trabalhar na famosa Rádio Continental, que foi a grande precursora das FMs que se tem por aí, por esse Rio Grande afora. Foi a Continental AM 1120. Quando eu entrei na Continental em 1976, ela estava no auge do seu sucesso. Tinha aquela história “na Porto Alegre do Viaduto da Marli, do pôr do sol do Guaíba, quatro horas”. Eu era locutor e apresentador. Naquele tempo o locutor fazia tudo, fazia apresentação de programa e também lia notícia, fui discotecário na Rádio Continental, produzi programas na Rádio Continental. Apresentei um dos programas que me faziam levantar cedo, para poder produzi-lo com a ajuda dos colegas. Era “O Show da Grande Porto Alegre”. Programa esse que mandava “música para a Cidade Baixa!”, “música para o bairro Azenha!”, com aqueles textos característicos da Rádio Continental. Uma linguagem diferenciada dirigida ao jovem. Na Rádio Continental eu trabalhei de 1976 acho que até 1978.

Em 78 fui convidado, veja bem, trabalhando na Rádio Continental com bom salário daquela época, eu fui convidado para fundar uma rádio em Cachoeira do Sul, onde meu cunhado Paulo Valentin era médico gastroentereologista. Minha irmã morava lá, minha mãe também. Aí por uma questão famíliar, era muito apegado à família. Fui convidado a fundar uma rádio com o auxílio do pessoal de Cachoeira do Sul. Era a Rádio Fandango AM 1260 quilohertz. Porque Fandango? Porque Fandango em Cachoeira do Sul tem a mesma característica que tem o rio Guaíba aqui em Porto Alegre, esse nome era famoso na região. Não é só por causa do fandango, do baile. Fandango tem nome de ponte, etc. Consegui fundar a Rádio Fandango com o auxílio de colegas e de amigos de lá e consegui fazer com que a Rádio, conseguimos, com a ajuda dos colegas, fazer com que a emissora começasse a ser ouvida pelo público da região de Cachoeira, que só ouvia rádios de Porto Alegre, jamais ouviam as rádios da região – tinha uma ou duas antes da Fandango. As rádios de lá só faziam programação popular: “Música para o seu fulano de tal”, “a hora da bandinha”. A região tem característica de colonização alemã, também italiana. Tinha “a hora do aviso”, “a música gaúcha”. Consegui fazer com que os moradores, através de uma programação mais música e jornalismo, ouvissem a nossa Rádio Fandango. Fizemos a cobertura das eleições de 1978 ou 1979, para deputados estaduais, federais e governador, se não me engano. Demos um show de audiência na época, fizemos uma excelente cobertura das eleições para toda a região. Fiquei em Cachoeira do Sul até 1979, quando depois o pessoal achou que o que estávamos fazendo na programação não estava tendo repercussão na região, eles queriam um pouco mais de informação e de caracterizar a programação da rádio, que tinha o slogan de “a rádio da terra”, como uma rádio mais local e não de uma rádio mais ampliada regionalmente. Eu não estava de acordo. Resolvemos fazer um acordo e eu saí.

VOZES  – Como era a remuneração nesta época?

DOMINGOS – Eu trabalhava só na Continental, mas tinha duas funções. A rádio era de elite e aproveitava o profissional para outras funções, remunerava bem mais, bem melhor. Quando eu entrei na rádio a Guaíba também já era assim, as rádios proporcionavam para a gente assistência médica, e não há nada melhor do que ter uma base, uma sustentação para a saúde. Médico, dentista, para qualquer problema de saúde havia profissionais gabaritados. Enfim, isso ajuda muito a permanecer no emprego.

Em 1979 eu saí da Rádio Fandango, foi um período muito difícil da minha carreira, voltei para Santa Maria, fui morar na casa do meu sogro, fazer bicos em Santa Maria para que eu pudesse me sustentar e com a ajuda dele também sustentar a minha família, a esposa e meu filho Tiago. Em Santa Maria acho que fiquei um ano, um ano e pouco. Vinha a Porto Alegre para ver se conseguia trabalhar em algum lugar, porque eu teria que começar tudo de novo. Depois de chegar a um status profissional, eu fui para o interior e não deu certo, tive que voltar, pra minha terra, pra Santa Maria. Fiquei um ano, um ano e pouco fazendo trabalhos nas rádios de lá, sem chances de voltar a Porto Alegre e eu me preocupei muito com o que eu iria fazer da vida. Eu tinha 27 anos. Mas eu vinha seguidamente para Porto Alegre e conversava com os meus amigos, com os colegas que tinha aqui.

