Sayão LobatoEntrevista completa

Entrevista gravada no estúdio de rádio da FAMECOS/PUCRS no dia 14 de abril de 2003.

P – Por favor seu nome completo, cidade e data de nascimento:

R – Gente, quem está falando aqui é João Baptista Mendes Sayão Lobato, nascido em 24 de junho de 1941 na cidade de Camaquã. Como radialista, iniciei com o nome Batista Sayão Lobato. No decorrer dos anos perdi o Batista e ficou só o Sayão Lobato. Nasci na cidade de Camaquã, hoje estou com 61 anos. 61 anos vividos com muita alegria, com muita satisfação, porque eu lutei bastante para chegar aonde eu estou hoje, tendo uma velhice não como rico, mas uma velhice tranqüila que me dá o direito de viver tranqüilamente, de ter visto os meus filhos se criarem, hoje vendo os meus netos se criarem, os pais com curso superior. Através da minha luta, através do rádio, eu tive a satisfação de ver os meus filhos universitários, dar estudo a eles. Então tudo que eu tenho na minha vida eu agradeço ao rádio. Eu nasci num berço de ouro, em Camaquã. Um detalhe para vocês: o primeiro carro que existiu em Camaquã foi dos meus avós. Família Crespo e Mendes, duas tradicionais famílias de Camaquã.O meu avô Crespo e a minha avó Mendes se uniram e fizeram uma fortuna. A minha avó, que foi a primeira proprietária de um automóvel no município de Camaquã, terminou como empregada doméstica para me criar. Eu, com 4 anos, perdi o meu pai. Depois perdi mais 3 irmãos e a minha mãe. Quando eu tinha 7 anos de idade, eu era o único da família de 4 irmãos, pai e mãe. Aí fui criado pela minha vó, sempre brincando de rádio. Sempre, sempre, sempre, a minha brincadeira foi rádio, os meus amigos iam jogar futebol, eu saia para narrar o futebol. Eu tinha a mania, sempre gostei muito de prado, de corrida de cavalos.. Então nós íamos caminhandoaté o hipódromo. Nós íamos em 4, 5 amigos e eu sempre narrando aquilo como se fosse uma corrida de cavalos: “em primeiro Fulano, em segundo … “, sempre narrando. Eu tive oportunidade de começar fazendo a animação do carnaval de rua, na Lima e Silva e na Benjamin Constant, eram os dois grandes carnavais de rua de Porto Alegre. Pela primeira vez eu pegava um microfone. Depois peguei microfone comandando os alto-falantes dos Eucaliptos, antigo estádio do Internacional. Fui chefe da torcida colorada, levava os meus serviços de alto-falante para o interior, para entusiasmar a torcida por que era do microfone que eu gostava. Depois comecei a trabalhar em rádio, primeiro na rádio Porto Alegre, depois trabalhei na rádio Real de Canoas, mais como um bico. Em 1969, aí sim eu me tornei um radialista, através da rádio Itaí. A rádio Itaí tinha uma equipe extraordinária, rádio pequena mas com uma equipe coesa. A coisa mais difícil era entrar na rádio Itaí. Eu comecei através do turfe da Itaí, com Vergara Marques. Comecei ali a trabalhar, a dar os meus primeiros passos, e quando de repente. Olha, eu acho que, se não me falha a memória, está na minha frente, gravando esta entrevista, o Bira ( Ubirajara Ferreira), que foi também meu operador, um dos que muito me ajudou. E eu, se a memória não me trai acho que era o Bira que estava fazendo o horário de oito a meia-noite na Rádio Itaí ou o João Carlos. O Alfeu era o locutor, quando o João Carlos é… falou com o operador do Hipódromo dizendo: “olha, o Ari Siqueira Machado ( era o apresentador do Itaí Dona da Noite) não vai fazer o programa e a rádio vai ficar sem locutor”.Aí eu disse: “olha, se vai ficar sem locutor eu vou aí fazer a locução”. E aí então, veio essa e eu disse: – “eu vou fazer Itaí Dama da Noite, então”. Aí disseram: – “mas tu conhece o Lorenzo Gabellini ( diretor da rádio), o homem vai ficar danado”. Respondi: “mas só um pouquinho, melhor do que não ter locutor, é ter um locutor ruim, eu acho melhor ter um ruim, vamos embora, né”. Em resumo, fiz Itaí Dona da Noite e dalí eu fiquei locutor do programa. Eu não devia ter sido tão ruim, porque aí eu fiquei de locutor fixo de Itaí Dona da Noite. Comecei, então, a dar os meus primeiros passos, depois de sair da equipe de turfe, da Itaí. Porque que eu entrei na equipe de turfe da Itaí? Deixa eu falar, pra depois passar à seqüência da minha ida para o estúdio da Itaí. Eu trabalhava no Prado, no Jóquei Clube, era cavalariço. O que que é o cavalariço? Cavalariço é aquele que limpa o esterco do cavalo, é aquele que limpa o cavalo. Eu era, na época, o escovador, o cavalariço do Vergara Marques, que era o chefe e narrador da equipe de turfe da Itaí. Aí então, eu sempre dizia, eu chamava o Vergara de padrinho, dizia: – “ô padrinho, isso aí que o Jorge Rosa (já falecido, pessoa muito querida) faz, eu também faço”. Era a apregoação, tipo: – “o cavalo tal, vendeu tantas pules, bem bem bem”, e depois dar o prognóstico, anunciar os páreos anteriores: o primeiro páreo ganhou o fulano, o segundo o beltrano. Disse: – “isso aí eu faço. O Vergara não dava muita atenção, né? Acho que pensava “um menino aí, escovador do prado, não vai saber fazer isso”. Em resumo, um dia eu fui a Canoas levar um animal, estive lá no hipódromo de Canoas. Levamos um anima do Cristal para correr em Canoas e o Jorge Rosa não foi trabalhar. Aí eu peguei e gravei o primeiro páreo. Era gravado e apresentado depois da Voz do Brasil. Eu pedi para o Caio Juruá: “Caio, deixa eu fazer gravado aqui contigo, tal, se não ficar bom depois tu não bota no ar”. Em resumo, fiz gravado, ficou bom, e ali entrei na equipe de turfe da Itaí (1968). Fiquei na equipe de turfe acho que durante uns seis, sete meses, aí que eu passei