Domingos MartinsCrônica: o dono da voz

O dono da voz do rádio

Domingos caminha pelos corredores do prédio da RBS, na esquina da Avenida Ipiranga com a Érico Veríssimo, como se fosse seu habitat. Parece não ter a consciência de que, diariamente, milhares de pessoas ouvem sua voz e dicção perfeitas ao sintonizarem a frequência 600 AM (ou 93,7 FM) nas ondas radiofônicas.

A voz grave e, ao mesmo tempo, suave, ocupa espaço quando ele chega no ambiente. Domingos sobe as escadas solitário, mas parece brilhar quando aparece no terceiro andar, de piso e paredes brancas. “Bom dia, seu Gilberto”, ele anuncia ao dono do bar da rádio. E, quando me vê, após um longo abraço que faz questão de dar, pergunta: “E aí? Como anda o coração?”.

Quem diria! Quando criança, imaginava como seria o dono daquela voz. Meu pai era ouvinte assíduo da Gaúcha, rádio para a qual, há mais de 30 anos – 33, para ser mais exata –, Domingos Martins empresta o timbre.

Nossa amizade começou na ilha de gravação, onde, semanalmente, em julho de 2014, eu treinava minha locução. Cheguei do interior do Estado falando o “E” cravado no final das palavras, algo que logo perdi com as aulas do mestre.

“Não é leite, é leiti”; “Abre mais a boca”; “Não precisa forçar a voz, fala naturalmente”, ele repetia, rígida e carinhosamente.

Estudei com capricho. Lia e relia a íntegra do Correspondente Ipiranga, na época apresentado pelo jornalista Rafael Colling. Para falar a verdade, tinha um misto de medo e vergonha de errar na frente daquele que era (e é) considerado dono da voz do rádio. Era uma responsabilidade muito grande para uma estagiária de 18 anos.

Não esqueço da sua cara de deleite quando consegui entonar perfeitamente minha assinatura.

“Da central de Jornalismo, Laura Schneider”. Treinei no banho. Treinei caminhando na rua. Treinei no ônibus, indo pra faculdade. Tudo porque ele queria ouvir o “R” final do meu sobrenome.

Em duas semanas, estava liberada para entrar no ar. Não ao vivo, mas com boletim gravado, afinal, em se tratando de locução, Domingos é uma pessoa cuidadosa e busca a excelência.

Desde então, e principalmente após minha saída da Gaúcha, passávamos bons minutos na escadaria de Zero Hora conversando sobre todo tipo de assunto – inclusive minhas decepções amorosas. Domingos se tornou professor, amigo, terapeuta. E ficou feliz quando eu o convidei para o Vozes.

“Não precisa ser gravado no estúdio, até porque os operadores estão bem ocupados. Podemos conversar num lugar mais silencioso”, sugeri. “Não te preocupe! Daremos um jeito. Desce na rádio e nós vamos encontrar um estúdio”, avisou.

E ele encontrou. “Imagina se eu ia deixar teu trabalho mal feito! Diz pro Luciano (Klöckner, meu professor) te dar um 10. Não aceito menos que isso!”, exigiu, arrumando a manta azul no pescoço.

Sentou-se em frente ao microfone, arrumou os óculos e pousou os olhos ansiosos sobre mim. Ele, que passou uma vida entrevistando, agora respondia às perguntas. Domingos me parece bem nostálgico. Ele já não treina os novos radialistas da Gaúcha, mas continua crítico a qualquer locução – inclusive a sua.

– Mudou muito o jeito de falar o texto, o jeito de comunicar o texto, o jeito até, penso, de fazer o texto. Tudo está mais coloquial, menos… como diz o Luciano Costa, o nosso novo sound design… menos bravo. A gente fala como a gente está falando aqui, não se fala mais como se fala antigamente, ou como se fazia texto antigamente – explicou.

Tendo claro o processo de renovação na forma de comunicar, Domingos analisa que a participação do ouvinte deixou de ser passiva, e que essa nova posição do público deve ser uma preocupação constante no rádio:

– (…) Com toda a interatividade, com todo evento da internet e demais plataformas, o ouvinte vê a gente, ouve, sente a gente e pode, na mesma hora, repercutir aquilo que a gente está dizendo. Dar um feedback (…) se ele gostou, se ele não gostou, se ele está de acordo ou não está. Ou seja, o veículo de comunicação (…) anda de acordo, também, com a opinião do ouvinte, não só com a opinião do seu comunicador – destacou.

Com um orgulho que transbordava, o locutor lembrou dos tempos em que entrevistava figuras nacional e internacionalmente conhecidas, além dos artistas que lançou no mercado cultural.

– Uma das (entrevistas) que me gratificou ter feito foi com Roberto Carlos, com Chico Buarque, com Paulo Autran, Ray Conniff, com Julio Iglesias, com o Bobby Solo, dos grandes cantores da música italiana do tempo dos festivais de Sanremo…

– (…) Modéstia à parte, eu estava recordando um dia desses com Gerson Silva, que foi um dos produtores do Gaúcha Fim de Semana, que nós praticamente lançamos no mercado o Nenhum de Nós (…) nos anos 90, quando a gente fazia um perfil no Gaúcha Fim de Semana. Esse perfil durava duas horas, que era das 16 às 18h. A gente trazia artistas, cantores e cantoras, bandas… E nós lançamos vários… Várias bandas e vários… Ou demos força para várias bandas, vários cantores e cantoras, nesse espaço. Eu me lembro que um deles foi o Nenhum de Nós e outro que eu me lembro muito bem que estava recém começando foi a Família Lima – elencou.

Mesmo passados os anos de protagonismo do rádio, Domingos continua positivo quanto à figura que ele exerce atualmente. O radialista não acredita que esta mídia esteja em declínio, mas que ela deve se reconfigurar para atrair o público jovem e digitalmente conectado:

– A fonte mais ágil hoje, principalmente por todas as ferramentas que se tem à sua volta, é o rádio. Onde quer que você esteja hoje e o fato acontecer, é só pegar um telefone celular ou qualquer outro transmissor que possa se comunicar com a rádio, que você estará dando a notícia na hora, a informação na hora.

(O desafio é) Manter esse público que quer mais ficar no celular, ou em outras mídias, e que, penso eu, ouve pouco e lê pouco matérias importantes, mais importantes ou com mais conteúdo – analisou.

Enquanto ele falava, absorto em suas memórias, vi nos olhos de Domingos aquele brilho tão característico dos novos jornalistas. Entendi – mais uma vez – o motivo de escolher essa profissão, entre tantas, e também a razão de me render aos encantos do microfone, estúdio, cheiro de café da sala da produção, headphones e pés no barro em busca de notícia:

– Eu penso ser o rádio o veículo mais apaixonante que existe – finalizou.

E se levanta. E me abraça. E sai tranquilo pelos seus conhecidos corredores ainda sem uma consciência: a de que ele inspira milhares de estudantes de Jornalismo, dentre todas as milhares de pessoas que o ouvem, a serem as novas vozes do rádio.