Consegui novamente em 1979 voltar para a Rádio Continental, onde trabalhei até dezembro de 1980. A Continental já não era a rádio tão poderosa que era, já tinham surgido algumas FMs. A rádio que eu lembro da época era a Rádio Cidade, que estava começando a sua programação. Neste período trabalhei na Rádio Itaí FM, “a dona da noite”. Em dezembro de 1980 fui convidado para treinar em uma rádio que ia surgir em janeiro de 1981. Treinar porque? Porque a partir daquele momento eu não seria apenas locutor desta rádio, e sim locutor executivo da rádio, além de ser locutor, seria operador de áudio, ao mesmo tempo. Operação conjunta: locução e operação técnica da mesa, falava e colocava no ar cartuchos com comerciais e discos. Comecei durante um mês a treinar, para em janeiro de 1981 iniciar minha atividade na RBS, trabalhando na Rádio Atlântida, na época a “Gaúcha FM”, que depois se tornou a Rádio Atlântida, de tanto sucesso e programação de música jovem, onde se fez muitos shows, se trouxe muitos conjuntos para se apresentar no Gigantinho, entre eles um que fazia grande sucesso, os Menudos. O grupo Menudos foi no Estádio Olímpico, o show estava lotadíssimo. Nessa época a Rádio já se chamava Atlântida. Em janeiro de 1981, quando a Atlântida surgiu.

VOZES  – Era uma rádio direcionada ao jovem?

DOMINGOS – Sim, era jovem.

Bem, em princípio comecei a fazer a folga de todos os locutores, era aquele que trabalhava ou das 6 às 10 da manhã, ou das 15 às 20, ou das 20 à 1 hora. Vejam só! Uma vez por semana eu fazia esses horários. Eu tinha que saber de tudo o que acontecia nesses horários, porque cada um tinha as características de um comunicador, cada um tinha o seu jeito, e eu tinha que fazer do meu jeito, o jeito deles também. Ainda bem que deu certo.

VOZES  –  Quem eram os teus colegas nessa época?

DOMINGOS – Era o Bira Brasil, Tetê Machado, que já faleceu, a Teresa Machado, JB Schueller no “Megatom”, Elói Zorzetto, Marcos Galvão, depois apareceu o José Luis Bachieri. Bah, coisa boa aquele tempo de Rádio Atlântida!

Trabalhei na Rádio Atlântida, depois me fixaram no rádio às 6 horas da manhã. Eu conto nos dedos as vezes que cheguei atrasado para trabalhar na Rádio Atlântida às 6 horas. Eu levantava cedo, às 4h30 da manhã se não me engano, no inverno e no verão. Às 15 para as 6 eu chagava lá, pegava o jornal, via tudo que tinha no jornal e às 6 entrava no ar ao vivo, aí tinha a história de “bom dia Porto Alegre! Bom dia!”. Era o programa que eu fazia das seis às 10 horas da manhã. Tinha até uma vinheta que se gravava nos Estados Unidos que dizia assim: “Oi Domingos, tudo bem? Bom dia Porto Alegre, bom dia!” E, com as músicas jovens da época, mas também com música antiga.

Eu fui tachado, apelidado de “Frei Domingos”, porque eu sempre tive uma comunicação de muito otimismo, muita paz, muita fé e citava isso na minha comunicação, aí o pessoal me apelidou de Frei Domingos. Eu tinha um relógio na época que tinha despertador e eu tocava de quinze em quinze minutos o relógio, colocava o relógio próximo ao microfone e ele fazia o “ bip, bip” característico.

Trabalhei não só na Atlântida, raramente eu trabalhei só num veículo, mas em todo caso se não me engano foi só na Atlântida, até 1983, quando fui convidado a fazer um programa na Rádio Gaúcha, continuando na Rádio Atlântida, o “Tudo Sob Controle”. A Rádio Gaúcha, em 83, não era com essa programação de radiojornalismo que tem hoje ( 2004), tinha uma programação mais eclética. Eu fiz um programa popular, “Tudo Sob Controle”, das 14 às 17. Para promover o pograma até colocaram uma chamada comigo na televisão, com o meu perfil, sem mostrar o meu rosto e que eu dizia assim: “Você quer me conhecer? Então ligue a Rádio Gaúcha a partir do dia tal, das 14 às 17, que você vai me ouvir no Tudo Sob Controle!”. Não me lembro quanto tempo o programa durou, mas eu trabalhei nas duas rádios ao mesmo tempo.

Em agosto de 1980, não esquecendo disso, por isso que eu estou dizendo pra vocês que eu sempre trabalhei em dois veículos, nunca trabalhei num só, ainda bem, não é? Compunha um salário bom pra época. Antes de entrar na Atlântida então, eu comecei a trabalhar na TV Educativa, que, naquele período, era aqui na PUC, nos estúdios da Famecos. Eu era locutor da TVE, locutor de chamadas, locutor não comercial, mas de gravação de textos, sempre atrás das câmeras, nunca à frente, porque acho que a minha “lata” não se dá muito bem com as câmeras.

VOZES  –  Já aconteceu de alguma fã se apaixonar pela sua voz e querer te conhecer?

DOMINGOS – Muitas, milhares. Conheci muitas delas. Afinal, eram fãs.

VOZES  –  Conhecestes alguma delas?