a fazer outros programas da Itaí. Eu estava …. é, querendo me afirmar. Aí então eu inventei o seguinte: pegar um gravador e sair para a rua, para que as pessoas pedissem músicas, E tivemos a inauguração do Gigante da Beira-Rio. Vinha inaugurar o novo estádio do Internacional a seleção brasileira. João Saldanha como técnico. A direção técnica e os jogadores estavam brigados com a imprensa, rigorosamente proibidos de dar entrevista. Só iam dar entrevista quando entrassem em campo. E eles estavam concentrados ali na Tristeza, eu não me lembro se era Banrisul, Caixa Econômica, tinha uma sede campestre ali na Tristeza, e ali que era a concentração da seleção brasileira, à beira do rio. Na frente, todos os radialistas ali tentando alguma coisa mas aquele aparato de segurança, tudo, ninguém podia chegar. Eu peguei o meu gravador, entrei por dentro do Guaíba, entrei por dentro do rio Guaíba, cheguei pelos fundos da concentração e invadi. Ali não tinha segurança nenhuma, não, acho que eles pensaram: “não tem nenhum louco que vai entrar pelo Guaíba adentro”. Eu entrei, aí quando me viram com uma gravadora na mão, “tira daí, tira daí que não pode, tal, tal, tal, não pode, tal”. Digo “só um pouquinho, só um minutinho, deixa eu só falar”. O Mário Américo, massagista, um moreno que era um parrudão, estava ali, estava o Pelé ali perto, o João Saldanha. “tira daí, não pode, não pode”. Eu digo “só um minutinho, deixa só eu falar uma coisa, não está ligado o microfone, deixa só eu expor uma coisa para vocês e depois vocês me põem para a rua. Acontece o seguinte, eu sou casado, eu tenho filhos, estou morando numa pensão, estou despejado da pensão”, e era verdade, “estou despejado da pensão e eu estou iniciando numa rádio, e a minha grande oportunidade de me afirmar na rádio é hoje, aqui”. “Mas não pode fazer entrevista”. “Mas só um pouquinho”, para o João Saldanha, eu digo “eu não vou perguntar nada de futebol, eu quero perguntar assim qual é a música que o Pelé gosta, qual é a música que o Jairzinho gosta, eu não vou falar em futebol”. Aí o Pelé, o Pelé diz: “ah não, se é só para pedir música eu vou pedir uma música”. O Pelé deu aquela abertura para mim, aí eles me deixaram gravar sem falar em futebol, mas meu negócio não era futebol, a rádio não era especializada em esporte, era só perguntar, né? Aí eu cheguei na rádio, cheguei para a Vera que era a nossa diretora de programação, a Vera e o Lorenzo Gabellini, digo tenho uma reunião com vocês. “O que tu quer?” “Uma reunião, tenho uma coisa importante”. Na reunião, falei: “olha, eu tenho nesse gravador aqui a voz de todos os jogadores da seleção brasileira”. Não acreditaram. E aí eu liguei o gravador e mostrei. “ vamos colocar de hora em hora os jogadores pedindo música”. Foi um furo de reportagem. O Pelé me pediu uma música do Moacir Franco. Eu até criei uma coisa, o Edy Amorim ( apresentador da rádio) chamava: – “Fala Sayão”. Eu entrava: com a gravação: – “você pediu e eu já vou daqui, Edy”, tal. “Olha, eu estou aqui com o Pelé”. Era tão perfeito que parecia ao vivo. Na gravação eu até perguntava as horas: – “Edy, estou aqui com o Pelé. Pelé, qual é a música que tu gosta do Moacir Franco.Então vamos rodar a música do Moacir, daqui a pouco eu volto”. Nessa idéia de sair às ruas gravando os pedidos de músicas, resolvi entrevistar, a partir daquele determinado momento, personagens conhecidos. Aí eu fui no Dom Vicente Scherer, arcebispo metropolitano. “Dom Vicente, o senhor pede uma música para a Itaí?”. Ele aceitou. Aí eu digo assim: “Dom Vicente, eu vou lhe fazer uma pergunta, qual é a rádio que o senhor ouve e o senhor diz assim, aí o senhor me diz é a Itaí”, aí eu disse “mas meu filho, eu não posso mentir, eu não ouço rádio”. Aí o Dom Vicente Scherer me pediu, governador do estado me pedia música, etc. Eu “bolei”: “eu vou para as ruas, fazer o povo pedir música”. Aí então eu comecei a ir para os colégios e os adolescentes pediam música que eram apresentadas no programa Cinema, Turfe e Boa Música. Aí ficou uma coisa padrão lá na rádio. Eu dava brindes na rua e o pessoal me pedindo música. Então entrava na programação da Itaí de hora em hora. Às cinco horas da tarde eu fazia o programa que foi o meu grande carro-chefe: Não Diga Não. A partir dali então eu comecei a me afirmar no rádio. E o Gabellini tinha uma mania. Quando eu ia falar com ele, dizia assim: – “tu é muito banana, Sayão, tu é um banana, Sayão, tu é um banana”. Eu sempre, sempre fui muito humilde. Tem coisas que me marcaram muito na vida. Eu ganhava 300, 300 mil, na década de 70, não sei. Eram 300… o nosso dinheiro muda tanto que eu não sei. Mas vamos dizer, hoje em dia eu ganhava 300 reais, e o Alfeu, esse que fazia, que me deu a chance de fazer a madrugada, o Alfeu ganhava 350. Só que eu trabalhava nos dias de corrida no Jockey Clube. Havia corridas noturnas na segunda-feira. Acabava trabalhando 24 horas por dia. Eu fazia a corrida noturna, fazia Itaí Dona da Noite, saía às seis da manhã, às oito horas eu tinha que estar na rádio, pegar a Kombi, eu ainda era o motorista. Portanto repórter e motorista. Trabalhava até as cinco da tarde. Às cinco eu largava, fazia o programa de estúdio até as sete, as sete e meia eu estava no hipódromo de novo. Eu trabalhava bastante. Aí eu cheguei para a Vera, essa que era chefe de programação, disse: – “Vera, acontece o seguinte, eu estou morando ali na pensão, eu estou sendo despejado e eu tenho cinco filhos”, depois terminei tendo sete, mas na época tinha cinco filhos. Continuei: “eu tenho cinco filhos, tá todo mundo num quarto de pensão lá, e eu não consigo mais trabalhar, Vera. Assim, com a cabeça no lugar, com esses problemas, eu não quero dizer que eu sou melhor que o Alfeu, só que o Alfeu trabalha quatro horas por dia e ganha 350. Ao menos se tu me igualasse o ordenado dele, que seria mais 50”. Ela chegou, olhou bem para mim e disse assim:- “seu Sayão”, ela chamava a todos de senhor para ser chamada de dona Vera: “seu Sayão, o senhor não vai querer comparar a sua capacidade com a capacidade dos outros”. Saí dali, eu tinha um íntimo amigo, ainda tenho um íntimo amigo que era o Edy Amorim, pessoa muito querida. Eu cheguei para ele:- “Edy, não nasci para o rádio, Edy. Agora a Vera me disse isso aí, tal tal, fui pedir o ordenado”. Ele disse:- “Sayão, é só tu que não sabe, Sayão. Tu é um ídolo tremendo e tu não te acordou ainda”. Eu disse:- “não, mas a Vera …”.Ele respondeu:-“Não, não , a Vera, tu sabe como ela é, etc.etc..”. Mas o velhinho lá de cima acho que olhou para mim. Naquele dia eu estou fazendo o Itaí Dona da Noite quando me veio uma ligação:- “Sayão, aqui é o Marne Barcellos”, que tinha saído da Itaí e ído para a Difusora, “eu preciso falar contigo amanhã aqui na rádio. A que horas tu podes? O Dilamar Machado quer falar contigo”. O Dilamar também estava na Difusora. O Dilamar Machado foi vereador, foi um grande radialista, hoje também já falecido. Aí eu fui lá na Difusora ao meio-dia falar com o Dilamar. O Dilamar falou: -“Sayão, nós queremos que tu venha para cá. Tu vai trabalhar das oito às quatro horas da tarde na unidade móvel, vai cuidar das meninas” na Itaí também havia as divulgadores, meninas que saíam, batiam na porta e perguntavam qual a rádio que a pessoa estava escutando”.Quando estavam ouvindo a Itaí, a gente ia lá, fazia a entrevista, dava os brindes. “Tu vai comandar as meninas para nós, tu vai ter uma sala ali, comandar os brindes, às quatro da tarde tu páras, às cinco tu entras no teu programa Não Diga não, … no estúdio, faz até as sete e só volta no outro dia às oito da manhã”. Digo:- “pô, pelo amor de Deus, para quem trabalhava dia e noite.” O Dilamar falou:- “Só que eu não tenho um ordenado muito bom para ti, né? Só para iniciar, mas depois eu te prometo que em seguida aumento”. Eu digo: “Tá, quanto?” Resposta:- “Mil reais”. Para quem ganhava 300, me deu uma tremedeira nas pernas que eu não sabia o que ia fazer, Já fiquei rico naquele dia, né? Milionário. Aí eu disse:- “amanhã eu estou aqui, amanhã eu estou aqui”. Fui ao diretor da Itaí, o Gabellini. Eu já ia pensando:- “agora o banana vai dar uma por cima”. O Edy bateu uma carta de demissão para mim, eu peguei, entreguei para o Gabellini, tinha até um pessoal de São Paulo lá. Ele pegou, leu a carta, rasgou e atirou no lixo. “Sai Sayão, não incomoda Sayão, vai embora”. Voltei com outra carta e ele, brabo:- “sai daqui Sayão, sai daqui Sayão, não incomoda Sayão, vai trabalhar, depois nós conversamos”. Eu bati a terceira e aí ele chegou e disse assim:- “esse aí é um banana, eu chamo ele de banana, taí, quer sair da rádio, mas ele não sabe que eu já estava aprontando para ele, ele não sabe o ordenado que eu já tinha para ele”. O Gabellini era muito esperto. Em resumo:- “quanto eu vou ganhar, Gabellini?”. Resposta dele:- “não sei, espera o fim do mês”. Chegou no fim do mês e eu ganhei 1300 reais, eu tive um aumento de mil reais, não quiseram me dar 50, tiveram que me dar mil. Na Itaí eu inventei outra coisa. Já não existiam mais programas de auditório no rádio, já tinha morrido. Eu imeginei reviver o programa de auditório no rádio e fazia aos domingos de manhã um programa de auditório, cada domingo de um bairro. De um cinema de bairro, Tristeza, lá o Gioconda, no Partenon, cada domingo virava um bairro de Porto Alegre. E era sucesso, os artistas estavam no fim de semana em Porto Alegre e eu levava no programa domingo de manhã. Botava o conjunto musical, programa de calouros e lotava os cinemas. Aí a prefeitura me contratou e eu fazia também aos domingos de tarde, domingo de manhã no cinema e domingo de tarde no auditório Araújo Vianna que ficava superlotado pois não era transmitido pela rádio. A TV Piratini viu isso aí e o Dedé, diretor do canal 5, TV Piratini me chamou:- “Sayão, queremos te trazer para a Farroupilha e para a TV, colocar um programa ao vivo de televisão “. Aí eu fiz um programa de televisão, fiquei dois anos e meio no ar. Esse programa só saiu do ar, era primeiro lugar absoluto em audiência por que tivemos o incêndio das Lojas Renner e o incêndio das Lojas Americanas. Com receio de novos acidentes os bombeiros começaram a ver quais eram os prédios com perigo de incêndio, e o auditório da Piratini era” pior que as bombas do Iraque “. As instalações elétricas eram de alta tensão e o restante de madeira. Quer dizer, aquilo ali para pegar fogo seria uma facilidade tremenda. O meu programa saiu do ar, mas assim mesmo eu fiquei três anos na Farroupilha. Aí voltei para a Itaí de novo. Comecei a fazer shows, fazia circos, fazia clubes. Outro detalhe, eu nunca fui cantor mas e cantava no palco com o conjunto. Pedia ao conjunto musical para fazer vocal por mim se eu cantasse. O Jerry Adriani dizia:” Sayão, tu é o único cantor que canta o Atirei o Pau no Gato em 20 tons ao mesmo tempo “. Mas eu fazia o conjunto cantar atrás de mim. Fazia os bailes, sempre lotados. Até gravei uma música e que ganhei um disco de ouro.Eu vou tentar dizer as datas. Em 1973, mais ou menos, foi o programa de televisão.Vamos relembrar um pouquinho antes.