DOMINGOS – Essa história também tem que contar? Essa história aconteceu porque, D modéstia a parte, dizem que a minha voz é muito bonita, muito gostosa de se ouvir no ar. Quem diz isso não sou eu, é o reconhecimento profissional das pessoas que me ouvem e gostam do meu trabalho. Na rádio Medianeira em Santa Maria e na Rádio Atlântida aqui em Porto Alegre, quando eu era mais jovem, e a programação também era dedicada a um público de jovens, não só as jovens, mas também as senhoras ligavam para a emissora, principalmente quando eu trabalhava das 10 às 2 da madrugada, as mulheres ligavam dizendo: “Como a tua voz é bonita!”. Porque o rádio da época era um consultório sentimental, as pessoas ligavam e falavam “estou carente, estou precisando de um auxílio, estou sozinha, estou de mal com a vida, tu tens uma palavra de fé, de esperança – por isso que eu era apelidado de frei Domingos –, tu tens um recado muito bom e queria te conhecer e tal”.

Numa dessas passagens, aqui em Porto Alegre, tinha uma moça que tinha uma voz maravilhosa, voz aveludada como a gente diz, ela falava comigo no telefone, queria me conhecer . Sabe como é essa história de conhecer, eu falava “não dá, eu trabalho muito, não posso, sou comprometido” e ela dizia “mas eu só quero te conhecer, não quero mais nada”.

O que a gente fazia quando ia conhecer as mulheres, nunca me esqueço que essa história foi no Ribs, ali na rua da Praia com a General Câmara. A gente dizia assim “eu vou de camisa branca, calça jeans, eu sou loiro, coisa e tal”. Chegava lá não, não era loira, era castanho claro, ou eu estava de camisa preta ou camisa escura, não usava calça jeans, vestia calça de “ tergal” ou “nylon” como se chamava na época. Ela dava suas características direitinho, a gente olhava, se não gostava ia embora. No outro dia a mulher ligava e a gente falava “não pude ir” e nunca mais falava, se não estava no agrado da gente. Era uma maneira de aproximar-se dos ouvintes.

E essa mulher que tinha a voz linda, aveludada, a gente pensava que era uma mulher de beleza extraordinária, a gente pensava que era assim.. E eu fui conhecer a mulher. “Báh! deve ser uma loira ou uma morena dessas de arrasar”. Mas quando eu cheguei lá era uma mulher alta de um metro e setenta e pouco, eu acho, mas com seus setenta, oitenta quilos. Era um “mulherão” em todos os sentidos. Eu pensei e agora o que eu faço? Aí fui lá me apresentei. Ah, essa foi me conhecer na saída da rádio, quando eu saía da Atlântida, às 10 horas, aí é que eu a conheci. Essa eu não pude escapar, tive que conhecer. Fiz amizade com ela, mas não passou disso. Essas passagens que a gente tem no rádio são muito boas porque, a mesma coisa acontece com os ouvintes, as mulheres que não nos conhecem e nunca nos viram na televisão. Os ouvintes fazem de nós…báh! Imagina eu, com essa baita voz que eu tenho sou esse cara feio que vocês estão vendo. Mesmo tendo olhos verdes e tal, não me acho um cara bonito. Assim como existem outros colegas que são donos de um vozeirão, mas não aparecem na televisão para não tirar o encanto das pessoas que ouvem.

VOZES  – A imagem de pessoa religiosa que justifica o apelido de frei Domingos confere no cotidiano?

DOMINGOS – Vou à missa todos os domingos, participo dos atos litúrgicos do Natal, Semana Santa, tudo, tudo. Mas não sou santo! Não sou nem um pouquinho santo, mas eu não sei se a minha formação é assim porque a minha família é muito católica, meus avós, a minha mãe. A minha irmã já não é assim, eu sou. Sempre fui assim. Isso me faz falta e me faz bem. Não é porque eu estou aqui na PUC que vou estar dizendo isso, mas isso me faz falta e me faz bem.

VOZES  – Fale sobre o momento em que trabalha na TVE, a Atlântida e a Rádio Gaúcha?

DOMINGOS – Eu fazia a TVE, Rádio Atlântida e Gaúcha, e numa época eu fiz junto mais a Rádio Sucesso AM, 1340. Veja bem. Eu saía às 10 horas da Atlântida, ia para a TVE, porque a TVE eu sempre fiz assim, 15 minutos, meia hora por dia eu fazia tudo que tinha pra fazer, ia para a PUC de ônibus, gravava o que precisava gravar na TVE e ia pra casa, almoçava, almoçava na rua e depois de tarde apresentava o Tudo Sob Controle na Gaúcha. Em 1983 eu comecei a fazer, porque gostaram muito da minha voz, o Celso Ferreira achou que a minha voz era boa pra fazer as chamadas da programação da Rádio Gaúcha. Em 1983 a minha voz começou a ser a voz da Rádio Gaúcha, da TVE, a voz da Rádio Sucesso e a voz das chamadas do jornal Zero Hora. Vejam bem! E digo a vocês que na época era um bom salário, mas eu nunca fiquei rico trabalhando em três, quatro empregos. Estava no auge da carreira, queria ser alguém na vida e pra isso se trabalhava muito. Eu sempre fui de trabalhar e muito.