Em 69, quando eu assinei carteira com a Itaí foi em 1969. Mas já estava antes na Itaí, mas em 69 assinei a carteira. Aí depois, vai, vai começar a me falhar a memória assim por que eu sou ruim para datas, Aí eu fiquei …

Esse convite para a Difusora, isso aí foi, não, aí eu tinha um ano de Itaí, mais ou menos. Isso aí vamos dizer que foi em 1970, mais ou menos, certo? Eu tinha um ano de Itaí em 70, que foi o convite para mim ir para a Difusora. Depois, bem mais tarde, vim até a trabalhar na Difusora.

Programas de auditório na Itaí foi … também em 1970, mais ou menos, por que na TV começou em 1973. Fiquei uns dois anos com o programa de auditório na Itaí para depois então eu ir para a Piratini. Outro detalhe também … eu até estou deixando uma reportagem que fala nesse show, eu fui convidado para fazer em Santa Cruz, aliás, em Cruz Alta, Cruz Alta, um show que o exército, lá tem um quartel muito grande do exército brasileiro. Eles me contrataram para fazer o meu programa de televisão, por que nós fazíamos muito isso, só que não era transmitido. Pegava aos domingos e levava o programa de televisão para o interior, eu, o conjunto Impacto e as meninas que dançavam comigo, que eram as Sayonetes. Então nós levávamos um ou dois cantores para cantar no auditório da cidade, em ginásios, só em ginásios por causa da quantidade de público que colocava. Então eu fui fazer em Cruz Alta, aonde depois eu vim a saber através de uma prima, que uma pessoa conservava, tenho até vontade de conversar com ela, conservava um relógio que tinha ganho de mim no Não Diga Não. Ela fez o Não Diga Não comigo e ganhou um relógio, uma menininha ali, de 13 ou 14 anos, e eu dei o relógio de presente. E essa menininha é nada mais e nada menos que a Xuxa, Ela era uma menininha. Ela veio fazer a prova do Não Diga Não e a prima dela disse “ah, ela cuidava aquele relógio com carinho”. A prima dela dizia, vamos dizer há uns dez anos ou 15 anos atrás: “ó, periga até hoje ela ainda ter o relógio, Sayão”. Eu tinha dois shows que superlotavam os circos em todo o Rio Grande do Sul. Eu e o Teixeirinha. Nós até brincávamos muito, dizendo um para o outro:- “hoje eu te ganhei, a semana …”, “não eu te ganhei, e tal”. Eram os dois shows que lotavam. O detalhe é que eu ia sozinho para o palco, eu ia sozinho, sozinho para o picadeiro do circo, Não levava ninguém comigo. A segunda parte do circo era feita por mim, eu fazia Não Diga Não, criava brincadeiras. Eu brincava com o público, levava uns dez minutos dividindo o os assistentes: “ó, coluna um aqui, dois ali”, dividindo com aplausos, botando todo mundo no ritmo.

Isso aí na época da Itaí, vamos dizer, 1969, 1970, ali comecei as apresentações nos circos. Quando eu comecei em circo tinha o Nélson Souza e a Tia Eva, os dois faziam o casamento na roça, era um sucesso tremendo. Aí o Nélson Souza me levou aos circos, o Nélson era um grande artista de circo, então principalmente no casamento na roça, que era feito nas épocas de São João, aí ele me levava ao circo só para fazer o Não Diga Não. Aí eu disse: “peraí, se eu vou com o Nélson, eu posso ir sozinho,” Aí é que eu fui. Só para ter uma idéia do que era Sayão Lobato no circo, em Arroio dos Ratos fiz sete vezes o circo na mesma praça, sete vezes em Arroio dos Ratos. Fazia segunda e dizia assim:- “quarta-feira eu estou aqui de novo”. Eu tinha dado um radiozinho no Não Diga Não e anunciava: “quarta-feira eu vou dar um conjunto rádio e toca-discos junto”. Na quarta-feira eu fazia: “agora sexta eu estou aqui de novo, quem me ganhar o Não Diga Não vai levar tal prêmio”. Eu aumentava os prêmios e cada vez ia lotando mais, mais, mais, mais, mais. Geralmente, quando realizava meu primeiro show na cidade, geralmente era duas sessões. O público era tão grande que fazia uma sessão, deixava o pessoal sair, botava o resto para dentro, e vamos fazer a segunda sessão.