Em 84, a rádio Gaúcha começou a mudar a sua programação e eu parei com o programa “Tudo Sob Controle”. Começaram a sair os programas populares de música e começou a entrar a programação mais informativa.

VOZES  – Em 1983, quem eram as pessoas que trabalhavam na Rádio Gaúcha quando a Rádio ainda não tinha a programação jornalística?

DOMINGOS – Celso Ferreira, Leonor de Souza. Já existia o “Sala de Redação”. O Cláudio Monteiro, às 6 da manhã com o “Gaúcha Hoje”, Flávio Alcaraz Gomes, com o programa dele às 7h30. Depois começou o programa de José Antônio Daut, às 9h30, o “Opinião em Debate”. Eurecordo dessa transição de rádio popular para radiojornalismo. Depois o meu programa à tarde. A programação de esportes começou a ficar mais forte.

VOZES  – Quem trabalhava no esporte da Gaúcha nesta época, antes da mudança?

DOMINGOS – Haroldo de Souza, Pedro Ernesto, Rui Carlos Ostermman.

Em 1984 chegou o Ranzolin. A partir daí a Rádio começou a se transformar em radio única e exclusivamente de jornalismo, informação 24 horas por dia. Só se tocava música, e até hoje é assim, quando a música é notícia. Em 1983 eu era a voz da Gaúcha e em 1986 eu assumi a Coordenação de Programação da Gaúcha. Com isso, eu passei a ser a voz da rádio Gaúcha, gravando as chamadas de todos os programas, as aberturas e encerramentos dos programas. Além de ser a voz da Rádio Gaúcha, atividade que eu exerço com muito prazer e muita honra em desde 1983, sou coordenador de programação desde 1986 e chefe dos locutores desde 1986.

Sou responsável, junto com o comitê da Rádio Gaúcha, pela plástica da rádio Gaúcha, claro que tem pessoas que me ajudam, ou seja, as trilhas de programas, as músicas que rodam nas trilhas dos programas, a plástica musical. Eu ajudo a escolher, sugiro duas ou três trilhas ou músicas.

Comecei a fazer parte do Comitê Executivo da Gaúcha, que é formado por umas dez , doze pessoas, que pensam a Rádio. Todos nós, uma vez por semana nos reunimos e pensamos a Rádio, fazemos a Rádio num todo.

E a partir deste ano também eu tive o prazer e a honra de ser convidado para fazer parte do Comitê Executivo Cultural da RBS, que pensa a RBS como um todo, culturalmente. Além disso, durante muito tempo também apresentei o “Gaúcha Fim de Semana”, que era o maior programa que tinha aos sábados, quando não tinha futebol, das 14 às 20 horas, depois ele passou das 14 às 18 da tarde. Era um programa de variedades. Eram entrevistadas pessoas do meio cultural, artístico, de teatro, de cinema, de música, de TV. O programa tinha um ponto de destaque, eu fazia o “Perfil”. Todos os cantores, artistas que vinham a Porto Alegre a gente convidava, como vocês estão fazendo aqui comigo eu fazia com eles. Tinha oito blocos de sete, oito minutos, e a gente preenchia esses blocos contando desde quando o cara começou, desde que nasceu até os dias de hoje, toda a sua carreira. E se dizia: “Vamos colocar música na conversa e o cara escolhia uma música de preferência, desde a primeira música que ouviu na vida até a música de hoje. Nesse programa eu me realizei também porque eu entrevistei muita gente famosa, tanto de Porto Alegre, como do Brasil e do Exterior. Nomes que eu me lembro: Paulo Autran, Julio Iglesias, Sérgio Reis, Assis Brasil, Luis Fernando Veríssimo, Cleiton e Kledir, Hermes Aquino, Joana, Roberto Carlos – eu tive a ventura de ir lá no Gigantinho entrevistá-lo, Wando, Daniela Mercury, Sandra de Sá, Titãs, Nenhum de Nós Leandro – da dupla Leandro e Leonardo. Então, uma gama de pessoas que a gente fez o perfil e tem guardado até hoje, nossos colegas Mendes Ribeiro, Antônio Augusto Fagundes, Tânia Carvalho, Tatata Pimentel. Toda essa gente tem contado no arquivo da rádio toda a sua vida, toda a sua história, como vocês estão fazendo comigo agora.

VOZES  – Depois de 1986, depois de coordenação de programação, o que mudou de lá pra cá?

DOMINGOS – As coisas evoluíram muito. O tipo de locução que eu fazia quando eu entrei na Rádio, mudou a dicção. Outra coisa, que a gente usa muito, o “bastante”, eu vindo do interior tive que aprender isso também, a dizer “bastanti” ou “di” Porto Alegre, ao invés “de” Porto Alegre. São coisas que fui aprendendo na minha carreira. Depois, o Gaúcha Fim de Semana, que era apresentado no sábado de tarde, o esporte ocupou o lugar. Apresento até hoje o “Gaúcha Fim de Semana Agenda”, das 10h30 às 11 da manhã, que é a agenda cultural de todos os gaúchos. O que você quiser fazer durante a semana está ali, modéstia a parte.