Começou a entrar o din-din. O show no circo era um cachê muito bom. Até hoje, se alguém contratar alguém para circo, não precisa tratar o cachê. É assim, eu vou fazer um baile, um baile de debutantes, qualquer coisa, tem “eu quero tanto”, e no circo não se trata cachê, ali tem um cachê universal, é 50% do artista que vai e 50% do circo. Só põe alguém para controlar os ingressos.. Vamos dizer, deu duas mil inteiras e 500 meias, tantas cadeiras, vê quanto dá dinheiro as inteiras, quanto dá a meia cadeira, numa hipótese, deu dez mil reais. “Toma aqui, eu quero cinco”, agora se tem lá no caixa cinco eu não sei, porque eu peguei os ingressos e tem que ter, Então cinco mil seria meu.

A idéia do circo, isso aí já vem, vamos ver, desde o Tonico e Tinoco. Todos os grandes artistas brasileiros, Sílvio Santos, todos esses aí começaram, o Chacrinha, todos fazendo picadeiro de circo. O Sérgio Zambiasi fez circo depois de mim, porque o Zambiasi começou junto comigo em Porto Alegre. Quando eu estava na Difusora, o Zambiasi lia notícias no meu programa. Ali que ele começou os seus primeiros passos em Porto Alegre. Hoje é um extraordinário senador, um extraordinário radialista.. Mas começou em Porto Alegre no meu programa dando notícias.

P – As emissoras de FM ainda não concorriam naquela época ?

R – Não, não tinha FM. Não. Só tinham duas emissoras que faziam, aí entrava muito era a Record, é a Tupi, lá de Rio, São Paulo, que aqui só tinha é, Itaí e Metrópole, só as duas que faziam madrugada. Hoje não, hoje tu pega …

P – As emissoras encerravam as transmissões à meia-noite?

R – As outras emissoras fechavam à meia-noite e nós, da Itaí, seguimos a noite inteira.

Umas fechavam a meia-noite, vamos dizer, Gaúcha, fechava a meia-noite e abria às seis da manhã. A Itaí e a Metrópole não, essas seguiam 24 horas por dia. Depois de alguns anos ligava-se o rádio e estavam lá 70, 80 emissoras para escutar durante a madrugada.

De Caxias, de Gramado, então eu tenho 100 emissoras para mim escolher qual é a que eu quero escutar. Quer dizer, então era um outro mundo. Outra coisa, os circos. Por que que os circos davam? Então era aquela televisão numa casa, os vizinhos tudo se reuniam na hora da novela, terminava a novela, e até o circo era assim. Digo: “bah, mas não vai vir ninguém”. Tinha que esperar terminar a novela, Terminada a novela todo mundo ia para o circo. E depois, tinha outra coisa. Como é que ele ia conhecer aquele que falava no rádio dia e noite com ele? Era só através do circo, Hoje não, hoje tem televisão, hoje vai ali e loca uma fita, coloca, é outro mundo, É outro mundo, um mundo bem diferente.

A última rádio em que trabalhei foi na 1120, da RBS. Foi agora, em 90 e poucos. Ultimamente fazia alguma coisa na Liberdade FM, mas muito, muito pouquinho, só quando precisam uma coisa extra. A minha atividade atualmente em televisão, em microfone, é televisão, que eu faço às quintas-feiras ao meio-dia na TV Guaíba e faço às quintas-feiras a partir de cinco horas, cinco e meia da tarde, na TV Jockey. Atualmente eu tenho um haras, eu crio cavalos de corridas, e trago isso aí desde a infância. Aliás, eu fui para o rádio através do turfe …

Eu acho que eu já fiz o que eu tinha de fazer no rádio. Outra coisa que eu ia dizer. Eu acho que eu trabalhei o que tinha que trabalhar. Certo? Eu trabalho desde os meus dez anos. Eu trabalhei até 1997. Depois disso me dediquei ao meu haras, meu negócio é com os meus cavalos, aonde eu trabalho muito mais.. Eu tenho um haras, modéstia à parte, muito bem montado, em Santo Antônio da Patrulha. Estou lá com as minha éguas de cria, o meu reprodutor, os meus potros. É a minha alegria de vida. Eu não tenho mais filho para dar dinheiro, graças a Deus estão todos formados..

Eu tinha dez patrocínios meus depois que eu saí da Itaí que eu fui para a Farroupilha. A Farroupilha na época não tinha o ordenado que eu queria para me dar. Quando saí da Itaí eu estava ganhando uns 1600 reais … Eu fui em 1969… era 1600…. Não, não, perdão, em 1973 mais ou menos, eu saí da Itaí para ir para a Farroupilha. Aí, a Farroupilha me deu mil reais, não era reais naquela época, mas me deu mil, Cruzeiros, me deu mil cruzeiros por mês e todas as vezes que eu abria o microfone pra mim, eu tinha direito a trinta segundos de comerciais. Certo? Então eu podia botar três, quatro, comerciais. Eu podia falar trinta segundos de um anunciante meu. Esse dinheiro era meu extra, Daí então é que eu comecei a ganhar muito dinheiro em rádio, né? Porque eu tinha patrocínios, Soberana dos Móveis me acompanhou a vida inteira, a Telefunken. E … então eu tinha grandes patrocínios meus, onde eu fazia um ordenado bom.