VOZES  – A sua chegada na Gaúcha em foi 1983. Em 1984, a Gaúcha sofreu uma mudança muito forte na programação. Como foi essa mudança do entretenimento para o jornalismo? Quem comandou?

DOMINGOS – Em 1984, quando a rádio passou de programação de variedades para radiojornalismo, foram os mentores o Flávio Alcaraz Gomes e o Armindo Antônio Ranzolin. Eles começaram a contratar pessoas de outras redes, principalmente da Caldas Júnior. Veio Ruy Carlos Ostermann, o Lauro Quadros, muitos estão lá até hoje. Marco Antônio Pereira, Lasier Martins, que na época trabalhava no esporte e no jornalismo e hoje está só no jornalismo, o Jaime Copstein, que hoje faz a programação da madrugada. O pessoal do Sala de Redação, que já existia na época e passou a ter uma programação mais informativa.

Em 1986 saí da rádio Atlântida, quando assumi a coordenação de programação da rádio Gaúcha. Estava ficando “véinho” para trabalhar na Atlântida, a gurizada mais jovem estava chegando. Aí eu fiquei só na Rádio Gaúcha e na TVE. Ocupava todo o meu dia na Rádio Gaúcha, não dava mais para trabalhar na Atlântida.

VOZES  – E a tua passagem na TVE foi até quando?

DOMINGOS – Até fevereiro de 2004, quando a TVE, depois de eu ter trabalhado lá por 24 anos, apenas indo lá fazer as minhas funções em meia hora, a TVE queria que eu assumisse a minha carga horária diariamente de segunda a sexta-feira, que eu fizesse 30 horas semanais, o que não era possível por causa dos compromissos que tinha com a RBS. Infelizmente, depois de 24 anos tive que abandonar a minha função de locutor, a voz da TVE. Nesse meio tempo, assumi a locução de chamadas do Canal Rural, onde estou trabalhando faz uns cinco anos. Vou lá uma meia hora por dia e gravo as chamadas que precisam ser gravadas. A voz do Canal Rural, modéstia a parte, graças a Deus, com todo o orgulho, é minha também.

Hoje, em abril de 2004, a minha voz é da Rádio Gaúcha, do Canal Rural e da Rádio CDN de Santa Maria, 93,5, radio integrante da Rede Gaúcha Sat. Eu mando tudo gravado pra lá por MP3, eles mandam os textos pra cá e eu gravo no próprio estúdio da Rádio Gaúcha e mando pra Santa Maria. Colaboro também nas sugestões de trilhas musicais para a CDN Central Difusora de Notícias de Santa Maria.

VOZES  – Qual o teu sentimento a respeito de diferenças entre o rádio de hoje e aquele rádio de quando iniciou sua carreira?

DOMINGOS – Hoje (2004) o rádio é muito mais aberto pra gente fazer aquelas coisas que a gente tem em mente, as idéias que a gente tem, pode aproveitá-las com mais profissionalismo. Na época a gente fazia rádio como diversão, como hobby. Hoje, fazendo um rádio profissional como a gente faz, tem que ser mais bem estudado, mais lapidado, porque devido à concorrência que tem aí – televisão, internet, CD, lap top, pager – essas mídias que o público tem acesso, se tem notícia na hora que quer. É muito importante pensar no que está fazendo, pensar 2 vezes no que vai dizer, principalmente quando se está numa programação ao vivo, principalmente na mídia de radiojornalismo, pra não se dizer bobagem e não correr o risco de botar por água abaixo uma carreira construída em várias décadas.

VOZES  – É possível recordar algum episódio onde ocorreu alguma situação ou erro fora do comum?

DOMINGOS – Lembro. Errar a gente sempre erra, o importante do erro é a gente reconhecer o erro e pedir desculpa.

Num dos perfis que eu fiz no Gaúcha Fim de Semana Agenda eu lembro que estava entrevistando a Joana, num programa gravado, ela estava com a filha dela. Achei um perfil muito pesado, achei que ela não estava muito à vontade, eu também não fiquei muito à vontade para entrevistá-la, tem pessoas que a gente entrevista que não gostam de contar a sua vida. Não era a Joana, era a Zizi Possi. Chamei a Zizi Possi de Joana meia dúzia de vezes. Vi que ela já estava meio assim, pensei, “vou encerrar a entrevista antes de levar um tabefe”.

VOZES  –  O rádio do passado traz alguma lembrança saudosista?

DOMINGOS – De ser um comunicador menos frio, não apenas dizer as coisas, hoje tem que se estar com a lição de casa feita para se ir ao ar. Qualquer mídia hoje exige isso da gente.. Tem que saber o que está acontecendo, que aconteceu há cinco minutos, porque se tu fores pro microfone ao vivo e não souberes o que aconteceu a meia hora atrás, pode estar cometendo um erro. Eu acho que a gente devia fazer um rádio mais tranqüilo, usar mais o sentimento da gente, eu gostava muito daquele rádio que a gente fazia na Atlântida, onde a gente usava muito do improviso, do sentimento. Por exemplo, uma música. Em cima dessa música se formava uma tese, mas não precisava ser uma tese tão compromissada, formadora de opinião, porque nós, do radiojornalismo, temos a responsabilidade de passar mensagem para muitas pessoas, ser orientadores e formadores de opinião. Em outra época localizada no passado não se fazia isso, éramos descompromissados com essas coisas. Se a gente cometia um erro, pedia desculpas. Se eu vou errar o nome do presidente de um país hoje, ou disser que foi fulano de tal que disse isso e não foi, foi o outro, para se corrigir é muito difícil, pode-se ficar mal visto pelos ouvintes. A gente tem que chegar a ponto de ter o mesmo ou quase o mesmo nível de informação das pessoas que estão nos ouvindo, que é a classe A, B, no caso da emissora em que eu trabalho, a rádio Gaúcha. Toda rádio, TV ou mídia de jornalismo tem que ter essa preocupação.

VOZES  –  Quem foi alvo da sua inspiração no trabalho?

DOMINGOS – Começando pelo Hélio Ribeiro, de São Paulo,, na época eu trabalhava na rádio Medianeira de Santa Maria. Eu me orientei muito por ele e pelo tipo de trabalho e de conhecimento que ele tinha. Outros nomes da época que eu gostava muito: o grande profissional de radiojornalismo Milton Ferreti Jung – até hoje locutor do Correspondente, o Armindo Antônio Ranzolin, quando narrador de futebol – um dos grandes narradores que o rádio do Rio Grande do Sul teve, implantou seu estilo, o José Antônio Daudt foi um grande profissional que mostrou sua combatividade num tipo de programação radiofônica. Um grande profissional que a gente não conhece, só a sua voz, não por ele trabalhar na Globo, mas sabe fazer uma chamada, sabe dizer um texto: é o Dirceu Rabelo, locutor de chamadas da Rede Globo de Televisão, sabe fazer isso. O Carlos Lombardi faz o seu estilo no programa do Sílvio Santos. Não interessa se a pessoa trabalha em uma rádio de classe A, B ou C ou em uma televisão e ser um Ratinho da vida profissional. Se souber se adaptar profissionalmente ao estilo que a rádio ou a televisão estão exigindo, é isso o que importa. Se o cara é brega, é brega para um tipo de gente, pra outro tipo não é. Se a música que Chitãozinho e Xororó fazem ou compõem para as pessoas é brega, é isso para uma classe de pessoas. Se a música que o Tchaikowski é muito chata para um tipo de ouvinte da classe de menor nível cultural, para outros da classe alta que gostam de música clássica, não é. Se o cara fizer o trabalho com dedicação, fizer bem a lição de casa, tem conteúdo como se diz, só pode fazer sucesso. Se o cara tem conteúdo, tem base, vai ser bem sucedido na vida.

No rádio de ontem a gente era mais sentimental, mais romântico, o rádio de hoje não deixa a gente fazer isso, porque exige muita a qualidade profissional. Não quero ser saudosista com isso, mas a gente tem que ser muito mais apurado para fazer o rádio de hoje e se esquece muito do sentimento e se atua muito mais com razão do que com emoção.

VOZES  –  Então pode se dizer que a sua voz ou estilo-modelo foi a o Hélio Ribeiro?

DOMINGOS – Sim, do Hélio Ribeiro. Porém, uma voz que eu acho que muita gente deveria se orientar, mas com muito cuidado é a do Dirceu Rabelo, da Globo, para um tipo de locução. Tem que se ter muito cuidado com a locução que se faz. Muita gente hoje, na locução que faz, espicha as vogais. Na televisão não se nota muito porque se tem imagem, mas no rádio é possível fazer o registro. Muita gente, a maioria dos jovens, espicha as vogais. Não é um defeito, é um erro de dicção.

VOZES  – Essa primeira parte da entrevista ocorreu em 2004, portanto há 12 anos.  Quais são as tuas atuais funções aqui na rádio? 

DOMINGOS – Desde abril de 2015 que eu deixei de ser o coordenador de programação da Rádio Gaúcha e deixei de cuidar das vozes das pessoas que estão na rádio, principalmente os mais jovens, os que entram na rádio, e também deixei de fazer a plástica da Rádio Gaúcha, que eu era o responsável. Agora eu sou somente a voz da Rádio Gaúcha.

 

VOZES  – Bom, na Gaúcha também eu vi um projeto, o projeto Arquivo Gaúcha, e eu queria que tu falasses um pouquinho desse projeto, porque é uma coisa nova, multiplataforma.