A rádio Itaí teve uma, talvez no Brasil não haja comparação …75% de audiência audiência, magnífica, né? …um rádio de gravata, que passou para o rádio popular. Porque de primeiro no rádio, tu quer ver uma coisa, eu tinha um tio meu que foi radialista, foi um grande locutor esportivo, o nome era Sayão Lobato. Aí, isso lá na década de 40. Foi até o primeiro locutor que fez uma partida intermunicipal, narrou o jogo do Internacional contra o Pelotas, lá de Pelotas para Porto Alegre, e depois fez o jogo do Rio de Janeiro para Porto Alegre. Era na Difusora, na época era o grande nome do esporte. Ele também fez o repórter Esso. lá por quarenta e poucos, tá? Devia ser, porque eu perdi o meu pai, eu tinha quatro anos. Eu sou de 41, vamos ver em 45, mais ou menos, ele estava no rádio. Para ver como o rádio era difícil, eu pegava e ficava atrás do rádio. E o meu pai dizia assim: “agora”, para eu dar tchau para o meu tio. Então eu gritava atrás do rádio, hã, vamos dizer “tchau, tio”, “boa tarde, tio”, e ele: “boa tarde, senhores ouvintes”, Meu pai sabia na hora do desfecho, e aí quando ele vinha, dizia uma coisa:- “ouviu o tio te dar boa tarde?” Quero dizer, ele não tinha uma liberdade de chegar e dizer assim: “um abraço, ou boa tarde para o meu sobrinho lá em Camaquã”. Não tinha essa liberdade, o rádio não dava essa liberdade, que era o rádio de gravata. Primeiro de tudo, só trabalhavam em rádio locutores com vozeirões, né? Aqueles trovões, Almir Ribeiro e outros. Aí então, nós fomos para a Itaí e tiramos a gravata do rádio. Eu chamava a dona de casa de fofoqueira e tal. Uma senhora chegou e disse assim:- “Sayão, tu vai me chamar de fofoqueira, no ar?” Eu digo:- “não, não, não lhe chamo.” “Não, não, me chama, me chama que o meu marido disse vai lá, vai lá que ele ainda vai te chamar de fofoqueira”.Quer dizer, então nós botamos assim, é … todo mundo dentro do rádio, tirou… tirou aquela gravata do rádio. E uma vez o Lorenzo Gabellini, isso é histórico …o italiano é uma pessoa extraordinária, né? Vocês também já fizeram um trabalho com ele, né? O Gabellini é … o italiano assim que … pode ver, que ele pegou uma emissora sem expressão, pequena e fez dessa radio uma potência. Era uma rádio toca-discos. Uma mesinha de áudio e só, não tinha nada lá. A rádio era no Edifício Chaves Barcellos, bem no centro de Porto Alegre, 16º andar? Andradas, 1155, no Largo dos Medeiros, perto da Praça da Alfândega, a esquina da rua da Ladeira, o edifício do relógio. Ali que era a rádio Itaí. Chegou o resultado do Ibope e então estavam Milton Moreira, Edy Amorim. Tudo de gravata. O Gabellini de meia em meia hora,: “reunião, reunião”. Aí dizia assim:- “esse estúdio aqui nós vamos pintar a parede de preto, certo? O … Fulano, qual é a cor que é boa?” “Azul.” “Eu já disse que é de preto” O Gabellini era bem assim, ele fazia as reuniões, ele decidia. Todo mundo na reunião sentou na mesa, ele tinha uma mesa que parecia a do Presidente da República, ele foi de um por um tirando a gravata, quem estava de gravata, chegou na janela, 16º andar e atirou todas as gravatas lá na Rua da Praia. “Isso aqui não é rádio de gravata, isso é rádio de primeiro lugar, é rádio de povo, não tem mais gravata dentro da minha rádio”. Só para ter uma idéia das atitudes dele. Isso aí foi em 1969, em 1970, Foi quando a Itaí, nessa época a Itaí foi o auge. E aí eu tenho uma alegria, uma satisfação também de participar dessa equipe, É como o rádio vai ficar gravado, né? Nos anais da radiofonia do Rio Grande do Sul, esta equipe da Itaí,

P – A programação, como era?

R – Cinco horas da manhã começava com as músicas gauchescas, Nélson Souza. Depois tinha um outro, que agora me falhou a memória, depois entrava o Aconteceu, que era uma audiência incrível, era um programa policial radiofonizado, . Aí eu fazia as reportagens da polícia. E nós radiofonizávamos aquilo. Eu entrevistava depois a mãe e o filho. Fazia uma radionovela daquele caso. Tinha uma audiência incrível. O narrador, Milton Moreira. Depois, onze horas começava Palavras Amigas. O ouvinte mandava cartas para a rádio e a rádio te dava palavras amigas, os conselhos, também com o Milton Moreira. Depois tinha também o Oliveira Filho, o Oliveira Filho fazia ao meio-dia. Era Almoço Com Sucesso.. Depois, às três horas, entrava o Edy Amorim, Café da Tarde e ia até às cinco, quando entrava Não Diga Não. Seis até seis e meia entrava o turfe. Depois, o turfe com Vergara Marques. À noite, entrava o Alfeu, não, mas nessa época não era o Alfeu, nessa época era o Marne Barcellos com Clube dos Namorados.. E depois, Itaí Dona da Noite, que eu apresentei num período e em outra época, o Ary Siqueira Machado também. Essa era a equipe da Itaí. Era uma equipe muito fechadinha, né? Fechadíssima.

Naquele prédio do Relógio havia mais emissoras … no mesmo prédio …a Continental, né? Não é a Continental … com o Cascalho, né? Rádio jovem, Deus o livre. Era um sucesso tremendo, no quinto andar. E depois ali criou-se uma outra rádio, no 10º andar. Rádio Caiçara. A Caiçara foi uma criação do Gabellini. Depois o Otávio Gadret da Rede Pampa comprou.

P – O senhor trabalhava na Caiçara?

R – Nós éramos obrigados a trabalhar na duas. A Caiçara era uma rádio que estava começando e nós tinhamos que ir lá fazer um … é, um biquinho, para ajudar no seu crescimento.

P – Eu queria saber como é essa história do Não Diga Não, como é que surgiu essa idéia que … esse programa também?

R – O Não Diga Não é uma brincadeira, é o seguinte … Isso aí foi uma coqueluche no rádio tão grande, que terminou o Sílvio Santos fazendo, a Xuxa fazendo, o rádio brasileiro fazendo Não Diga Não, Norte, nordeste, todo mundo fazendo Não Diga Não.

P – De onde veio a idéia?