DOMINGOS – O projeto Arquivo Gaúcha não é de minha responsabilidade. A responsabilidade é do Rafael Lindemann, o nosso responsável pela plástica sonora da Rádio Gaúcha e também produtor executivo de toda essa sonoridade musical, porque o coordenador agora, de tudo isso, é o Luciano Costa. Eu acho… eu penso ser um programa muito bom, porque traz de volta pra gente e, principalmente numa noite de domingo, porque é a meia noite de domingo, de sábado para domingo, entrevistas, reportagens, bate-papos que a Rádio Gaúcha já realizou em outras épocas. Isso pode ter acontecido há um ano atrás, 5, 10, 15, 20, 30 anos atrás, que eu acho que traz pra gente que viveu essa época, ou para os que não viveram, também, uma excelente forma de recordar ou de se ficar por dentro daquilo disse que se… do Jornalismo que se praticava alguns anos atrás.

VOZES  – E você apresentou vários programas ao longo da tua trajetória no rádio, não necessariamente aqui na Gaúcha. Teve algum fato histórico que te marcou, que você apresentou? Poderia falar algum deles?

DOMINGOS –  Vários. Vários fatos históricos me marcaram. Eu apresentei programas na rádio Guaratan de Santa Maria, nessa ordem, na rádio Santa Mariense de Santa Maria, na rádio Medianeira de Santa Maria, onde eu fiquei famoso… Na rádio, aqui em Porto Alegre, cheguei a apresentar o correspondente… como substituto, algumas vezes, o Correspondente Renner, na Rádio Guaíba. Na rádio Continental de Porto Alegre eu apresentei vários O Show da Grande Porto Alegre, entre outros. Mas, entre fatos que me lembro agora, algum fato, acho que eu já falei… Mas eu me lembro foi uma melhores entrevistas que eu fiz foi, quando eu apresentava Gaúcha Fim de Semana, aqui na Rádio Gaúcha, que era aos sábados das duas às seis da tarde, foi a entrevista que eu fiz com… deixa lembrar o nome dele, entre tantos. Mas uma das que me gratificou ter feito foi com Roberto Carlos, com Chico Buarque, com Paulo Autran, Ray Conniff, com Julio Iglesias, com o Bobby Solo, dos grandes cantores da música italiana do tempo dos festivais de Sanremo… quem mais?

VOZES  – Que histórico, hein!?

DOMINGOS – Bastante, né? Deixa eu ver se me lembro de mais alguém, assim… Desses de agora… é muita gente. Teixeirinha, Kleiton e Kledir, dos nossos aqui, né, Hermes Aquino… Praticamente, modéstia parte, eu estava recordando um dia desses com Gerson Cruz… Gerson Silva, que foi um dos produtores do Gaúcha Fim de Semana, que nós praticamente lançamos no mercado o Nenhum de Nós, a banda Nenhum de Nós, nos anos 90, quando a gente fazia um perfil no Gaúcha Fim de Semana. Esse perfil durava duas horas, que era das 16 às 18h, a gente trazia artistas, cantores e cantoras, bandas… E nós lançamos vários… Várias bandas e vários… Ou demos força para várias bandas, vários cantores e cantoras, nesse espaço. Eu me lembro que um deles foi o Nenhum de Nós e outro que eu me lembro muito bem que estava recém começando foi a Família Lima.

VOZES  – Mas assim… mais voltado pra música, então, ou você chegou a fazer entrevistas mas jornalísticas, de fatos?

DOMINGOS – Sim, tinham entrevistas jornalísticas também. Principalmente em época de Feira do Livro… Era mais cultural o programa, né. Cultural, variedades. Mas em época de Feira do Livro a gente fazia entrevistas maravilhosas com autores de livros. Festival de Cinema de Gramado, fiz várias entrevistas. Agora não me vem na memória porque já faz o que… 20 anos isso?! Várias entrevistas que a gente fez e que foram muito, muito boas.

VOZES  –  Domingos, não falando só da narração, porque eu sei que essa mudou bastante, mas desde quando você entrou no rádio pra hoje, quais as maiores diferenças que você sente?

DOMINGOS – Mudou muito. Mudou muito o jeito de falar o texto, o jeito de comunicar o texto, o jeito até, eu acho, penso, de fazer o texto. Tudo está mais coloquial, menos… como diz o Luciano Costa, o nosso novo sound design… menos bravo. A gente fala como a gente está falando aqui, não se fala mais como se fala antigamente, ou como se fazia texto antigamente, né. Eu lembro de comerciais que rodavam antigamente: (com entonação) “Senhores ouvintes, este produto é de inteira qualidade. Se o senhor comprar este produto nas lojas Sis, garanto que será de boa qualidade e terá um bom aproveitamento”. Imagina um texto desses hoje, né. Então, eu acho que mudou bastante, porque com toda a interatividade, com todo evento da internet e demais plataformas, o ouvinte vê a gente, ouve, sente a gente e pode, na mesma hora, repercutir aquilo que a gente está dizendo de uma maneira… Dar um feedback e pode repercutir aquilo que a gente está dizendo de imediato, se ele gostou, se ele não gostou, se ele está de acordo ou não está. Ou seja, o veículo de comunicação em geral hoje anda de acordo, também, com a opinião do ouvinte. Não só com a opinião do seu comunicador.