R – A idéia vem do, do, do, do … de uma viagem em que um compadre meu só me dizia não. A viagem era para Pelotas, queria parar em Camaquã para falar com uma tia minha e ele só me dizia não. “Não, Sayão, não dá. Não, Sayão”. Eu respondi:- “Mas vem cá, tu só diz não, Jarbas, pára!”. Aí eu digo, “Jarbas, tu já viu que é só esta palavra que a gente diz e repete, só diz essa não, não, não.” Ali nasceu, assim, tudo sem querer. Então eu criei o seguinte: tem que falar comigo dois minutos sem dizer não. É tão fácil, né? Tão fácil. É só não dizer não por dois minutos. Pode falar o que tu quiseres, tu só não pode dizer NÃO. E outra coisa, tem que responder o que eu perguntar, e não pode ficar pensando, tem que ser um diálogo, Um ping-pong.


P – Não precisa de sonoplastia?

P – Só o seguinte. Eu fazia assim, né? Agora vamos com mais uma prova do Não Diga Não. Como é o teu nome?

R – Carolina.

P – Carolina. Qual é o teu bairro, Carolina?

R – Santana.

P – Santana. Carolina, se você não disser não, você vai ganhar um rádio de presente, da Telefunken. Certo? Se a prova for de ouro, tu ganhas um televisor PAL-Color 26 polegadas. Era, os prêmios eram assim. Dois minutos sem dizer não, tá? Carolina, cuidado que o teu coraçãozinho está sa-sacudindo, porque começou. Larguei o cronômetro. Tudo bem, Carolina?

R – Tudo bem.

P – Não está nervosa?

R – Jamais.

P – Por que, Carolina?

R – Porque eu estou tranqüila.


P – Por que que está tranquila? Fala ligeiro, Carolina. Está com medo?

R – NÃO, …

P – NÃO?

R – Ã….

R – Não diga não, Carolina. Certo? Nessa brincadeira eu podia te dar um televisor se eu quisesse, por que tu não … Era quase impossível. Só uma senhora de Santa Catarina. Dela eu nunca consegui ganhar. Nunca ganhei dessa senhora. Essa aí me matava sempre.

O Não Diga Não empolgava muito, quase que eu perdia quando eu queria, De repente, então … então eu começava a desafiar: – “estou há tantas provas invicto, vale um televisor, amanhã, será que alguém me derruba?”. Então aquilo ficava, no outro dia todo mundo esperando o Não Diga Não para ver se o candidato aguentava os 2 minutos. Eu fazia uma prova ao vivo, do estúdio, e outra por telefone. Havia uma lista para um mês de pessoas inscritas no Não Diga Não.,

P – O Não Diga Não foi registrado?

R – Não. Não registrei. Sabe que eu tenho até uma satisfação. Se tu me dissesse: “ó, o Fulano está fazendo Não Diga Não”, coisa boa, coisa bonita. E até lá em Santa Catarina agora, um amigo meu disse: “bah, Sayão, vi a rádio tal…”. Fui lá e estava o cara em … na cidade … ah, não me lembro o nome, fazendo Não Diga Não, Que bonito! Criação minha, Vale mais do que o dinheiro, a minha satisfação saber que o meu filho está correndo o mundo, Uma alegria tremenda, certo?


P – O teu tio era radialista. Ele te influenciou para seguir na profissão?

R – Não. Eu só achou que eu me inspirava nele, gostava muito do, do que ele fazia, né? Que o meu brinquedo de criança … nós tinhamos, eu tenho até em casa o microfone RCA-Victor que foi do incêndio da Farroupilha, certo? O microfone RCA-Victor, enorme de um microfone e o meu irmão uma vez fez um tipo de um RCA-Victor, que era de caixa de sapato para mim. Eu pegava a Revista O Cruzeiro e lia as propagandas da Cruzeiro, Tinha a minha casa, tinha um sótão, eu ficava lá em cima gritando para os vizinhos. Lendo e aumentando as músicas no rádio. Então enquanto não dava música eu ficava lendo e falando, aí eu ligava o rádio alto. Brincando de rádio, fazendo uma rádio. Sempre foi a minha loucura. E eu fazia rádio porque eu amava, eu adorava, E … e tu sabes que, modéstia à parte, eu sempre fui muito bom fazendo no palco. Show em palco, assim … e eu tenho uma coisa. Graças a Deus, na minha vida também eu nunca tive problemas com os meus filhos, eu vivi no meio de drogas. Vivi no meio de drogas, incrível, que era o meio, meio de música.. Eu nunca, nunca provei uma droga e eu nunca bebi na minha vida. Se refrigerante deixasse alguém … ébrio, eu seria o maior ébrio do mundo, Eu só tomo refrigerante. E quando eu chegava no palco, todo mundo dizia: “não, mas esse aí está a mil”, “Esse aí tá …”, porque eu me transformava completamente, Às vezes chegava de viagem. Eu viajava terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo. Chegava fim de semana e tinha dois, três, quatro shows. Começava o circo nove horas da noite, fazia outro numa cidadezinha, 50 quilômetros adiante, às dez, à meia-noite já estava num baile, à uma e meia já estava no outro, às duas estava no outro, às quatro da manhã no outro. Então, no outro dia estava morto de cansado. Mas quando eu entrava no palco, parecia que aquilo mudava tudo. Eu ficava completamente espoleta, como se dissesse: “bah, esse aí devia ter tomado algo que deixou ele … a mil por hora”, E sempre, sempre assim, como se diz de cara limpa, limpa, limpa. Nunca fui de bebida, graças a Deus … e cara limpa, e também até não vou dizer que “não bebo não, beber é feio, não.” Até gostaria de tomar aquele aperitivo na hora do churrasco, uma cervejinha, mas não gosto … não aprecio o gosto, Então sempre foi de cara limpa e de cara limpa. Sabe como é que era o meu apelido no rádio? Magrinho Elétrico. Porque eu era bem elétrico, bem explosivo. E eu era assim, eu já não era criança, eu tinha 30 e poucos anos, mas eu era … como uma criança, Era bem … acho que por isso que me chamavam, o Gabellini me chamava de banana. Até hoje mesmo, eu estou com 61 anos, não me acho com 61 anos, me acho bem garotão, porque eu sou bem espoletão. Ninguém me chama de senhor,. A minha família mora num edifício que tem quinze andares, o Edifício Edelweiss. Ali em frente onde era a … a Cervejaria Brahma. Então para a minha esposa é todo mundo assim: “tia Nídia, tia Nídia”, a mim sabe como que é? “Besouro”.

P – O que é que a carreira de radialista mais te ensinou? Há uma declaração no começo sobre Sayão dever tudo ao rádio, não é? Mas o que foi tirado de lição?

R – Não vou dar incentivo para jovens pois, hoje, também é outro mundo. Mas eu digo com orgulho: eu fui órfão de pai e mãe numa outra época, em que era difícil. Eu fui jornaleiro, certo? Eu fui jornaleiro, gritava: “olha a vítima na Folha, Correio Folha”. Eu fui engraxate, eu dormia na Praça da Alfândega, eu fui guri de rua, certo? E … então eu digo com uma satisfação, com um orgulho tremendo: grau de instrução, terceiro ano primário, Porque tudo quem me ensinou foi a vida, e quem me ensinou mais foi o rádio. Porque eu cheguei na Itaí com muitos erros de português. Aí então o meu professor era o Edy. Aí o Edy:- “vem cá, vem cá, ô Sayão, hoje saiu um erro, assim,etc…”, e eu pedia para todo mundo, está aqui o Bira de prova, quando eu errar, vocês me corrijam. Eu sempre fui muito humilde nas coisas, então eu procurava. Eu tenho orgulho de dizer isso e … outra coisa que eu agradeço, mas agradeço a Deus assim, uma maravilha, de eu na época perigosa dos 13, 14 anos, que seria a época mais perigosa para ir para um … para um outro lado, eu fui cair … eu fui morar na Luís Afonso, numa casinha de fundo da Luís Afonso e aí eu fui para a Rua da República me criar, aonde eu me criei do lado do doutor Raúl Régis de Freitas Lima, aonde eu me criei ao lado do Bidu, que jogou no Internacional, do Ivo Wortmann, irmão do Bidu, Foi técnico do Internacional. Eu me criei naquele meio, meio positivo, De pessoas maravilhosas, aonde eu dizia: “eu tenho mais pai e mãe do que vocês”, que todos eram meus país e mães. E … tu queres ver uma coisa? A maior festa de aniversário de 15 anos que teve na Rua da República foi a minha. Porque todas as famílias se uniram para fazer a festa para mim. E eu … eu tenho muito orgulho das coisas que eu digo. Naquela época tinha as reuniões dançantes, certo? Não tinha bailezinho de clube. Reuniões dançantes. Então …É, as “reúna”. E as meninas para ir, era uma briga. E sabe quem é que levava todas as meninas que m,oravam naquela rua? Era eu. Eu que ia de casa em casa pegar as meninas. Não iam com os irmãos, iam comigo. Eu que levava todas … nunca namorei menina da República, elas que me continham, que vinha uma guria de fora tentar me arrumar namoradinhas, Porque eu levava as meninas como fossem minhas irmãs, as mães só largavam as meninas comigo. Fizemos a festa de quinze anos. Foi linda, então é um orgulho que eu tenho. Por que eu fui para o caminho do bem? Por que eu tive pessoas, irmãos meus, pais meus, mães minhas, que mostraram o caminho do bem.

P – Além do Não Diga Não, houve outras criações no rádio?

R – Eu ía um picadeiro de circo. O que é que eu tinha que fazer? Fazia um Troca-Troca. Eu vou até te dizer uma coisa, eu não sei se fui eu ou o Sílvio Santos, o Sílvio Santos ou eu. Eu sou sincero em dizer. Porque eu pegava e botava uma pessoa com os olhos vendados, e … mostrava um presente: “ó, para a platéia”. Esse presente, vamos dizer, um celular … mas só não falava um celular. Botava um pessoa numa cadeira e outra cadeira eu pegava. “O presente que estiver em cima da cadeira é seu.” Colocava, vamos dizer, um celular, a pessoa não estava vendo, estava com os olhos vendados. Depois pegava uma caneta. “Troca esse presente que tu já tens por esse novo presente?” O auditório não podia ajudar, opinava sim ou não. Então aquilo era uma brincadeira. É o Troca-Troca. E aquilo ali era um sucesso porque o desfecho, eu sempre procurava fazer com que a pessoa ficasse com um presente bom, porque eu tinha muitos presentes. O fechamento era assim: eu sempre procurava chamar uma menina. Aí a menina estava ali, eu pegava um palhaço do circo e o colocava na cadeira atrás dela, e fazia para a platéia: “psss”. Aí vamos dizer, ela ganhou um celular, eu ia lá e escondia o celular num cantinho e dizia: “essa aqui é dela, mas fica quieto”. Aí eu chegava ali, tirava o … pano dos olhos dela e começava a perguntar: “vem cá, tu não estava espiando mesmo?” “Não, não estava não.” “É, mas alguém acho que te ajudou.” “Não, não, não.”. “E o que é que tu vai fazer com o presente?” Então eu fazia. “Ah, não sei ..”. Digo: “ah, então eu não vou te dar. Tu escolheste um baita de um presente desses”. Eu terminava induzindo ela a me dizer que iria levá-lo para a cama, que ia dormir direitinho com ele, que ia cuidar ele, que era uma coisa maravilhosa. “Tu vai fazer tudo isso mesmo? Então pega o que é teu”. Aí a menina quando via que era um palhaço, Deus o livre: “Bah, não quero, não quero, tal tal.” Então criava o clima, além da brincadeira eu fazia um clima extra.