VOZES  – E até mesmo por essa questão de advento da internet e de outros meios, você acredita que o rádio tem perdido audiência?

DOMINGOS – Não, não acredito. Porque a fonte mais ágil hoje, e principalmente por todas as ferramentas que se tem a volta, que tem a sua volta, é o rádio. Onde quer que você esteja hoje e o fato acontecer, é só pegar um telefone celular ou qualquer outro transmissor que possa se comunicar com a rádio, que você estará dando a notícia na hora, a informação na hora.

VOZES  – Então você acredita que seja um adicional esses aparelhos, o celular…?

DOMINGOS – Adicional, sim, tranquilamente. Vieram pra facilitar ainda mais a instantaneidade do rádio.

VOZES  –  Tem algum desafio na rádio atualmente?

DOMINGOS –  Tem. Manter esse público que quer mais ficar no celular, ou em outras mídias, e que, penso eu, ouve pouco e lê pouco matérias importantes, mais importantes ou com maior… com mais conteúdo.

VOZES  –  Bom, agora mudando um pouco de assunto: você treinou por muito tempo aqui as vozes no rádio…

DOMINGOS – Tu fostes uma delas (referindo-se à Laura Schneider).

VOZES  –  Eu fui uma delas… Teve alguma que virou um destaque, um grande destaque, uma grande voz atualmente que tu lembre?

DOMINGOS –  Em que sentido?

VOZES  – Que você treinou, e essa pessoa é uma pessoa famosa no rádio.

DOMINGOS – Vários. Roberto Kovalick, por exemplo, foi uma… que trabalhou aqui na Rádio Gaúcha, e que eu ajudei a formar a voz dele. Quem mais? Laura Schneider, que agora está na Zero Hora…

VOZES  – Essa largou o rádio (risos). Quem sabe um dia ela volte…

DOMINGOS –  Fernando Zanuzo (com entonação) “que quando chegou aqui na rádio falava assim. Fernando Zanuzo, ele veio do interior do Estado e era bem gringo, e não se podia botar a voz dele no rádio assim. Hoje, ele apresenta o Correspondente Ipiranga de segunda a sexta das 18h50 e das 20h na Rádio Gaúcha”, e ele não tem nenhum sotaque mais. Esse eu ajudei… a fazer o jeito de falar dele.

VOZES  – E por que não pode entrar na rádio com sotaque?

DOMINGOS –  Pode entrar, (com entonação) “mas já pensou se o cara apresentasse o Correspondente Ipiranga Rádio Gaúcha, assim? Rede Gaúcha Sat assim? Os ouvintes iam muito estranho isso, não é?”.

VOZES  – Se fosse lá por Erechim, eles iriam se identificar…

DOMINGOS –  Claro! Mesma coisa se hoje eu apresentasse uma chamada do futebol ou apresentasse uma abertura de programa de hoje dizendo (com entonação) “a Rádio Gaúcha apresenta Gaúcha Atualidade. Apresentação, Daniel Scola”. Ficaria muito feio, né? Feio, não, mas fora de moda, porque hoje não falo mais assim, eu falo como estou falando aqui contigo.

VOZES  – E você tem algum grande ídolo do rádio que tenha te inspirado, principalmente no começo?

DOMINGOS –  Vários. Entre eles que eu acho que foi um… Tem o rei Pelé, mas tem o rei do rádio, também. Entre tantos, né, Hélio Ribeiro, um grande comunicador dos anos 60, 70, da década de 60, 70, 80, da Rádio Bandeirantes de São Paulo, AM, um deles. Dirceu Rabelo, locutor de chamada da Rede Globo, eu acho que é uma grande referência. Quem mais, quem mais? Entre tantos…

VOZES  – E um conselho para os jovens, agora, que estão no Jornalismo e ainda não decidiram exatamente pra que veículo vão: por que eles devem ir pra rádio?

DOMINGOS – Porque eu acho, eu penso ser o rádio o veículo mais apaixonante que existe. E, se assim o fizerem, que ouçam tudo, tudo que é rádio, tudo que é som, tudo o que é informação. Não discriminem a informação achando que é só a rádio “A” que tem a melhor informação. A rádio que faz programação para outros públicos, também se pode aprender com ela, não só na informação, como também na música, na dedicatória de cada rádio, ou seja, no recado que cada rádio tem, desde a primeira do dial até a última. Do AM, do FM… ainda tem gente que escuta, como Holmes Aquino, ondas curtas, ondas… e também na internet. Por que não? Ouça tudo. Hoje a internet nos dá o direito de escutar rádios lá do outro lado do mundo no tempo em que as coisas acontecem. Por que não escutar? Não pra copiar, mas pelo menos pra se filtrar aquelas coisas boas que essas outras rádios podem nos fazer aprender.